Em Portugal é muito frequente que qualquer actividade com algum sucesso seja atacada por todos os lados, dificultando a implementação de qualquer novidade. Será uma característica portuguesa que tem evitado alguns grandes disparates mas dificultando a adopção de novas soluções.
Só há pouco tempo conseguimos electrificar o ramal da linha férrea Tunes-Lagos mas em 23/Mai/2026, segundo a SIC Notícias, ainda não se sabia quando iniciariam o serviço os combóios eléctricos!
Já para não falar do novo aeroporto de Lisboa cujas obras estão à espera de melhores dias e do Hospital de Todos-os-Santos cujas obras arrancaram há uns meses para serem interrompidas sine die.
A transição para energias renováveis, designadamente a instalação de muitos geradores eólicos e de muitos painéis fotovoltaicos, estes últimos quer concentrados em terrenos quer instalados nos telhados de indústrias, armazens, lojas, prédios de renda acessível e casas particulares estão a progredir a bom ritmo, sempre com alguma dificuldade na obtenção de licenças ambientais para os grandes projectos.
Deu-se até o caso um bocado ridículo deste evento descrito no AI Overview : " O Ministério Público avançou com uma ação em tribunal para travar a construção da nova central solar para autoconsumo na mina de Neves-Corvo, no concelho de Castro Verde. Em maio de 2026, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja rejeitou o pedido e autorizou a retoma das obras. ". Tratava-se duma obra devidamente licenciada por todas as autoridades competentes mas o Ministério Público não prescindiu de também ele marcar a sua autoridade sobre tudo e sobre todos, contribuindo com mais um gasto inútil na transição energética.
Houve uma altura em que achava estranhas as eternas queixas dos agricultores de que os nossos solos eram pobres e de má qualidade. Lentamente comecei a admitir que havia algumas zonas realmente pouco produtivas. Em princípio essas seriam boas para instalar painéis fotovoltaicos. Parece que mesmo nos terrenos da mina de Neves Corvo é difícil colocar fotovoltaicos.
Ultimamente tem-se falado muito no custo total das energias renováveis, que provocam a necessidade de construção das redes eléctricas. O país já teve que enfrentar estes desafios, quando não existia Rede Nacional de Transporte e foi constituída a vetusta CNE, Companhia Nacional de Electricidade inaugurada em 1952 pelo Engº Ferreira Dias seu presidente.
Lisboa era então abastecida pela Central Tejo, movida a carvão em Belém, que foi desactivada à medida que se desenvolveram as grandes centrais hidráulicas no Cávado, Zêzere, Douro Internacional e Douro Nacional. As grandes centrais hidráulicas não se situam habitualmente ao pé das cidades, pelo que é inevitável transportar essa energia hidráulica em redes de Muito Alta Tensão para os grandes centros de consumo. O país então arrostou com essa necessidade de investir no Transporte de Energia Eléctrica, à semelhança do que se fazia em toda a Europa e no resto do mundo que conseguia capital para investir nessa área, dotando-se de uma Rede Nacional de Transporte que tem sido muito útil no desenvolvimento económico de Portugal.
Depois de um período inteiramente hidráulico do sistema electroprodutor, o aumento do consumo e a grande variabilidade das afluência hidráulicas portuguesas, num período de 10 anos a energia hídrica disponível anualmente varia de 1 para 4, voltou-se à instalação de centrais térmicas, primeiro a fuel, depois a carvão e finalmente a gás natural. Como não temos gás natural disseminado pelo território também foi necessário construir uma rede de gasodutos que também teve apoio público na sua construção.
Se a construção de centrais térmicas foi ao princípio relativamente simples, a central a fuel de Setúbal foi desactivada sem ser substituída por outra central térmica no mesmo local. A central térmica a carvão do Pego, uma localidade ao pé de Abrantes, além de precisar de linhas de escoamento de energia precisou também de transporte ferroviário de carvão do porto de Sines visto que não existiam minas de carvão nem no local nem mesmo no país.
O número de horas que funcionam as centrais hidráulicas costuma ser bastante inferior ao das centrais térmicas mas em contrapartida não existe custo de combustível. Há muito tempo que a potência hidráulica instalada é muito inferior à potência média usada durante o ano mas o que interessa é realmente o custo total da energia produzida, remunerando a manutenção e o capital investido e a sua adequação ao perfil de consumo e não apenas o número de horas anuais.
Com o vento e com o Sol passa-se o mesmo, a energia é gratuita mas não está permanentemente disponível. Vivemos com um Sol intermitente há milhões de anos, a fonte indispensável de toda a vida na Terra. Há uma certa ironia no argumento usado há uns tempos contra a energia eólica de que além de intermitente tinha a característica de ser mais abundante durante a noite quando não havia falta de energia. Com o aumento da presença das fotovoltaicas existe assim uma complementaridade entre a eólica e a solar pois aquela ajuda o sistema na altura em que a solar se ausenta.
Em contrapartida os combustíveis fósseis têm outros custos escondidos como os militares para assegurar preços razoáveis, o controlo da poluição nos rios como, por exemplo, os rios dos EUA que nos anos 70 do século XX às vezes começavam a arder por terem muitos fluidos combustíveis de ignição fácil e a incerteza do preço dos combustíveis fósseis dada a frequência de guerras associadas à sua produção.
Conforme referi neste post de Jan/2012 intitulado "Energia e Política" as novas tecnologias de produção de energia sempre necessitaram de apoio estatal na altura em que foram introduzidas, até mesmo nos EUA onde ainda subsidiam o petróleo.
Fiz também este post intitulado "Rendas Excessivas?" em Jun/2018.
Ultimamente os ataques às energias renováveis centraram-se na falta de inércia dos sistemas electroprodutores com grande penetração de eólicas e fotovoltaicas com a consequente ausência dos grandes geradores térmicos que garantiam estabilidade na rede na presença de perturbações. Essa estabilidade pode ser garantida quer indirectamente com a inércia de compensadores síncronos que ajudam a controlar a tensão quer de forma sintética com dispositivos electrónicos em desenvolvimento actual perante a oportunidade criada pela rarefacção de grandes geradores térmicos nos sistemas electroprodutores.
Outra alternativa que tem sido defendida baseia-se nos SMR (Small Modular Reactors) que usariam a tecnologia das centrais nucleares clássicas mas prescindindo das economias de escala que levaram a geradores com 1600MW baixando o valor típico para cerca de 300MW, tornando-os economicamente viáveis através da produção em série simplificando a instalação no local de funcionamento, à semelhança do que acontece com as centrais de ciclo combinado.
Tenho uma convicção forte de que os geradores nucleares clássicos estão ligados à presença de um arsenal de bombas atómicas dos países onde eles existem. É por isso que não se acredita que o alegado interesse do Irão na energia nuclear para fins pacíficos não tenha como motivo escondido a construção de bombas atómicas, como comentei num blogue duma ministra iraniana que referi neste post "Nuclear outra vez" onde também refiro as ajudas dadas pelo governo inglês ao projecto em Hinkley Point.
Por curiosidade fui procurar o meu comentário de 29/Mar/2013 num post da ministra iraniana Massoumeh Ebtekar e encontrei-o em "Iran, Iraq and an Anniversary Not to be Celebrated" de 25/Mar/2013" onde manifesto dúvidas sobre as reais intenções do Irão quando enriquece Urânio.
Segundo a AI do Google apenas existem SMRs em funcionamento na Rússia e na China, países tradicionalmente consideradios como pouco amigáveis às inovações dos empreendedores. Dizem algubs sítios que existirão SMRs disponíveis apenas em 2030. Queremos repetir o erro socratista do embasbacamento com a eólica, adoptando a toda a velocidade uma tecnologia nova e então cara? Ou se não é nova, recauchutada?
Por curiosidade revisitei o tema dos reactores nucleares do Japão:
«AI Overview
Japan has 33 operable nuclear reactors across its power plants. Following strict post-Fukushima regulatory upgrades, however, only 14 of these reactors are actively generating power at any given time, while the remaining operable reactors are temporarily offline for safety checks or suspended.
The breakdown of the country's nuclear fleet includes the following statuses:
- Operable: 33 reactors.
- Active/Restarted: 14 reactors are currently authorized and producing electricity (such as units at Sendai, Genkai, Ohi, and Takahama).
- Suspended/Offline: 19 operable reactors are temporarily shut down pending maintenance, safety reviews, or legal approvals.
Under Construction: 2 new reactors are being built (Shimane Unit 3 and Ohma Unit 1).
Decommissioned: 24 reactors have been permanently shut down or are actively undergoing the decommissioning process following the 2011 disaster.To track which specific reactors and power stations have been approved for restart or are currently generating electricity, you can view the IAEA Japan Country Profile or explore the regional statistics on the World Nuclear Association Japan Profile.
»
Para informação mais detalhada ver "Nuclear Power in Japan" mas resumindo, das 54 centrais que tinham em funcionamento em11/Mar/2011. data do acidente em Fukushima" que tinham sido reduzidas a 14 em funcionamento em 2012 a AI refere as mesmas 14 actualmente licenciadas e em funcionamento enquanto este último sítio refere "15"!.
O sistema eléctrico português tem-se adaptado às numerosas mudanças quer nas tecnologias de produção quer nos padrões de consumo bem como na organização económica do sector, com aseparação em Produção, Transporte, Distribuição e Comercialização, melhorando durante décadas a qualidade de serviço e mantendo preços razoáveis quando comparados com os parceiros da União Europeia.
As estruturas existentes têm-se revelado capazes de se alterar à medida que o tempo passa.
Existem outras áreas da vida económica de Portugal que precisam de mais atenção.
Sem comentários:
Enviar um comentário