2026-05-27

Alguns ataques às energias renováveis

 

Em Portugal é  muito frequente que qualquer actividade com algum sucesso seja atacada por todos os lados, dificultando a implementação de qualquer novidade. Será uma característica portuguesa que tem evitado alguns grandes disparates mas dificultando a adopção de novas soluções.

Só há pouco tempo conseguimos electrificar o ramal da linha férrea Tunes-Lagos mas em 23/Mai/2026, segundo a SIC Notícias, ainda não se sabia quando iniciariam o serviço os combóios eléctricos!

Já para não falar do novo aeroporto de Lisboa cujas obras estão à espera de melhores dias e do Hospital de Todos-os-Santos cujas obras arrancaram há uns meses para serem interrompidas sine die.

A transição para energias renováveis, designadamente a instalação de muitos geradores eólicos e de muitos painéis fotovoltaicos, estes últimos quer concentrados em terrenos quer instalados nos telhados de indústrias, armazens, lojas, prédios de renda acessível e casas particulares estão a progredir a bom ritmo, sempre com alguma dificuldade na obtenção de licenças ambientais para os grandes projectos.

Deu-se até o caso um bocado ridículo deste evento descrito no AI Overview : " O Ministério Público avançou com uma ação em tribunal para travar a construção da nova central solar para autoconsumo na mina de Neves-Corvo, no concelho de Castro Verde. Em maio de 2026, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja rejeitou o pedido e autorizou a retoma das obras. ". Tratava-se duma obra devidamente licenciada por todas as autoridades competentes mas o Ministério Público não prescindiu de também ele marcar a sua autoridade sobre tudo e sobre todos, contribuindo com mais um gasto inútil na transição energética.

Houve uma altura em que achava estranhas as eternas queixas dos agricultores de que os nossos solos eram pobres e de má qualidade. Lentamente comecei a admitir que havia algumas zonas realmente pouco produtivas. Em princípio essas seriam boas para instalar painéis fotovoltaicos. Parece que mesmo nos terrenos da mina de Neves Corvo é difícil colocar fotovoltaicos.

Ultimamente tem-se falado muito no custo total das energias renováveis, que provocam a necessidade de construção das redes eléctricas. O país já teve que enfrentar estes desafios, quando não existia Rede Nacional de Transporte e foi constituída a vetusta CNE, Companhia Nacional de Electricidade inaugurada em 1952 pelo Engº Ferreira Dias seu presidente.

Lisboa era então abastecida pela Central Tejo, movida a carvão em Belém, que foi desactivada à medida que se desenvolveram as grandes centrais hidráulicas no Cávado, Zêzere, Douro Internacional e Douro Nacional. As grandes centrais hidráulicas não se situam habitualmente ao pé das cidades, pelo que é inevitável transportar essa energia hidráulica em redes de Muito Alta Tensão para os grandes centros de consumo. O país então arrostou com essa necessidade de investir no Transporte de Energia Eléctrica, à semelhança do que se fazia em toda a Europa e no resto do mundo que conseguia capital para investir nessa área, dotando-se de uma Rede Nacional de Transporte que tem sido muito útil no desenvolvimento económico de Portugal.

Depois de um período inteiramente hidráulico do sistema electroprodutor, o aumento do consumo e a grande variabilidade das afluência hidráulicas portuguesas, num período de 10 anos a energia hídrica disponível anualmente varia de 1 para 4, voltou-se à instalação de centrais térmicas, primeiro a fuel, depois a carvão e finalmente a gás natural. Como não temos gás natural disseminado pelo território também foi necessário construir uma rede de gasodutos que também teve apoio público na sua construção. 

Se a construção de centrais térmicas foi ao princípio relativamente simples, a central a fuel de Setúbal foi desactivada sem ser substituída por outra central térmica no mesmo local. A central térmica a carvão do Pego, uma localidade ao pé de Abrantes, além de precisar de linhas de escoamento de energia precisou também de transporte ferroviário de carvão do porto de Sines visto que não existiam minas de carvão nem no local nem mesmo no país.

O número de horas que funcionam as centrais hidráulicas costuma ser bastante inferior ao das centrais térmicas mas em contrapartida não existe custo de combustível. Há muito tempo que a potência hidráulica instalada é muito inferior à potência média usada durante o ano mas o que interessa é realmente o custo total da energia produzida, remunerando a manutenção e o capital investido e a sua adequação ao perfil de consumo e não apenas o número de horas anuais. 

Com o vento e com o Sol passa-se o mesmo, a energia é gratuita mas não está permanentemente disponível. Vivemos com um Sol intermitente há milhões de anos, a fonte indispensável de toda a vida na Terra. Há uma certa ironia no argumento usado há uns tempos contra a energia eólica de que além de intermitente tinha a característica de ser mais abundante durante a noite quando não havia falta de energia. Com o aumento da presença das fotovoltaicas existe assim uma complementaridade entre a eólica e a solar pois aquela ajuda o sistema na altura em que a solar se ausenta.

Em contrapartida os combustíveis fósseis têm outros custos escondidos como os militares para assegurar preços razoáveis, o controlo da poluição nos rios como, por exemplo, os rios dos EUA que nos anos 70 do século XX às vezes começavam a arder por terem muitos fluidos combustíveis de ignição fácil e a incerteza do preço dos combustíveis fósseis dada a frequência de guerras associadas à sua produção.

Conforme referi  neste post de Jan/2012 intitulado "Energia e Política" as novas tecnologias de produção de energia sempre necessitaram de apoio estatal na altura em que foram introduzidas, até mesmo nos EUA onde ainda subsidiam o petróleo.

Fiz também este post intitulado "Rendas Excessivas?" em Jun/2018.

Ultimamente os ataques  às energias renováveis centraram-se na falta de inércia dos sistemas electroprodutores com grande penetração de eólicas e fotovoltaicas com a consequente ausência dos grandes geradores térmicos que garantiam estabilidade na rede na presença de perturbações. Essa estabilidade pode ser garantida quer indirectamente com a inércia de compensadores síncronos que ajudam a controlar a tensão quer de forma sintética com dispositivos electrónicos em desenvolvimento actual perante a oportunidade criada pela rarefacção de grandes geradores térmicos nos sistemas electroprodutores.

Outra alternativa que tem sido defendida baseia-se nos SMR (Small Modular Reactors) que usariam a tecnologia das centrais nucleares clássicas mas prescindindo das economias de escala que levaram a geradores com 1600MW baixando o valor típico para cerca de 300MW, tornando-os economicamente viáveis através da produção em série simplificando a instalação no local de funcionamento, à semelhança do que acontece com as centrais de ciclo combinado.

Tenho uma convicção forte de que os geradores nucleares clássicos estão ligados à presença de um arsenal de bombas atómicas dos países onde eles existem. É por isso que não se acredita que o alegado interesse do Irão na energia nuclear para fins pacíficos não tenha como motivo escondido a construção de bombas atómicas, como comentei num blogue duma ministra iraniana que referi neste post "Nuclear outra vez" onde também refiro as ajudas dadas pelo governo inglês ao projecto em Hinkley Point.

Por curiosidade fui procurar  o meu comentário de 29/Mar/2013 num post da ministra iraniana Massoumeh Ebtekar e encontrei-o em "Iran, Iraq and an Anniversary Not to be Celebrated" de 25/Mar/2013" onde manifesto dúvidas sobre as reais intenções do Irão quando enriquece Urânio.

Segundo a AI do Google apenas existem SMRs em funcionamento na Rússia e na China, países tradicionalmente consideradios como pouco amigáveis às inovações dos empreendedores. Dizem algubs sítios que existirão SMRs disponíveis apenas em 2030. Queremos repetir o erro socratista do embasbacamento com a eólica, adoptando a toda a velocidade uma tecnologia nova e então cara? Ou se não é nova, recauchutada?

Por curiosidade revisitei o tema dos reactores nucleares do Japão:

«AI Overview               

Japan has 33 operable nuclear reactors across its power plants. Following strict post-Fukushima regulatory upgrades, however, only 14 of these reactors are actively generating power at any given time, while the remaining operable reactors are temporarily offline for safety checks or suspended.

The breakdown of the country's nuclear fleet includes the following statuses:

- Operable: 33 reactors.

- Active/Restarted: 14 reactors are currently authorized and producing electricity (such as units at Sendai, Genkai, Ohi, and Takahama).

- Suspended/Offline: 19 operable reactors are temporarily shut down pending maintenance, safety reviews, or legal approvals.

Under Construction: 2 new reactors are being built (Shimane Unit 3 and Ohma Unit 1).

Decommissioned: 24 reactors have been permanently shut down or are actively undergoing the decommissioning process following the 2011 disaster.To track which specific reactors and power stations have been approved for restart or are currently generating electricity, you can view the IAEA Japan Country Profile or explore the regional statistics on the World Nuclear Association Japan Profile.

»

Para informação mais detalhada ver "Nuclear Power in Japan" mas resumindo, das 54 centrais que tinham em funcionamento em11/Mar/2011. data do acidente em Fukushima" que tinham sido reduzidas a 14 em funcionamento em 2012 a AI refere as mesmas 14 actualmente licenciadas e em funcionamento enquanto este último sítio refere "15"!. 

O sistema eléctrico português tem-se adaptado às numerosas mudanças quer nas tecnologias de produção quer nos padrões de consumo bem como na organização económica do sector, com aseparação em Produção, Transporte, Distribuição e Comercialização, melhorando durante décadas a qualidade de serviço e mantendo preços razoáveis quando comparados com os parceiros da União Europeia.

As estruturas existentes têm-se revelado capazes de se alterar à medida que o tempo passa.

Existem outras áreas da vida económica de Portugal que precisam de mais atenção.
 

 

 

 

 

 

2026-05-25

Aja Monet - The color of rain

 

Vi no email diário do jornal Expresso esta imagem que me agradou

  

Trata-se da capa de um disco da cantora jamaico-cubana Aja Monet publicado recentemente com o título "The color of rain".

Procurei na net e fui dar a este sítio onde apresenta a cantora com este texto

« aja monet is a Surrealist Blues Poet in the business of goosebumps and heart-gut-telling truths. Her poems are harmolodic, vulnerable, and insurgent. She follows in the tradition of poets organizing in social movements for change. » 

em que tem disponível a pista "working class musicians" cuja letra enconntrei aqui incluindo um videoclip no YouTube no fim.

Gostei de ouvir.

 

 

2026-05-22

Novas Habitações (2)

 

Depois de ver os Blocos A e B referidos em post anterior fui ver o “Edifício do Vale Formoso de Cima nºs 292 e 294” que parece mais comprido do que os Blocos A e B juntos.

Tentei confirmar no Google Earth, em que é mais fácil fazer medições, mas os edifícios são recentes e ainda não estão na vista de satélite, que é partilhada com o Google Maps. 

Tentei então contar as fiadas de painéis fotovoltaicos nesta foto (clique para aumentar)

 

 mas não consegui, perdia-me a contar os de lá ao fundo.

Deformei então a imagem para ficar mais rectangular (com um PhotoImpact que ainda uso), para evidenciar a contagem coloquei-a num Power point e coloquei uns números sobre fundo amarelo conforme segue

  


em que as numerosas deformações da imagem para obter uma forma mais rectangular fizeram perder a respectiva nitidez.

Revisitando o post anterior constata-se que cada Bloco A ou B tem 12 fiadas de painéis, num total de 24 enquanto este tem 30. Por isso este “corredor” enorme no rès-do-chão, onde tive dificuldade em encontrar a porta de entrada, com arrecadações limitadas por placas metálicas com furinhos como nos Blocos A e B.

  


No piso debaixo deste estava uma garagem do prédio em que, dada a implantação do prédio numa encosta, uma das paredes longitudinais estava contra a terra, mas a outra “parede” estava em contacto com o ar deixando assim apenas os pilares de suporte e uma longa viga longitudinal, preenchendo os espaços com uma rede metálica que em princípio bastará para inibir actos de vandalismo de amadores, assegurando uma ventilação natural, bem como iluminação diurna.

 
existindo ainda um segundo nível inferior com portão para acesso de automóveis que não visitei.

Noutro dia revisitei os Blocos A e B, uma das razões para descobrir onde seria a porta de entrada principal de um dos Blocos e a sequência de fotos que tirei mostra a minha confusão.
   


Para começar fotografei parte de um vidro grande, provavalmente duplo, talvez 2,5x2,5m, e quase tudo o que ficou na foto são reflexões do vidro, por trás do qual estaria o átrio de entrada.

Eu estava fotografando vestindo um casaco escuro e com um chapéu de abas côr de palha. A minha imagem maior e pouco iluminada corresponde à reflexão no vidro na parede do rés-do-chão. A mais pequena mas mais luminosa corresponderá à reflexão de mim num espelho existentye no átrio de entrada e cujos raios são mais fortes do que os refectidos pelo vidro existentes no seu trajecto. No lado esquerdo da imagem existe uma reflexão duma Oficina Feu Vert que estava por trá de mim, a ser reflectida também no vidro. A reflexão do Bloco B, também por trás de mim é perturbada por luz que vem da divisão por trás do vidro.

Tirei então outra foto, muito próximo do vidro, que ficou assim

  

em que a minha silhueta, tão próxima do vidro ficando mal iluminada, permitiu que a luz emitida pelas paredes e chão se tornassem visíveis , bem como uma escada e uma janela de onde vem muita luzafectando as reflexões do Bloco B. Entretanto o meu chapéu estava suficientemente afastado para ser reflectido, escondendo parte do átrio.

A foto seguinte confirma as explicações anteriores.

 

Contudo ainda não tinha descoberto a porta principal de entrada no prédio. Desta vez não usei o “cherchez la femme” típico das novelas muito antigas mas fui à procura dos campainhas de entrada pois nunca mais descobria uma porta de proporções generosas, com um vidro grande para evitar choques entre quem vai a entrar e quem vem a sair e com uma pega estática para empurrar ou puxar. Este meu conceito de porta de entrada veio a revelar-se um preconceito sem aplicação neste prédio conforme constatei na foto seguinte

e nesta a seguir, onde se vê a totalidade da porta que não tem qualquer vidro nem um puxador mas apenas uma maçaneta metálica e uma fechadura banal. No meu preconceito isto seria uma porta para uma arrecadação com uso pouco frequente.

 Para quase finalizar mostro uma imagem frontal do Bloco B onde se vê o Vidro do átrio de entrada, a respectiva porta e as caixas de correio do  edifício.


 e depois de escrever tanto sobre estes edifícios acabei por descobrir que consigo ver o maior a partir duma janela da minha casa, usando uma Canon IXUS com distância focal de 54mm equivalente a 300mm para as máquinas clássicas de rolo de 35mm:

 


2026-05-12

Empenas

 
O remate metálico com furinhos duma empena de um dos edifícios do Vale Formoso de Cima do último post lembrou-me as numerosas empenas que costumava ver na cidade do Porto e que são muito menos frequentes quer em Lisboa quer mais para o Sul.


Fui à procura no Google maps da casa que foi dos pais de um primo, na rua do Bonjardim nº 1152 de que mostro foto ao lado, da vista de rua (street view).

Trata-se de uma casa antiga, como a maioria das casas da Rua do Bonjardim e o facto de muitas casas adjacentes terem alturas diferentes leva à presença de paredes exteriores “cegas” (sem janelas) com áreas consideráveis expostas ao sol e à chuva.

As fachadas antigas no Porto têm frequentemente revestimento de cerâmica esmaltada além da presença de muitas janelas.

As empenas acabam por ter uma área a impermeabilizar maior do que as fachadas, como provavelmente a empena que se vê no lado esquerdo da foto. Clique na imagem para a ver maior.

Os números das casas no Porto correspondem actualmente à distância em metros ao início da rua, com os ímpares dum lado e os pares do outro. Na “Alteração ao  Código Regulamentar do Município do Porto” constata-se no Capítulo II, Secção I, Artigo B-2/10º no nº3 que ”  — Nas zonas antigas, e caso exista atribuída numeração de edifícios a janelas, esta poderá manter-se”. O hábito de numerar não só as portas de acesso como também as janelas de cada fachada nas zonas antigas explica a razão porque os números das casas no Porto assumem valores tão elevados em relação ao habitual em Lisboa e no Sul do país, onde apenas as portas são numeradas.

Ver adenda no fim do post sobre este tema, os números maiores do que mil são devidos sobretudo a ruas com mais de 1 km de comprimento. 

Ainda na vista da rua do Bonjardim seleccionei esta casa à esquerda com umas águas-furtadas com um revestimento metálico avermelhado e à direita uma casa com um canelado azul nas águas furtadas da fachada e mais uma empena com revestimento provavelmente em chapa galvanizada.

Continuando na mesma rua vi esta ardósias colocadas como escamas de peixe nas águas furtadas do edifício 

e na imagem seguinte uma fachada com metal ondulado pintado de vermelho do lado direito e uma empena cinzenta do lado esquerdo


Fui ver na Wikipédia as precipitações anuais em várias cidades de Portugal obtendo os valores seguintes em mm: Viana do Castelo- 1470, Braga- 1450, Porto- 1186, Lisboa-774, Portimão-528 (apenas na versão inglesa), Faro-509. 

Os revestimentos modernos devem ter minorado estas aplicações, na sua maioria pouco estéticas. Em Lisboa e mais ao Sul é raro ver este tipo de acabamento devido à menor quantidade de precipitação e possivelmente a uma maior homogeneidade nas alturas dos prédios e casas em banda, o que minimiza a frequência de paredes cegas.
 

Adenda: a minha referência acima ao critério de numerar as portas das residências numa rua contando as portas e as janelas foi uma informação que recebi na minha infância na cidade do Porto. 

Existem zonas da cidade em que aproximadamente de 2 em 2 metros aparece uma porta ou uma janela ou uma montra, cada uma ocupando uns 2 metros da fachada, dando verosimilhança à teoria que no Porto os números são baseados na presença de portas e de janelas pois como se usam os números pares para um lado e os números ímpares para o outro, quando existe grande regularidade no espaçamento das fachadas, como é o caso na rua do Bonjardim, o critério realmente mais frequente (actualmente usado) de atribuir número de porta igual ao número de metros desde o início da rua dá resultado semelhante ao de contar o número de portas e janelas no rés do chão.

De qualquer forma, existem zonas antigas da cidade em que se usou o critério das portas e janelas como é referido no regulamento que referi neste post.