2022-11-28

 Praia da Rocha em Abril de 2022



A avenida Tomás Cabreira na Praia da Rocha, a única que existia nos anos 60 do século passado, tem-se transformado ao longo deste longo tempo, as vivendas transformaram-se quase todas em prédios de apartamentos, os edifícios de vários andares sofreram metamorfoses quase tão grandes como as das borboletas ou foram mesmo arrasados e substituídos como as vivendas.

O mobiliário urbano da avenida foi sendo alterado com bastante frequência, por exemplo houve uma altura em que os candeeiros de iluminação pública que deveriam durar duas ou três décadas eram substituídos cada dois ou três anos, achei quase natural que, em Portugal, o município de Portimão tivesse em 2019 a maior dívida por habitante.
 


 


Ao frenesi da substituição do mobiliário urbano não resistiram as árvores, julgo que choupos,  que davam alguma sombra aos passeios da avenida Tomás Cabreira, que foram substituídas por uns rebentos “na mais tenra infância” de espinheitro-da-Virgínia (Gleditsia triacanthos), espécie tão bem sucedida noutras paragens de Portugal..

Como consequência, desde antes de 2012, mais de dez anos, que esta parte do passeio desta avenida deixou de ter sombras e as árvores que se vêem na imagem ao lado são já uma segunda tentativa de plantar árvores nesta secção porque as primeiras morreram todas.

É evidente que não foram estas árvores nem os constantes rearranjos do piso e do mobiliário urbano desta avenida que arrastaram a Câmara Municipal de Portimão para a posição destacada da dívida por habitante mais elevada de Portugal, mas será uma ponta do icebergue, da volatilidade excessiva das decisões camarárias e da falta de acompanhamento das consequências e de correcção das decisões tomadas.

Mas deixo este tema de dívidas excessivas de algumas autarquias para os governantes,  especialistas na matéria e Procuradoria Geral da República, concentrando-me no que se pode ainda aproveitar do que existe.

 

Começo por outra foto tirada no mesmo local com um enquadramento ligeiramente diferente


foto de que vou aproveitar várias partes, como por exemplo as ervas “possivelmente daninhas”, que se dão tão bem no canteiro da árvore mais próxima
 


mostrando que nalguns casos decoram os canteiros como se tivessem sido plantadas por um jardineiro. Constato que o canteiro da segunda árvore apenas tem ervas com poucas flores, apoiando a conjectura que as flores do primeiro canteiro são espontâneas.

Mostro depois em pormenor a árvore do primeiro canteiro, estas folhas amarelas são as primeiras do ano, com um verde tão claro que as deixa amarelas. Com o passar dos dias chegarão ao verde


 

Olhando para o outro lado da rua, a mais afastada por alguns metros do mar mas também um pouco protegida pela parede da casa que fará abrandar o vento, vêem-se outras árvores da mesma espécie, ligeiramente menos raquíticas do que as do lado de cá mas que, ao fim de mais de 10 anos, tão pouco conseguem dar uma sombra decente

 

Achei que neste enquadramento o amarelo das árvores dava um contraste agradável, vendo-se ao fundo a Vila Lido, construída em 1944 e sendo das pouquíssimas sobreviventes da transformação urbanística da Praia da Rocha desde o último quartel do século XX.

Para finalizar um enquadramento ligeiramente diferente deste que acabo de mostrar
 





2022-11-27

Valores de Mercado das Selecções Nacionais no Catar/2022

 

A obsessão com o futebol em Portugal e o valor da Selecção Portuguesa, 4ª posição mundial para um país com 10 milhões de habitantes, lembram o aforismo: "isto está tudo ligado".

Visto no STATISTA, aqui:

 



 


2022-11-15

As manifas para acabar com os fósseis


Conjecturo que os ministros que têm apoiado a luta, iniciada neste mês de Nov/2022 por estudantes da Escola António Arroio, o fazem porque muita gente, em que me incluo, considera que se tem que abandonar os combustíveis fósseis.


Pela minha parte considero também que

- os meios da luta, i.e. fechar escolas;

- o objectivo de curto prazo, de correr com o ministro Costa Silva, uma das pessoas mais competentes e sensatas na área da energia;

- e o de médio prazo (acabar com o uso dos combustíveis fósseis até 2030) 

são completamente disparatados, nocivos e censuráveis.

Como alternativa proponho que façam umas manifas para facilitar criação de equipas de activistas e que estudem na escola e fora dela para encontrarem acções eficazes para acabar com o uso dos combustíveis fósseis.


2022-11-14

Uma Geringonça Propriamente Dita

 
Nesta vida de reformado estou frequentemente em casa ao fim da tarde e depois da hora do chá costumo passar algum tempo a ver séries policiais. Há bastante tempo que perdi o interesse em desvendar os mistérios que vão sendo apresentados, vejo os episódios desenrolando-se e aguardo calmamente que me revelem o que “verdadeiramente” se passou. Os cenários são um dos grandes motivos do meu interesse, bem como as conversas e maneirismos das personagens, revelando alguns dos hábitos de cada sociedade onde a acção se desenrola.


Não sei se será uma reacção às dificuldades do cidadão comum em descortinar a verdade no meio das múltiplas perspectivas enviezadas que lhe dão nos meios de comunicação social, aqui não é necessário descobrir a verdade, basta seguir a narrativa.

Ultimamente tenho estado na fase Poirot, um detective que é a personagem mais famosa da escritora Agatha Christie (1890-1976) com uma bibliografia extensa (1921-1976), encarnado na série mais recente (da ITV, de 1989 a 2013, em 13 temporadas num total de 70 episódios) pelo actor inglês David Suchet .

Os episódios que tenho visto parecem ocorrer nos anos 30 do século XX em ambientes ingleses clássicos em casas senhoriais ou em ambientes mais contemporâneos dessa época com forte predomínio da Art Déco. São também admiráveis os automóveis clássicos dessa época e uns mais antigos que ainda sobreviviam na altura, bem como o guarda-roupa de toda aquela gente.

No episódio “Evil Under the Sun” (livro publicado em 1941) a acção passava-se num hotel duma ilha, muito próxima do que os ingleses chamam ali “mainland” (a Grã-Bretanha) que foi traduzida nas legendas por “o Continente”.

A minha curiosidade foi aguçada por uma Geringonça propriamente dita que aparece na  imagem que segue, um veículo de 4 rodas com uma plataforma sobre elevada, avançando pela água em direcção à ilha numa zona em que um banhista em pé tem água quase pela cintura

 



Obtive esta imagem a com a legenda “Burgh Island Hotel in 2005” googlando (pixie cove Agatha Christie) em que “pixie cove” era uma caverna referida no episódio e Agatha Christie a “argumentista” tendo aparecido logo a referência ao Burgh Island Hotel num artigo da Wikipédia onde constava esta imagem.

Seguindo o link “Burgh Island” nesse artigo obtive esta imagem

 

que ilustra o istmo de areia que liga a ilha a terra durante a maré baixa, e que agora aprendi que se chama “tômbolo”.

Lembrei-me logo da praia do Baleal, 3km ao norte de Peniche, mostrada nesta vista aérea
 

 
que encontrei no sítio Baleal Surfcamp.

