2022-01-17

As Fragilidades da Justiça



Quando vi na TV os videos da invasão em Washington do Capitólio em 6/Jan/2021 impressionaram-me os trechos da intervenção do então presidente dos E.U.A. dirigindo-se à multidão, como se vê nesta foto publicada pelo New York Times,
 


que depois concretizou essa invasão de que resultaram 5 mortes, vários feridos e destruição de propriedade pública dos E.U.A..

Essa intervenção foi tomada em conta no processo de destituição apresentado pelo partido Democrata no Congresso, processo esse que segundo notícia da CBS News de 14Jan2021 foi aprovado na Câmara dos Representantes por 232 votos a  favor e 197 contra, em que apenas 10 membros do partido Republicano votaram a favor. No Senado o processo foi rejeitado por não ter sido suportado por uma maioria de 2/3 (67) mas apenas por 57 a favor e 43 contra se bem que alguns do Republicanos, embora convencidos que Trump era moralmente responsável pelo que acontecera, alegaram que não seria constitucional votar a favor.

Agora, passado um ano sobre o acontecimento, Trump ainda não foi acusado de nenhuma actividade ilegal relacionada com a invasão do Capitólio em 6/Jan/2021.

A revista New Yorker dedica um artigo a este assunto de que cito

«
Federal prosecutors in Washington have charged dozens of rioters who stormed the Capitol with felony counts of obstructing an official proceeding of Congress, which carry a potential sentence of up to twenty years. But legal experts said that convicting Trump of such a charge could be difficult. Ilya Somin, a libertarian legal scholar at George Mason University and a critic of the former President, told me that Trump’s lawyers would likely argue that it did not apply to him because he did not enter the Capitol on January 6th. “I think it is very clear that it applies to the people who entered the building,” Somin said. “If Trump did enter the building and lead the attack in person, it would be much easier to convict him of this and other offenses.”
»

Destaco a frase “If Trump did enter the building and lead the attack in person, it would be much easier to convict him of this and other offenses.” que me parece duplamente surpreendente:
- por um lado considera difícil acusar alguém de ser responsável por um evento sobre o qual  esse responsável discursou publicamente a favor, visto que não participou fisicamente na acção;
- por outro lado considera que se tivesse entrado no edifício liderando o ataque seria mais fácil condená-lo por estas e outras ofensas, o que quer dizer que não seria seguro que fosse condenado, seria apenas “mais fácil”.
 
Próximo do final o artigo refere:
«
In an era when the majority of Republicans falsely believe that the 2020 election was fraudulent and the majority of Democrats think that it was not, Garland will be demonized no matter what action he takes regarding Trump. The Attorney General, based on his speech, continues to believe that he can restore “normal order”—a Justice Department term for basing decisions on whether to charge defendants strictly on the facts of a case. He continues to believe that the majority of Americans still support the principle that all people should be treated fairly under the law, including Donald Trump. And that the majority will reject political violence and trust the judicial system. At the moment, that belief, for Garland and all Americans, is an enormous political gamble.
»

É claro que a acusação se deve basear na violação de leis existentes. Acho estranho que não existam na lei americana limites criminais à actuação de presidente que alega sem fundamento que lhe roubaram a eleição, incitando como se viu em numerosos videos, uma multidão a invadir o Capitólio.

Uma das situações que me leva a pensar que alguns países não estão preparados para a democracia é a incapacidade sistemática dos presidentes incumbentes em abandonar o cargo após uma eleição. Será que nem os  pais fundadores consideraram esta eventualidade?

Vi agora na BBC que foi feita a primeira acusação de conspiração sediciosa (seditious conspiracy) a 11 pessoas, entre elas um chefe de milícia de estrema-direita, relacionada com a invasão do Capitólio. A ausência deste tipo de acusação tem sido usado por Republicanos para menorizar a gravidade dos tumultos de  6/Jan/2021.

Constato que a este nivel nos E.U.A. (e provavelmente em todos os países) não existe completa independência do poder judicial em relação ao poder politico. Ou que os sistemas judiciais acabam por ter grande dificuldade em condenar abusos de poder, quando quem abusa é politicamente muito poderoso.


2022-01-16

Raio de Sol sobre Rosa Vermelha

 

A minha casa nos Olivais Sul foi bem projectada e construída. Numa fachada exposta ao sol as janelas estão retraídas, protegidas por uma pequena varanda, impedindo que os raios de sol entrem em casa durante o Verão e deixando-os entrar à vontade durante o Inverno.

É o que ultimamente tem acontecido, há uns dias em que um raio de sol encontrou uma jarra de cristal, desta vez foi uma rosa vermelha



2022-01-15

Jardim Zen (2)

 

Ofereceram-me há bastantes anos um tabuleiro de madeira com areia, 3 pedras e um ancinho, com "dentes" de madeira, para poder fazer uns jardins Zen sem precisar de ir à praia.

Depois de algumas experiências iniciais o tabuleiro tem estado resguardado devido às  visitas de netos muito jovens, atraídos pela areia e consequente passagem de partes da mesma para fora do tabuleiro.

De vez em quando o tabuleiro volta a estar visível e ontem (14/Jan/2022) fiz estes desenhos que me agradaram


Em Abril/2008, pouco depois de ter iniciado este blogue (em Mar/2008), mostrei outra configuração que fizera no mesmo tabuleiro com a ajuda de um compasso e fotografara em Out/2004, que volto a mostrar aqui

 

 Estes círculos sobre areia foram certamente inspirados pelos círculos que surgem em superfícies aquáticas como na imagem seguinte duma piscina tocada por andorinhas, em voos tendencialmente rasantes mas pontualmente tangentes, que mostrei  noutro post antigo e volto a mostrar aqui



 E claro que também influenciado por jardins Zen como este 

 


situado em Ryoan-ji-Garden em Kyoto no Japão, cuja foto fui buscar à Wikipédia

 

 

 

2022-01-05

Cubo com elástico


Comprei há muito tempo o cubo composto por 27 cubinhos que mostro na imagem ao lado.

Foi no Largo do Príncipe Real, numa feira talvez de artesanato, vi agora num registo que foi em 24/Nov/2007 e que custou apenas 3 euros.

Os cubinhos são atravessados por um único elástico cujas pontas estão nos 2 cubinhos verdes com um buraco ao meio como se vê na foto. Todos os cubinhos têm dois buracos ligados por um túnel dentro de cada cubinho. Existem dois tipos de cubinhos, aqueles em que o túnel liga duas faces opostas e os outros em que liga duas faces com uma aresta comum.

Pegando nesses dois cubinhos e afastando-os chega-se rapidamente à situação da foto seguinte.



 

O enorme trabalho que me deu refazer o Cubo de Rubik num “método de reinvenção” de algo já descoberto levou-me a sobrestimar o trabalho que daria desmanchar e refazer este puzzle.

Durante bastante tempo tive o cubo parcialmente desfeito, uma ou duas vezes consegui retornar ao estado inicial e quando passaram cá por casa vários netos optei por guardar num armário este cubo, o cubo de Rubik e o cubo de Naoki Yoshimoto de que talvez venha a falar noutra oportunidade.

Recentemente um neto, que sai ao avô, começou a investigar o conteudo de armários e gavetas existentes cá em casa, descobriu os 3 cubos acima referidos, optei por “salvar” o cubo de Rubik e em pouco tempo o neto conseguiu colocar o cubo com elástico restante numa posição parecida ou mesmo igual à da 2ª imagem deste post.

Achei que nesta situação seria aconselhável dedicar algum tempo a estudar o cubo para o poder refazer rapidamente após as espectáveis intervenções deste neto mais novo.

Comecei por tentativa não sistemática e tive sucesso em pouco tempo psicológico mas quando noutra altura desfiz o cubo demorei um tempo psicológico que me arreliou, constatando que seria melhor um método mais sistemático.

Este cubo acaba por ser pelo menos duas ordens de grandeza mais simples de refazer do que o cubo de Rubik porque, uma vez encontrada a posição final por tentativa e erro ao fim de um tempo psicológico não desesperante, basta registar a sequência de colocação dos cubinhos começando numa das duas pontas.

Para esse efeito achei que o PowerPoint me poderia ajudar, registando a sequência de cubinhos, o que fiz colocando cubinho a cubinho nas imagens sucessivas de uma apresentação.

Quando o número de cubinhos era elevado e os novos cubinhos teriam ficado ocultos transformei os cubinhos já colocados em objectos transparentes. O resultado pode-se ver na imagem seguinte, obtida produzindo a impressão de 6 “handouts” e produzindo a partir do ficheiro .pdf um ficheiro .png, tipo de ficheiro de imagem que costumo usar para esquemas.


 

No fim achei que uma perspectiva cavaleira, em que cada cubinho fosse representado por uma pequena esfera colocada no centro de cada cubinho, com uma linha a passar por todas as esferas num trajecto idêntico ao do elástico seria mais perceptível.

Para identificar mais facilmente a posição de cada esfera defini 3 planos paralelos à face frontal, cada um contendo 9 esferas. O plano mais à frente tem côr verde, o do meio cinzenta e o de trás cor vermelha, todos em tom pastel para possibilitar transparência.  As esferas têm a cor do plano onde estão.

Outro neto, que poderia ser um utilizador potencial deste guia, preferiu a representação mais “realista”.

Como última sugestão, para reconstituir o cubo inicial, pode-se começar por qualquer das extremidades mas é mais fácil se se iniciar pela extremidade do lado direito da segunda fotografia, como por sorte fiz ao desenhar o PowerPoint.

Depois disto ainda fui à procura na internet de (cubo com elástico) e, para minha surpresa, apareceram logo imagens de cubos deste tipo e uma entrada na Wikipédia intitulada “Snake Cube”, mostrando a importância dos nomes das coisas. 

Esta entrada não tinha versão em português mas recordo-me de ter visto um artigo da Wikipédia sobre isto em português do Brasil mas, lá está, falta-me o nome em português.

O artigo da wikipédia contém 2 links: 

1) Snake Cube at Mathematische Basteleien onde constatei que existe mais do que uma forma de dobrar a “cobra” em forma de cubo, a forma como eu dobrei a cobra coincide com a figura no artigo da Wikipédia mas é diferente da que mostra este artigo. Neste caso a diferença corresponde a uma solução devida a simetria em que cada forma é a imagem espelhada da outra.

Este artigo ainda mostra uma sequência de 12 cubinhos polícromos com uma articulação diferente da que temos vindo a falar, comprei uma igual numa loja “Imaginarium” em Lisboa mas nem o autor nem eu sabíamos o nome desta cobra. Contudo, no segundo link deste artigo da Wikipédia consta que se chamam “Kibble cube”.


2) Snake Cube at www.jaapsch.net
Neste artigo referem a existência de vários tipos de “cobras” que podem dar origem a cubos de 3x3x3. Propõe designar os cubinhos das extremidades por E (End), os com buracos em faces paralelas por S(Straight) e aqueles em que o elástico passa por duas faces adjacentes por C(Corner). Usando esta notação, a cobra do meu cubo que tem esta sequência na foto acima

ESCSCSCSCCCCSCSCCCSCCSCCCSE
ou a seguinte se formos da direita para a esquerda
ESCCCSCCSCCCSCSCCCCSCSCSCSE
 
é a que o artigo designa por “Cubra Blue” tendo apenas uma solução e o seu espelho, sendo referida como a mais comum nos cubos à venda.

Finalmente a Wikipédia refere ainda um artigo “Snake cube puzzle and protein folding”) de Nobuhiro Go,  professor emérito da Universidade de Kyoto na revista “Biophysics and Physicobiology”.

Comecei a ler o artigo, achando extraordinário que um puzzle pudesse constituir-se como modelo da forma como algumas proteínas se dobram.

Entretanto com a prática de montar e desmontar o meu cubo com elástico neste estudo sinto-me agora competente para com grande facilidade reconstituir o cubo, caso ele seja acidental ou intencionalmente afastado da sua forma mais compacta, pelo que termino aqui este post.


2022-01-02

O Expresso à sexta-feira, Raul Solnado e a tosse


Ao ler no Jornal Expresso, que saiu excepcionalmente na 5ª feira dia 30/Dez/2021, as frases:  “A partir da primeira edição do ano o Expresso passará a ser publicado à sexta-feira, respondendo à alteração dos hábitos de consumo dos leitores. Uma alteração que também foi solicitada pelos pontos de venda, permitindo maior tempo de exposição  em banca.” lembrei-me dum espectáculo de comédia do Raul Solnado em que dizia ter ido ao médico que lhe pedira repetidas vezes para tossir concluindo logo a seguir que o que ele tinha era tosse.

Eu achava a saída ao Sábado bem adaptada para a rotina de quem trabalha cinco dias por semana e faz uma pausa durante o fim-de-semana, mesmo agora que estou reformado prefiro a saída ao Sábado pois a saída á sexta-feira, devida aos períodos de confinamento, baralhava-me um bocado pensando ao Sábado que já estava no Domingo, tendo ficado satisfeito quando regressou a saída ao Sábado.

Uma boa razão para a mudança seria a adopção pelo jornal Expresso duma semana de 4 dias de trabalho e 3 dias de descanso iniciados na 6ª feira, dando um bom exemplo ao resto das empresas portuguesas, mas não me parece que isso possa ter a adesão dum maior que minúsculo conjunto de responsáveis pelo jornal.

Havendo actualmente tanto comércio aberto ao fim-de-semana não vejo também qual a vantagem de começar por ter o jornal nas bancas às sextas-feiras quando quem trabalha não tem tempo para o ler.

Vou assim enviar este texto ao jornal Expresso solicitando que regressem à saida ao Sábado, exortando os leitores que prefiram este dia a fazerem o mesmo.



2021-12-31

Raio de Sol sobre Jarra de Cristal

 

Com votos de Bom Ano Novo e Passagem de Ano Feliz, possível, já que é muito breve, como este Raio de Sol sobre a jarra


 

e detalhe da mesma foto








2021-12-23

Nossa Senhora do Silêncio e Menino Jesus


Nesta altura do ano em que tradicionalmente se fazem votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo costumo hesitar na escolha de uma imagem alusiva à época.

Continuo fascinado pela arte bizantina, com a sua ortodoxia de regras que, não devendo ser observadas em todas as obras de arte, fornecem um universo muito característico, limitado mas com algum espaço para a criação.

Neste caso seleccionei um ícone representando a Nossa Senhora com o Menino Jesus que vi em 2019 no Mosteiro da Santíssima Trindade – São Sérgio, na povoação de Serguiev Posad, uns 70km a Nordeste de Moscovo, mosteiro importante da igreja ortodoxa russa, com as atribulações típicas (destruição de obras de arte, de recheios de edificios e dos próprios edifícios, instalação de instituições laicas e proibição de celebrações religiosas, expulsão, degredo e execução de monges) das instituições religiosas após a revolução comunista e o regresso às tradições seculares após o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou talvez um pouco antes.

Existem três dificuldades típicas nestes ícones constituídos por mosaicos (Tesserae) causando a presença de reflexos que estragam as fotografias:
- os reflexos das luzes das janelas que ocorrem num subconjunto pequeno dos mosaicos devido a superfície do ícone não ser completamente plana e que aparecem e desaparecem conforme a posição do observador, pequenos movimentos da cabeça podem eliminar reflexos da parte em que se está a concentrar a atenção deste;
- os reflexos das velas que os ícones “atraem” para ficar à sua frente, como cumprimento de promessas feitas à figura dos ícones, numa forma tolerada de tráfico de favores com os intercessores junto da divindade; as luzes bruxeleantes das velas até poderão dar alguma animação ao ícone, aparecendo pontos brilhantes que surgem e se extinguem mas, nas fotografias, ficam pontos sobreexpostos para sempre;
- a presença de castiçais naturalmente opacos que tapam parcialmente o ícone.

Nas 3 imagens que seguem, tiradas com curtos intervalos de tempo entre elas,
     

  


aparece uma quarta dificuldade que são as pessoas que vão beijar o ícone ou que vão colocar velas, mas normalmente basta esperar um pouco para o ícone ficar desimpedido. Neste caso, como fotografei do lado esquerdo do ícone e depois do lado direito, sem ter uma vista frontal, julgo que foi para tirar as velas do enquadramento.

Seguidamente usei o programa Photoimpact 4.2 de 1997 para “rectificar” a imagem, anulando o efeito do plano do sensor não ser paralelo ao plano do ícone.

Então pensei que seria possível que nas correcções tivesse alterado a relação entre a altura e a largura da imagem e dada a dificuldade em encontrar uma imagem na internet deste ícone pensei que o halo da Virgem teria sido feito com cuidado para ser um círculo quase perfeito, pelo que coloquei a imagem num PowerPoint com um círculo transparente sobreposto, constatando que a altura estava inferior ao original:


Aumentei a altura da imagem até que o círculo do PowerPoint coincidisse com a auréola

 

constatando que tal correspondeu no PowerPoint a um aumento de 4%.

Depois, usando o PhotoImpact aumentei apenas a altura da imagem de 100% para 104% tendo obtido esta imagem final:

 

Mostro ainda dois detalhes dos mosaicos, estes sem correcções, que acabam por fazer perder um pouco da nitidez
 


Acabei por descobrir uma imagem na internet com este ícone
 

em que pude confirmar que a razão para eu fotografar de lado se deveu à presença do candelabro tapando parte do ícone. Confirmei também que a proporção encontrada usando o círculo coincidia com a existente nesta foto.

Existia ainda esta frase com caracteres cirílicos no sítio onde estava a foto:
“ЦАРИЦЕ ТИШИНЕ ПОСЕТИ НАС ЖУРНО И ТИШИНОМ СВОЈОМ СТИШАЈ СРЦЕ БУРНО”

de que o google tradutor, que identificou como idioma sérvio, deu em português:
“RAINHA DO SILÊNCIO, VISITE-NOS URGENTEMENTE E COM SEU SILÊNCIO SEU CORAÇÃO TEMPESTADE”

e em inglês:
“QUEEN OF SILENCE VISIT US URGENTLY AND WITH YOUR SILENCE SILENCE YOUR HEART STORMY”

Conjecturei que poderia ser:
“Rainha do Silêncio, faz que o teu silêncio acalme meu coração em tempestade” mas pelo menos parece-me pacífico que se trata da Rainha do Silêncio.

Adenda: ou melhor ainda, segundo sugestão de amigo: "Rainha do Silêncio, faz que o teu silêncio acalme meu coração tempestuoso"


Feliz Natal e Bom Ano Novo de 2022

 

O Natal que se aproxima será mais parecido com os de antes da pandemia mas ainda incompletamente normal.

Existem razões para acreditar que 2022 será melhor do que 2021.

Para os mais preguiçosos o número que representa o ano na era cristã é auspicioso pois apenas será preciso carregar em duas teclas, a do "2" e a do "0" para se compor o número, enquanto na maioria dos casos deste é preciso usar 4 teclas.

Atendendo ao excesso de ruído que nos rodeia, de que o parágrafo anterior será um modesto exemplo de irrelevância, escolhi como imagem alusiva à época um ícone da Nossa Senhora dita do Silêncio mais o Menino Jesus, que encontrei no Mosteiro da Trindade - São Sérgio em Sergiev Posad, a 70km a nordeste de Moscovo, onde hoje as temperaturas são Máxima: -9ºC,  Mínima: -22~ºC.

 


 



2021-12-19

As Irmãs Soong



Depois de ler o livro “Cisnes Selvagens” de Jung Chang, que referi e citei em 3 posts deste blogue tenho prestado atenção às obras que vão aparecendo da mesma autora. Saltei a biografia de Mao, pois as descrições das consequências  nefastas quer do “Grande Salto em Frente” quer da “Revolução Cultural” já me chegavam, mas li “A Imperatriz Viúva” sobre Cixi (1835-1908) que comentei num dos posts acima.

Só há pouco tempo soube da edição (em Nov/2019) em Portugal dum novo livro da Jung Chang e foi nessa altura que tomei conhecimento que Sun Yat-sen (1866-1925) o primeiro presidente provisório da República da China, fora casado de 1915 a 1925 com Soong Ching-ling (1893-1981), enquanto Chiang-Kai-shek (1887-1975) o Generalíssimo, chefe do Kuomintang, foi casado com Soong Mai-ling (1898-2003) desde 1927 até à morte, sendo assim cunhado da viúva de Sun Yat-sen.

Esta viúva, que viveu durante algum tempo na Rússia, foi-se aproximando da ideologia leninista e do Partido Comunista Chinês sendo frequentemente contactada por membros importantes do partido que contudo considerou que “Madame Sun Yat-sen” seria mais útil ao PCC não estando nele filiada. Foi admitida no PCC na iminência da sua morte e existe actualmente uma fundação com o seu nome.

Existia uma 3ª irmã, a primogénita, Soong Ei-ling (1889-1973), mulher de negócios casada com H.H.Kung que foi ministro das finanças de Chiang-Kai-shek durante 10 anos. O casal foi durante algum tempo dos mais ricos da China, devido em boa parte à corrupção que grassava no país e de que beneficiaram.

Além das 3 irmãs existiram mais 3 irmãos que são referidos como T.V.Soong, T.L.Soong e T.A.Soong, que são tratados como personagens secundárias.

O pai desta família Soong foi trabalhar para a América, converteu-se ao cristianismo numa igreja Metodista, estudou para missionário durante 7 anos, tendo depois regressado à China. Os missionários metodistas na China deram-lhe pouco trabalho, tendo montado uma editora e ganho muito dinheiro, o que lhe permitiu mandar estudar as 3 filhas para a América onde cada uma delas permaneceu vários anos.

O livro dá conta da competição entre os anos 20 e 50 do século XX, entre a América e a Rússia, para influenciar o futuro da China, competição que dividiu estas irmãs.

A autora não poupa críticas quer a Sun Yat-sen quer ao generalíssimo Chiang-Kai-shek, ambos mais interessados no poder do que em servir a população chinesa. Este último terá mesmo estado envolvido na assassínio de um adversário político em 1912, mas nesses tempos de grande desordem social, os políticos estavam quase permanentemente em risco de vida e a maioria dos altos dirigentes chineses eram responsáveis por alguns massacres.

Achei interessante a presença de numerosas notas no fim da obra, referindo bibliografia fundamentando muitas das afirmações feitas no livro, que é assim uma espécie intermédia entre um livro de História e um simples ensaio. Resumindo, gostei muito deste livro.

Nota: na internet descobri outra versão da mesma obra, de uma editora brasileira, em que gostei muito mais da capa, que mostro a seguir:
 



 

2021-12-08

Choupo no Outono e Yucca Aloifolia

 

Tenho um choupo em frente duma janela que no princípio de Dezembro fica com a maior parte das folhas em tons de amarelo, laranja e castanho sobre um fundo em vários tons de verde que apetece fotografar.

Este ano foi em 2/Dez/2021 às 15:43, quando boa parte da folhagem estava iluminada por raios de sol e simultaneamente agitada por vento forte, donde resultou alguma falta de nitidez nesta foto obtida na altura


Para dar o contexto socorro-me de uma foto que tirei o ano passado em 06/Dez/2020 às 16:03, numa ocasião em que os raios solares directos estavam ausentes que já mostrei noutro post

Em ambas as fotos aparece uma planta actualmente muito comum em Portugal mas que só hoje descobri o nome, com a ajuda do Google images e desta foto que tirei em 11/Setembro/2011

Trata-se duma Yucca aloifolia, também chamada "Planta punhal" pela forma das folhas, nativa da costa Sueste e Sul dos EUA, continuando pelas costas do mar das Caraíbas. Possivelmente o Yucca vem da península de Yucatan no México. 

Talvez eu tenha demorado tanto tempo a publicar esta foto de 2011 por ignorar o nome da planta. Em Portugal, Espanha e margens do Mediterrâneo é bastante comum. As flores em Portugal costumam aparecer em Setembro, marcando o fim do Verão. Por exemplo a última foto, que segue, foi tirada no Algarve em 2/Set/2021



2021-12-06

Novas Geopolíticas da Energia

A adopção de energias renováveis como a solar e a eólica que são distribuídas pelos diversos países de forma menos concentrada do que os combustíveis fósseis devem levar a uma situação de menor dependência num pequeno número de países como acontece actualmente.

Porém, quer a transição quer a situação de neutralidade carbónica trarão novos problemas, talvez menores do que os actuais, mas mesmo assim muito desafiantes.

Gostei deste artigo da revista Foreign Affairs intitulado "Green Upheaval: The New Geopolitics of Energy", prevendo que a transição será bastante complicada. Eu diria também que tempos felizes aguardam as empresas de Consultoria.

2021-12-04

Poluição nas cidades



Há muito tempo que o ar das cidades da Europa está poluído, caso contrário não existiria a referência aos “ares do campo” com a característica de serem saudáveis, como contraponto aos “ares da cidade”.

A origem dessa poluição deveu-se inicialmente à concentração de habitações, numa densidade e extensão muito maior do que nas povoações campestres. As lareiras nas habitações e os fogões de lenha ou de carvão seriam os principais responsáveis, com maior importância nos países mais frios.

Esta situação agravou-se na revolução industrial que começou na Inglaterra, associada a uma urbanização acelerada e à queima de carvão para o funcionamento das máquinas a vapor, essenciais nas grandes fábricas.

Já no século XX a situação continuou a piorar com a substituição da tracção animal pelos combóios com locomotivas a carvão e automóveis movidos por motores de combustão interna emisores de CO2, de CO, de partículas da combustão e ainda das partículas do desgaste dos pneus.

Tudo isto levou a situações cada vez mais graves com destaque para a cidade de Londres onde ocorriam nevoeiros frequentes (fog), potenciados pelo frio húmido mas também pelas partículas em suspensão no ar que aceleravam a condensação do vapor de água presente, dando origem ao que chamavam “SMOG” (de SMoke+fOG) em que nos casos de maior densidade  as pessoas não conseguiam ver os próprios pés, tornando praticamente impossíveis as deslocações.

Um smog mais catastrófico acabou por levar à aprovação parlamentar do “Clean Air Act” em 1956, como resposta ao Grande Smog de Londres de 1952, que iniciou a substituição obrigatória de combustíveis geradores de partículas por gás natural ou electricidade, instalação de filtros nas chaminés de instalações industriais, etc. Foi aprovada nova versão mais exigente desta legislação em 1968 e outra ainda em 1993.

A aprovação desta lei teve que ultrapassar grandes pressões contrárias pela indústria e mesmo por algumas pessoas mais conservadoras que, já habituadas aos nevoeiros frequentes em Londres, argumentavam que estes eram uma característica essencial da vida londrina.

Com a melhoria substancial da qualidade do ar em muitas cidades europeias, iniciaram-se nos anos 60 e 70 grandes limpezas de edifícios mais antigos com revestimento de pedra, nomeadamente igrejas e catedrais e outros grandes edifícios públicos. Lembro-me de nos anos 70 se começarem a publicar fotografias do antes e do depois da limpeza e foi um autêntico renascimento de edifícios negros que finalmente regressavam à sua cor inicial.

Andei à procura dessas comparações mas tive dificuldade em encontrá-las. Acabei por me lembrar de ter comprado alguns postais numa excursão de finalistas do Liceu Camões, do então 7º ano (alargada ao 6º ano) nas férias da Páscoa de 1966, em que fomos de Lisboa a Vigo, Santiago de Compostela, La Coruña, Oviedo, Covadonga, Grutas de Altamira (então ainda abertas ao público), Santander, Bilbao, San Sebastian, Burgos, Valle de los Caidos, Madrid, Ávila, Salamanca, Vilar Formoso e novamente Lisboa.

Desses postais mostro o da Catedral de Burgos, provavelmente melhorada com técnicas fotográficas (o Photoshop da época) que atenuassem a fuligem negra que certamente a cobria em 1966


que revisitei em 2012 (46 anos depois!)
 

Depois procurei imagens da Abadia de Westminster antes da limpeza e encontrei com alguma dificuldade esta:
 

continuando a procura em postais onde encontrei este que me pareceu realista
 

Fiquei um pouco surpreendido com o comércio de postais antigos na internet em que muitos  eram vendidos por preços à volta de 2 euros.

Gostei desta reprodução de um quadro do Canaletto na Wikipédia

 

datado de 1749 mostrando os cavaleiros da ordem de Bath numa procissão comemorativa da conclusão das duas novas torres, onde se constata que já nessa altura as partes mais antigas da catedral apresentavam alguma sujidade.

Na sequência do Clean Air Act esta abadia sofreu um processo de limpeza que durou de 1973 a 1993, referido neste artigo do Chicago Tribune.

O resultado depois de 20 anos de esforços e de USD 48 milhões pode ser visto neste artigo da Wikipédia:

 

Nas deambulações pela net encontrei este diário de viagem com esta imagem tão bonita do  tecto da “Lady Chapel” (capela dedicada a Nossa Senhora) mandada construir pelo rei Henrique VII nesta abadia.


 

2021-11-23

Pôr-do-sol na Praia da Rocha

 
Há muitos anos que reparei que o Sol se punha em sítios diferentes de acordo com a época do ano. Claro que uma pessoa aprende isto na escola mas quando não se está em férias o sítio atrás do qual o Sol se põe pode não estar visível no sítio onde se trabalha ou na parte da casa de onde isso é visível. Se o Sol desaparece cedo por trás de um prédio próximo pode-se considerar que o pôr-do-sol não é visível.

Na Praia da Rocha, quando a  Fortaleza no fim da Av. Tomás Cabreira ainda tinha uma esplanada com mesas e cadeiras costumava haver lá gente ao fim da tarde, que aproveitava a ocasião para ver o pôr-do-sol.

No passado dia 12/Nov o Sol pôs-se quando eu estava na avenida, entre a última casa do lado do mar e a Fortaleza e aproveitei para tirar esta foto (às 17:26)


 
de que mostro a seguir um detalhe


 
em que se constata que visto deste sítio, nesta altura do ano, o Sol se põe sobre o mar, à esquerda do fim da linha de costa, que neste caso corresponde à Ponta da Piedade, ao pé de Lagos.

Durante o Verão o Sol põe-se muito mais para a direita, em cima da linha de terra onde se situa a cidade de Lagos.

Pensei em fazer uma verificação breve do azimute do Sol na altura do pôr-do-sol em Portimão, e googlando (como calcular azimute do por-do-sol) fui dar a este sítio intitulado Sun Earth Tools.

Na caixa “Pesquisa” coloquei “Portimão”, estava Ano=2021, Meses=11, Dia alterei para 12, Time zone mudei de GMT-1 para GMT 0 (Greenwich Meridian Time), dado que estamos na hora de inverno em 12/Nov. Carregando no botão azul “executar” obtive que o sunset (pôr-do-sol) foi às 17:26:23 e que o azimute foi 248º.


 As coordenadas que este sítio da net considerou para Portimão estarão provavelmente no centro geométrico do concelho, como se vê na figura essas coordenadas estão fora da cidade


O “Untitled Placemark” foi o sítio onde tirei a foto do pôr-do-sol, com as coordenadas mostradas na figura seguinte:


 Medi a distância entre estes dois locais que deu 10km. O azimute do pôr-do-sol deve ser muito parecido em ambos.

Depois medi o azimute do local da foto para a Ponta da Piedade usando a ferramenta “Régua” (ruler), tendo obtido 250.80 graus


tendo a seguir marcado o azimute de 248º calculado no sítio Sun Earth Tools para o pôr-do-sol em Portimão


constatando que o cálculo do sítio “Sun Earth Tools” corresponde qualitativamente ao registado na foto, o Sol nesse dia, para um observador na Av. Tomás Cabreira, pôs-se no mar, um pouco à esquerda da Ponta da Piedade.





2021-11-21

Charlotte Perriand revisitada

 

Voltou a estar disponível no canal ARTE o vídeo biográfico "Charlotte Perriand, pionnière de l'art de vivre", desta vez de 14/Nov/2021 a 14/Jan/2022 que eu referira neste post em que mostrei a "B306 Chaise Longue":


Desta vez mostro uma variação japonesa, criada quando Charlotte Perriand esteve no Japão de 1940 a 1941, feita com bambu

uma imagem retirada do documentário que refiro acima.




2021-11-18

Redução da produção de CO2



A propósito da recente Conferêcia sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas (COP26) em Glasgow, no contexto do antagonismo crescente no Ocidente em relação à China, circulam opiniões  que as manifestações ambientais devem ser contra a China e não contra o Ocidente.

De vez em quando digo que o conceito de "país” tem que ser tratado com cautela pois nessa mesma categoria cabem realidades tão distintas como a China e Portugal.

Claro que um país maior terá maiores responsabilidades na quantidade de produto poluidor que terá que reduzir mas, para calcular essas reduções, deve-se ter em conta entre vários factores a poluição per capita além do volume global.

Consultando este sítio (https://www.worldometers.info/co2-emissions/co2-emissions-per-capita/) e ordenando a produção de CO2 per capita (no ano de 2016) constata-se que a China (7.4 ton CO2/capita) poluía metade dos EUA (15,5 ton CO2/capita) e a Índia ainda muito menos (1.9 ton CO2/capita).

Quando fui a Macau em 1990 passei no caminho para Cantão por esta povoação em que me surpreendeu o número de chaminés visível na foto:





O Ocidente exportou boa quantidade de fábricas para a China, reservando para si muitas vezes a parte de projecto que produz pouco CO2, comprando depois as coisas fabricadas lá longe, onde se precisa de gastar mais energia para produzir os produtos consumidos pelo Ocidente.

Diz ainda nesse sítio do Worldometers que a produção per capita do planeta se cifrava em 4.79 ton /per capita reforçando a minha ideia que, sendo conveniente que todos reduzam, se compreende que a Índia, dado o seu muito baixo índice, tenha mais dificuldade em reduzir.

Portugal produzia em 2016 4.86 ton/capita, estamos próximos mas um pouco acima da média planetária que tem que ser reduzida.



2021-11-03

Malika Favre (3)

 


Gosto muito do trabalho da ilustradora Malika Favre que tenho referido nalguns posts deste blogue.

Desta vez foi mais esta capa da revista The New Yorker, em que aparece um artigo curto sobre a imagem que pode fazer lembrar "O Pensador" de Rodin.  

Lembrou-me este Vestido Versace e o reflexo dos tirantes da ponte Vasco da  Gama sobre o Tejo. Lembrou-me também o quadro oficial de Michelle Obama por Amy Sherald.

Fiz uma breve edição retirando as letras da capa, reconstituindo a imagem original que mostro a seguir 






2021-10-31

Kaiseki, uma refeição japonesa sofisticada


Foi no princípio deste mês de Outubro que, numa newsletter da revista New Yorker, tomei conhecimento da palavra japonesa "Kaiseki", numa referência a um artigo da jornalista Helen Rosner, publicado numa edição dessa revista de Março de 2019,  sobre o restaurante Kaiseki em Los Angeles da americana de ascendência japonesa Niki Nakayama.

Gostei muito da fotografia desse artigo

Kaiseki, feito por Niki Nakayama, fotografado por Damon Casarez para a revista New Yorker

Nesse artigo conjecturam que a visita ao Japão em 1965 do chef Paul Bocuse e seu contacto com o kaiseki poderá tê-lo influenciado na criação da "Nouvelle Cuisine".

Além do artigo, onde falam da cozinha Kaiseki vi a entrada da Wikipédia em português  de onde transcrevo o texto inicial:

«

Kaiseki (懐石?) era, originalmente, uma refeição simples servida aos monges zen-budistas com chá, que mais tarde veio a se desenvolver na cerimônia do chá, recebendo, também, o nome de cha-kaiseki (茶懐石?). Mais atualmente, o prato se transformou em um sofisticando banquete consistindo de vários pratos servidos em diversas porções servidos em restaurantes, sendo chamado de kaiseki (会席, com o kanji diferente?) e também de kaiseki casual.
» 

e onde encontrei este pequeno-almoço tributário do conceito de cha-kaiseki

Por MichaelMaggs - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2870323


Já na entrada em inglês da Wikipédia encontrei outro exemplo de um kaiseki:

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jisaku_Kaiseki_Ryori_01.jpg

Nas imagens da Wikipédia, acessíveis  pelos URLs que as acompanham, constam os conteúdos dos diversos componentes de cada um dos kaiseki.