2019-01-17

Dos Mistérios ao Mystery Room


Não conhecia a designação “Religiões de mistérios” desta entrada em português da Wikipédia cuja versão em inglês é “Greco-Roman mysteries”, a que cheguei pela referência à Casa dos Mistérios no post anterior sobre um fresco da cidade de Pompeia.

De uma forma geral eu usava o termo “religiões pagãs” para designar os cultos religiosos que precederam o cristianismo mas apercebi-me agora melhor da existência de dois tipos de religiões, aquelas que aceitam a adesão de qualquer pessoa e as que “reservam o direito de admissão”. Nas primeiras os rituais serão normalmente públicos enquanto nas segundas tenderão a existir rituais secretos reservados apenas para os membros do “clube”, uma das formas de garantir a exclusividade da condição de membro.

Acho agora interessante o uso da palavra “mistério” para classificar uma religião, no cristianismo existem mistérios como por exemplo a Eucaristia, que consiste na transformação de pão e vinho respectivamente na carne e no sangue de Cristo, mas que é realizada publicamente numa parte da missa, a designação de “mistério” neste caso é de que ninguém sabe como se realiza a transformação, além de que o pão e o vinho mantêm as características organolépticas que tinham antes da alegada transformação.

Mas nesta procura de mistérios cheguei à Mystery Room do hotel  “Arizona Biltmore” em  Phoenix nos E.U.A.



Trata-se de um hotel concluído em 1929, desenhado pelo arquitecto Albert Chase MacArthur, irmão dos donos do hotel e discípulo de Frank Lloyd Wright, que deu alguma consultoria durante parte da construção.

Esta “Mystery Room” era usada para servir bebidas alcoólicas durante a Lei Seca (1920-1933) em que foi constitucionalmente proibido a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas nos E.U.A. Existia um empregado de vigia para avisar os clientes para saírem da sala através de passagens secretas caso fosse visto algum carro de polícia a aproximar-se do hotel. Clark Gable foi um dos clientes desta sala.

Eu já tinha ouvido que durante a lei seca serviam álcool em chávenas de chá em alguns estabelecimentos e que existiam salas escondidas onde eram servidas bebidas alcoólicas, mas julgava que essas infracções eram feitas em estabelecimentos de pequena dimensão, nunca supus que isto se pudesse passar numa instituição com a dimensão deste hotel.


Uma das características que me desagrada nos E.U.A. é esta facilidade com que um hábito frequente, como por exemplo o consumo moderado de bebidas alcólicas ou mesmo a abstenção das mesmas, se transforma em aconselhável e rapidamente em obrigatório como aconteceu neste caso. A uma excessiva pressão social responde depois um comportamento fora-da-lei.

Pensando bem, em Portugal passam-se situações vagamente semelhantes com, por exemplo, a limitação dos 120km/h nas auto-estradas mas, por enquanto, a vigilância policial tem sido muito ténue para pequenas violações do limite.

No sítio do hotel na internet (e também no hotel...) existem estes tijolos desenhados pelo arquitecto e feitos com areia do Arizona de que também gostei.






2019-01-10

Imagens sem Texto


No outro dia recebi um filminho tentando resumir o que tem sido a Europa. A selecção de imagens era magnífica, não gostei do discurso que as acompanhava. Gostei especialmente deste fresco de  Pompeia


e o que me chamou mais a atenção foi esta cara


que poderia ser no seu estilo naturalista uma fotografia a cores estragada pelo tempo. Bem sei que o ADN dos romanos era igual ao nosso, 2000 anos não é nada na mudança genética, mas até o penteado se poderia encontrar nos dias de hoje. São raras as pinturas do tempo dos romanos que chegaram até nós e também virá daí a minha surpresa.

Googlei a imagem e fiquei a saber que se trata dum fresco descoberto nas escavações feitas em Pompeia, numa casa soterrada que ficou muito bem preservada. Trata-se da Casa dos Mistérios

By ElfQrin - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45294723

que faz parte do Património Mundial da UNESCO em Pompeia.

No mundo Greco-Romano existiam várias "Religiões de Mistérios", que envolviam rituais secretos reservados a iniciados, frequentemente oficiados por sacerdotisas. Presume-se que esta casa seria dedicada ao culto de Baco. Na wikipédia tem imagem completa do mural que mostrei acima


donde retirei o mesmo detalhe


que não é tão nítido como o que mostrei em cima. Será que aplicaram o Photoshop à imagem?

Na Wikipédia diz que existem várias interpretações muito diferentes do significado dos frescos existentes nas paredes desta casa. Uma pessoa fica a pensar se uma Imagem sem Texto valerá mesmo as tais mil palavras.




2019-01-07

Joana Vasconcelos no Saco do Jornal Expresso


O jornal Expresso mudou o saco de plástico que envolvia os cadernos para papel, encomendando à Joana Vasconcelos uma pintura para o primeiro saco no novo material.

Ao olhar para cada um dos lados notei que existiam figuras repetidas mas cada lado era diferente. Separei os dois lados constatando que se podiam unir formando uma única imagem.

Colei as duas partes e fotografei. Infelizmente, como a cola que une as duas metades do saco é muito forte rasguei um bocado de um dos lados pelo que perdi cerca de 1cm do lado esquerdo. A colagem está imperfeita mas assim vê-se que se trata de uma colagem:




Não sou um fã incondicional da Joana Vasconcelos mas gosto de muitas das coisas que ela faz. Gosto desta imagem que transmite alegria, é um bom começo de ano

P.S. e agora que olhei para a capa da revista do Expresso constatei que está lá a pintura completa...

2018-12-31

Icosaedro


Tenho um fraquinho pelos sólidos platónicos, que já referi pelo menos aqui e aqui.

Neste Natal, na compra de prendas para os netos comprei para mim um conjunto de arestas magnéticas e esferas (da marca Geomag, passe a publicidade) que me permitiu fazer o tetraedro, o cubo e o octaedro porque a caixa básica que comprei tinha apenas 16 arestas e 18 vértices, não dando portanto para construir nem o dodecaedro nem o icosaedro, como se constata na tabela seguinte:

 
Sólidos Perfeitos Vértices Arestas
Tetraedro 4 6
Cubo 8 12
Octaedro 6 12
Dodecaedro pentagonal 20 30
Icosaedro 12 30

Comprei uma segunda caixa e já consegui  construir os dois sólidos que faltavam. Mostro a seguir o Icosaedro:


2018-12-29

Dinastias na China


O conceito de "país" tem muitas nuances, como se pode verificar consultando "País" na Wikipedia e depois a sua versão em inglês a que corresponde a palavra "Country". Será na maior parte das vezes uma região geográfica a que corresponde um estado soberano. Existem actualmente 193 Estados-membros das Nações Unidas, entidades a que também poderá ser associado o conceito de país, englobando a população e respectiva cultura.

Embora "país" seja um conceito útil tem grandes limitações. Falar por exemplo de Portugal e da China quando são habitados respectivamente por 10 e 1400 milhões de habitantes (dados de worldometers em 27/Dez/2018) é usar uma mesma categoria para realidades de uma natureza diferente. Neste caso, como com a União Indiana, existe uma diferença de  2 ordens de grandeza (mais de 100 vezes maior). Os EUA (Estados Unidos da América), com uma população 30 vezes maior, são mais de uma ordem de grandeza maiores do que Portugal no que diz respeito também à população.

Neste sentido, a China compara-se melhor com a União Europeia do que com cada um dos países da Europa tomados  por si. Por exemplo noutro dia assisti a um colóquio sobre a penetração de automóveis eléctricos nas várias regiões  do mundo e nessa estatística aparecia a China, os EUA, e os vários países europeus em separado. Nessa altura pensei que para as comparações fazerem mais sentido seria melhor ter agregado os valores dos países da União Europeia.

Há muitos anos tive a ilusão que a na disciplina de História do ensino secundário se deveria dar igual relevo à história de todos os continentes. Agora, com melhor noção da dimensão da minha ignorância, vejo que não é razoável tentar descrever no ensino secundário em Portugal (ou noutro país) uma História verdadeiramente Mundial (o uso de "Universal" é ridiculamente exagerado). O grau de detalhe da História em cada país deve ter um grau de detalhe que se vai desvanecendo à medida que a interacção com comunidades distantes se torna  mais fraca.


Mas dado que a nossa interacção com a China tem aumentado nos últimos anos, como resultado do desenvolvimento industrial a um ritmo sem precedentes que lá se tem verificado nas últimas décadas, pensei mostrar aqui alguns mapas políticos da muito longa história chinesa.

Desdobrei este ficheiro .gif da Wikipedia com uma animação das áreas geográficas ocupadas por várias dinastias chinesas


Territories of Dynasties in China.gif
By Pojanji, CC BY-SA 3.0, Link

numa sequência das imagens que o compõem, em que as transições são feitas pelo leitor em vez da cadência excessivamente rápida (para mim) do ficheiro .gif.

Trata-se de "instantâneos" de situações históricas, e é claro que as fronteiras que se apresentam são objecto de contestação, designadamente pelos países vizinhos, algumas delas constando da discussão na Wikipédia. Mas dá uma primeira ideia da duração e da complexidade do que por lá se passou nos últimos 3000 anos. As datas BCE e CE equivalem respectivamente a AC e DC (Antes e Depois de Cristo).

O Zh lê-se como o "j" em "jeans" em inglês, género Djins
O Q lê-se como Tch

Segue a sequência de imagens dos mapas históricos, cada um é precedido dum título e por vezes dum pequeno comentário, os mais recentes um pouco maiores

Dinastia Zhou em 1000 AC, por vezes considerado o primeiro império chinês


Os Estados Combatentes em 350 AC, dois mapas porque as legendas dos Estados não cabiam num único



Dinastia Qing em 210 AC,
 outras vezes o primeiro império é considerado este (em vez da dinastia Zhou), por o soberano que fundou esta dinastia, Qin Shi Huang (18 Fevereiro 259 AC – 10 Setembro 210 AC), se ter intitulado imperador ( (皇帝 About this soundhuángdì), o que fez em 221AC quando o reino Qin completou a conquista de todos os Estados Combatentes. Foi este imperador que ordenou a construção do recentemente descoberto Exército de Guerreiros de Terracota  e respectivo mausoléu nos arredores da cidade de Xian, então capital do império. Foi sucedido pelo filho que não conseguiu manter a unidade do império, foi assim uma dinastia muito breve.
Por esta altura Roma era uma República, o Mediterrâneo estava longe de ser o "Mare Nostrum" e a Pax Romana era considerada provavelmente uma utopia inatingível dado que as guerras se sucediam umas atrás das outras. Para refinar o eurocentrismo do parágrafo anterior passemos a uma visão Bombarralcentrica, talvez o Jardim da Paz na Quinta dos Loridos no concelho do Bombarral, criado pelo comendador Joe Berardo, existisse independentemente do reinado do imperador Qin Shin Huang, mas não seria a mesma coisa pois entre as numerosas esculturas de tradição asiática que o animam não estariam as reproduções polícromas dos guerreiros de terracota descobertos em Xian!


Dinastia Han em 100 AC, contactos ténues com o Império Romano,versão da Wikipédia em portuguêsem inglês


Três Reinos em 262 DC,
"o que esteve muito tempo unido deve-se separar, o que esteve muito tempo separado deve-se unir", é um ditado que ouvi, alegadamente chinês


376 DC

560 DC (por esta altura já caíra o Império Romano do Ocidente)


Dinastia Sui em 581 DC, regresso à união como aconselha o ditado



Dinastia Tang em 700 DC, (618-907) onde se fez impressão em série usando blocos de madeira, onde se usou pela primeira vez papel moeda na forma de cartas de crédito, onde se reavivou a estrada da seda, que foi travada na sua expansão para o ocidente na batalha de Talas em 751, vencida pelo Califado dos Abássidas


923 DC, outra separação

1141 DC, mesmo dividida em 3 reinos cada um deles tinha dimensão maior do que qualquer estado europeu, para não falar do recém criado Portugal, a dinastia Song durou de 960 a 1279, onde se imprimiram notas-papel moeda pela primeira vez


Dinastia Yuan em 1294, (1279-1368) resultante da invasão Mongol, foi proclamada por Kublai Khan, neto de Gengis Khan, em 1271 que concluiu a conquista dos territórios em 1279. Capital em Beijing.



Dinastia Ming em 1410, (1368-1644), fundada pelo imperador Hongwu (reinou 1368-1398) fez muitas reformas, governou pelo medo, capital em Nanjing, foi sucedido por neto que reinou 4 anos sendo deposto pelo tio Yongle (reinou 1402-1424) que também tinha mau feitio mudou capital para Beijing onde construiu o Palácio Imperial, a Cidade Proibida, usada pelos imperadores subsequentes das dinastias Ming e Qing. Foi neste reinado que o almirante Zheng He iniciou as sete expedições, numa das quais terá navegado até Madagascar. O 4º imperador parou as expedições por serem muito dispendiosas. Alguns imperadores que se seguiram destruiram informação colectada por Zheng He nessas expedições.
Foi durante esta dinastia, em 1513, que Jorge Álvares chegou à foz do rio das Pérolas na China, sendo o primeiro europeu a fazer esta viagem por mar. Em 1554 foi assinado um Acordo de Comércio Luso-Chinês entre Portugal e as autoridades de Guangzhou (Cantão), abrindo caminho para o estabelecimento de Macau 3 anos depois. Em 1550 tinham sido fechados todos os portos chineses ao comércio com o exterior.


Dinastia Qing em 1892, (1636-1912) fundada pelo manchu Aisin Gioro nela se destacaram também o imperador Kangxi que reinou durante 61 anos (1661-1722) e o seu neto imperador Qianglong que reinou de 1735 a 1796. Segundo a Wikipédia neste reino atingiu-se o pico desta dinastia seguindo-se a fase de declínio designadamente com a derrota na guerra do ópio em 1840, as concessões territoriais às potências ocidentais e a implantação da República em 1912. Referi no post "A imperatriz Viúva" um livro sobre o fim desta dinastia.

Present (2016)
Qualquer consulta a mais mapas históricos da China revelará muito maior complexidade do que estes singelos 16 mapas. E nas transições entre cada um deles derramou-se muito sangue e desenrolaram-se muitas tragédias. O conjunto de textos que acompanham estes mapas, se bem que curtos ficaram mais longos do que eu inicialmente planeara. Nesta última imagem constata-se que Taiwan ainda não se reuniu com a República Popular da China.

2018-12-20

Feliz Natal e Bom Ano Novo de 2019


Boas Festas e Feliz Ano Novo de 2019, desta vez com "La Vierge au Lys" do pintor académico Bouguereau


que já mostrara neste blogue num post de 2014.




2018-12-15

Árvore iluminada nos Olivais Sul (3)


Não resisto a mostrar este choupo fotografado por volta das 4 da tarde a meio de Dezembro.

A última vez que o mostrei foi num post em 2016-12-17. A imagem fora fotografada em 2016-12-12 15:43.

Esta foi tirada em 2018-12-14 16:08, e está um pouco mais alaranjada. Nestes 2 anos o choupo cresceu um pouco.




2018-12-12

LEGO organizado


Aconselhei um neto a dar alguma organização às peças soltas dentro da caixa de uma construção do LEGO, para evitar perda de tempo à procura de peças específicas durante a construção.

Constatei depois que o meu neto levou o meu conselho bastante em conta pois ao regressar a casa depois de uma breve ausência surpreendi-me com esta composição em cima dum tapete


Este castelo da LEGO é um dos exemplares vintage existentes na minha casa, a caixa tem muito mais peças do que estas, trata-se de uma organização temporária com vista à montagem rápida do castelo, que foi concluída sem ajuda passado pouco tempo.

Mas lembrei-me logo de Ursus Wehrli que já referi neste post, parece haver uma costela suíça na família.

E depois pensei que este meu gosto pelas coisas organizadas, que considero ser uma consequência da minha dificuldade em encontrar coisas no meio duma multidão caótica de objectos, deve ter contribuído (não só mas) também para apreciar o prato de azeitonas do post anterior deste blogue.

2018-12-11

Prato Solitaire para azeitonas


Vi na secção "Design" da revista do jornal Expresso de 8 de Dezembro de 2018 este maravilhoso prato


onde finalmente se podem mesmo comer as peças à medida que se vai fazendo esta famosa paciência cuja solução mostrei num filminho aqui, com 4 sítios para os caroços para o caso de não terem sido retirados.

Encontrei vários sítios referindo este prato aqui e aqui.

Dizem que também funciona com Maltesers. Pode assim funcionar nas entradas e nas sobremesas!


O gato persa revisto


Revi na mesma janela em 3/Nov/2018 o gato persa que vira tosquiado em 30/Jun/2018.

Volto a mostrar a situação de 30/Jun



e a seguir já regressado ao normal em 3/Nov, cerca de 4 meses depois







2018-12-07

O Budismo Tem Razão


Acabei de ler o livro “O Budismo Tem Razão” do psicólogo Robert Wright.

Foi o primeiro livro que li abordando o budismo de forma explícita, há muitos anos lera o Siddhartha do Herman Hesse, uma espécie de romance ou um romance que o autor classifica como uma espécie de poema. Verifiquei agora que em 2002 ou pouco depois reli este livro (edição vendida com o jornal Público), voltei a não gostar, a impressão que me ficou é que contém uns personagens que aceitam tudo o que os outros seres humanos fazem, achei que aceitavam em demasia.

Como habitualmente trata assuntos que me interessaram e outros que não mas globalmente gostei bastante do livro, que me ajudou a compreender um pouco melhor no que consiste o Nirvana.

Sob um ponto de vista prático constato que o autor é bastante mais ansioso que eu em relação a comportamentos mais ou menos irritantes das outras pessoas.

Em contrapartida parece ser capaz de aceder à meditação mais facilmente, não pensar em nada aborrece-me, o mais parecido que tenho com isso é fazer uma paciência do Freecell, um problema fácil de Sudoku ou um puzzle com umas 100 ou 200 peças, embora tenha em casa uns com desenhos do Mordillo com 1000 peças que costumávamos resolver em família, as pessoas iam passando e cada um colocava as peças cujo lugar encontrava.

O livro não trata de aspectos místicos do budismo, como por exemplo da reencarnação, em que é difícil encontrar provas, mas dedica bastante argumentação à presença do sofrimento na existência humana e às formas de o superar.

O autor é um estudioso da Psicologia Evolutiva, um ramo da Psicologia que tenta explicar os mecanismos psicológicos de funcionamento da mente humana como aqueles que são mais vantajosos para a perpetuação da espécie.

Por exemplo a transitoriedade da sensação de felicidade quando se atinge um objectivo desejado favorece a procura de objectivos mais ambiciosos, melhorando a performance da espécie humana à custa duma insatisfação mais frequente.

A nossa percepção da realidade é também mediada pelo cérebro. Para muitas situações a sobrevivência própria é favorecida pela consideração que a própria sobrevivência é mais importante do que a dos outros seres humanos. O que leva à situação absurda de todos os elementos de um dado conjunto considerarem que a sua sobrevivência é mais importante do que a dos outros, situação que é logicamente impossível.

Uma variante económica deste absurdo foi incorrida pelo Dr.Durão Barroso quando minimizou o problema da Alemanha estar a violar as regras da União Europeia ao ter um superavit comercial permanente superior ao limite estabelecido, alegando que todos os problemas fossem como esse, admitindo implicitamente que poderia existir um mundo em que todos os países tivessem um superavit comercial.

O que quer dizer que por vezes a nossa mente favorece crenças diferentes da verdade sacrificando esta à perpetuação da espécie. Contudo, comportamentos que mostraram a sua eficácia em tempos passados poderão ser prejudiciais nas condições actuais, mesmo tendo apenas em vista a perpetuação da espécie.

Surpreendeu-me a tese defendida pelo Buda que o “Eu” não existe, se bem que aceite com facilidade que a nossa identidade é um conceito muito mais fluido do que parece à primeira vista.

Relacionado com este conceito do “Eu” estão também os mecanismos de “Preservação da essência”, método usado pelo nosso cérebro para simplificar uma realidade que acaba por não existir, como a atribuição enviesada de características estáveis ao comportamento de pessoas, fundamentando assim a reprovação de penas perpétuas.

O autor manifesta a opinião que muitas das descobertas da Psicologia Evolutiva na sua forma actual já tinham sido descobertas pelos budistas, donde o título do livro “O Budismo Tem Razão”.

Deixo uma foto de 2014 do Grande Buda de Kamakura, no Japão, de que talvez venha a falar num próximo post,



e uma imagem das ofertas de frutos e flores em frente da estátua




2018-12-04

A visita de Xi Jinping a Portugal


Está a decorrer a visita de Estado da Xi Jinping a Portugal ilustrada aqui pelo encontro com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Xi Jinping em Portugal, 2018-12-04, foto da Reuters

Tenho notado ultimamente um aumento de má vontade nalguns media portugueses em relação à China à semelhança do que Paulo Portas refere nesta entrevista breve da TVI.

Parece-me de uma maneira geral essa má vontade tem pouco ou nenhum fundamento. Nalguns casos talvez essa má vontade tenha origem em quem considera que as empresas estatais devem ser privatizadas e as últimas "privatizações" em Portugal, designadamente de parte da REN e de parte da EDP foram afinal alienações a um estado estrangeiro, ainda por cima dum regime comunista. Mas a intervenção chinesa nessas empresas como noutras empresas europeias tem sido discreta e têm continuado a funcionar bem.

O presidente Xi Jinping tem mostrado grande sensatez nas suas intervenções na cena internacional e tem governado bem a República Popular da China. Referi-me a ele e a outros presidentes da República Popular da China neste post de Mar/2018.

A memória histórica que os Portugueses têm de negócios com a China é excelente, como mostra a expressão idiomática "Isto é um negócio da China" para caracterizar em negócio muito lucrativo. A transiçao de Macau confirmou o bom entendimento que os portugueses têm tido com os chineses na maior parte do tempo e parece-me boa ideia continuar a explorar esse bom relacionamento.





2018-12-03

Os Olivais (propriamente ditos)


O bairro dos Olivais em Lisboa deve o seu nome à existência de muitos olivais na sua área quando ainda não tinha sido urbanizado. Não faço ideia de qual a percentagem de oliveiras que foi poupada na altura da urbanização mas continuam a existir muitas oliveiras no bairro.

Destas oliveiras ninguém apanha as azeitonas mas quando caem no chão os pombos costumam aproveitá-las, dando azo a cenas campestres com pombos, que nas cidades costumam comer as migalhas deixadas ou atiradas pelos vizinhos humanos para a calçada de pedra, a alimentar-se de frutos silvestres sobre a relva como referi aqui.

Doutra vez fotografei as flores das oliveiras dos Olivais, desta vez fui surpreendido pela existência de uma fiada de árvores em que o caule, em vez de assumir a função de canal único da seiva até uma altura apreciável, se ramifica quase de início, julgo que antes de ter um metro de altura. O facto de haver uma fiada com pelo menos quatro oliveiras nestas condições levou-me a pensar que estas oliveiras teriam sido podadas neste caso para obter este efeito. Tirei a foto a esse conjunto de oliveiras num fim de tarde em  meados de Out/2018


Não faço ideia de qual o objectivo de podar estas árvores desta forma, frequentemente as oliveiras são podadas para não ficarem muito altas para facilitar a apanha da azeitona, neste caso ocorreu-me que talvez tenham sido podadas desta forma para fornecerem sombra, maximizando assim a extensão da copa.

Lembrei-me dumas oliveiras que vi em Agosto/2013 em São Brás de Alportel no Algarve, com um tronco muitíssimo grosso mas com os ramos com pouca altura como se vê nas duas imagens seguintes







Face a aspectos tão diferentes fui assaltado pela dúvida se as árvores dos Olivais que referi acima seriam mesmo oliveiras e voltei ao sítio para as fotografar, desta vez apenas a parte inicial do tronco


e um zoom sobre a base em que no chão se vêem conjuntos de azeitonas lembrando a Bíblia, que as árvores se conhecem pelos frutos que dão, pelo menos é um dos caminhos possíveis para leigos.



Noutro dia fotografei o conjunto de outro ângulo


em que desta vez retirei com aparente sucesso um sinal de trânsito a perturbar a imagem.



Desta vez fui melhor sucedido do que em post anterior porque o sinal estava a tapar parte do tronco e do chão, ao contrário da ávore do post anterior em que o sinal estava sobre folhas grandes, de cópia difícil.



2018-11-26

Fotografar árvores


Os leitores sabem que gosto de árvores, de apreciar desenhos de árvores e de me queixar da dificuldade em fotografar árvores.

Ontem gostei desta árvore e tirei uma foto. Como habitualmente foi difícil encontrar um enquadramento nesta paisagem urbana em que não aparecesse algo que perturbasse a contemplação da árvore. Retirando o  mais possível da periferia obtive este enquadramento que seria razoável com excepção do sinal de Stop. Achei que as nuvens favoreciam a presença de azul em excesso e tirei um bocadinho dessa cor além de aumentar ligeiramente o contraste tendo obtido esta imagem


Depois clonei partes da imagem para fazer desaparecer o poste do sinal stop. Dado que a relva tem uma textura regular bastou fazer a clonagem com o que estava próximo da imagem do poste numa posição horizontal, uma vez que a sombra do tronco da árvore se desenvolve  horizontalmente sobre a relva, obtendo esta versão:


Lembrei-me de fazer isto para mostrar como é por vezes muito fácil eliminar pormenores indesejados das fotos, sem ser um perito, demorei um ou dois minutos a eliminar o poste do sinal de stop. Com mais algum estudo julgo que descobriria métodos não muito complicados de colocar no sinal de stop uma cópia de outra parte desta árvore mas como não descobri limitei-me a colocar um disco verde em cima, obtendo esta versão:


Não fica bem, mas será talvez menos conspícuo do que o sinal de stop do original.

Pensei que esta árvore seria uma possível origem destes desenhos de árvores do pintor indiano Nihal Chand


mas afinal parece que as cores estão invertidas, na foto as margens das folhas são amarelas e o interior verde-escuro e no quadro indiano passa-se o contrário

2018-11-21

Especialistas no Acordo Ortográfico e no Museu das Descobertas


O Vítor Santos Lindegaard publicou em Junho/2018 no seu blogue “Travessa do Fala-Só “ um post intitulado “De especialização e especialistas” em que, ao contrário do habitual, eu discordava de muitos pontos nele contidos. Na altura prometi escrever sem pressas alguma coisa sobre os temas tratados em que, depois duma introdução genérica sobre a especialização e os especialistas, vai buscar como exemplos as discussões em Portugal sobre o Acordo Ortográfico de 1990 e sobre a criação de um Museu das Descobertas.

Na primeira secção do post intitulada “Da especialização propriamente dita” concordo praticamente com tudo, eu escrevi num post intitulado “A realidade objectiva: dizem que 2 mais 2 são 4. Concorda?” sobre o mau hábito dos meios de comunicação de pedir opiniões sobre assuntos específicos, em que o público em geral não tem nem formação nem informação para os comentarem.

Já na secção seguinte “Da desvalorização dos especialistas, e mais duns que doutros” não me parece criticável que exista uma gradação no peso que se dá às afirmações dos especialistas à medida que o objecto do estudo em que se especializaram de vai tornando mais complexo, como aliás é apontado no texto do Vítor, da Física e Química, passando pela Biologia e pela  Medicina até as Ciências Humanas designadamente a História, a Sociologia e a Economia Política.

Talvez a minha discordância seja mais de grau do que essencial, dado que o Vítor constata que será espectável um menor peso das afirmações dos especialistas à medida que aumenta a complexidade do tema mas talvez ele veja isso como algo a eliminar ou a lamentar enquanto eu considero essa gradação como uma inevitabilidade bem-vinda. É essa gradação que me permite criticar por exemplo as Agências de Rating e seus especialistas.

Embora concorde com o Vítor que é importante ouvir as considerações dos especialistas de qualquer uma das áreas de conhecimento, e que é um disparate considerar que a condição de especialista é um óbice à manifestação de opinião, existem áreas em que, depois de ouvidos os especialistas, a decisão não deve ser deixada a um conjunto constituído exclusivamente por estes.

Passando ao tema do Acordo Ortográfico de 1990 constato que a minha previsão neste post da possibilidade de não aprovação do acordo por alguns dos países que adoptam o português como língua oficial

«Não valerá a pena referir que as ortografias do Brasil e de Portugal irão provavelmente divergir, basta ir ver o corrector ortográfico do Microsoft Word para constatar que existem meia-dúzia de variantes para o alemão e imensas para o francês, o inglês e o espanhol. Mesmo no italiano há o de Itália e o da Suíça. Caso alguns dos países que usam a língua Portuguesa não venham a aprovar o acordo aparecerão certamente mais variantes além do Português de Portugal e do Brasil actualmente existentes.»

se veio a verificar, entre outros em Angola e Moçambique e mesmo sendo leigo no tema, não posso deixar de constatar que um dos objectivos principais referidos pelos especialistas do Acordo Ortográfico de 1990, de uniformização da ortografia do português, teve resultados contraproducentes pois não só se mantiveram muitas diferenças entre a ortografia em uso em Portugal e no Brasil como se estabeleceu maior variedade ainda com a manutenção oficial em Angola e Moçambique da ortografia anterior ao Acordo de 1990.

Todas as grafias têm alguma independência em relação à pronúncia. Se assim não fosse ter-se-ia que usar grafias diferentes em Portugal para as variadas pronúncias que existem no país, por exemplo no Porto, em Lisboa, em Coimbra, no Alentejo, no Algarve, nas Beiras, etc. Mesmo numa mesma região existem pronúncias diferentes de pessoa para pessoa. O facto de a ortografia da língua inglesa dar sugestões muito pouco explícitas sobre a pronúncia das palavras não impediu que quer a Inglaterra quer os Estados Unidos da América fossem dos países onde a alfabetização da totalidade da população se concluiu mais cedo. O facto de  tantos escritores, criadores da versão escrita da Língua Portuguesa, se oporem ao Acordo revela um vanguardismo dos linguistas que o desenharam e que, em vez de convencerem os criadores da escrita, se dedicaram a influenciar os decisores políticos que por sua vez convenceram os deputados da Assembleia da República a votar favoravelmente. Continuo surpreendido por apenas 4 deputados terem votado contra conforme diz neste texto da revista Visão:  «... Manuel Alegre, PS, Nuno Melo e António Carlos Monteiro do CDS e a deputada não inscrita Luísa Mesquita (ex-PCP) votaram contra.»

Quanto à defesa da missiva de mais de uma centena de académicos criticando o uso do termo Museu das Descobertas” não me parece feliz a defesa dessa missiva, citando considerações do historiador Paulo Sousa Pinto.

Por exemplo neste extracto do texto dessa carta
«
Se existem vantagens na criação de um espaço museológico deste tipo, porque é que ele não deve intitular-se 'Museu das Descobertas'?

Desde logo, porque essa designação cristaliza uma incorrecção histórica, razão pela qual, como historiadores e cientistas sociais, não podemos estar de acordo com ela.

Apesar do vocábulo 'descobrimento', no singular e no plural, ter sido utilizado nos séculos XV e XVI para descrever o facto de se terem encontrado terras e mares desconhecidos na Europa, a verdade é que, na quase totalidade dos casos, ele apenas se refere à percepção da realidade do ponto de vista dos povos europeus.

É inquestionável que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, para quem, naquela altura, vivia na Europa Ocidental.

Precisamente porque um dos aspectos que resultou deste e de outros episódios de 'expansão' foi o contacto entre povos de culturas muito diversas, é que é tão importante considerar o ponto de vista e a percepção de todos os envolvidos.

Para os não europeus, a ideia de que foram 'descobertos' é problemática.
»

vai-se ao ponto de afirmar que o vocábulo “descobrimento” cristaliza uma “incorrecção histórica” quando a seguir se reafirma a existência desse descobrimento criticando contudo o uso da palavra porque “para os não europeus, a ideia de que foram ‘descobertos’ é problemática”.

É para mim completamente incompreensível que seja problemática a ideia de que alguém tenha sido descoberto, a descoberta faz parte essencial da espécie humana, nós somos seres que descobrem e que aprendem.

A existência de outros povos não depende de eles serem ou não descobertos por estranhos, não percebo o que poderá levar alguém a pensar que foi a descoberta da sua sociedade pelos europeus que os colocou na história do mundo. A partir dessa descoberta passaram a referir a sua existência em documentos europeus, tudo isto me parece natural.

Os povos que viviam na Europa foram objecto de descobertas de variados povos. Alguns deles estabeleceram-se aqui e ficaram por cá, como entre outros os povos germânicos, os húngaros, os finlandeses. Outros, como os Mongóis no século XIII, deixaram um rasto de destruição e foram-se embora. No século XX fomos descobertos pelos turistas e pelos investidores japoneses, depois os sul-coreanos, os chineses de Taiwan e de Hong-Kong e ultimamente os turistas e os investidores chineses. Turistas, emigrantes e investidores indianos têm também descoberto a Europa.

É curioso também que nessa carta considerem  que a palavra “Descobrimento” que terá sido utilizada nos séculos XV e XVI para descrever factos de uma forma que não foi tão exaustiva como poderia ser agora, a palavra “Descobrimento” tenha assim que se restringir ao âmbito das descrições feitas nos séculos XV e XVI. Talvez alguns historiadores gostassem de serem eles a definir qual o significado do vocábulo “Descobrimento” ou “Descoberta”. Infelizmente para eles essas palavras não são propriedade dos historiadores e o seu significado e o âmbito do que descrevem vai evoluindo com o tempo, aliás como toda a História que corresponde à descrição do passado considerada mais relevante por cada sociedade no tempo em que existe.

E acho natural que num museu na Europa se privilegie o impacto que os Descobrimentos tiveram em Portugal e na Europa, o que não impede que se considere também o impacto que tiveram nas outras sociedades. Mas parece-me que essas sociedades deveriam elas próprias fazer museus que falassem do impacto que nelas tiveram a chegada dos europeus, não cabe a estes descrever o que se passa nas suas sociedades e o que se passa nas outras sociedades, é bom que cada sociedade elabore a sua visão para uma melhor compreensão mútua.

A discussão sobre este Museu das Descobertas que ficou para as calendas foi muito agitada, apenas alinhei estes poucos argumentos por causa da palavra “Descobertas” e este post do Vítor que tenho vindo a referir indicou-me um post com um registo muito equilibrado duma grega (Maria Vlachou) que vive por cá:
Retive as sugestões:
- que as actividades marítimas das Descobertas podiam/deviam ser  tratadas no Museu da Marinha com o destaque devido;
- que para fazer um Museu é preciso dotá-lo de alguns meios para funcionar bem;
- que antes do edificio se devia definir o conteúdo do museu.

Termino com a imagem da capa do livro os Descobridores, de Daniel J. Boorstin, historiador da univeridade de Chicago e director da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América de 1975 a 1987. O livro foi publicado na América em 1983 e numa versão em Português, pela Gradiva em 1987.

No Prefácio à edição portuguesa de The Discoverers D.J. Boorstin escreveu:
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Nada me agradaria mais do que ver aparecer The Discoverers em português- a língua de Camões e dos pioneiros dos descobrimentos do Ocidente. É também espantosamente apropriado que este pequeno símbolo de agradecimentoe reconhecimento possa ser mandado do Novo Mundo, que teria sido com certeza um lugar muito diferente e muito menos interessante se não tivessem sido a imaginação, a  coragem e o espírito de aventura dos Portugueses na época dos descobrimentos. Os descobridores portugueses ainda não tiveram o reconhecimento e as celebrações que  merecem no Ocidente de língua inglesa.
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A figura da capa é a gravura Flamarion uma metáfora de um homem descobrindo o que está para além das imagens quotidianas.