2020-02-14

Pavão (2)


Em Outubro/2017 já tinha feito um post sobre o Pavão mas não tinha conseguido uma boa imagem sobre um pavão mostrando a sua cauda.

Agora já tenho uma, do meu amigo João Ricardo, tirada no recentemente reabilitado Jardim Botânico Tropical no bairro de Belém em Lisboa.

Começo por uma vista do pavão de perfil


finalizando com a exibição da cauda, numa foto em que fiz uma pequena manipulação do contexto para não perturbar a contemplação do motivo principal




2020-02-12

Mortalidade - uma referência


Um número sózinho é difícil de interpretar, normalmente são precisos pelo menos dois, para fazer uma comparação.

De há uns tempos a esta parte que se fala nas mortes provocadas pelo corona-vírus, recentemente designado por Covid-19 pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Tendo a maior parte das mortes provocadas por este vírua ocorrido na cidade de Wuhan, cidade com 11 milhões de habitantes, valor parecido aos 10 milhões da população portuguesa, fui ver quantos portugueses morriam em média por dia na Demografia de Portugal na Wikipédia, na tabela de Estatísticas vitais desde 1900.

A taxa anual bruta de mortalidade que em 1900 andava à volta de 20 por 1000 habitantes foi baixando ao longo do século 20 com pequenas variações até chegar ao valor actual de cerca de 10 mortes por mil habitantes, com a excepçãp de 1918 em que o valor foi de 40 por 1000, provocado por o que aqui se costuma chamar a "pneumónica" enquanto os anglo-saxões chamam a "spanish influenza" (gripe espanhola de 1918).

Portanto 10/1000 é o mesmo que 1%, quer dizer em média de cada 100 portugueses morre 1 por ano.

Considerando toda a população do país será de esperar que, dos 10.000.000 vivos num dado dia do ano, ao fim de um ano tenham morrido 100.000 dessas pessoas. Se morresse o mesmo número de pessoas em todos os dias desse ano teriam morrido 100.000/365= 274 pessoas por dia.


2020-02-11

Pintassilgo nos Olivais Sul


Vi ontem, num passeio na rua Cidade de Benguela




Praia no Terreiro do Paço


Vi ontem que puseram um bocado de areia ao lado do Cais das Colunas no Terreiro do Paço em Lisboa. Com umas ondinhas a rebentar sobre a areia pareceu-me que estava numa praia...







2020-02-04

Ruína na Praia da Rocha


De vez em quando neste blogue refiro que desde a minha infância que tenho frequentado a Praia da Rocha. Dessa infância recordo esta imagem de uma das duas vivendas maiores e melhor situadas na falésia com vista desafogada para o mar.



Encontrei esta fotografia e alguma informação sobre a história desta moradia neste artigo do “Sul Informação”.

Resumindo a moradia (chamada Vivenda Compostela) foi construída no início do século XX para as férias da família de Francisco Bivar Weinholtz, tendo a sequência de proprietários posteriores incluído o Conde da Covilhã, o empresário têxtil Manuel Gonçalves, seus herdeiros e agora Armando Faria, anterior dono da rede de lojas “Perfumes & Companhia”.

A maior parte das vivendas que então existiam na Praia da Rocha foram substituídas por prédios de apartamentos, num processo intenso mas de baixa (ou mesmo muito má para evitar eufemismos)  qualidade urbanística que documento muito parcialmente nesta “vista aérea” do Google Earth,



provavelmente datada do Verão de 2016, por exame das imagens históricas disponíveis nessa aplicação.

Se esta vivenda fosse propriedade dum emigrante retornado de França dir-se-ia que era uma “casa tipo maison”. Assim diz-se que era um ex-libris da Praia da Rocha. Nunca simpatizei com a arquitectura desta casa, detesto mesmo o seu telhado preto fortemente inclinado, como se estivéssemos num local frio e chuvoso do norte da Europa e penso nos calores que os infelizes ocupantes das águas furtadas terão tido que suportar.

Entretanto o proprietário solicitou autorização para fazer uma construção neste vasto terreno, que lhe foi concedida pela Câmara Municipal de Portimão, conforme alvará afixado num muro da propriedade.

Ergueu uma estrutura de betão armado no lado oposto ao da piscina não visível nesta foto e passado algum tempo iniciou a demolição da moradia existente.

Por razões que ignoro a demolição foi embargada ficando agora uma estrutura de betão incompleta e uma casa semi demolida, conforme se constata nas fotos que tirei a partir da praia.



 

 



Desconheço as razões desta trapalhada que me fez lembrar a demolição atabalhoada do cine-teatro Monumental em Lisboa há uns anos. As autorizações camarárias deviam ser mais claras e os embargos mais expeditos.

2020-01-30

Os avós, por D.José Tolentino de Mendonça


Gostei deste texto do D.José Tolentino de Mendonça que li neste sítio do jornal Expresso:

 “Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada. Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita codivisão. Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas. Os avós parecem distraídos, e isso é bom. Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.

Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes. Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo. Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão. Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos. Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles”. 



2020-01-28

Wuhan


A minha professora chinesa, dum curso de Introdução à Língua Chinesa que segui há uns anos em Portugal, depois da sua estadia por cá foi viver na cidade de Wuhan, uma cidade chinesa onde em Fev/2018 viviam 10,6 milhões de pessoas.

Fez-me impressão existirem cidades com a população de Portugal de que nunca ouvira falar e dediquei um post a este tema há cerca de 2 anos e de que mostro um dos mapas:



Agora com a recente epidemia do novo coronavírus a cidade ficou muito mais conhecida a nível internacional. Troquei mail com a professora que felizmente está bem. Não deixo de me impressionar com a facilidade com que actualmente se contactam pessoas em terras distantes com as quais mantemos contactos muito esporádicos!

São impressionantes estas primeiras imagens da construção de um hospital novo de 1300 camas para os doentes do novo coronavírus, com conclusão prevista no prazo de uma semana



Estas multidões focadas num objectivo preciso lembram-me os filmes de Zhang Yimou em que referi num post:

«...Os dois filmes seguintes, “Herói” e “O Segredo dos Punhais Voadores”, tratam de lendas e mitos da China antiga. Mais uma vez a beleza é avassaladora (e meço bem este adjectivo que acabo de verificar nunca ter sido usado até agora neste blogue). Outras memórias que ficam são as multidões de figurantes. Uma das grandezas da China consiste na possibilidade de dispor de multidões de seres humanos que se podem concentrar numa tarefa específica, como tapar o Sol com uma saraivada de flechas.»


Para finalizar mostro uma secção de cuidados intensivos no Hospital Zhongnan da Universidade de Wuhan com a legenda que a acompanhava num jornal de Singapura.


In this Friday, Jan. 24,2020, photo released by China's Xinhua News Agency, a medical worker attends to a patient in the intensive care unit at Zhongnan Hospital of Wuhan University in Wuhan in central China's Hubei Province. China expanded its lockdown against the deadly new virus to an unprecedented 36 million people and rushed to build a prefabricated, 1,000-bed hospital for victims Friday as the outbreak cast a pall over Lunar New Year, the country's biggest, most festive holiday. (Xiong Qi/Xinhua via AP)




2020-01-22

Betty Faria em entrevista


Entrevista de Betty Faria sobre a sua vida, dada em Jul/2018, gostei muito de a rever, são 52 minutos


2020-01-21

Estorninhos nos Olivais Sul


Há uns dias ou mesmo semanas que se vêem grandes bandos de estorninhos no bairro dos Olivais em Lisboa. Dizem-me que se juntam em bandos enormes ao raiar do dia e ao fim da tarde, quando se juntam (ou separam) nas árvores que lhes têm servido de dormitório.