Os ingleses chamam a esta geringomça “Sea tractor” e este que se estreou em 1969 é o terceiro com este formato a servir  a Burgh Island
 

A Burgh _Island fica na costa sul de Devon, entre Plymouth e Torquay,

 

esta última uma estância balnear onde nasceu Agatha Christie, que gostava muito desta ilha e do seu hotel.

Tinha a ideia que no Canal entre a Inglaterra e a França a amplitude das marés era enorme, chegando a atingir 18 metros em situações excepcionais pelo que me pareceu que a geringonça não conseguiria passar para a ilha quando a maré estivesse alta e por isso fui confirmar a amplitude das marés na Burgh Island
 

 constatando que para este dia (6/Nov/2022) a diferença entre a maré cheia (5,5m) e a maré vazia (1m) seria à volta de 4,5m. Achei pouco, receeei que fosse algum dia excepcional e vi a previsão para uma semana, também na Burgh Island

 
constatando que se mantém a amplitude entre marés de cerca de 4,5m. Considerando que o istmo está acima do nível da maré baixa, na maré alta a altura da água na zona do istmo será menor do que 4,5m.

Fui ver a previsão das marés no Baleal
 


constatando que a amplitude entre marés andará pelos 2,5m, no canal as marés são muito mais fortes do que na costa portuguesa mas não tão grandes como eu esperava.

Sabia contudo que no lado francês do canal, próximo da cidade de Saint-Malo, existe a central maremotriz de Rance, a maior central de marés do mundo quando entrou em serviço em 1966, com 24 turbinas bolbo reversíveis de 10MW cada, perfazendo 240Mw sendo a produção anual de 500GWh.

No folheto da central que facultavam informavam que quando estavam a turbinar para dentro da albufeira e a queda já era muito pequena passavam a bombar para dentro da albufeira pois a cota adicional na albufeira nesse período de 1 ou 2 metros dava origem depois quando a maré vazava, a uma queda da amplitude da maré mais esses 1 ou 2 metros de queda.

Fui ver as cotas em Saint-Malo
 


constatando que o valor da amplitude das marés andava nessa altura por volta dos 9m, o dobro da amplitude em Burgh Island, parecendo verosímil que em situações muito excepcionais atinga os 18m.

A distância em linha recta entre Burgh Island e St.Malo é 220km e julgo que a razão da diferença nas amplitudes das marés destes dois sítios se deve à costa francesa entre o Monte de Saint_Michel e La Hague, numa extensão de 110km que, constituindo uma barreira ao movimento da água do Oceano Atlântico quando entra no canal, provoca nessa zona uma sobreelevação da cota da maré alta.

Lembro-me bem da impressão que me fez a amplitude das marés no porto de Bristol, quando visitei esta cidade em1983, constatando agora que na semana de 6 a 12/Nov/2022 era de 9m. Neste caso a grande amplitude deve-se ao afunilamento do Canal de Bristol que liga o Oceano Atlântico ao estuário do rio Severn e, segundo li, a amplitude das marés dem Bristol é a segunda maior do mundo.

Nos meses de Julho, Agosto e Setembro de 2022 a amplitude média da maré na praia de Alvor no Algarve foi de 2 metros.


 

2022-11-10

Putinlândia

 

Gosto sempre de ouvir os comentários que o Bernardo Pires de Lima faz nos noticiários da RTP3, uma pessoa bem informada nos temas internacionais, sensata e ligeiramente pessimista, o que se compreende quando os noticiários se focam quase exclusivamente nas desgraças que vão ocorrendo.

Foi essa a razão principal para comprar este livro sobre Putin, que a editora Tinta da China caracteriza adequadamente como "O grande ensaio português sobre Vladimir Putin, nova edição, revista e actualizada de um livro que já em 2016 antecipava o actual rumo do regime de Putin, agora com novos capítulos sobre a invasão da Ucrânia. "

Como costumo ouvir os comentários do autor o livro foi para mim uma "revisão da matéria dada", sendo ainda mais interessante para quem não o ouve habitualmente.

Quanto ao objecto livresco achei os cantos redondos muito adequados para este formato de livro de bolso.

Gal Costa

 

Agora foi a vez de Gal Costa falecer, com 77 anos.

Gosto desta mistura de animação, música para a novela "A Luz de Tieta" com Caetano Veloso e Gal Costa

 

 

e sempre gostei muito desta música, intitulada "Índia"




2022-11-06

Gás de Sines para a Europa

 

Há uns tempos li um artigo de opinião de Aníbal Fernandes na edição de 2/Out/2022 do jornal Público sobre o eventual uso do Terminal de GNL de Sines para gasificar o gás liquefeito que lá chega e enviá-lo por gasoduto para a Europa, para o que seria necessário uma ligação da rede de gasodutos ibérica com a rede francesa.

No artigo defendia-se que no curto prazo essa ligação Espanha-França não resolveria a falta de GNL na Europa Central pois demoraria vários anos a ser construída e, quando terminada, seria provavelmente mais caro transportar o gás de Sines para o centro da Europa por gasoduto do que liquefeito.

No curto prazo poder-se-ia eventualmente redireccionar alguns barcos com GNL liquefeito destinados a Sines, após compensação devida, para ser gasificado e consumido no centro da Europa.

Toda a argumentação me pareceu sensata e tecnicamente competente.


2022-11-02

Pronunciamento de Lula da Silva na noite da vitória em 30/Out/2022

 
Neste post do 2 Dedos de Conversa  vi uma comparação entre o início do discurso de Bolsonaro há quatro anos e o discurso de Lula da Silva após a vitória na 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras em 30/Out/2022 que apreciei e li do princípio ao fim, actividade que não tenho conseguido realizar relativamente aos programas dos partidos nas eleições legislativas de Portugal, limitando-me a ver referências aos mesmos em programas da TV e em jornais.

Constatei agora que neste blogue me referi à detenção de Lula da Silva em Março/2016 para prestar declarações, manifestando então a minha opinião que se tratava dum abuso do poder judicial numa perseguição com motivos políticos ao anterior presidente, para o impedir de concorrer à presidência na sequência da eventual destituição de Dilma Roussef.

Foi o que aconteceu numa sequência de acções do juiz Sérgio Moro que conseguiu que o ex-presidente fosse condenado em primeira instância cuja sentença foi confirmada em segunda instância após o que se deu execução ao cumprimento da pena de prisão efectiva, mesmo antes do resultado da contestação da segunda instância no Supremo Tribunal, conforme a lei brasileira então em vigor. O juiz Sérgio Moro viu os seus serviços recompensados pelo presidente Bolsonaro que lhe deveu provavelmente a eleição e que o nomeou para ministro da Justiça, sendo contudo criticado nalguns jornais portugueses, talvez por revelar de forma excessivamente exuberante a natureza da sua perseguição ao ex-presidente.

Mais de um ano após a prisão de Lula da Silva o Supremo Tribunal anulou todos os julgamentos que condenaram o ex-presidente, com fundamento em irregularidades inadmissíveis, que pôde assim recuperar a liberdade. Não existe assim qualquer condenação legal de Lula da Silva pois as que existiram foram consideradas nulas por serem ilegais.

Existiram contudo numerosas condenações de ministros de Lula da Silva, acompanhadas de compreensível indignação dos eleitores que julgaram que um governo do Partido dos Trabalhadores chefiado pelo ex-operário Lula da Silva seria no mínimo menos corrupto do que era habitual nos governos do Brasil.

É também problemática a dependência do Partido dos Trabalhadores de uma figura única, de idade avançada bem como as dificuldades que Lula encontrará no poder legislativo que lhe é maioritariamente hostil.

Mas voltando ao discurso, depois de recorrer ao Google e ter ido dar a muitos sítios de jornais, cada um com os seus comentários pelo meio do texto, fui ao “Site oficial do ex-presidente Lula (2002-2010)” onde encontrei este Pronunciamento, idêntico ao texto que referi no início deste post:

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Pronunciamento

Leia a íntegra do pronunciamento do presidente eleito, sem improvisações
30/10/2022 • 21:14:57

Meus amigos e minhas amigas.

Chegamos ao final de uma das mais importantes eleições da nossa história. Uma eleição que colocou frente a frente dois projetos opostos de país, e que hoje tem um único e grande vencedor: o povo brasileiro.

Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha. É a vitória de um imenso movimento democrático que se formou, acima dos partidos políticos, dos interesses pessoais e das ideologias, para que a democracia saísse vencedora.

Neste 30 de outubro histórico, a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais – e não menos democracia.

Deseja mais – e não menos inclusão social e oportunidades para todos. Deseja mais – e não menos respeito e entendimento entre os brasileiros. Em suma, deseja mais – e não menos liberdade, igualdade e fraternidade em nosso país.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar a sua vida. Ele quer participar ativamente das decisões do governo.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que o direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que o seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso a saúde e educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos em segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro.

O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde e educação públicas de qualidade.

Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma.

O povo brasileiro quer ter de volta a esperança.

É assim que eu entendo a democracia. Não apenas como uma palavra bonita inscrita na Lei, mas como algo palpável, que sentimos na pele, e que podemos construir no dia-dia.

Foi essa democracia, no sentido mais amplo do termo, que o povo brasileiro escolheu hoje nas urnas. Foi com essa democracia – real, concreta – que nós assumimos o compromisso ao longo de toda a nossa campanha.

E é essa democracia que nós vamos buscar construir a cada dia do nosso governo. Com crescimento econômico repartido entre toda a população, porque é assim que a economia deve funcionar – como instrumento para melhorar a vida de todos, e não para perpetuar desigualdades.

A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra.

A roda da economia vai voltar a girar com os pobres fazendo parte do orçamento. Com apoio aos pequenos e médios produtores rurais, responsáveis por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas.

Com todos os incentivos possíveis aos micros e pequenos empreendedores, para que eles possam colocar seu extraordinário potencial criativo a serviço do desenvolvimento do país.

É preciso ir além. Fortalecer as políticas de combate à violência contra as mulheres, e garantir que elas ganhem o mesmo salários que os homens no exercício de igual função.

Enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e oportunidades.

Só assim seremos capazes de construir um país de todos. Um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam.

Um Brasil com paz, democracia e oportunidades.

Minhas amigas e meus amigos.

A partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somo um único país, um único povo, uma grande nação.

Não interessa a ninguém viver numa família onde reina a discórdia. É hora de reunir de novo as famílias, refazer os laços de amizade rompidos pela propagação criminosa do ódio.

A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra.

Este país precisa de paz e de união. Esse povo não quer mais brigar. Esse povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído.

É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida.

O desafio é imenso. É preciso reconstruir este país em todas as suas dimensões. Na política, na economia, na gestão pública, na harmonia institucional, nas relações internacionais e, sobretudo, no cuidado com os mais necessitados.

É preciso reconstruir a própria alma deste país. Recuperar a generosidade, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo.

Trazer de volta a alegria de sermos brasileiros, e o orgulho que sempre tivemos do verde-amarelo e da bandeira do nosso país. Esse verde-amarelo e essa bandeira que não pertencem a ninguém, a não ser ao povo brasileiro.

Nosso compromisso mais urgente é acabar outra vez com a fome. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer, ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário.

Se somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos e o primeiro de proteína animal, se temos tecnologia e uma imensidão de terras agricultáveis, se somos capazes de exportar para o mundo inteiro, temos o dever de garantir que todo brasileiro possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias.

Este será, novamente, o compromisso número 1 do nosso governo.

Não podemos aceitar como normal que famílias inteiras sejam obrigadas a dormir nas ruas, expostas ao frio, à chuva e à violência.

Por isso, vamos retomar o Minha Casa Minha Vida, com prioridade para as famílias de baixa renda, e trazer de volta os programas de inclusão que tiraram 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza.

O Brasil não pode mais conviver com esse imenso fosso sem fundo, esse muro de concreto e desigualdade que separa o Brasil em partes desiguais que não se reconhecem. Este país precisa se reconhecer. Precisa se reencontrar consigo mesmo.

Para além de combater a extrema pobreza e a fome, vamos restabelecer o diálogo neste país.

É preciso retomar o diálogo com o Legislativo e Judiciário. Sem tentativas de exorbitar, intervir, controlar, cooptar, mas buscando reconstruir a convivência harmoniosa e republicana entre os três poderes.

A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada poder, de cada instituição, das Forças Armadas e de cada um de nós.

A Constituição rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la.

Também é mais do que urgente retomar o diálogo entre o povo e o governo.

Por isso vamos trazer de volta as conferências nacionais. Para que os interessados elejam suas prioridades, e apresentem ao governo sugestões de políticas públicas para cada área: educação, saúde, segurança, direitos da mulher, igualdade racial, juventude, habitação e tantas outras.

Vamos retomar o diálogo com os governadores e os prefeitos, para definirmos juntos as obras prioritárias para cada população.

Não interessa o partido ao qual pertençam o governador e o prefeito. Nosso compromisso será sempre com melhoria de vida da população de cada estado, de cada município deste país.

Vamos também reestabelecer o diálogo entre governo, empresários, trabalhadores e sociedade civil organizada, com a volta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ou seja, as grandes decisões políticas que impactem as vidas de 215 milhões de brasileiros não serão tomadas em sigilo, na calada da noite, mas após um amplo diálogo com a sociedade.

Acredito que os principais problemas do Brasil, do mundo, do ser humano, possam ser resolvidos com diálogo, e não com força bruta.

Que ninguém duvide da força da palavra, quando se trata de buscar o entendimento e o bem comum.

Meus amigos e minhas amigas.

Nas minhas viagens internacionais, e nos contatos que tenho mantido com líderes de diversos países, o que mais escuto é que o mundo sente saudade do Brasil.

Saudade daquele Brasil soberano, que falava de igual para igual com os países mais ricos e poderosos. E que ao mesmo tempo contribuía para o desenvolvimento dos países mais pobres.

O Brasil que apoiou o desenvolvimento dos países africanos, por meio de cooperação, investimento e transferência de tecnologia.

Que trabalhou pela integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe, que fortaleceu o Mercosul, e ajudou a criar o G-20, a UnaSul, a Celac e os BRICS.

Hoje nós estamos dizendo ao mundo que o Brasil está de volta. Que o Brasil é grande demais para ser relegado a esse triste papel de pária do mundo.

Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país, para que os investidores – nacionais e estrangeiros – retomem a confiança no Brasil. Para que deixem de enxergar nosso país como fonte de lucro imediato e predatório, e passem a ser nossos parceiros na retomada do crescimento econômico com inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Queremos um comércio internacional mais justo. Retomar nossas parcerias com os Estados Unidos e a União Europeia em novas bases. Não nos interessam acordos comerciais que condenem nosso país ao eterno papel de exportador de commodities e matéria prima.

Vamos re-industrializar o Brasil, investir na economia verde e digital, apoiar a criatividade dos nossos empresários e empreendedores. Queremos exportar também conhecimento.

Vamos lutar novamente por uma nova governança global, com a inclusão de mais países no Conselho de Segurança da ONU e com o fim do direito a veto, que prejudica o equilíbrio entre as nações.

Estamos prontos para nos engajar outra vez no combate à fome e à desigualdade no mundo, e nos esforços para a promoção da paz entre os povos.

O Brasil está pronto para retomar o seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a Floresta Amazônica.

Em nosso governo, fomos capazes de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia, diminuindo de forma considerável a emissão de gases que provocam o aquecimento global.

Agora, vamos lutar pelo desmatamento zero da Amazônia

O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva. Uma árvore em pé vale mais do que toneladas de madeira extraídas ilegalmente por aqueles que pensam apenas no lucro fácil, às custas da deterioração da vida na Terra.

Um rio de águas límpidas vale muito mais do que todo o ouro extraído às custas do mercúrio que mata a fauna e coloca em risco a vida humana.

Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, uma parte da humanidade morre junto com ela.

Por isso, vamos retomar o monitoramento e a vigilância da Amazônia, e combater toda e qualquer atividade ilegal – seja garimpo, mineração, extração de madeira ou ocupação agropecuária indevida.

Ao mesmo tempo, vamos promover o desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem na região amazônica. Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente.

Estamos abertos à cooperação internacional para preservar a Amazônia, seja em forma de investimento ou pesquisa científica. Mas sempre sob a liderança do Brasil, sem jamais renunciarmos à nossa soberania.

Temos compromisso com os povos indígenas, com os demais povos da floresta e com a biodiversidade. Queremos a pacificação ambiental.

Não nos interessa uma guerra pelo meio ambiente, mas estamos prontos para defendê-lo de qualquer ameaça.

Meus amigos e minhas amigas.

O novo Brasil que iremos construir a partir de 1º de janeiro não interessa apenas ao povo brasileiro, mas a todas as pessoas que trabalham pela paz, a solidariedade e a fraternidade, em qualquer parte do mundo.

Na última quarta-feira, o Papa Francisco enviou uma importante mensagem ao Brasil, orando para que o povo brasileiro fique livre do ódio, da intolerância e da violência.

Quero dizer que desejamos o mesmo, e vamos trabalhar sem descanso por um Brasil onde o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira, e a esperança seja maior que o medo.

Todos os dias da minha vida eu me lembro do maior ensinamento de Jesus Cristo, que é o amor ao próximo. Por isso, acredito que a mais importante virtude de um bom governante será sempre o amor – pelo seu país e pelo seu povo.

No que depender de nós, não faltará amor neste país. Vamos cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro. Viveremos um novo tempo. De paz, de amor e de esperança.

Um tempo em que o povo brasileiro tenha de novo o direito de sonhar. E as oportunidades para realizar aquilo que sonha.

Para isso, convido a cada brasileiro e cada brasileira, independentemente em que candidato votou nessa eleição. Mais do que nunca, vamos juntos pelo Brasil, olhando mais para aquilo que nos une, do que para nossas diferenças.

Sei a magnitude da missão que a história me reservou, e sei que não poderei cumpri-la sozinho. Vou precisar de todos – partidos políticos, trabalhadores, empresários, parlamentares, govenadores, prefeitos, gente de todas as religiões. Brasileiros e brasileiras que sonham com um Brasil mais desenvolvido, mais justo e mais fraterno.

Volto a dizer aquilo que disse durante toda a campanha. Aquilo que nunca foi uma simples promessa de candidato, mas sim uma profissão de fé, um compromisso de vida:

O Brasil tem jeito. Todos juntos seremos capazes de consertar este país, e construir um Brasil do tamanho dos nossos sonhos – com oportunidades para transformá-los em realidade.

Maus uma vez, renovo minha eterna gratidão ao povo brasileiro. Um grande abraço, e que Deus abençoe nossa jornada.


»

Não será um programa mas dá uma ideia do que Lula pretende fazer na sua Presidência.

2022-10-30

Casal de Poupas nos Olivais

 

 Em tempos (2016) fiz um post sobre poupas nos Olivais com fotografias tiradas com o telemóvel mas também com uma máquina fotográfica com zoom. Desta vez só tinha o telemóvel  comigo e as poupas estavam em cima de postes de iluminação e de telecomunicações, pelo que apenas se distingue o perfil das pequenas silhuetas destas aves. Mostro aqui com o intuito de documentar a presença do casal.

Primeiro a foto com o enquadramento original, tirada na Rua Cidade de Benguela em 10/Out/2022

 


 

 

 

 À direita um detalhe da mesma imagem com os postes de iluminação e de telecomunicações onde as poupas pousaram por breves instantes.







E em baixo ampliação de duas partes ainda da mesma imagem


 

2022-10-18

Arte no Metro - Alvalade



Foi uma decisão inteligente da administração do Metropolitano de Lisboa, decorar desde o seu inicio as paredes e espaços das estações com obras de arte, aproveitando as vantagens da cerâmica vidrada na protecção contra a humidade mas também minorando as intervenções dos grafiteiros que têm mostrado algum respeito pelos mosaicos existentes.

A presença do vidrado em grandes superfícies torna contudo difícil tirar fotografias da totalidade do mural pois existem sempre reflexos indesejáveis em um ou mais sítios do painel.

No caso da estação de Alvalade acabei por tirar fotos muito “de esguelha” para minimizar as reflexões indesejadas de focos luminosos, como se vê por exemplo na imagem seguinte
 


depois apliquei deformações e cortes na imagem para que os quadrados dos mosaicos voltassem a ficar quadrados, usando o programa Photoimpact 4.2 de 1998 que continua a funcionar muito bem, dando o resultado seguinte:
 
 
Depois procurei no Google images usando esta última e obtive este resultado
 

depois lembrei-me de verificar se com a versão “de esguelha” conseguiria descobrir outros sítios com a mesma imagem e, para minha relativa surpresa, também descobriu

 

Posteriormente tentei reproduzir esta busca e o resultado não foi o mesmo se bem que tenha conseguido localizar reproduções do mural noutros sítios, a reprodução de que gostei mais  foi esta:

 

neste endereço: https://www.tumpik.com/lisbonmetro onde esclarecem que a autora dos mosaicos é Bela Silva. A imagem deve ter tido algum tipo de processamento e é provável que tenha usado filtros anti-reflexos.


Deformando outra foto que tirei mais abrangente obtive este resultado:
 


Quando se deforma a imagem original algumas zonas perdem a nitidez.

Por esta altura já “descobrira” que se tratava da extensão da estação de Alvalade, quando  comecei o post tinha dúvidas se não seria a de Roma. E no meio das buscas “descobri” que no sítio do Metropolitano de Lisboa tem uma área dedicada a “Arte nas estações”, com imagens e informações sobre os autores das intervenções artísticas e suas datas.

A escala das imagens é grande, como se pode constatar nas seguintes

 

 
 Os painéis são alegres e o motivo é a história infantil “O Macaco de Rabo Cortado” que vai abandonando coisas para logo se arrepender.

E fizeram-me lembrar o clube do Bolinha em que “menina não entra”, neste caso nos painéis “menino não entra”, a não ser, talvez, na forma de macaco.


Adenda: De vista  oblíqua para vista frontal

Uma vez que num quadro (numa obra a duas dimensões) considero como canónica uma vista frontal, vista a partir de um ponto existente numa recta perpendicular ao plano do quadro e intersectando esse plano no centro geométrico do mesmo, chamo "distorcidas" a vistas tomadas noutro ponto.

Uma vez dada uma vista "distorcida" neste sentido, não sei como chamar à operação de recuperar uma vista frontal, o antónimo melhor que me ocorre para opor a "distorcer" ou "deformar" é "repor".



2022-10-13

Pedro Serra sobre os "Problemas de água com Espanha"

 

No jornal Expresso, parece-me que na edição online de 5/Out/2022, saiu uma entrevista com o Engº Pedro Cunha Serra, pelo jornalista Rúben Tiago Pereira,  intitulada:

- "Temos problemas de água com Espanha? Só aqueles que gostamos de inventar na nossa cabeça

O entrevistado tem dedicado largos anos ao tema do abastecimento da água e é consolador ouvir um especialista falar sobre o que se tem resolvido e os desafios actuais, sem o tom tremendista com que os média costumam abordar qualquer tema.

Limito-me no post a destacar umas tantas perguntas e respostas, a versão integral está disponível no link acima:

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Os transvases que Espanha faz do Tejo para os rios Júcar e Segura, por exemplo, não são um problema para nós?
Não. O que ficou previsto nos documentos convencionais foi que eles poderiam transvasar até mil milhões de metros cúbicos e eles raramente transvasam mais de 300 milhões. O Tejo no seu estuário tem afluências na ordem dos 17 mil milhões de metros cúbicos, por isso, 300 milhões nas suas cabeceiras não tem um impacto tão significativo quanto isso para os nossos interesses nessa bacia. Tanto mais que, a alguns quilómetros da fronteira, eles têm três aproveitamentos hidroelétricos cuja capacidade de armazenamento anda na ordem dos 5 mil milhões de metros cúbicos. Estamos a falar de 300 milhões de transvase e de 5 mil milhões ali represados essencialmente para produzir energia, o que tem uma particularidade: os aproveitamentos hidroelétricos deixam correr água para Portugal. Por isso é que nós só em raras excepções tivemos problemas na bacia do Tejo.

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Os nossos interesses estão assegurados nesse acordo?
Nós temos ainda represados, na bacia do Douro, no lado português, 700 milhões de metros cúbicos de água, nas barragens do Baixo Sabor e Foz Tua. As necessidades de abastecimento de água à Área Metropolitana do Porto andam na ordem dos 100, 120 milhões por ano. É importante dizer que, mesmo nos anos mais secos, chove sempre na Cordilheira Cantábrica, de corre muita água para o Douro. E chegamos a ter anos húmidos em que chovem mais de 4 mil litros por metro quadrado. Isto é um número perfeitamente brutal, é o polo pluviométrico mais importante da Europa e nós beneficiamos dele. Seria muito mau espírito de vizinhança se tentássemos insistir com os espanhóis para que eles cumprissem com o protocolo adicional no que diz respeito ao regime de caudais do Douro.

Beneficiamos da Cordilheira Cantábrica, mas Portugal e Espanha também estão sujeitos a uma grande irregularidade climática.
Sim, é verdade. A Península Ibérica tem uma irregularidade climática que não é única, mas é muito acentuada, interanual e não apenas sazonal. Temos anos muito húmidos e anos muito secos. Na bacia do Tejo, a variação dos afluentes máximos e afluentes mínimos de um ano para o outro é de 1 para 20.

Isso significa o quê? Tem exemplos?
Na bacia do Sado, entre 1944 e 1945 não correu uma gota de água no rio. Em 1995, tivemos 8 meses de seca em que não caiu praticamente uma gota de água em todo o território nacional. No dia 11 de novembro caiu uma chuva diluviana e tivemos inundações por toda a parte.

Se é assim tão relativo, então não temos um problema de água em Portugal, é isso?
Existe um problema de água, sim. Temos de fazer uma gestão muito mais criteriosa dos nossos recursos. Temos de ter uma gestão muito mais participativa, muito mais colaborativa e para isso temos de dar alguns passos importantes que, aliás, a lei da água de 2005 já prevê no seu artigo 4º.

Como por exemplo?
A implementação de títulos de utilização da água em regiões onde a água já é muito escassa e onde já está instalada uma escassez estrutural, como é o caso do Algarve, a reutilização das águas residuais tratadas, a criação de associações de utilizadores, onde quem utiliza a água se possa juntar para se coordenar, o recurso à dessalinização, como já acontece no Algarve, para reforço de águas superficiais e subterrâneas.

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Para acabar, gostava de deixar claro: os portugueses têm de se preocupar com problemas de abastecimento de água em algum ponto do país?
Em algumas regiões, pontualmente. Por exemplo, na zona de Viseu, no nordeste transmontano ou em certas regiões do Algarve pode haver situações dessas, mas muito pontuais e estamos a falar de povoações pequenas. E convém relembrar que esses episódios acontecem em zonas onde existem por natureza poucos aquíferos.

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Aproveito para referir dois posts deste blog sobre abastecimento de água em Portugal:

- Factfulness (Factualidade) e o abastecimento de água no Algarve

- Precipitação de água em Portugal

 

2022-10-06

Mahsa Amini, outra vítima dos teocratas iranianos

 

Visitei o Irão numa excursão de 12 dias  de 24/Abr a 5/Mai/2010 há 12 anos e alguns meses.

Na altura, e como referi noutro post considerando que
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quer o presidente dos EUA George W. Bush quer o primeiro-ministro inglês Anthony Blair, seu aliado dessa época, usaram a mentira da existência de armas de destruição maciça no Iraque, como motivo para a invasão desse país, sem mandato das ONU, com oposição de vários países, entre eles da França e contra a opinião de Hans Blix, coordenador da equipa da ONU que fez inspecções no Iraque de busca desse tipo de armas. Depois da invasão ninguém encontrou armas de destruição maciça. A invasão do Iraque em 2003 causou dezenas de milhares de mortos, não enfraqueceu a Al Qaeda, facilitou o aparecimento do DAESH, outra organização terrorista que fez ainda mais vítimas e deixou o Iraque numa situação caótica até ao presente ano de 2022”
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 e dada a retirada de boa parte dos militares americanos do Iraque e a tradição dos EUA se envolverem numa nova guerra sempre que acaba a que estão envolvidos e considerando ainda os esforços do Irão para enriquecer Urânio, alegadamente para uma futura central nuclear mas mais provavelmente para fabricar bombas atómicas, considerando tudo isto receei que os EUA invadissem o Irão num futuro próximo e que seria prudente visitar o Irão antes que fosse invadido pelos americanos.

E tinha grande curiosidade de visitar o país onde existira o império persa, que falhara as campanhas de domínio da Grécia, dando assim origem às dezenas (ou serão centenas) de milhares de Maratonas, tão na moda nos dias que correm, que interagiu com o antigo Egipto, que foi derrotado por Alexandre o Grande, que teve uma religião em que os crentes podiam (e deviam) apressar a vitória do Bem sobre o Mal, que foi um grande império entre o Otomano e o dos Mogóis indianos e “last but not least” que tinha uns desenhos geométricos maravilhosos, usando por vezes conceitos matemáticos com um avanço de 500 anos sobre o Ocidente. O país tinha também pouco jeito para escolher os governantes mas não se pode ter tudo.

Fomos em voo da Lufthansa até Teerão, tendo a minha mulher iniciado aí o uso permanente de lenço cobrindo o cabelo. No dia seguinte fomos em voo interno até Shiraz, que visitámos e onde pernoitámos, seguindo depois de autocarro até às ruínas de Persépolis e pernoitando sucessivamente em Yazd, Isfahan e novamente Teerão, de onde regressámos noutro voo da Lufthansa em que praticamente todas as mulheres dentro do avião tiraram o lenço da cabeça mal o avião levantou voo.

Fiz muitos posts sobre o Irão e até um índice dos mesmos.

Recentemente Mahsa Amini, uma jovem curda de 22 anos foi detida pela polícia dos costumes em Teerão por mostrar quantidade excessiva de cabelo, que deveria estar mais tapado pelo hijab, um véu que designam por “islâmico” como referi aqui.

Na foto da Mahsa Amini que mostro a seguir, nota-se algum cabelo visível mas trata-se de uma situação que observei com frequência em 2010. A imagem está espalhada por muitos sítios da internet e em todos eles a mão esquerda foi tratada por razão que desconheço.

 


Enquanto estava sob custódia da polícia morreu, muito provavelmente na sequência de maus tratos a que foi sujeita.

A obrigatoriedade de ter os cabelos sempre cobertos é não só uma obrigação legal das mulheres como existe uma vigilância policial permanente para vigiar o cumprimento dessa lei, não vi uma única mulher, nesses 12 dias da nossa viagem de 2010, que andasse em lugares públicos sem o véu obrigatório. E lembro-me duma senhora da nossa excursão referir o espanto e agitação do empregado na recepção da sala do pequeno-almoço do hotel, quando acidentalmente se esquecera de pôr o véu, tornando-se óbvio que teria que o ir buscar o mais rapidamente possível ao quarto.

Em Isfahan tirei nessa viagem esta foto dum conjunto de alunas iranianas em visita de estudo a um edifício histórico de Isfahan, todas de casaco preto sendo a senhora com casaco vermelho uma portuguesa da nossa excursão. A quantidade de cabelo à vista é parecido à da imagem da falecida.
 

Noutro local tirei mais esta foto a outras jovens
 


Segundo li, o rigor da  polícia vai variando ao longo dos anos, o presidente actual assinou uma ordem em 15/Ago/2022 para reforço das leis sobre vestuário com uma nova lista de restrições.

Esta obrigatoriedade é uma violência enorme sobre as iranianas, neste caso de natureza legal. Na Turquia, onde o regime fundado por Ataturk tinha uma proibição legal de uso do véu em lugares públicos, o partido do actual presidente Erdogan revogou essa lei e, embora não seja legalmente obrigatório que as mulheres usem o véu, tenho testemunhos de casais turcos em que além de pressionarem a mulher a usar o véu como condição de admissão em empregos, pressionam o marido para pressionar a esposa a usar o véu.

Em França, onde existem várias zonas em que esta pressão social para usar o véu deve ser importante, aprovaram uma lei que proíbe o uso do véu em edifícios públicos.

Em Isfahan fotografei esta montra que me surpreendeu de venda de cabeleiras para mulheres
 


num país que proíbe a exibição de cabelo nos locais públicos. Uma amiga portuguesa sugeriu-me posteriormente que o uso permanente de lenços na cabeça poderá criar doenças no couro cabeludo que obriguem a rapar a totalidade do cabelo para recuperar do problema.

É verdade que em Portugal há uns anos era frequente ver as camponesas mais idosas usando sistematicamente um lenço na cabeça, como nesta imagem que vi na net duma mãe iraniana com a filha e a neta
 
 
mas também desconheço se essas portuguesas não teriam problemas no cabelo ou no couro cabeludo.

Em tempos, vi agora que foi em Fev/2018, pensei em fazer um post sobre um movimento de iranianas que chamavam “My Stealthy Freedom” fundado por Masih Alinejad de luta pelos direitos das mulheres iranianas, incluindo o direito de andar com os cabelos ao vento.

Desse movimento guardei estas duas imagens que me pareceram libertadoras

 



Depois da deposição violenta do Xá da Pérsia em 1979, um referendo instituiu um estado islâmico em que, além de uma estrutura governativa com os poderes legislativo, executivo e judicial, existe o Supremo Líder, um clérigo xiita que é escolhido entre os seus pares na Assembleia de Peritos (Experts), com intervenções cirúrgicas mas decisivas na vida política do país, sendo também chefe supremo do exército e dos Guardas da Revolução. Durante a excursão fui tomando consciência que os clérigos, os militares e os Guardas da Revolução acumulam portunas pessoais apreciáveis.

O primeiro supremo líder foi Ruhollah Khomeini (1900-1989) desde 1979 até à sua morte. O segundo foi Ali Khamenei (1939- ) desde 1989 até agora, portanto 33 anos. O regime tem portanto 43 anos, um pouco menos de existência do que o Estado Novo em Portugal.

De vez em quando têm ocorrido manifestações de contestação do regime que têm sido reprimidas com muita violência e muitas mortes nos confrontos.

O Irão tem pena de morte, num post de 2010 concluí que nas estatísticas de 2009 o Irão era o que executava mais condenados por milhão de habitantes seguido pelo Iraque e pela Arábia Saudita. Nas que vi agora na Wikipedia o  Irão continua na posição cimeira no número total de execuções em 2021 (Irão 353, Egipto 82, Arábia Saudita 64, Síria 37) e com 84 milhões de habitantes dando um rácio de 4,2 execuções por milhão, devem continuar no topo da tabela também neste indicador.

Informou-me também o guia que continuavam a fazer amputações em 2010, como cortar a mão a ladrões e não sei se lapidações, fiz um post sobre Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma iraniana que esteve 9 anos presa na iminência de ser executada por lapidação (lançamento de pedras sobre a cabeça da condenada, enterrada parcialmente) que entretanto foi libertada em 2014.

De uma forma geral os comentadores não conseguem prever se mais esta morte porá fim ao regime, como nesta entrevista “How Iran’s Hijab Protest Movement Became So Powerful” na revista New Yorker a uma iraniana que vive nos EUA.


 

Para ficar com uma ideia da pressão social na Turquia para o uso do véu já tinha visto há tempos “The head scarf, modern Turkey, and me” por Elif Batuman, na edição de 8 e 15/Fev/2016, acompanhado por esta ilustração ao lado feita por Anna Parini.




2022-10-04

Transparência da Justiça Americana


Li este artigo na BBC em que contavam a história de Liu Jingyao, uma estudante pós-graduada chinesa de 25 anos, que apresentou queixa por agressão sexual contra Liu Qiangdong (conhecido na América como Richard Liu) um bilionário casado de 49 anos.

 A queixosa apresentou uma acção de responsabilidade civil contra o bilionário, acusando-o de a ter ter pressionado para consumo excessivo de álcool num jantar com vários convivas, após o qual a acompanhou até à casa dela, tendo-a então violado.

 O julgamento teria lugar num tribunal americano aberto ao público, um tipo de julgamento quase impossível na China, havendo por isso grandes expectativas sobre o desenrolar do mesmo.

 Mas, numa reviravolta na véspera da batalha no tribunal, as partes chegaram a um acordo extra judicial e a sessão no tribunal foi cancelada.

 Afinal estes casos também são quase impossíveis nos EUA quando envolvem pessoas muito ricas, pois estas preferem  pagar uma indemnização a sujeitar-se a uma sessão no tribunal.

 

2022-10-03

Taking Back Control_2 (after Brexit)

 
Boris Johnson recuperou o controlo (com algumas dificuldades) depois do Brexit, sendo há pouco tempo sucedido pela primeira-ministra Liz Truss que nomeou para ministro das finanças Kwasi Kwarteng, ambos na imagem seguinte.

 



Liz Truss é admiradora das políticas (e do guarda-roupa) de Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, e Kwasi Kwarteng será admirador das políticas do ministro homólogo do governo de Ronald Reagan, presidente dos E.U.A. de 1981 a 1989.

Publicaram a intenção de um corte dos impostos, maior para os mais ricos e um grande aumento da dívida pública, pensando assim repetir no Reino Unido as medidas económicas de Reagan de há 40 anos nos EUA.  As medidas foram referidas pelo termo “Trussonomics”, derivado do termo “Reaganomics” usado nos anos 80.

O Reino Unido não é a Federação Norte-Americana, que parece “ter licença” para contrair dívidas em função do PIB que os outros países, como por exemplo Portugal e o Reino Unido não têm. As medidas foram assim censuradas pelo FMI, pela agency Moody’s e até pelo ministro liberal alemão Christian Linder. No jornal Expresso até o próprio Ricardo Reis as censurou.

Hoje quando acordei vi nas “Breaking News” da BBC, que às 07:45 “UK’s chancellor confirms he will no longer abolish top rate of income tax after widespread opposition”.

Afinal, recuperar o controlo não é tão fácil como julgaram, neste mundo globalizado o Reino Unido já não é a sede do maior império do planeta.


2022-09-30

A Militarização dos Fatos

 

Não é dos factos é mesmo dos fatos, foi o que me ocorreu quando vi esta cerimónia na China, no dia dos Mártires, que se comemora no dia 30/Setembro de cada ano, como homenagem aos chineses que morreram lutando pelo estabelecimento da República Popular da China, que foi proclamada no dia 1 de Outubro de 1949.

Este dia do Mártires é assim na véspera do Dia Nacional da China, comemorado em 1 de Outubro.

Esta foto que obtive no sítio da CGTN (China Global Television Network) impressionou-me pela simetria rigorosa e pelo facto de existirem homens vestidos com fato dispostos numa formatura que costumo ver apenas em paradas militares, se bem que agora me recordo que estas formaturas também são frequentes em algumas manifestações desportivas. 

 


À frente dos homens de fato julgo estar Xi Jinping, no vértice de um V que faz lembrar uma formação de aviões em festival aéreo.

Alem da simetria e da ordem nota-se o gigantismo do vaso com representações aumentadas de flores. 

Os ideogramas do vaso que seleccionei foram traduzidos pelo Google Tradutor como "Abençoe a pátria"

Gostaria que o Umberto Eco fosse vivo para analisar de forma muito mais completa toda a simbologia desta cerimónia.

Noto que o céu de Pequim ainda não está azul, perdendo-se rapidamente a nitidez com a distância. Diminuir muito a poluição deverá ser a grande tarefa da China nos próximos anos.


Depois da tropa, a única vez em que fiz parte duma formatura foi em Kyoto, antes duma visita turística ao palácio imperial, os seguranças queriam certificar-se que nos contavam bem. Não gostei da experiência que documentei com duas fotos:




2022-09-29

Sabotagem de Gasodutos Nord Stream


Não tenho escrito sobre a guerra na Ucrânia desde 16/Junho por variadas razões:
- passei uma estadia no Algarve com muitos netos, quase durante todo o Verão, com impacto no número de posts deste blogue;
- as TVs e jornais portugueses têm coberto os múltiplos eventos que vão ocorrendo;
- embora a cobertura dos media portugueses me pareça nesta guerra simpatizar com a Ucrânia e antipatizar com a Rússia, parece-me uma situação normal favorecendo o agredido e censurando o invasor;
- mesmo assim é facílimo, para quem acede à internet em Portugal, descobrir sítios elogiando os russos e atacando os ucranianos, tomando assim conhecimento da propaganda do lado russo;
- de uma forma geral estou em sintonia com as resoluções aprovadas na ONU, designadamente com as considerações sobre a ilegalidade dos quatro referendos feitos recentemente pela Rússia em áreas da Ucrânia que aquela pretende anexar.

Surpreendeu-me contudo o mistério da sabotagem dos gasodutos Nord Steam 1 e 2 ocorrida recentemente no mar Báltico e que demorou um dia ou dois a ser referidos nas TVs de Portugal.

Tomei conhecimento da ocorrência através da BBC há dois dias (27/Set) nesta notícia intitulada “Video shows leak in the Baltic sea”.

Hoje googlei (danish defence on nord stream) e cheguei logo ao sítio da Defesa Dinamarquesa com a notícia intitulada “Gas leak in the Baltic Sea” com data-hora 2022-09-27 14:35 mostrando esta fotografia
 


com legenda “Fuga de gás no Nord Stream 2 visto pelo caça F-16 em Bornholm. Foto: Defesa Dinamarquesa.

Li depois que:
- sismógrafos suecos registaram 3 explosões no leito do mar Báltico antes da detecção das fugas de gás e estimam que seriam necessários 100kg de TNT para provocar as explosões detectadas;
- finlandeses e outros consideram que se trata de terrorismo de estado, não sendo verosímil que seja acção de instituição privada;
- que no sítio das fugas de gás o fundo do mar está entre 70 e 90 metros, sendo a profundidade média do Báltico 55m, com a profundidade máxima de 460m;
- que o diâmetro da maior mancha branca parecida à desta imagem atinge 1km.

Neste sítio do Financial Times fazem um ponto da situação às 09:00 de 29/Set.

Nesta notícia da BBC “Nord Stream: Sweden finds new leak in Russian gas pipeline (29/Set 14:00)” em que referem uma 4ª fuga, retirei o mapa que segue:

 
Na revista Wired (The Race to Find the Nord Stream Saboteurs) dizem que vai ser difícil identificar o sabotador.

Resumindo:
1) Uma vez que a Rússia já tinha parado o trânsito de gás no Nord Stream 1 e o 2 nunca entrara em serviço, embora ambos estivessem cheios de gás, não parece lógico que a Rússia tenha destruído uma infraestrutura sua (total ou parcialmente) cujo funcionamento poderia parar a qualquer momento, o que até já tinha feito no fim de Agosto deste ano
2) A Ucrânia e/ou um seu aliado poderia ter interesse numa acção deste tipo, evitando tentações de retoma de funcionamento dos gasodutos no inverno que se aproxima.
3) Muitas outras teorias podem ser (e serão) conjecturadas sobre estes eventos.

Durante as guerras ocorrem muitos mistérios.
Sabe-se como começa uma guerra, nunca se sabe como acaba.


2022-09-22

Reabriu a Pastelaria Arcadas dos Olivais Sul!

 

É com grande alegria que comunico que ontem, dia 21 de Setembro de 2022, reabriu a Pastelaria "Nova Arcadas" na rua Cidade do Lobito, nos Olivais Sul, no mesmo local onde fechara a Pastelaria Arcadas, regressando a boa gerência do Sr.João e da D.Júlia.

A notícia corre pelos vizinhos, tinha sido pré-anunciada pelo jpt em comentário cifrado neste postal, e anunciada agora aqui, com considerações sobre a essencialidade dos cafés no continente europeu, pensamento naturalmente gerado numa conversa de café.

Senti a falta de cafés em Londres, talvez tenham feito o Brexit por não conseguirem estabelecer cafés, e li algures que embora raros na América do Norte, eles existem em Seattle, como resultado da emigração sueca para essa região.

Em Portugal além de termos cafés, também lá bebemos chá, além de outros "licores intoxicantes", bolos pequenos e mesmo salgados, mostrando o nosso lado global.

Deixo aqui duas imagens do rejuvenescido estabelecimento

 




Faço votos dos maiores sucessos ao casal João e Júlia nesta nova Arcadas!


2022-09-08

O poder de um polegar

 

Neste Verão recebi um PowerPoint alegando que no passado dia 24/Agosto o planeta Marte estaria tão perto da Terra que apresentaria um diâmetro aparente parecido ou mesmo maior do que a Lua!

A apresentação fez-me lembrar os tempos da tropa em que fervilhavam os boatos sobre o que nos esperava no próximo futuro. Sempre achei inútil e por vezes mesmo perniciosa esta criação de previsões irreais, ultimamente considero-a uma consequência colateral talvez inevitável da capacidade humana para imaginar realidades diferentes das actuais, contrariando o TINA  "There Is No Alternative", (Não existe alternativa), figura de retórica muito querida da Margaret Thatcher.

Embora me parecesse que estava perante uma grande treta, aproveitei a oportunidade para refrescar alguns números do Sistema Solar.

Assim consultei o artigo da Wikipédia sobre a Lua onde consta:

Diâmetro equatorial da Lua: 3 475km

Características da órbita da Lua em milhares de km: Perigeu=363, Apogeu=405, Semi-eixo maior da elipse [ (Perigeu + Apogeu) / 2 ]=384

Tomando o semi-eixo maior da elipse como uma aproximação razoável da distância média da Terra à Lua, o Diâmetro aparente (angular) da Lua vista da Terra será dado pelo valor da função trigonométrica ArcTg do Diâmetro da Lua / Distância média entre Terra e Lua. Esse valor é 0,518 graus.

No artigo "Quando a Lua Inchou" Nuno Crato faz considerações sobre o valor do diâmetro aparente da Lua, que é meio grau como afirmei acima, e sobre as razões para a Lua nos parecer maior quando está mais próxima da linha do horizonte. Para minha surpresa, o meu polegar consegue tapar completamente a Lua quando, antes de fazer estas contas e ler o artigo acima referido, estimei que precisaria dos dois polegares para a tapar completamente.

 Na altura em que fiz estas consultas estava a Lua Nova pelo que, na impossibilidade de verificação directa, fui calcular o diâmetro aparente do meu polegar quando tenho o braço esticado. A largura do meu polegar é 2,5cm, trata-se assim de um polegar "standard"com dimensões muito próximas da polegada do sistema imperial de medidas que é 2,54cm. Medi a distância do olho ao polegar com o braço esticado, obtendo 67cm. Para estes dois valores o diâmetro angular do meu polegar visto com o meu braço esticado será 2,1 graus, maior portanto do que o diâmetro angular da Lua.

 


Quando apareceu o quarto crescente fotografei (em 4/Set/2022 às 21:27) o meu polegar quase a tapar a Lua, como se pode ver na imagem ao lado.

 

Tive dificuldade em segurar o telemóvel com uma mão e accionar o disparo da máquina fotográfica com o polegar dessa mão (o outro polegar estava a ser fotografado...) e não garanto que o telemóvel estivesse encostado à vista como devia.


Resumindo, o valor desta imagem é mostrar que um simples polegar pode tapar completamente a visão do satélite da Terraa!

 

Como o diâmetro aparente do Sol é muito parecido ao da Lua (0,536 graus em vez dos 0,518) o polegar pode também tapar o Sol, se bem que com menor eficácia, porque a luminosidade à volta do Sol é muito intensa.


 Quanto a Marte, tomando em consideração os valores do Periélio e do Afélio dele e também os da Terra , e considerando como distância mínima (em milhões de km) entre os dois astros igual ao Periélio de Marte (206) - Afélio da Terra (152), obtemos 54 milhões de quilómetros. Este valor não é forçosamente observável, trata-se de um minorante. Mesmo assim, considerando que o diâmetro equatorial de Marte é de 6792km, o diâmetro angular de Marte nessa distância teórica de 54 milhões de km não passaria de um ângulo de 0,007 graus, seria assim 74 vezes (0,518/0,007) menor do que a Lua média!

Neste artigo do OAL (Observatório Astronómico de Lisboa) intitulado "Marte à distância mínima da Terra (06/10/2020)" refere-se um momento de grande proximidade em que a distância será "apenas" 62 milhões de quilómetros, referindo também que "A distância entre a Terra e Marte varia muito ao longo do ano, provocando grandes alterações no diâmetro aparente e brilho de Marte. ". Contudo estas grandes variações do diâmetro aparente de Marte são mais notáveis para um amador de astronomia com telescópio do que propriamente a olho nu por um observador não familiarizado com estes temas.

Para ilustrar a situação reproduzo uma imagem do artigo do OAL com as órbitas da Terra e de Marte que ilustra a grande variação da distância entre a Terra e Marte atendendo a que os dois planetas completam a sua órbita com  períodos de tempo diferentes.

 



Entretanto hoje (7/Set/2022 20:04) a Lua já estava mais cheia do que na foto com polegar acima (de 4/Set) e embora parecesse maior do que nesse dia porque estava mais próxima do horizonte, continuava a ter o mesmo diâmetro aparente medido pelo meu poderoso polegar esticado: