Há alguns anos irritava-me, talvez devido ao tempo muito quente, quando nessa situação de calor desconfortável as previsões meteorológicas anunciavam "continuação do Bom Tempo" mesmo quando a temperatuva estava próxima do insuportável.
Ultimamente tenho constatado uma maior prudência na comunicação dos meteorologistas, que passaram a dizer de forma mais neutra "continuação do Tempo Quente".
Finalmente hoje vi na App de meteorologia do iPhone a classificação de "Mau tempo"
com o comentário "Grandes perturbações devido a temperaturas extremamente altas".
Há aqui uma tomada de posição, que parece devida quer às "grandes perturbações" quer ao carácter "extremo" que são assim qualificadas de "más".
Fez-me lembrar a doutrina do meio-termo da Ética (que não cheguei a ler...) de Aristóteles, referida muitas vezes através da frase "no meio está a virtude". Esta rejeição dos extremos era por sua vez rejeitada pelos movimentos extremistas, que na minha juventude nos anos 70 eram em Portugal tendencialmente de esquerda. Agora, mesmo opiniões mais conservadoras em Portugal anseiam pelas "Reformas Estruturais" que causarão provavelmente "Grandes Perturbações".
Dei uma vista de olhos pela "Doutrina do meio-termo" e concluí que se trata duma doutrina muito popular, transversal a Civilizações e a Religiões. A referência a Aristóteles deve-se portanto à relevância do contributo dos textos deixados por este filósofo grego na civilização ocidental.
E no outro dia o meu neto com 11 anos perguntou-me o que era o "Ocidente".
No destaques do
jornal Expresso de 24/Jun/2022, na página 4 (e neste link) consta uma notícia do jornalista Vítor Matos informando que houve alterações
no treino dos instruendos do Regimento de Comandos. A Revista da edição de 01/Jul/2022
contém uma artigo mais desenvolvido do mesmo jornalista sobre os Comandos.
Em 2016 morreram
dois recrutas na prova final do curso de formação de Comandos, devido sobretudo
à desidratação usada como forma de pôr à prova a resistência e espírito de
sacrifício dos candidatos a futuros Comandos. O evento foi amplamente
noticiado, comentado e objecto de processos judiciais, também abundantemente
noticiados.
Na altura
lembrei-me do filme sobre o general Patton, interpretado por George C.Scott,
quando ele dizia a uma assembleia de soldados mais ou menos isto: “Quero que se
recordem que ninguém alguma vez ganhou uma guerra ao morrer pelo seu país.
Alguns ganharam fazendo com que outros morressem pelo país deles”.
Não faz sentido
provocar mortes de recrutas durante os treinos. Se os treinadores são incapazes
de distinguir um recruta em esforço de outro em perigo de vida é melhor mudar
de profissão ou irem eles próprios treinarem-se para saberem distinguir as
situações.
Felizmente neste
caso o exército foi capaz de reanalisar o treino e até descobrir que a NATO, de
que Portugal é membro fundador, concluiu há algum tempo que treinar para a sede não só
era inútil como até provocava lesões irreversíveis de menor ou maior gravidade,
eventualmente letais, como foi o caso em Portugal.
É consolador
constatar que algumas instituições conseguem corrigir a rota após a constatação
de erros graves embora fosse ainda melhor se os tivessem evitado.
Tenho a sensação
que a Justiça em Portugal tem pouca capacidade de corrigir os erros que se vão
detectando no seu funcionamento. Ou então não comunica as melhorias talvez por pensar
que isso minimiza os seus agentes.
Quando nos anos 70 do século passado se fez o desassoreamento da foz do rio Arade, formando um canal navegável de maior profundidade até à cidade de Portimão, acharam que o melhor destino da areia e lodo escavados do fundo seria o areal da Praia da Rocha que ficaria com uma dimensão como não havia memória nos frequentadores dessa praia.
Essa dimensão viabilizou a construção de muitos prédios de dez a vinte e tal andares, alguns deles substituindo vivendas de dois pisos com um pequeno jardim, criando este skyline que fotografei em Agosto/2008 e que deve ter crescido em altura desde então.
Com a dimensão que a praia tinha antes dos anos 70 os veraneantes de todos estes prédios não caberiam no espaço então existente.
Antes da colocação da areia, nas marés vivas de Setembro existiam sempre alguns dias em que o mar chegava à base das arribas, inundando o espaço ocupado pelos toldos acompanhado pelos gritinhos dos desprevenidos tentando salvar sapatos, toalhas e roupa da água invasora. Nessa altura não era preciso proteger os inexistentes telemóveis.
Depois das obras ficou um deserto de areia, a atravessar antes de chegar ao toldo ou ao local onde se fixa o chapéu de sol. Entretanto, sobre o deserto instalaram um passadiço sobre estacas paralelo à costa, ao longo de toda a praia, que facilita o acesso aos restaurantes concessionados. Foram entretanto surgindo diversos equipamentos temporários durante a época estival, designadamente uma ou duas discotecas e outros de carácter desportivo.
No dia 30/Abril/2022 fui surpreendido por uma instalação de numerosos campos para algum torneio de voleibol de praia:
E dois detalhes da mesma imagem:
Agora é tudo mais em grande do que na minha juventude. Fiz uma contagem baseado nas fotos e pareceu-me que foram montados mais de 50 campos de vólei.
As "Construções na Areia", a que dei o título deste post, eram uma iniciativa patrocinada pelo jornal Diário de Notícias em diversas praias de Portugal, em que jovens faziam uma pequena escultura de areia, numa área de aproximadamente um metro quadrado, havendo depois 3 prémios e várias menções honrosas.
Parece-me que agora montaram tantos campos de vólei como antes havia concorrentes para o concurso de Construções na Areia na Praia da Rocha. E é positivo que aproveitem o "deserto" para estas actividades desportivas, estendendo a utilização da área para períodos fora da época estival, sem perturbar o acesso à beira-mar.
Na mais recente reunião dos países do G7, que terão sido os países mais industrializados do mundo antes de fazerem um "outsourcing" maciço de muitas das suas indústruias para a China e outros países do Extremo Oriente, nessa reunião de há dois dias a Reuters sinaliza o seguinte objectivo: "G7 aims to raise $600 billion to counter China's Belt and Road initiative", iniciativa chinesa que começou em 2013, há nove anos.
Pareceu-me isto particularmente chocante, o G7 não se ter lembrado de investir noutros países com falta de capital para melhorar as suas infraestruturas mas, tendo reparado na iniciativa chinesa, irá reagir investindo também ele algum capital.
Claro que os chineses também têm as suas contradições, actualmente a maior das quais é sublinhar constantemente a importância do respeito pela soberania de cada nação e pelas respectivas fronteiras, conforme a Carta das Nações Unidas, sendo porém incapaz de condenar a invasão militar russa da Ucrânia, conforme foi justamente referido mais uma vez pela NATO na sua reunião em Madrid.
Ontem o presidente Marcelo, falando sobre as alterações climáticas a jovens, disse: "Têm de lutar por vocês, não confiem nos decisores, há exceções, há
alguns que serão sempre os vossos maiores aliados, mas não a maioria ..."
Podemos confiar em pessoas que dizem que não devemos confiar neles ou, numa forma mais fraca, na maioria deles?
Trata-se de uma das variantes deste paradoxo, figura de retórica também utilizada pelo Prof. Daniel Bessa que referi em "A dificuldade da imprensa económica".
A propósito desta Nota de Viagem sobre uma ciclista na paisagem que o fizeram (a ciclista e a paisagem) pensar em Portugal e na Dinamarca comentei o que aqui transcrevo:
«
A situação em Lisboa e presumo que noutras partes do país alterou-se radicalmente em relação às bicicletas desde que apareceram as que têm apoio de motor eléctrico. Lisboa, com as suas colinas e pavimento empedrado era impraticável. Agora vêem-se imensas bicicletas e nas subidas é facílimo detectar se têm apoio eléctrico, neste caso o condutor continua confortavelmente sentado no assento com uma cara de quem vai a pedalar tranquilamente numa planície.
Os portugueses têm os seus entusiasmos e em Lisboa têm criado ciclovias por muitos sítios, às vezes são chamadas ciclovazias porque nem sempre têm utilizadores.
Por outro lado, eu lembro-me de ter tirado a carta de bicicleta em cujo exame me perguntaram o significado de uns tantos sinais de trânsito e me viram talvez pedalar fazendo um oito numa área vedada ao trânsito. Agora qualquer pessoa pode andar de bicicleta sem qualquer burocracia e os ciclistas parecem ignorar regras que antes existiam como por exemplo respeitar os sinais de sentido proibido e não andar nos passeios com velocidades que colocam os peões em perigo.
Existe ainda mais uma contradição que consiste na criação de imensos sentidos únicos nas artérias da cidade para tornar o trânsito "mais fluido", leia-se "mais veloz", aumentando as distâncias que num carro exigem apenas um pé no acelerador enquanto nas bicicletas é sempre preciso pedalar, justificando esta violação dos sentidos proibidos.
Uma vez que os vereadores têm tanto entusiasmo em reduzir a velocidade a que circulam os carros, seria de considerar a supressão de muitos sentidos únicos que deixaram de fazer sentido.
E impor uma forte limitação à velocidade máxima das trotinetas uma vez que se trata de veículos que é impossível assegurar que não usem os passeios enquanto será simples limitar a velocidade a, por exemplo, 15 km/h para não pôr em perigo a vida dos peões que não são atropelados exclusivamente por automóveis.
»
Em 2017 fiz um post sobre as bicicletas GIRA em Lisboa mas desde esse ano, em que experimentei estas bicicletas, não as tenho usado porque só recentemente apareceram docas na minha rua.
Até agora eu tinha considerado a Guerra de Invasão da Ucrânia pela Rússia como uma violação inequívoca da Carta da Nações Unidas e como tal injustificável.
Contudo tinha curiosidade em conhecer que conjunto de possíveis razões teriam levado Putin a cometer um erro tão grande, pois nenhuma das alegadas “justificações” me parecia verosímil:
A quase totalidade das intervenções da NATO tiveram como base Resoluções da ONU e nenhuma teve a dimensão de morte e destruição da agressão russa à Ucrânia.
2) Desnazificação da Ucrânia O facto de existirem elementos de extrema-direita no Batalhão de Azov, usando símbolos das milícias SS do tempo do Hitler não equivale ao estado ucraniano ter uma natureza nazi. Caracterização particularmente ridícula quando o primeiro-ministro ucraniano tem ascendência judaica.
3) A Ucrânia e o povo ucraniano não existem nem nunca existiram Este discurso de Putin horas antes do início da invasão pode-se considerar como uma realidade alternativa criada pela vontade imensa de Putin de aniquilar a Ucrânia e os ucranianos como país soberano. Ironicamente, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) tão apreciada por Putin, reinvidicou na criação da Organização das Nações Unidas em 1945 ter 3 votos na Assembleia Geral, dada a grande autonomia de que gozavam dentro da URSS as repúblicas da Ucrânia e da Bielorússia que constam assim da lista de estados fundadores da ONU, como se pode constatar aqui.
Entretanto enviaram-me há uns dias um “pequeno” filme com a duração de 40 minutos intitulado “Russia Catastrophic Oil and Gas Problem” com o subtítulo “What Russia is Fighting For”.
Tentando resumir esse filme ele mostra as zonas onde existem as maiores jazidas de petróleo e de gás natural na imensidão territorial da Federação Russa, cuja exportação representa 40 a 50% do orçamento do estado russo e 30% do PIB. Destacam-se as jazidas no Mar Cáspio e suas margens, as jazidas no Volga e Montes Urais, e na Sibéria Ocidental conforme se vê nesta imagem da apresentação:
Metade das exportações russas de petróleo e ¾ das de gás natural fluem através de óleodutos e gasodutos para a Europa, representando 33% do orçamento do estado russo:
Este recurso sistemático a oleodutos e gasodutos deve-se à proximidade da Europa, grande importadora de combustíveis fósseis, e à fraca disponibilidade na Rússia de “portos de águas quentes”, significando aqui portos que não fiquem bloqueados por gelo em parte do ano, o que torna difícil a exportação para outros continentes.
Esta infraestrutura montada pela URSS nos anos 70, proporcionando grandes receitas na sequência dos choques petrolíferos de 1973 e 1979, como se vê no gráfico copiado daqui, terá criado uma vulnerabilidade à volatilidade do preço do petróleo. O colapso do preço do petróleo em 1986 poderá ter contribuído para o colapso da URSS.
Nas margens do Mar Cáspio, além da Rússia também as repúblicas do Azerbeijão, Casaquistão, Uzbequistão e Turquemenistão, que ficaram autónomas, tinham algumas jazidas de petróleo e de gás natural. Porém, todas elas precisavam de usar condutas controladas pela Rússia para exportar os combustíveis fósseis, mantendo assim a Rússia uma espécie de monopólio sobre estas produções.
O único país que se conseguiu libertar da tutela russa para exportar a sua produção fóssil foi o Azerbeijão, construindo duas condutas através da Geórgia, um deles terminando no porto turco de Ceyhan no Mediterrâneo e o outro (The Southern Gas Corridor) passando pela Turquia, Grécia, Albânia e mar Adriático até à Itália. Estas condutas devem ter influenciado a tentativa da Geórgia aderir à NATO e a posterior invasão da Rússia para “libertar” a Ossétia do Sul e a Abecásia.
O Turquemenistão gostaria de estender uma conduta sumarina sobre o fundo do mar Cáspio, que lhe permitiria usar as condutas que saem do Azerbeijão e assim aceder a consumidores europeus sem pagar as tarifas das condutas russas mas a Rússia tem a posição que a colocação de condutas submarinas no Cáspio precisam de aprovação de todos os países bordejando esse mar e eles opor-se-ão. O Turquemenistão tem vendido algum gás à China mas a preços menos interessantes.
Entretanto o preço do petróleo, que tem comportamento de autêntica montanha russa, valorizou bastante, com altos e baixos, desde que Putin chegou à presidência em Maio/2000, tendo usado boa parte do aumento das receitas nestes 22 anos para fortalecer as forças armadas russas e para intervenções militares na Tchetchénia, na Geórgia e sobretudo na Ucrânia.
Na figura seguinte constata-se que o escoamento dos combustíveis fósseis da antiga URSS, embora monopolizados pela federação russa, com a excepção do Azerbeijão, na maior parte do seu trajecto, passaram a necessitar de atravessar ou a Bielorrússia ou a Ucrânia para serem entregues aos clientes europeus.
Dada a grande dependência de Moscovo do poder político Bielorusso presume-se que a travessia da Bielorússia não tenha causado problemas, o mesmo não se passando com a Ucrânia que levou designadamente a uma interrupção do fornecimento de gás natural a países Europeus de 1/Jan a 4/Jan/2006, causando disrupções também na produção de electricidade, com alegações que a Ucrânia estaria a desviar algum do gás natural em trânsito para consumo interno. A lista de conflitos contratuais no trânsito de gás russo através da Ucrânia tem sido grande, como se constata neste artigo da Wikipédia “Russia-Ukraine gas disputes”.
Para evitar estes conflitos frequentes a Rússia construiu como se vê na figura:
- Yamal, um prolongamento de gasoduto russo chegando à Bielorússia através da Polónia, até à Alemanha nos finais dos anos 90; - O Nord Stream 1, gasoduto através do mar Báltico directamente da Rússia até à Alemanha com duas condutas paralelas, a 1ª em serviço em Nov/2011 a 2ª em Out/2012; - O Nord Stream2, gasoduto também com duas condutas correndo na maior parte paralelo ao Nord Stream 1, que não foi certificado devido à invasão da Ucrânia em 24/Fev/2022; - Dois gasodutos Rússia-Turquia.
Entretanto foram descobertas na Ucrânia 3 zonas com enormes jazidas de gás natural, maiores ainda do que as da Noruega, no Sul, no Nordeste e na parte mais ocidental. O escoamento deste gás seria facilitado pela existência de gasoduto ligando a Ucrânia à Europa, criando assim um concorrente directo com a Rússia. Em Set/2011 foi assinado contrato com ExxonMobil para explorar gás de xisto, em Jan/2013 assinaram contrato com Shell sobre o Yuziuska Field no Donbass e em Nov/2013 outro contrato com Chevron para a zona oeste.
Logo a seguir em 2014, houve uma revolução, a deposição do presidente pró-russo e a eleição doutro pró-ocidente. Aprovada uma lei banindo o russo como língua oficial a que se seguiu a anexação da Crimeia pela Rússia e a presença de tropas russas na zonas separatistas do Leste.
A potencial quebra do monopólio russo de venda de combustíveis fósseis à Europa poderá, segundo os realizadores deste filme que tenho vindo a descrever, ter sido considerada como uma ameaça existencial da Ucrânia à Rússia.
Em finais de 2014, as 3 companhias petrolíferas acima referidas, sentindo a falta de segurança devida à intervenção russa na Ucrânia, denunciaram os contratos que tinham assinado.
Em 24/Fev/2022 a Rússia iniciou uma invasão militar em grande escala na Ucrânia, provavelmente pensando numa intervenção rápida em Kiev com substituição dos governates ucranianos por outros pró-russos. Como esse plano A falhou, passaram ao plano B, de ocupação completa do Donbass e de todo o Sul pelo menos até Khersov, ocupando a maioria das zonas potencialmente ricas em combustíveis fósseis, tornando o Mar de Azov um lago russo e isolando a Ucrânia do acesso ao mar Negro se conseguirem chegar à Transnístria, confirme se vê na figura seguinte
Resumindo, o império russo tem crescido há centenas de anos, invadindo os vizinhos mais fracos, sentindo-se permanentemente ameaçado pelos vizinhos mais fortes que ainda não conseguiu invadir. Quando um vizinho se torna incómodo, após as pressões diplomáticas e alguns investimentos técnicos (gasodutos) que permitam reduzir a interferência desse vizinho incómodo, passa à intervenção militar com anexação de território (Crimeia) que serve posteriormente também de apoio para uma intervenção militar esmagadora como não se via na Europa desde o final da 2ª guerra mundial.
Continuo a achar esta guerra como uma violação inequívoca da Carta da Nações Unidas e como tal injustificável mas julgo ter percebido melhor o que levou Putin a cometer este erro terrível, reforçando a minha opinião que já nos devíamos ter libertado há muito mais tempo dos combustíveis fósseis que desde que começaram a ser explorados têm estado na origem de muito bem-estar mas também da maior parte das guerras da última centena de anos.
Mais duas notas de rodapé:
A Rússia dizia que a Ucrânia era praticamente um membro da NATO, tendo sido dotada dos armamentos típicos dessa aliança militar. Afinal, a artilharia ucraniana parece ter quase esgotado as munições para os canhões do pacto de Varsóvia cedidas pelos países desse pacto que entretanto acederam ao armamento NATO. De uma forma geral, o mesmo se tem passado com outro armamento, com a excepção de algum armamento anti-carro americano e de drones turcos.
Muita gente tem dito que as sanções têm afectado pouco a Rússia, incluindo os próprios russos. Porém agora têm exigido o levantamento das sanções para permitir o escoamento por mar dos cereais ucranianos.
Se fosse preciso, as últimas declarações de Putin sobre Narva, uma cidade da Estónia próxima da fronteira com a Rússia, que "é verdadeiramente russa", deixaram os vizinhos da Rússia mais preocupados. A Estónia tem tido uma História bastante animada com grandes potências vizinhas como a Alemanha, a Suécia e a Rússia combatendo com entusiasmo pelo seu território e têm nos seus residentes uma componente étnica russa semelhante à da Letónia.
Há uns anos compreendi a Letónia na sua aflição com a presença de russos no território letão constituindo 25% da população e os atritos com a UE sobre este problema. O problema da multiculturalidade agrava-se quando uma das etnias tem uma tradição imperial, como é o caso da russa. Vivem nos países bálticos mas "sentem-se russos", o que quer que isso signifique, e muitos deles não querem aprender a língua identitária do país onde vivem.
Os norte-americanos "resolvem" isso com um pequeno truque linguístico, existem os latinos descendentes de aztecas e espanhóis, os afro-americamos, os americanos nativos, etc. Os euro-americanos têm o prémio de se designarem por americanos, são os propriamente ditos. Por vezes por "caucasianos" para satisfazer o politicamente correcto e que tem pouco a ver com a identidade europeia, pergunto-me onde será a "Caucásia".
Lembrou-me um amigo espanhol que faz hoje 528 anos que Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, dividindo entre Portugal e Espanha as terras descobertas fora da Europa:
Fui buscar uma versão mais completa do mapa ao artigo da Wikipédia sobre este tratado assinado quando reinavam em Portugal D.João II e em Espanha os Reis Católicos, Fernando e Isabel.
Outros países europeus, designadamente a França, a Inglaterra e a Holanda, fizeram notar que os países ibéricos não tinham legitimidade para dividir o mundo desta maneira.
Mesmo assim o tratado evitou de uma forma geral disputas sangrentas entre os dois países dando contudo origem a longas discussões técnicas sobre a posição do meridiano que separava as duas metades do planeta, uma vez que quando o tratado foi assinado não havia forma acessível de determinar a longitude de um dado local.
Neste post de Outubro de 2021 mostrei umas fotos que tirara em Mar/2021 e outras no Verão do mesmo ano em que a protagonista principal era uma planta que o Paulo Araújo do "Dias com Árvores" identificou como sendo a Ferula communis, popularmente conhecida como Canafrecha.
Em Maio /2022 passei por um conjunto de inflorescências desta planta que me agradaram e que as documentam melhor do que no post acima referido.
Este era o aspecto geral de 4 hastes de Canafrecha sobre um fundo de rocha friável comum nesta zona do Algarve
Quando nos passeios à beira-Tejo vejo flamingos penso várias vezes que seria boa ideia voltar no dia seguinte com uma máquina fotográfica. Entretanto, como as máquinas fotográficas incluídas nos telefones móveis estão cada vez melhores, aproveito para fotografar com a do meu.
A foto que segue foi tirada no dia 8/Fev/2022 às 17:20, um fim de tarde de calmaria típico de muitos dias de inverno. O lodo da margem apresenta nas suas poças de água reflexos fortes do azul do céu, parece que estamos numa praia de areia azul…
Enquadrei apenas a parte central desta imagem, destacando assim as duas dezenas de flamingos numa composição quase Zen
Andei depois em direcção ao bando de flamingos que se vê no lado esquerdo da primeira imagem e fotografei-os em tons ainda mais azulados
Finalizando a sessão às 17:35 com mais flamingos ao pé da ponte
A melhoria sistemática das capacidades fotográficas dos telemóveis, juntamente com a disponibilidade permanente deste aparelho quando surge uma oportunidade inesperada duma boa foto, chegou ao ponto de afectar significativamente os fabricantes de máquinas fotográficas. Há muitos anos desapareceram ou deixaram de competir no mercado amador várias marcas europeias como a Rolleiflex, a Leica ou a Hasselblad (vi uma máquina destas actual com o preço de 36000€), sendo na altura substituídas por marcas japonesas. Agora são estas que estão a ser afectadas como por exemplo as empresas Yashica, Minolta e Olympus que cessaram a actividade. Enquanto a primeira destas 3 era uma alternativa económica, a Minolta era uma marca boa bem como a Olympus (vítima de contabilidade falsificada) que fazia a máquina SLR mais leve do mercado. Outras marcas boas como a Asahi Pentax desapareceram há mais tempo. No Statista (https://www.statista.com/statistics/799526/shipments-of-digital-singe-lens-reflex-cameras-worldwide/) constata-se que as máquinas DSLR (Digital Single-Lens Reflex Cameras) baixaram o número de unidades vendidas de 16,2 milhões em 2012 para 2,16 no ano de 2021.
Em 9/Fev/2022 às 17:30, com muitas nuvens cinzentas no céu e uns raiozinhos de sol em fase crepuscular obtive esta imagem com a Olympus E-450, uma DSLR com zoom óptico de 14 - 42mm e abertura 1:3.5-5.6, usando tripé para evitar tremores. O zoom óptico de 3x era insuficiente para registar maior detalhe.
Com a Canon Ixus e o seu zoom óptico de 12 vezes em vez dos 3 da Olympus E-450 foi possível obter imagens maiores dos flamingos. Contudo, a baixa luminosidade da objectiva acaba por impor sensibilidades elevadas, deixando a imagem com muito “grão”.
Quis comparar imagens antigas doutros posts deste blogue sobre o mesmo tema e a mais antiga foi neste post de Nov/2008 de que mostro a foto seguinte, tirada em 15/Nov/1008 13:00 com uma máquina Olympus Camedia C-3020 Zoom
Depois houve outro post de Out/2012 de que mostro a imagem seguinte tirada em 10/Out/2012 18:43 com um iPhone 4S numa tarde de nuvens cinzentas
e finalmente o seguinte também de Out/2012 com uma foto tirada em 11/Out/2012 17:30 em que fui mais feliz do que nas deste ano pois a combinação dos azuis, dos reflexos e dos ouros do sol de fim-de-tarde foram bem captados pela Olympus E-450
Além de gostar do filme de 8 minutos lembrei-me de ter lido um texto no liceu sobre esta actividade.
Fui à procura no livro escolar único de 1960 “A Nossa Pátria” de que mostro imagem da capa.
Era o livro de leitura de Português do que seria actualmente o 6º ano do Ensino obrigatório, nessa altura o 2º Ano do 1º ciclo do Liceu.
Nele constava um texto intitulado “UMA COPEJADA DE ATUM” da autoria de Manuel Teixeira Gomes, distinto algarvio nascido em 27 de Maio de 1860 na Vila Nova de Portimão,
Frequentou o ensino primário no Colégio de S.Luís Gonzaga em Portimão, provavelmente dirigido discretamente por Jesuítas.
Foi embaixador de Portugal em Inglaterra (ministro de Portugal em Londres a partir de 1911), cabendo-lhe a espinhosa tarefa de obter o reconhecimento pela Inglaterra imperial (onde se abrigara o rei exilado) da 3ª República a ser instaurada na Europa, antes de nós só a Suíça (que nem fora monarquia) e a França.
Em 6/Ago/1923 é eleito Presidente da República, tomando posse em 5/Out/1923. Perante a instabilidade insanável da vida política portuguesa resigna do seu mandato em 11/Dez/1925, embarcando em 17/Dez no paquete grego Zeus, não regressando mais a Portugal. Instalou-se em 1931 na Argélia, onde faleceu em 18/Out/1941. Estaria mesmo farto dos portugueses...
Tirei uma foto de duas páginas do livro escolar
mas achei melhor ir buscar o original que encontrei numa edição da Expo 98 na biblioteca do Agrupamento de Escolas de Aveiro que se pode obter para descarregar googlando o nome do ficheiro pdf “Agosto Azul; Uma Copejada de At - Manuel Teixeira Gomes.pdf”. Este ficheiro contém dois contos, o “Agosto Azul” e “Uma Copejada de Atum”.
Nesta edição da Expo98 constatei que o texto no livro escolar é uma adaptação ligeiramente abreviada do texto original que parece ser uma carta endereçada a destinatário desconhecido, escrita em Tunes, presumo que da Tunísia pois está datada de 24/Dez/1926.
Repeti a adaptação do texto do livro escolar, adicionando três pontos nas omissões. Quem quiser ler a obra completa poderá obtê-la como refiro acima.
O texto da edição escolar é o seguinte:
« ...
I – NO ARRAIAL DA ARMAÇÃO
A costa, a leste de Portimão, continua alcantilada e pitoresca em algumas léguas, mas de difícil acesso, com pequenas e raras praias, na boca de apertadas ravinas. Assim é a praia do Carvoeiro, que serve aos habitantes de Lagoa para banhos e passeio.
Aí tinham uns amigos meus o arraial de uma armação de atum, lançada mesmo em frente da praia, a três ou quatro quilómetros de distância, no mar alto, que me proporcionou, pela primeira vez, o espectáculo de uma copejada.
Era no fim de Maio, com vento mareiro e águas claras, indispensáveis para trazer à costa os cardumes de atum, que se assusta e foge à menor sombra que lobriga. Esperava- se farta passagem de peixe e eu recebera aviso para comparecer.
Logo à minha chegada, ao cair da tarde, fizeram sinal da armação de que um «bom cardume» de peixe se aproximava. A notícia causou profunda sensação, pois as vigias, sempre cautelosas, o mais que anunciam, de ordinário, é o aparecimento de alguns peixes, «poucos», e eu fui recebido, pelos meus amigos, festivamente, como se a minha presença tivesse chamado o atum.
O director técnico da sociedade (Joaquim Negrão...) seguia, por um grande óculo de alcance, o que se passava na armação, e ia comunicando as informações colhidas. O atum era muito, acudira bem ao «atalho», e entrara no copo, onde esperaria a madrugada seguinte para ser pescado. ... II – A ARMAÇÃO, COSTUMES DO ATUM
Depois do jantar o Negrão leccionou-me um pouco sobre o que era uma armação, e o que conhecia dos costumes do atum.
O covo ou copo da armação, que é um longo e perfeito rectângulo, está fixo no fundo do mar por pesadas fateixas, a que o prendem cabos de aço; e à superfície segura-se na amurada das grandes lanchas que o cercam, das quais a maior, chamada de «testa», ocupa uma das extremidades mais estreitas do rectângulo. Na extremidade oposta está a entrada - «as portas» - da armação, precedida de um jogo de redes, cujos movimentos permitem encaminhar o peixe para dentro do copo; esta operaçâo chama-se «atalhar». A começar das portas, e estendendo-se muito pelo mar fora, segue uma rede de metro e meio de altura, suspensa em bóias de cortiça, e esticada por pesos de chumbo, a que se chama «rabeira».
O atum, que anda em cardumes, procurando a proximidade da costa para desovar, se entra na faixa de água limitada pela rabeira e lhe vê a sombra, assustadiço, como é, em vez de tentar atravessá-Ia vai-a seguindo mansamente, à busca de saída, e mansamente cai nas portas da armação, que se fecham apenas o apanham dentro.
Antes de desovar, o atum chama-se «de direito», e as armações que o apanham têm a boca voltada para oeste, de onde ele vem na derrota do Estreito; essas mesmas armações, postas com a boca voltada para leste, servem para o atum «de revés», que regressa em poucas semanas, já desovado e magríssimo. Daí a grande diferença de valor entre os atuns de direito e de revés, sendo aqueles aproveitados especialmente em conservas e estes para a salga. ...
A copejada faz-se levantando uma rede móvel chamada «céu», que está no fundo do copo, e vai lentamente trazendo o peixe à superfície da água, onde ele é apanhado pela gente da companha debruçada sobre as barcas, e tendo preso no pulso direito, por uma corda, um pequeno arpão móvel. O peixe corre em círculo à roda das barcas, e, quando lhes passa ao alcance, o pescador mete-lhe o arpão e puxa-o para dentro da barca, onde ele entra e cai pelo seu próprio impulso, desprendendo-se do arpão automaticamente, apenas transpõe a borda da lancha. ...
III – A COPEJADA
Ainda a madrugada não dava sinais de romper, já nos encontrávamos no bote que nos devia levar à armação. Durante a noite o vento fizera-se mais de terra, mas ainda de má feição; a distância era grande e havia muito que bordejar para vencer a tempo de assistir ao começo da copejada. Fazia luar; a ondulação do mar, espaçada e surda, era como que abafada por aquela silenciosa luz branca.
O caminho fez-se mais depressa do que julgávamos, e quando entrámos na barca da testa, onde devíamos assistir à pesca, a lua não empalidecera ainda de todo e apenas a nascente dois fios de carmim, tenuíssimos, assinalavam, no céu polido e esverdinhado, o ponto por onde ia surgir o Sol. ... Rompeu, por fim, o Sol. apressado e quente, sem que tivéssemos prestado atenção ao seu glorioso aparecimento, e começou a concertada faina de levantar o céu da armação. ... Apenas a água principiou a ferver, com a revolução do peixe que se aproximava da superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e algazarra, de que tenho memória, e que ainda redobrou ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então a toirada.
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rastro de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem também à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo avonde para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça a cada arpoada. ... O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes. ... O Negrão, aproximando-se do meu grupo, para falar com o mestre da companha, bradou-me: - «Agora vou-lhe mostrar um quadro da mitologia. - «Vamos lá ver», repliquei, se bem que pouco disposto ao entusiasmo, já embotado pela prodigiosa cena a que assistia. Depois de falar com o mandador, o Negrão gritou para a ré da barca: - «Bem, se não há mais nenhum, que venha cá o Serafim ... » - «O Serafim, o Serafim!» pôs-se a clamar quase em coro a marujama, e um rapaz atarracado, embezerrado, e arruivado, como que lhe veio nos braços, pela amurada fora, até onde o Negrão estava. E ouvi este que lhe dizia: - «Não quero desculpas; é para já ... »
Então o rapaz, depois de olhar entre envergonhado e receoso para o meu grupo, principiou a despir aquela quantidade de trapalhadas em que os pescadores se envolvem, mesmo de Verão, quando vão para o mar. E apareceu admiravelmente bem proporcionado e forte, com um tronco de coiraça grega, abaulado no peito e estio no ventre, os quadris estreitos, mas as coxas volumosas e de formidável musculatura. Tirante os pulsos, o pescoço, e os pés, que andavam tostados do sol, todo ele era de uma brancura marmórea. De pé, na borda da lancha, erguendo os braços e juntando as mãos, tomou um leve balanço e jogou-se à água, sumindo-se entre os peixes.
Mas em poucos segundos ele surgia, quase na extremidade oposta do copo, montando um enorme atum, que, para se desembaraçar da estranha carga, entrou a correr vertiginosamente, saltanto sobre o outro peixe que lhe impedia a passagem, ou mergulhando subitamente, para reaparecer alguns metros mais longe, sempre com o tritão às costas, agarrado com a mão esquerda a uma das alhetas, agitando a outra mão no ar, e dando gritos de triunfo. O rapaz estava transfigurado; resplandecia de audácia e mocidade, entre as grandes salsadas de água rubra que lhe lambiam o corpo, e luzia, ao sol, como um vivo mármore cor-de-rosa.
Animados pelo exemplo, outros rapazes se atiravam à água, para cavalgar os peixes, mas nenhum tinha a segurança heróica, nem a graça helénica do Serafim.
A pesca fechou acima de mil e trezentas cabeças. Mais de «treze centos», como dizia a gente da companha. Fora, na verdade, uma copejada maravilhosa. ... »
Fez-me impressão as “condições de trabalho da época” notei que ninguém usava luvas, nem para puxar as redes nem para segurar os arpões que espetavam nos peixes. Notei a prudência dos pescadores sempre vestidos com calças e camisas que, além de os protegerem dos raios solares dada a pouca disponibilidade de cremes protectores nessa época, talvez os protegessem também das barbatanas dos Atuns que me parecem sempre perigosas.
Actualmente a única armação que existe no Algarve é explorada por japoneses ao largo da Fuzeta, apanham o atum de revés, magro depois de ter desovado no Mediterrâneo e alimentam-no na armação até ter peso ideal para ser enviado para o Japão.
Segundo li, além das armações no Sotavento, de que as âncoras enterradas na areia da praia do Barril são uma das memórias que restam, existiam outras armações também no Barlavento.
Há uns dias gostei de uns azulejos de porcelana azul e branca que vi num restaurante chinês no Parque das Nações. Depois de "endireitar" a foto, para que os rectângulos dos azulejos voltassem a ser rectângulos em vez de quadriláteros irregulares e remover do enquadramento objectos desnecessários, obtive esta imagem
Pensei que, além de estar num restaurante chinês, este padrão me parecia muito chinês. Fiz então uma busca no Google Images tendo obtido o resultado seguinte:
Quando o Google Images começou era frequente identificar rapidamente quadros famosos de pintores com obras expostas em museus, para outras imagens não era tão bom. Entretanto tem sido aperfeiçoado e além de identificar a imagem com "decorativa" e de apresentar variadas imagens em azul e branco encontrou um sítio chinês em que existe uma imagem que coincide (matching images) com parte da apresentada.
Indo ao sítio indicado encontrei este padrão com marcas de água
que reproduz a união dos dois rectângulos base do padrão que fotografei.
O Google Tradutor traduziu uma das sequências de ideogramas associadas a este padrão:
Tenho sido bastante crítico das loas sobre os avanços da alegada "Inteligência Artificial" que, como já ouvi dizer, se trata afinal de "Estupidez Artificial", sobretudo quando ando à procura de informação em sítios específicos, normalmente acaba por ser melhor perguntar ao Google.
Mas neste caso fiquei surpreendido com a capacidade de encontrar um padrão de azulejo tão específico!
No final de Outubro de 2021, altura em que terminava um contrato de fornecimento de gás da Argélia para a península ibérica através do gasoduto Magrebe-Europa, a Argélia, que entretanto instalara o gasoduto Medgaz ligando-a directamente a Espanha, não renovou contratos que usavam o gasoduto anteriormente referido, privando Marrocos das receitas de trânsito do gás pelo território marroquino e do acesso a gás natural para alimentar duas centrais eléctricas de ciclo combinado, construídas após a entrada em serviço do gasoduto referido.
A figura ao lado, dum artigo da Wikipédia, mostra gasodutos Trans-mediterrânicos e um futuro Trans-saariano. Este e o Galsi existem apenas em projecto enquanto o Greenstream liga uma fonte de gás natural da Líbia à Itália. Os 3 restantes partem de Hassi R'Mel na Argélia, com as seguintes caratcterísticas:
- Trans-Mediterrâneo iniciou em 1983, vai até Minerbio na Itália, via Sicília, com 2475km e uma capacidade de transporte anual de 30,2 bcm (bilions (10 à nona) cubic meters); - Magrebe-Europa iniciou em 01Nov1996, vai até Cordoba em Espanha via Marrocos e Estreito de Gibraltar, com 1620 km e capacidade de 12bcm; - Medgaz iniciou em 01Mar2011, vai até Alicante em Espanha, com 757km e capacidade de 10,5 bcm.
As capacidades de transporte destes gasodutos podem variar ao longo da sua vida pois, além do diâmetro e de outras características físicas invariantes que estabelecem um valor máximo, a capacidade de transporte é influenciada pela pressão obtida por vários compressores instalados ao longo do gasoduto. Normalmente começa-se com uma capacidade de transporte menor, que se aumenta instalando compressores mais potentes quando aumentam de forma significativa os contratos de fornecimento.
A introdução do gás natural em Portugal esteve ligada à construção do gasoduto Magrebe-Europa que segundo a Wikipédia foi projectado no início dos anos 90 e em 1992 foram assinados acordos entre ministros da Espanha e da Argélia para a construção do gasoduto, enquanto as empresas Sonatrach e Enagás assinavam contratos para aquela fornecer gás natural a esta. Em 1994 Portugal entrou também no projecto. O gasoduto ficou pronto em 01Nov1996, existindo um contrato com a duração de 25 anos terminando em 31Out2021, que regulava o funcionamento técnico-económico da operação e das compras e vendas de gás natural.
A degradação das relações entre a Argélia e Marrocos culminando na quebra de relações diplomáticas em 24Ago2021 levou a que este contrato não fosse renovado, passando desde então o gás argelino a ser enviado para Espanha exclusivamente através da ligação directa do MedGaz, que iniciou funcionamento em 2011 com 8bcm de capacidade anual, aumentada com compressão adicional para 10,5 bcm no ano de 2021.
A Espanha é actualmente o maior gasificador de GNL (Gás Natural Liquefeito) na Europa dispondo de 6 terminais para esse efeito em Barcelona, Sagunto, Cartagena, Huelva, Mugardos e Bilbao.
É natural que a Argélia privilegie o uso do MedGaz em detrimento do Magrebe-Europa para enviar gás para a península ibérica pois além do trajecto ser mais curto evita pagar a passagem por Marrocos. Contudo a não renovação do contrato que terminava em 31Out2021 parece associada à quebra de relações diplomáticas pois mesmo utilizando exclusivamente o MedGaz para a península ibérica, o Magrebe-Europa poderia ser usado para continuar a vender gás a Marrocos.
As duas únicas centrais elétricas de ciclo combinado de Marrocos que forneciam cerca de 10% do consumo anual e que ficaram assim indisponíveis deste 01Nov2021 foram: - Tahaddart , perto de Tânger com 384MW (localização: 35.5892, -5.9866,); - Ain Beni Mathar, no leste do país com 472MW (localização: 34°4′6″N, 2°6′17″W, ) , ligada por gasoduto de 12 km ao gasoduto Magrebe-Europa, a 40km da fronteira e cerca de 115km do mar Mediterrâneo;
Um artigo do jornal Expresso de 2022-04-22 refere que, na sequência apoio de Madrid ao plano marroquino de conceder um sistema de autonomia limitada ao Sara Ocidental, como alternativa ao referendo de autodeterminação defendido pela ONU, pela frente Polisário e por vários países, e da visita do PM espanhol Pedro Sanchez ao rei marroquino Mohammed VI, normalizaram-se as relações entre Espanha e Marrocos.
Dessa normalização resultou a possibilidade de Marrocos contratar fornecimento de GNL a ser gasificado em Espanha e posteriormente transportado pelo gasoduto Magrebe-Europa no sentido Espanha-Marrocos, invertendo o fluxo até agora observado neste gasoduto e reactivando assim as duas centrais marroquinas de ciclo combinado actualmente indisponíveis.
Marrocos irá lançar um concurso internacional para o fornecimento de GNL duarante 5 anos e irá construir duas instalações de gasificação de GNL em território marroquino, que provavelmente estarão prontas antes do fim dos contratos de fornecimento de 5 anos acima referidos..
A Argélia viu este desenvolvimento com desagrado, declarando que nenhuma parte do gás argelino enviado para Espanha deveria ser vendida a Marrocos.
A Argélia fornece actualmente mais gás a Itália do que a Espanha. É provável que tal seja uma herança histórica do bom relacionamento que o engenheiro italiano Enrico Mattei (1906-1962) estabeleceu com alguns países fornecedores de petróleo, e das suas acções para quebrar o cartel das sete irmãs que existia em meados do século XX quando criou a ENI, tendo sido vítima mortal de uma bomba colocada no avião particular em que se deslocava.
O filme “O Caso Mattei”, filme de Francesco Rossi realizado em 1972, é um híbrido de documentário e ficção sobre a vida de Enrico Mattei, que tive a oportunidade de ver no mesmo ano em Paris.
Fiz este post como complemento de um posterior em que o refiro, a propósito do gasoduto Magrebe-Europa.
A entrada em funcionamento da rede de gás natural em Portugal em Nov1996 baseou-se no fornecimento de gás da Argélia transportado pelos gasodutos representados na “Figura 4-4 Importação de gás natural a partir da Argélia” extraída do documento da ERSE “Caracterização do Sector do Gás Natural em Portugal.pdf - Edição de Jan/2007”
Neste sítio da Galp referem 31 de Janeiro de 1997 como a data em que se concretiza a entrada de gás natural na fronteira Este portuguesa (Campo Maior).
A Espanha tinha em Huelva já em 1988 um terminal de gasificação de GNL(Gás Natural Liquefeito) . A capacidade deste terminal foi aumentando ao longo do tempo e esta instalação foi usada depois de 1997 para gasificar pequenas quantidades de GNL compradas no mercado spot por empresas portuguesas.
Com a entrada em serviço do terminal de gasificação de Sines no final de 2003 foi estabelecido um contrato de longo prazo de fornecimento de GNL da Nigéria e contratos com fornecedores de outros de países para estabelecer diversificação. O Sistema Nacional de Gás Natural ficou com o aspecto da Figura 7-1 extraída da “Caracterização do Sector do Gás Natural em Portugal.pdf - Edição de Jan/2007”
Em Portugal passou-se da fase inicial em que o GN vinha exclusivamente pelo gasoduto Magrebe-Europa, entrando em Campo Maior, para uma percentagem dominante de GNL em 2020, como se constata no gráfico seguinte, com valores estatísticos da REN.
Depois de fazer este gráfico li noutra estatística que a percentagem de GNL em 2021 foi parecida à de 2020. As variações de consumo de GN ao longo do tempo correspondem a uma maior penetração desta fonte de energia mas também às grandes variações do regime hidrológico dos rios com centrais hidráulicas, em anos secos aumenta a energia eléctrica gerada por centrais de ciclo combinado, em anos húmidos diminui.
Desconheço as razões para a forte diminuição da importação via gasoduto a partir de 2017 pois dada a existência de uma rede de transporte de gás em Espanha e 6 terminais para esse efeito em Barcelona, Sagunto, Cartagena, Huelva, Mugardos e Bilbao, seria tecnicamente possível gasificar num desses 6 terminais transportando o gás depois para Portugal. Provavelmente sairá mais barato gasificar em Sines.
Constata-se assim que Portugal foi prudente em não ficar exclusivamente dependente durante muito tempo do gasoduto Magrebe-Europa, contribuindo contudo para a sua construção, como forma rápida e economicamente interessante de lançar o GN em Portugal.
Esta cica já tinha uns anitos quando foi transplantada em 2013 de um vaso grande e pesado mas já quase integralmente preenchido pelas raízes para um pequeno canteiro-prado nos Olivais-Sul.
Hoje apreciei o claro-escuro dos reflexos do Sol já alto e das sombras da maior parte da planta
Num post de Jun/2020 mostro além da situação nessa altura mais duas fotos da mesma cica, uma de 2015 e outra de 2013.
Como habitualmente, quando o secretário-geral da ONU faz qualquer coisa, têm aparecido numerosas críticas à demora e depois à realização desta visita de Guterres a Moscovo e a Kyiv, precedida de uma visita à Turquia.
Das diversas considerações que li e de que discordo alinhei uma pequena lista:
1) A ausência de cumprimentos e de sorrisos protocolares no início da reunião mostra a tensão entre Putin e Guterres, ainda bem que a relação entre os dois não suporta sequer cumprimentos protocolares.
2) Precisamente por terem tão pouco a dizer um ao outro a mesa da reunião acaba por mostrar a distância que, ainda bem, os separa.
3) Lembro-me de há anos, quando Guterres cumpriu dois mandatos como Alto Comissário nas Nacões Unidas para os Refugiados de 2005 a 2015, o ter visto vezes sem conta nos mais diversos sítios do planeta a informar-se, dialogar e intervir nas mais diversas situações. Dada a sua experiência nesse cargo é uma pessoa com muito maior capacidade para avaliar a utilidade de uma sua deslocação do que os comentadores de média portugueses. O mesmo se aplica à avaliação da ordem das visitas e interpretar a primeira visita como manifestação de amor a Moscovo parece-me completamente paroquial.
4) A intenção da visita foi explicada por Guterres, além do apelo à paz e ao cumprimento da Carta das Nações Unidas, limitava-se praticamente à evacuação de algumas pessoas de Mariupol e neste aspecto teve algum sucesso, algumas vidas foram salvas.
Faço notar aos mais distraídos que não existe um governo mundial nem um Chefe de Estado do planeta Terra, Guterres é o secretário-geral duma Organização de Nações Unidas e soberanas que foi, com os seus defeitos mas também com numerosas e muito úteis Agências Mundiais, o melhor que se conseguiu arranjar até agora.