Anteontem, dia 19/Jan/2020, ao fim da tarde andei a ver se descobria estorninhos e acabei por descobrir esta árvore cheia deles, julgo que situada em terreno da Escola Básica Fernando Pessoa, aproximadamente no enfiamento da Rua Cidade de Gabela, vista tomada nas traseiras de um prédio na Rua Cidade de Carmona



No céu voavam muitas aves



mas não cheguei a ver bandos compactos como no video que mostrei em tempos neste post.

Mostro ainda uma segunda árvore, no lado esquerdo desta imagem, onde no lado direito está a árvore que mostrei acima. Será conveniente clicar na imagem para a poder ver na máxima resolução



Noutro sítio, num canto da Praça Cidade São Salvador (mais conhecida por Praça das maminhas) ainda vi outro dormitório:



Na Wikipédia fala sobre o Estorninho-comum (Sturnus vulgaris) e nas avesdeportugal.info, na secção das Aves de Lisboa mostra o Estorninho.


Adenda: hoje de manhã (22/Jan/2020) vi o que me pareceu ser um estorninho malhado, o que mostro não é bem uma foto mas mais uma sugestão dum estorninho, obtida com o meu telemovel



Achava estranho ver bandos tão grandes de estorninhos nas árvores e no céu e não ver nenhuns ao pé da superfície, parece que consegui ver um por uns instantes, do lado de fora da Quinta Pedagógica,  desapareceu logo.


2020-01-18

Madonna - Batuka


Não sendo fã das músicas da Madonna sempre apreciei os vídeos por ela produzidos na promoção das suas músicas/espectáculos.

Enquanto residiu em recentemente me Portugal a Madonna interessou-se muito pela música cabo-verdiana, integrando no seu espectáculo mais recente um conjunto de Batukadeiras.

Gostei imenso deste video:



2020-01-17

Visco


Quando fui a Viena há uns anos (em 2013) fui surpreendido por estas coisas nas árvores



que julguei serem ninhos de aves, embora me fizesse impressão o tamanho respectivo, não conseguindo imaginar quais seriam as aves com necessidade de ninhos destas dimensões.

Finalmente, ao ver umas formas parecidas numas fotos que a Helena  tirou durante um nascer do Sol em Berlim neste post de que mostro foto 9 (de 12)



nos comentários do post a Helena esclareceu-me que não eram ninhos mas uma planta parasita designada por Viscum Album que em português se chama “visco” e em francês “gui”.

Além de esclarecer que se tratava de uma planta e não de um ninho, fiquei também a conhecer o aspecto do “visco”, ingrediente essencial para a poção mágica que aumentava imenso a força de quem a bebia, preparada na aldeia do Astérix pelo druida Panoramix.

Nesta tira o druida informa que a composição da poção é secreta, passando apenas de boca de druida para orelha de druida, apenas podendo revelar dois ingredientes da poção, o visco que é essencial e um lavagante que, não sendo essencial, melhora o respectivo sabor.



Foram dois coelhos de uma só cajadada, como se costumava dizer.

A Economia de Francisco, por Luís Cabral


O Papa Francisco tem falado nos problemas da economia, na linha da doutrina social da igreja, chamando a atenção para a necessidade de alterar alguns dos comportamentos dominantes.

Decorreu no dia 14/Jan na AESE uma apresentação pelo economista Luís Cabral de que deixo aqui a introdução breve (2min:29s) a essa apresentação:



O power-point que acompanhou a sessão encontra-se disponível neste sítio da AESE.

Vai-se realizar em 26-28/Março/2020, em Assis na Itália, um encontro anunciado neste sítio do Vaticano que refere www.francescoeconomy.org

É curioso como na Gestão se fala constantemente na necessidade da mudança e numa disciplina das ciências sociais como é a Economia, as mesmas ideias têm sido defendidas de forma intransigente durante décadas.

2020-01-14

Pombos em árvore nos Olivais Sul


Tendo-se os pombos adaptado tão bem às cidades uma pessoa habitua-se à ideia que eles se alimentam nas praças com comida ou restos da mesma dos seres humanos e habitam em beirais, reentrâncias de prédios abrigadas da chuva e também estátuas e grupos escultóricos.

É por isso que fico algo surpreendido quando os vejo a debicar num prado em vez duma calçada como neste post ou empoleirados nos galhos de uma árvore como vi há uns dias nos Olivais


Talvez não os veja em árvores no Verão por estarem escondidos pela folhagem.


2020-01-08

O Mito de Sísifo revisitado


Gostei da originalidade deste cartoon da revista New Yorker (Sideline Interview with Sisyphus by Jay Martel) sobre o Mito de Sísifo
que talvez represente também a aspiração de muitos americanos a terem acesso a cuidados de saúde, pelo menos depois de acidentes de trabalho.
A representação num vaso grego e na maioria das representações desde então põem a tónica no momento do esforço


Trata-se de uma metáfora da condição humana, do absurdo da existência, pois qualquer realização pessoal está sujeita a desaparecer. Durante e depois da guerra de 1914-18 e acentuando-se com a guerra de 1939-45, o absurdo da existência ganhou imensa popularidade entre os intelectuais que, muitas vezes faltando-lhes o estímulo do esforço quotidiano para sobreviver, se dedicavam a escrever ensaios nihilistas. Os cientistas passaram por uma fase semelhante quando ficou bem estabelecido o Segundo Princípio da Termodinâmica mas entretanto, com tanto conhecimento novo que foi sendo descoberto têm-se mantido entretidos sem grandes depressões.

Albert Camus (1913-1960), um escritor francês nascido na Argélia, nobel da literatura em 1957, publicou em 1942 um ensaio intitulado precisamente “O Mito de Sísifo” (numa edição em português tinha 136 páginas) sobre como coexistir com este mito.

Na juventude li “A Queda”  descrição duma auto-análise da personagem de que gostei imenso, não me lembro se consegui acabar de ler “O Estrangeiro” de que toda a gente dizia na época maravilhas, li “A Peste” até ao  fim e em 2001, como uma espécie de homenagem à boa memória que o escritor me tinha deixado, li uma publicação da Contexto Editora intitulada “Actualidades”, uma colecção de ensaios publicada em 1950 pela Galimmard.

Era um homem de grande estatura moral que na cerimónia do Nobel disse, a propósito dos actos terroristas que nessa altura ocorriam na Argélia, alegadamente com o objectivo de obter a independência de França:
“En ce moment, on lance des bombes dans les tramways d'Alger. Ma mère peut se trouver dans un de ces tramways. Si c'est cela la justice, je préfère ma mère.”

Nos 60 anos da morte de Camus existem algumas comemorações e provavelmente reedições de obras deste escritor.

Desde que fui ao sul da Índia onde existe maior abundância de templos hindus pois os muçulmanos destruiram mais templos no Norte, familiarizei-me com alguns dos elementos arquitectónicos. O sítio principal de cada templo é o pequeno compartimento onde está uma representação ou um símbolo do deus a quem o templo é dedicado. Sobre esse compartimento constroem a “Vimana”, uma torre oca com a forma de pirâmide com vários andares em cujo topo está o que parece ser uma pedra enorme pesando várias toneladas.

Digo “parece ser” porque li na internet que não se tratava de uma única pedra mas de várias pedras, organizadas de forma a parecer uma única. De qualquer forma foi necessário no século XI elevar pedras bastante pesadas deste templo dedicado ao deus Shiva.



A relutância dos fazedores de coisas em documentar os processos de construção é lendária, antes eram as construções, agora são os programas dos computadores. Digo isto porque não existe a certeza sobre os métodos de construção destas vimanas se bem que o natural terá sido o uso de planos inclinados de terra e areia e o auxílio de elefantes domesticados na tarefa de tracção das pedras para o local onde estão há um milhar de anos no caso deste templo dedicado a Shiva.

Quando vejo pedregulhos colocados por seres humanos em sítios altos penso que, sendo um pouco absurdo o esforço, sempre estiveram entretidos com qualquer coisa positiva que, ao contrário do Sísifo, ficou para além da morte deles, coisa essa que foi muito preferível ao entretenimento da guerra.

O templo que acabo de mostrar chama-se Brihadishwara, está em Gangaikonda Cholapuran, ~30km de Kumbakonan, no estado do Tamil Nadu. tendo sido construído por membro da dinastia Chola. A foto é de Março/2012.


2020-01-06

Madeleine Albright, Fascismo – Um alerta



Gostei muito de ler, é refrescante ver a face racional, sensata, empática, solidária  dos Estados Unidos da América.

Enumerando os capítulos:

- O que é o Fascismo
- Mussolini
- Hitler
- Aliança nazi-fascista e sua influência na Europa
- Queda do nazi-fascismo na Europa
- O Pós-guerra (1939-45)
- Regresso ao genocídio nos Balcãs
- Notícias falsas
- Derivas autoritárias
    na Venezuela,
    na Turquia e
    na Rússia.
- Fraquezas da Europa
    na Hungria,
    na Polónia e
    na Alemanha
- Fascismo na Coreia do Norte
- Perigos do presidente Trump
- Os pesadelos e as ameaças à democracia
- As perguntas certas para o futuro.




Adenda: achei graça a estas duas frases na página 223 deste livro a propósito dumas eleições recentes na República Checa, seu país natal:

«Muitos eleitores parecem acreditar que, uma vez que os ricos não têm necessidade de roubar, não o fazem. Veremos.»


EDP - O caso da bombagem no rio Sabor e no rio Tua (2)


O post anterior sobre a eventual venda das centrais hídricas nos rios Tua e Sabor têm suscitado bastante mais visitas do que o habitual neste blogue.

Tenho recebido alguns mails sobre o tema em que me dizem que caso a venda se concretize será fácil a EDP e a compradora se entenderem através de contratos bilaterais sobre o uso da água nas albufeiras comuns.

Esses contratos entre companhias que deveriam ser concorrentes poderão constituir uma viciação da concorrência, um cambão ou um cartel. O mercado ibérico de electricidade não decide o uso da água da Valeira (ou da Régua) mas propostas de venda e de compra de energia eléctrica para cada hora e para cada central e/ou grupos de centrais hidricas.

No caso de vir a existir separação dos agentes que fazem propostas ao mercado pressupondo uso da água da albufeira da Valeira seria perfeitamente possível que o mercado escolhesse para funcionar numa mesma hora quer a central da Valeira quer a bombagem da Valeira para o Sabor.

Por exemplo a EDP, como concessionária da central da Valeira e da albufeira da barragem com o mesmo nome, tem actualmente a obrigação de não descer a cota da Valeira a uma velocidade superior a 15cm/h para evitar aluimentos nos taludes do caminho de ferro da linha do Douro. Na ausência de afluências a uma dada albufeira no rio Douro a central respectiva tem a sua potência limitada para cumprir esta restrição. Quem teria essa responsabilidade no futuro? Tratando-se de uma concessão o Estado terá certamente uma palavra a dizer sobre este tipo de problemas que não existem actualmente.


2019-12-30

EDP - Energias de Portugal, o caso da bombagem no Rio Sabor e no rio Tua


Há alguns anos que eu estava para mostrar este diagrama do Engº Seca Teixeira, então director da Companhia Portuguesa de Produção de Electricidade, uma subsidiária detida então a 100% por uma empresa denominada Electricidade de Portugal que mudou de nome para “Energias de Portugal” em 2004.



O diagrama mostra que o grande caudal de 9270 m3/s do rio Douro que apareceu na sua foz em 27/Dez/2002 foi causado pelas afluências geradas em Portugal com o valor de 8495 m3/s, já que de Espanha vieram apenas nessa altura 775 m3/s. As barragens então existentes estão representadas por rectângulos cinzentos que atravessam os caudais a azul.

Nessa altura no Douro Nacional estavam já concluídas as 5 barragens que ainda hoje existem e que são, na ordem de montante para jusante, Pocinho, Valeira, Régua, Carrapatelo e Crestuma-Lever. No afluente Távora existia ainda a barragem de Vilar e no afluente Tâmega a barragem do Torrão. Se somarmos os caudais dos afluentes do Douro mais o que vem de Espanha (775+1480+1460+2120+100+750+1145+1440) obtemos 9270, concluindo-se assim que a contribuição directa das encostas do rio Douro é insignificante.

Esta abundância de rios selvagens, afluentes do rio Douro em Portugal, documenta o disparate de Miguel Sousa Tavares quando, argumentando contra a construção de barragens no rio Sabor, alegava tratar-se não só do último rio selvagem de Portugal como mesmo da Europa!

Neste artigo do jornal Público intitulado “Sabor abre debate sobre necessidade de reserva estratégica no Douro"
Seca Teixeira afirma:
“... Sempre dissemos que, em relação à cascata de aproveitamentos do Douro, estamos totalmente dependentes da gestão espanhola. Com o Baixo Sabor, que terá uma capacidade de armazenamento útil de 630 hectómetros cúbicos, ficaremos mais independentes…"

depois Pedro Serra, presidente da Comissão de Avaliação do impacte ambiental:
"…o sistema electro-produtor tem de produzir na mesma medida dos consumos e o Sabor pode regular a produção, alimentando toda a cascata quando há um pico". A barragem, por si só, tem uma produção reduzida - 150 megawatts - mas "dá garantias para a produção de 700 megawatts ao longo da cascata…"

e ainda Oliveira Fernandes, professor no Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Porto:
“...uma das principais vantagens desta barragem será a sua reversibilidade, isto é, a sua capacidade de rebombar água para a albufeira, servindo assim de armazenamento energético. "Pode-se usar a energia produzida pelas eólicas durante a noite, quando não é utilizada, para recarregar a bacia da barragem superior", explica. Ou seja, a energia eólica é "transformada" em água que volta, quando necessário, a ser "transformada" em energia, no caso hídrica.”

Todas estas considerações são muito pertinentes designadamente para avaliar a consistência destas posições com a alegada intenção da EDP de, segundo notícias da imprensa como esta do jornal Expresso, ter colocado à venda  a exploração de 6 das centrais hídricas que lhe estão concessionadas, designadamente Miranda, Picote e Bemposta no Douro internacional e ainda Baixo Sabor e Feiticeiro (ambas no rio Sabor) e  Foz Tua.

A EDP prescinde assim de controlar os aproveitamentos do Baixo Sabor que lhe permitiam um controlo adicional de quatro centrais de fio-de-água do Douro Nacional, controlo adicional esse que usou para justificar a construção das barragens no rio Sabor.

Ao separar a exploração do Baixo Sabor da exploração das centrais hídricas do Douro Nacional poder-se-á assistir a uma sub-utilização deste conjunto pois o responsável pela bombagem do Baixo Sabor não entrará em consideração com os ganhos económicos potenciais que a EDP poderá obter nas centrais hídricas que alegadamente pretende manter em Portugal.

O mesmo raciocínio se aplica à central de Foz Tua cuja bombagem também influencia não quatro mas três centrais do Douro Nacional.

Acho muito estranho este interesse da EDP em abandonar centrais hídricas que explora em Portugal. Mesmo considerando que é indispensável que as empresas se internacionalizem e que a EDP se endividou em excesso e precisa de alienar património, porque não alienar produções eólicas ou térmicas, que não estão tão firmemente ligadas à geografia de Portugal e à exploração do sistema electroprodutor respectivo, ou mesmo alienar alguns investimentos que fez no estrangeiro para manter a base essencial em Portugal, como costumam fazer as multinacionais cuja empresa mãe se encontra num país desenvolvido.

Esta venda diminui assim a competitividade de Portugal, ao criar uma estrutura de propriedade que dificulta a optimização de um sistema hídrico que seria muito mais eficaz caso permanecesse gerido por uma única entidade. Quem irá pagar esta ineficácia será ou o consumidor ou o contribuinte ou ambos, entidades que deveriam ser protegidas pelo Governo e pelos Reguladores.


Adenda em 2020-01-03:  E não tenho conhecimento de legislação sobre o direito que terão as centrais localizadas no Tua e/ou no Sabor de retirar água existente nas albufeiras respectivamente da Régua e da Valeira. É como costumam dizer alguns economistas a "tragédia dos comuns": quem pode retirar a água da albufeira da central da Régua? A central da Régua para a turbinar ou a central do Tua para bombar? O mesmo se passa na Valeira <> Sabor. Esta situação não se verifica no Douro Internacional em que a bombagem se faz com água na albufeira de Aldea d'Ávila e na albufeira de Saucelle, os espanhóis não bombam água das nossas albufeiras.

2019-12-29

Kintsugi


Em tempos comprámos na Finlândia umas flores estilizadas, de madeira com formas geométricas pintadas, e uma jarra de vidro de cor amarela e com uma forma irregular, lembrando a jarra (ou vaso) Savoy desenhada por  Alvar Aalto e por sua mulher Aino Marsio que mostro aqui ao lado.

A dita jarra amarela com as flores de madeira estão sobre uma cómoda ao pé duma janela e em dia de muito vento a cortina esvoaçou até essa jarra e arrastou-a para o chão de madeira onde ela  se partiu numa meia-dúzia de bocados.

Julgo que a jarra não foi cara mas não tendo informação sobre onde encontrar uma idêntica ou semelhante decidi-me a colar a jarra de vidro. Porém, as fracturas iam ficar muito visíveis pelo que pensei que colando um papel dourado enrugado como se usa nas decorações de Natal talvez ficasse melhor.

Passo a  mostrar o resultado final, primeiro  só a jarra



e depois já com as flores de madeira pintadas, a imagem da direita com um pouco de luz artificial para diminuir as sombras do lado esquerdo da imagem




Agora fui ao google e usando a imagem da jarra reparada encontrei estas jarras finlandesas artesanais feitas na firma Muurla.


Possivelmente será possível comprar online mas por enquanto tenho o problema resolvido.

Entretanto falaram-me numa técnica japonesa de reparação de cerâmica em que se valorizavam as linhas de fractura usando uma cola dourada, por vezes mesmo com pó de ouro, uma vez que não era possível esconder completamente as fracturas da peça.

Recentemente vi na net, não me consigo lembrar onde, uma referência a esta técnica que se chama Kintsugi que tem naturalmente uma entrada na Wikipédia.


Não sei se a minha técnica de reparar a jarra se poderá considerar uma variante da Kintsugi mas pelo menos tem afinidades.

Houve quem gostasse tanto do aspecto de peças tratadas com kintsugi que até partiu cerâmica para a poder decorar posteriormente. Isso já me parece exagerado. Este filminho mostra a técnica.



2019-12-28

Chuva e depois Sol


Em Lisboa choveu bastante durante alguns dias, o que devolveu aos prados dos Olivais a sua cor verde. Depois vieram os raios de sol e talvez por isso apareceram logo nos prados umas florinhas amarelas. No dia 22/Dezembro deste ano tirei esta foto


Com temperaturas acima de 10º, o que acaba por ser frequente em Dezembro em Lisboa nos dias com sol, lembro-me sempre da cara de espanto dum belga quando tivemos uma reunião em Lisboa há uns anos no princípio de Dezembro a perguntar-me: há agora algum fenómeno excepcional ou o tempo aqui em Dezembro é mesmo assim?



2019-12-23

A viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães



Comemorando os 500 anos da viagem de circum-navegação o jornal Expresso distribuiu nas últimas semanas uma série de 5 livrinhos



em que os 3 primeiros são uma reedição da obra de Stefan Zweig “Fernão de Magalhães. O homem e sua acção (Biografia)” publicada em 1938 e traduzida em muitas línguas e os 2 últimos são intitulados “Fernão de Magalhães – A Viagem por Gonçalo Cadilhe”.

Li  com interesse os 5 livros, a parte do Stefan Zweig não é uma obra de historiador mas relata de forma muito interessante quer as primeiras viagens de Fernão de Magalhães ainda ao serviço de D.Manuel, rei de Portugal, quer as vicissitudes sofridas durante a primeira viagem de circum-navegação da Terra, já ao serviço de Carlos V, rei de Espanha.

Presumo que o Stefan Zweig foi no geral fiel aos conhecimentos históricos de 1938 sobre os eventos da biografia e em situações onde existiam mais do que uma versão do que se terá passado terá escolhido a que gostou mais ou que se integrava melhor na obra biográfica.

Stefan Zweig destaca bem o desconforto da armada de 5 navios de Espanha ser comandada por um português, numa altura em que existia tanta competição entre navegadores dos 2 países.

Magalhães estava convicto que o estuário do rio da Prata, onde se situam agora as cidades de Buenos Aires e de Montevideu, seria a passagem do oceano Atlântico para o Pacífico e ao constatar não existir aí uma passagem foi forçado a fazer verificações morosas da costa da Argentina vendo-se obrigado a passar o Inverno austral na baía de S.Julião (49º19’Sul, 67º44’ Oeste), 350 km a Norte da entrada do Estreito de Magalhães e 1800 km a Sul da foz do Rio da Prata. Para dar uma ideia, na Europa nesta latitude está o Canal da Mancha, comparando Puerto San Julián e Dover, constata-se que o inverno é mais frio nesta zona da Argentina.

Foi onde ocorreu um motim em que os amotinados mataram um elemento da tripulação. Fernão de Magalhães condenou o assassino à morte abandonando ainda dois outros membros da expedição, na costa desértica e inabitada dessa parte da Argentina, de quem não houve mais notícia.

Quando finalmente descobriram a passagem entre os dois oceanos, que tem cerca de 500 km de extensão, o navio San Antonio regressou a Espanha abandonando a expedição após motim em que o comandante do navio Álvaro Mesquita foi preso pela tripulação tendo o navio sido capitaneado por Jerónimo Guerra e pilotado por Estêvão Gomes na viagem de regresso a Espanha. Este piloto manifestara, em reunião convocada por Fernão de Magalhães, a opinião que dado o cansaço e poucos mantimentos disponíveis nos navios seria mais prudente regressar a Espanha e no ano seguinte fazer outra expedição, iniciando a travessia do Pacífico em boas condições.

Fiquei com curiosidade de saber como teria o rei de Espanha avaliado esta iniciativa desertora de Estêvão Gomes (Estéban Gomez). Li as versões da Wikipédia sobre este piloto em português, espanhol e inglês.

Quando o navio San Antonio chegou a Sevilha em Maio/1521 Estêvão Gomes foi imediatamente preso mas quando em Setembro/1522 chegou o único navio sobrevivente da expedição, comandado por Sebastián del Cano, face às descrições do que se tinha passado, foi libertado. Posteriormente convenceu o imperador Carlos V a financiar uma expedição em 1524 para fazer um levantamento da costa da América do Norte e procurar outra eventual passagem para o oceano Pacífico.

Encontrei também este documento em formato .pdf
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Fiquei impressionado com a facilidade de acesso a esta informação já bastante especializada.

2019-12-16

Feliz Natal e Bom Ano Novo de 2020


Boas Festas e Feliz Ano Novo de 2020, desta vez com uma Natividade pintada por Sandro Botticelli entre 1482 e 1485, portanto há mais de 500 anos, um intervalo de tempo que na minha juventude me parecia infinito e agora apenas muito grande



Cheguei à imagem googlando (botticelli nativity), está no museu "Isabella Stewart Gardner" em Boston onde tem uma pequena nota sobre a obra. Gostei de ver um pai mais activo no tratamento do menino Jesus, nas representações clássicas tocar o menino parece um exclusivo da Virgem Maria.




A qualidade das reproduções varia imenso na net, as imagens da fundação Getty são das melhores disponíveis e fui lá buscar este detalhe do mesmo quadro, apenas com o S.José e a Virgem Maria



Ainda no site das Getty Images tinha este detalhe mais pormenorizado desta Madona maravilhosa, como tantas outras de Botticelli









2019-12-12

Mahatma Gandhi (5), incluindo 4 posts prévios


Comecei por publicar um post por cada livro da série sobre o Gandi referida a seguir. Neste quinto post optei por repetir os 4 anteriores seguido de breves notas referentes ao livro 5 e ao que se passou após a independência.

Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948) foi um indiano notável que deu uma contribuição importante para a autodeterminação da parte indiana do império britânico

Em Janeiro de 2019 o jornal Expresso editou em 5 pequenos volumes uma autobiografia de Gandi intitulada “A minha vida e as minhas experiências com a verdade”. A obra foi escrita por Gandi na língua guzerate enquanto estava na prisão na Índia, nos anos de 1927 a 1929, portanto com quase 60 anos, cobrindo a sua vida desde a infância até 1921. A obra foi publicada em textos semanais em guzerate e posteriormente também em inglês em jornais indianos.

A Wikipédia tem uma entrada sobre o livro, como habitualmente telegráfica em português e bastante completa em inglês.

A figura de Gandi goza da  minha simpatia, ainda mais depois de ver a personagem interpretada por Ben Kingsley no premiado filme “Gandhi” de Richard Attenborough estreado no ano de 1982 e que revejo às vezes no DVD.

Gostei de ler o conjunto dos 5 volumes mas, dada a existência de descrições organizadas da obra, limitar-me-ei a comentar alguns assuntos avulsos ou alguns pormenores que me chamaram mais a atenção.

Parte I (Livro 1)

1.1) Não comer carne

Em tempos, ao falar com um colega indiano sobre o tabu de não comer carne de vaca ele explicou-me que, face às condições climáticas da Índia e à sua densidade populacional, as vacas (e os bois) eram um capital muito importante para a agricultura, quer para lavrar os campos, quer como fonte de produtos lácteos ou ainda para fornecer excrementos a usar como adubo ou como combustível. Provavelmente, dizia esse meu colega, o conselho para conservar as vacas evoluiu para uma proibição de matar e mais tarde para um tabu religioso.

Agora googlei (importance of cow taboo in indian agriculture) e apareceu-me logo este artigo da biblioteca da Universidade de Gotemburgo na Suécia “India’s sacred cow”, de Marvin Harris de Fev/1978, com a mesma tese.

Há bastante tempo que se fala do maior consumo de energia associado ao consumo de carne de uma maneira geral e da carne de vaca em especial. Ultimamente a carne dita vermelha tem sido objecto de avisos para suprimir ou no mínimo moderar o seu consumo, por razões de saúde.

Já tenho referido a minha simpatia por um consumo muito moderado de carne mas tenho achado pouco prático uma supressão completa. O consumo de carne é comum entre os animais carnívoros e omnívoros e provavelmente o nosso organismo estará adaptado ao seu consumo.

Reconheço que provavelmente reconsideraria estes meus hábitos se tivesse que matar eu próprio o animal mas essa necessidade ainda não se colocou.

Resumindo, o consumo de carne é para mim uma questão de saúde, de sustentabilidade do planeta, de economia e de existência de pessoas disponíveis para matar animais ou, num futuro próximo, de carne feita em laboratório, sem recurso a animais vivos.

Achei assim curioso que o Gandi, quando foi para Inglaterra, tenha jurado à mãe que nunca se alimentaria com carne. Mas, pensando bem, tratando-se de uma interdição religiosa, acaba por ser natural esse tipo de juramentos.

Para ilustrar algumas formas mais modernas de preparar o Cozido à Portuguesa deixo aqui esta imagem que me dizem ter sido do restaurante Tavares Rico que já mostrara aqui.



Ainda tem carne mas já muito menos do que era costume

1.2) Usos e costumes sociais

Além dos problemas relacionados com a sua alimentação vegetariana, completamente atípica  na Inglaterra dos anos 90 do século XIX e mesmo sabendo que o conhecimento de outras culturas distantes está hoje muito mais acessível à população em geral, não deixei de me admirar com o grau de ignorância do jovem Gandi sobre os usos e costumes quer da vida a bordo quer da vida quotidiana na Inglaterra.

Uma parte engraçada que conta no livro foi ter desembarcado em Inglaterra vestido com um fato de flanela branca no início do Outono (o barco saíra de Bombaim em 4/Setembro), sendo a única pessoa de Londres vestindo um fato branco nesse dia, todos os outros estando com fatos escuros, situação que Gandi recorda no livro, como lhe tendo causado grande desconforto. Faço a conjectura que o facto de os ingleses na Índia terem maior tendência para usarem cores claras terá levado o Gandi a pensar que as cores claras seriam mais apropriadas para usar em Inglaterra, se bem que durante a viagem no barco tenha vestido um fato escuro.

Se calhar foi também este trauma que o levou a vestir traje indiano de camponês quando passadas várias décadas revisitou Londres para então negociar transição da Índia para a independência.

Os códigos de vestir continuam presentes nos tempos que correm, continuando a depender do espaço e do tempo. Por exemplo os jeans, que anteriormente eram explicitamnete proibidos em muitos estabelecimentos de ensino há algumas décadas, são agora não só tolerados como mesmo “obrigatórios” se bem que “de facto” e não “de  jure”. Jovens têm-me dito que quem apareça com calças de flanela será objecto de observações que o levarão a prescindir de aparecer em público com esse tipo de roupa.

Pode ser que este post acabe por ser o único sobre o livro do Gandi, escrever sobre uma figura tão notável acaba por ser uma tarefa delicada.



Parte II (Livro 2)

2.1) Início de actividade como advogado na Índia e migração para a África do Sul

Fui surpreendido com a falta de enquadramento de um advogado recém-licenciado na longínqua Inglaterra quando iniciava a sua carreira na Índia nos finais do século XIX. Depois dum bloqueamento da primeira vez que defendeu uma causa em tribunal, Gandi devolveu os honorários que cobrara e passou a questão a outro colega advogado, passando a escrever pareceres e memorandos, evitando assim a pressão da sala do tribunal.

Dificuldades que teve posteriormente no relacionamento com funcionários da administração britânica na Índia levaram-no a emigrar para a África do Sul, para dar apoio a uma firma indiana que lá operava.

Aí descreve a discriminação de que, passado algum tempo, foi alvo num combóio quando portador de um bilhete de 1ª classe o revisor lhe exigiu que fosse para 3ª classe, dada a sua condição de “não branco”, seguido de expulsão violenta do combóio, dada a sua recusa em mudar como retratado no filme “Gandhi” de Richard Attenborough.

2.2) Religiões

Boa parte deste segundo livro aborda o contacto com cristãos e suas tentativas de o converter.

Alguns cristãos com quem contactou faziam uma interpretação abusiva da redenção dos pecados, desde que se fosse cristão podia-se pecar à vontade de consciência tranquila pois Jesus Cristo viera à terra para com a sua morte redimir todos os pecados dos fiéis. Era assim uma religião melhor que muitas outras que exigiam um esforço de praticar o bem e evitar o mal. Segundo a doutrina cristã dominante os pecados dos cristãos são perdoados face a um arrependimento e ao propósito firme de não os repetir. E na Bíblia existem referências a um Juízo Final donde se deduz que a redenção dos pecados não tem esse aspecto automático referido por esses cristãos pouco informados.

Neste período teve oportunidade de ler textos sagrados do Hinduísmo, do Islão, do Budismo,  do Cristianismo e doutras religiões, bem como introdução e comentários aos mesmos. Parece natural que os pais eduquem os filhos na religião em que acreditam e na Europa durante séculos o Cristianismo era a única religião “disponível” se bem que com heresias ocasionais e com as cisões dos séculos XI e XVI conforme gráfico que apresentei aqui.

Nascer na Índia trazia uma experiência diferente da Europa pois as pessoas não precisavam de viajar para terras distantes para entrar em contacto com crenças religiosas radicalmente diferentes das existentes na sua família. Na  minha primeira viagem à Índia fizeram-me pela primeira vez a pergunta sobre qual era a minha religião. Em Portugal partia-se do princípio que seria católico mais ou menos praticante. Com a globalização e a facilidade actual dos fluxos de informação a norma global passou a ser mais parecida com a situação indiana.

2.3) Início de actividade política na África do Sul

Foi através de reuniões de pequenas assembleias de cidadãos indianos cuja dimensão foi aumentando sucessivamente que o Gandi se foi treinando a falar em público a audiências cada vez maiores, constituindo a associação política “Congresso Indiano de Natal” que lutou pelos direitos dos indianos nessa parte de África.

Refere a necessidade de recolher fundos para a actividade política, a boa prática de não contrair dívidas para essa actividade nem de acumular dinheiro por gastar, mantendo portanto um equilíbrio permanente entre receitas e despesas.

Passei por acaso por um artigo sobre o véu islâmico e lembrei-me dum incidente do Gandi no exercício de advocacia na África do Sul em que lhe exigiram que não usasse na sala do tribunal o seu turbante.


Ao fim de 3 anos, em1896 (com 27 anos), o Gandi viajou até à Índia  onde fez alguns discursos e de onde regressou à África do Sul com a mulher, dois filhos e o filho único da irmã viúva.



Parte III (Livro 3)

3.1) Financiamento das fundações

Gandi era bastante radical neste tema como se vê nesta citação:
«...Alguns dos assim chamados grupos religiosos deixaram de prestar quaisquer contas. Os seus administradores transformaram-se em proprietários e já não são responsáveis perante ninguém. Não tenho a menor dúvida de que o ideal é que tais instituições vivam, como a natureza, do dia a dia. A organização que não conseguir apoio da comunidade não tem direito a existir como tal. As doações que uma organização assim recebe anualmente são o termómetro da sua popularidade e da honestidade da sua administração e acho que todas elas devem passar por este teste.»

Embora considerasse que existiam entidades que pela sua própria natureza não podiam ser geridas sem instalações permanentes, considerava que mesmo para essas as despesas correntes deveriam ser cobertas por doações anuais.

3.2) Educação dos filhos

Gandi apercebeu-se que as instituições educativas inglesas eram um dos pilares do império britânico pelo que chegou a aconselhar os jovens indianos a abandonar esses estudos: “em 1920 convocou jovens a sair das das cidadelas da escravidão – as suas escolas e faculdades. Disse-lhes que era muito melhor permanecer sem instrução e quebrar pedras, em nome da liberdade, do que receber educação superior atados aos grilhões da escravidão”.

Porém, foi incapaz de simultaneamente fornecer alternativas quer através de novas instituições educativas quer através de formação dentro da própria família, para a qual dispunha de tempo insuficiente para essa tarefa, dadas as suas actividades em prol das comunidades indianas.

Este foi um ponto de discórdia com os filhos que se consideraram prejudicados pela falta de instrução escolar.

3.3) Castidade

Os seres humanos são sujeitos a atracções fortes para garantir a sua sobrevivência e a sobrevivência da espécie. Essas atracções são muitas vezes premiadas por sensações muito agradáveis como por exemplo na alimentação ou no sexo, podendo transformar-se em obsessões. As sociedades tentam evitar essas obsessões através de regras morais a que corresponde a virtude da temperança ou de interdições eventualmente religiosas.

Gandi, depois de ter gerado alguns filhos convenceu-se que as relações sexuais deviam ter a procriação como única finalidade, considerando que fazer um voto de castidade o ajudaria a uma abstinência total, um conceito que designa por Brahmacharya.

Às “tentações da carne” na cultura cristã corresponde a “tentação da ascese”, fazendo o controlo através da supressão do impulso. A supressão absoluta da pulsão para comer não é aplicável de forma permanente pelo que os jejuns, se bem que existam, não podem ser para sempre pois sem limite de tempo são incompatíveis com a vida. Já em relação à pulsão sexual, a sua supressão total tem sido adoptada na vida monástica de várias religiões. Poderá ser benéfica para casos específicos, seria certamente nociva se imposta à maioria da população.

3.4) A vida de um carneiro

Durante estadia em casa de Gokhale, um seu mentor, Gandi visitou um templo da deusa Kali onde estavam a sacrificar muitos carneiros. Não aprovo o sacrifício de animais a divindades se bem que presuma que seja uma forma de fornecer proteínas a alguns grupos sociais.

Fiquei contudo chocado com a frase de Gandi “Para mim a vida de um cordeiro não é menos preciosa do que a de um homem”. Compreendo que uma pessoa adira ao vegetarianismo se bem que na natureza existam animais carnívoros. Comer carne é portanto uma actividade natural, o mesmo se podendo dizer de ter uma dieta exclusivamente vegetariana dado que existem espécies herbívoras, que se abstêm de comer carne. Mas é para mim incompreensivel não se sentir maior afinidade com um seu semelhante do que com outra espécie animal.

3.5) Darbar

Na Índia ocorriam reuniões dos governantes com os seus súbditos chamadas “Darbar” ou “Durbar” em inglês, eram formas periódicas de prestar vassalagem. Naturalmente durante o domínio britânico os governantes ingleses organizavam durbars para os quais convocavam os marajás na condição de vassalos.

Escreve o Gandi neste livro que os marajás eram nessas ocasiões forçados a usar sedas e jóias como se fossem mulheres, tratando-se de uma forma de humilhação imposta pelos ingleses.

Por curiosidade googlei Durbar e fui dar a este artigo do jornal Economic Times com estas fotos tiradas de um Durbar realizado em Delhi na semana passada, portanto em Nov/2019.

Constato que a palavra Durbar, como tantas outras, tem mudado de significado e será agora usada para reuniões sociais apresentando novas propostas de indumentárias.

Gostei muito destes vestidos embora não aprecie as jóias penduradas no nariz desta mulher



e constatei que afinal o uso de sedas e de jóias pelos homens nestas reuniões sociais



talvez faça parte da cultura indiana não sendo uma imposição do colonizador britânico.


Parte IV (Livro 4)

4.1) Discordância crescente

À medida que escrevo sobre esta autobiografia do Gandi vou notando um aumento do número de temas em que tenho uma discordância forte em relação a muitas das opiniões do Gandi.

Dada a minha formação de engenheiro e nulo activismo político, tirando a manifestação de uma ou outra opinião sobre a governação aos amigos e em poucos posts deste blogue, embora reconheça o papel muito importante do Gandi na recuperação que a Índia fez da sua soberania, tenho alguma dificuldade em entender uma eventual relação necessária entre o seu trajecto político e as suas opiniões “pré-iluministas”.

4.2) Teosofia

O livro refere que Gandi foi contactado, ainda na África do Sul, por membros da Sociedade Teosófica (Teosofia seria Sabedoria Divina, assim como Filosofia é “Amor pela” Sabedoria) e quando se apercebeu que esperavam dele contribuições para essa sociedade ter uma melhor compreensão da religião hinduísta acabou por ter um estímulo para ler melhor os clássicos indianos, designadamente o Bhagavad-Gita que referi aqui.

Achei estranha a referência de Gandi à memorização que fez de trechos do Bhagavad-Gita, parece-me semelhante a decorar o Corão, na religião cristã a memorização limita-se a meia-dúzia de orações, mesmo durante a celebração da missa o padre tem um livro a servir de ponto para dizer as palavras correctas sem ter que recorrer à memória.

Na liturgia actual, os serviços de notícias da TV, os apresentadores são ajudados por um teleponto para não se enganarem a comunicar as notícias do dia.

Bem sei que quando foi inventada a escrita os contadores de histórias, que tinham anteriormente de as decorar, lamentaram a descoberta desta nova tecnologia, não era a mesma coisa saber uma história de cor ou limitar-se a ler um livro e estes hábitos perduram por séculos, dizem-me que no Irão ainda existem contadores de histórias (https://www.utne.com/arts/irans-streetwise-storytellers-naghals ), que actuam na rua para quem quer ouvir.

Dando o benefício da dúvida, talvez seja um treino na arte da retórica pois tenho lido que o Bhagavad-Gita tem muitos bons exemplos de troca de argumentos.

Na referência à Teosofia na Wikipédia vi o nome de Annie Besant e googlei (annie besant indiana jones) pois julgo ter ouvido falar da Teosofia pela primeira vez na série da TV “Indiana Jones – Crónicas da Juventude) onde o jovem Indiana Jones visitava gente no princípio do século XX, gente essa que ficaria depois muito célebre.

Fui dar ao episódio “The Young Indiana Jones Chronicles - Journey of Radiance” de 1hora e 35 minutos disponível no Youtube e que deixo aqui


4.3) Leite e Caldo de carne

Existem plantas venenosas em que a ingestão de uma pequena quantidade pode causar grande mal-estar ou mesmo a morte. Distinguir as comestíveis das venenosas foi uma tarefa difícil e arriscada, ainda hoje ocorrem desastres quando se confundem cogumelos selvagens, foi uma das áreas de conhecimento em que foi mais útil a transmissão de informação entre os seres humanos.

Não conheço nenhuma proibição de indole religiosa em relação à ingestão de qualquer planta específica (os jejuns são indiscriminados) mas existem proibições de porco para muçulmanos e judeus, abstenção de sangue e produtos derivados para muçulmanos (através das técnicas prescritas para matar os animais) e de vaca para os hindus.

As proibições dos muçulmanos parecem sensatas para a região e época em que foram estabelecidas.

Também existiam razões para a proibição hindu do consumo de carne de vaca, uma delas era que as vacas podiam fornecer leite para consumo humano. Ora o Gandi, ao tomar conhecimento do tratamento que davam às vacas leiteiras achou por bem prescindir do leite da vaca e fez um voto de abstinência de leite de vaca e de ovelha. Entretanto adoeceu (o que é frequente na autobiografia) e embora lhe tenham lido textos sagrados que diziam que em caso de doença grave se devia abrir uma excepção à renúncia de leite, ele só muito tarde condescendeu em beber leite de cabra, que não estava no voto embora o Gandi considerasse que o estava a quebrar.

Doutra vez em que a mulher foi sujeita a uma operação e o médico considerou essencial para a recuperação a ingestão de caldo de carne o Gandi, ouvida a mulher, optou por levá-la para casa pois o médico recusou-se a tê-la no hospital sem a possibilidade de lhe dar caldo de carne. O único ponto positivo neste comportamento que me parece infantil é que faziam os testes neles próprios relatando os resultados a outras pessoas.

Mas tudo isto me parece muito disparatado. Descobrir uma alimentação saudável e descobrir quais os tratamentos mais eficazes para evitar e combater as doenças requer a cooperação de multidões de pessoas que dedicam toda a sua vida a estudar, aplicar e testar de forma sistemática uma multiplicidade de informações e de processos. E mesmo assim, dada a complexidade dos problemas, muitos dos comportamentos e processos que pareceram promissores vêm a revelar-se menos bons passados uns anos e vice-versa. Tentar descobrir processos que se possam aplicar à generalidade da população a partir de esperiências feitas no próprio corpo parece-me praticamente inútil.

E envolver a religião nestes assuntos parece-me contraproducente. Nutrição e Medicina devem ser deixados ao método científico de elaboração de hipóteses e teorias e sua verificação com possibilidade de as rever sempre que surjam factos novos que as infirmem.

4.4) Binóculo ao mar

Existe ainda a descrição de uma discussão tão continuada sobre a necessidade de levar uma vida simples que o Gandi acabou por convencer numa viagem de barco um dono de um binóculo a atirá-lo literalmente pela borda fora para não ter de o ouvir mais. Um binóculo poderá ser inútil para alguns donos, eu próprio tenho um que tem tido pouco uso, mas parece-me profundamente errado deitar fora um instrumento precioso e potencialmente muito útil. Será porque os camponeses indianos não precisam de binóculos e portanto não é razoável ou justo ter um binóculo? Parece uma rejeição de tudo o que vem do mundo industrializado o que é também completamente errado.


Até o Tintin foi uma vez salvo por causa duns binóculos!





Parte V (Livro 5)

5.1) Finalmente na Índia

Constato agora quando reabro este livro 5 que não escrevi notas numa das primeiras páginas como faço habitualmente. Presumo que a explicação será do filme Gandhi de Richard Attenborough mostrar com mais pormenor a actividade do Gandi na Índia, onde regressou vindo da África do Sul em 1915, com 45 anos, e onde se identificou com os mais pobres dos pobres e resistiu à opressão imperial britânica com métodos não violentos.

Esta autobiografia, que relembro ter sido escrita entre 1927 e 1929 enquanto na prisão, cobre a vida do Gandi desde o nascimento até 1921, "altura em que passou a liderar o Congresso Nacional Indiano conduzindo campanhas para reduzir a pobreza, expandir direitos da mulheres, incentivando coexistência de diversas etnias e religiões, acabando com a “intocabilidade” e sobretudo para obter a independência.

Para se livrar do jugo do colonizador rejeitou quase a totalidade dos elementos culturais que tinham chegado à Índia através da influência estrangeira cos colonizadores levando o pensamento técnico-científico a níveis pré-iluministas e queimando bens materiais, como por exemplo roupas, por terem sido manufacturadas na Grã-Bretanha. Considero esta radicalidade compreensível mas desnecessária.

O Gandi achou que a sua vida a partir de 1921 passou a ser tão pública e tão fortemente interligada com tantas outras pessoas que não faria sentido revelar algo que já era tão público e apenas sobre ele pois era impossível destrinçar a contribuição dada individualmente por cada membro do Congresso que trabalhou com ele.

5.2) Conhecimentos já falecidos

Tendo o Gandi escrito esta autobiografia entre 58 e 60 anos de idade impressionou-me o número de pessoas que conheceu e que já tinham morrido. Claro que os políticos interagem com um número muito maior de pessoas do que a média da população pelo que é de esperar que tenham mais pessoas conhecidas que já faleceram.

Notar porém que em muitos casos a esperança média de vida à nascença é muito baixa por causa da elevada mortalidade infantil mas para países em que morrem muitas crianças a esperança de anos de vida restante aumenta na passagem da adolescência para a idade adulta. Como os políticos com quem o Gandi interagiu foram conhecidos quando já eram adultos talvez não fosse de esperar que tantos já tivessem falecido.

5.3) Resultados de longo prazo

Depois da independência e com a instituição de um regime democrático acabaran as fomes letais que ocorriam de vez em quando no tempo do império mas permaneceu a subnutrição.

A intocabilidade foi suprimida de jure mas não acabou de facto, os direitos das mulheres têm melhorado lentamente mas permanece um déficit anómalo de jovens do sexo feminino, indiciando abortos selectivos e mesmo infanticídios favorecendo predominância de rapazes..

Com a ascensão do partido BJP (Bharatiya Janata Party) ao poder aumentaram as tensões entre muçulmanos e hindus e por exemplo este artigo da New Yorker é muito crítico da situação actual.

Observei  progressos notáveis nas viagens à Índia que fiz entre 1990 e 2012, no entanto a desigualdade na Índia tem aumentado mais do que noutrras zonas do globo, conforme se constata neste gráfico publicado publicado no le Figaro:



Depois das suas riquezas serem drenadas para fora da Índia pelo sistema capitalista parece compreensível a aproximação a Moscovo, se bem que não alinhada, pouco depois de ganhar a independência. O colapso do sistema soviético levou a uma abertura maior aos mercados o que, conjugado com a permanência da cultura de castas, colocou a Índia no topo da desigualdade nesta comparação com outras grandes áreas económicas.


2019-12-09

Manufactura dum Jogo Hex


Conheci este jogo na Dinamarca em 1971 quando na viagem de fim-de-curso do IST um colega o comprou em Copenhaga. Na Wikipédia refere dois autores independentes:

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O jogo foi inventado pelo matemático dinamarquês Piet Hein, que o introduziu em 1942 no Instituto Niels Bohr. Foi independentemente re-inventado em 1947 pelo matemático John Nash na Universidade de Princeton.
»


A configuração mais frequente é com 11x11 casas, quem joga primeiro tem vantagem que se desvanece com o aumento do número de casas. O jogo tem uma característica interessante de não admitir empates o que torna equivalente a melhor defesa ao melhor ataque. Portanto, não é preciso um "killer instinct" pois quem se contenta em se defender dos ataques do adversário está a construir uma linha que sendo a melhor barreira ao avanço do outro é ao mesmo tempo a melhor linha de ataque.

Mandei fazer há muitos anos um tabuleiro de madeira com furos, à semelhança da versão dinamarquesa,  mas nesse tempo não existia Excel e existiam marceneiros a custos razoáveis. Pensando dar uma vantagem mais pequena a quem inicia o jogo, na altura encomendei o tabuleiro com 13x13 casas em vez das 11x11 mais comuns, conforme se constata na foto respectiva:




Nos tempos que correm, com Excel e com marceneiros mais justamente remunerados, fiz uma ficheiro Excel para desenhar a estrutura de favo de mel e um ficheiro .pdf para a impressão respectiva. Ambos os ficheiros têm o nome "Hexagonos" e estão disponíveis neste sítio.

Depois de imprimir o ficheiro .pdf numa folha A3 de gramagem um pouco maior do que a do papel de  fotocópia numa loja do meu bairro (Loja de Fotografias, Rua Cidade Bolama, Nº 14-C 1800-079 Lisboa) comprei uma moldura de 30x40cm no AKI onde comprei também 70 porcas com furo de 8mm e largura exterior de 13mm. Precisei de cortar duas pequenas tiras de papel nos lados do papel A3 para caber na moldura. Depois derreti cera para dentro dos furos roscados de 35 das porcas para se distinguirem em dois conjuntos e fiquei a pensar que teria sido funcionalmente equivalente e provavelmente mais fácil encher os furos com plasticina em vez de cera.. Finalmente comprei no Tiger duas caixinhas de plástico com um conteúdo para aqui irrelevante.


Seguidamente coloquei o tabuleiro com um conjunto inicial de peças a fingir um jogo numa fase inicial e fotografei: