2017-11-24

O juiz Neto de Moura e a separação dos poderes legislativo e judicial



Tem sido muito criticado o acordão do TRP (Tribunal de Relação do Porto) em que foi relator o juiz Neto de Moura, datado de 11.10.2017,  assinado também pela juíza Maria Luísa Arantes e que pode ser encontrado neste link: https://jumpshare.com/v/XmGPjJyBg6mJMdehLjp8 .

O acordão trata das agressões a uma mulher que foi sequestrada e agredida por um ex-amante que depois convocou o ex-marido que por sua vez a agrediu com uma moca com pregos.

O caso fora julgado em tribunal de 1ª instância, que condenara os dois arguidos a penas suspensas de prisão, de pagamento de multas e de uma injunção para que cada um dos arguidos não contactasse a vítima, de cuja decisão recorreu o Ministério Público para o TRP. O TRP manteve a decisão da 1ª instância sem alterações.

Encontrei esta imagem de “Moca com pregos” na internet


Na petição intitulada “Essa Mulher Somos Nós”encontra-se contestação, com a qual concordo, à parte mais polémica do acórdão que continha o texto seguinte:
«
Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente.
Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem.
Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte.
Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte.
Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.0) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.
Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.
Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida.
Por isso, pela acentuada diminuição da culpa e pelo arrependimento genuíno, podia ter sido ponderada uma atenuação especial da pena para o arguido X.
»

Fui-me documentar na Wikipédia sobre “Adultério” onde diz na secção “História”:
«
O adultério, como "acto de se relacionar com terceiro na constância do casamento", é considerado uma grave violação dos deveres conjugais por quase todas as civilizações de quase toda a história, sendo que algumas sociedades puniam gravemente a cônjuge adúltera e/ou a pessoa com quem praticava o acto, sendo ambos passíveis de morte.

Historicamente e originalmente a prática de adultério é o crime praticado pela esposa em relação ao marido. Hoje em dia, embora tal discriminação não exista mais nas novas leis dos países ocidentais, ou tenha perdido sua eficácia sociológica, na prática do dia a dia a conduta continua a ser vista de forma diferenciada do original conceito.
»
e na secção “Actualidade”:
«...
Em Portugal no actual Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de Setembro a palavra adultério não é mencionada numa única passagem.[6] Já no actual Código Civil faz-se apenas referência ao adultério aquando da existência de heranças e respetivos testamentos e é referido no art.º 2196.º que é nula a disposição a favor da pessoa com quem o testador casado cometeu adultério.
»

Trata-se  de mais uma confirmação de que a infidelidade da mulher casada foi legalmente punida com maior rigor do que a do homem.

Foi entre outras também por essa razão que o legislador suprimiu a palavra “adultério” no Código Penal constituindo uma indicação clara que ela deve deixar de ser considerada relevante nos julgamentos de crimes.

Alegar a importância do adultério como atenuante num julgamento em Portugal em 2017, após a retirada da palavra “adultério” do Código Penal representa assim um desrespeito pela lei portuguesa em vigor.

Espera-se que os juízes não se refiram em acórdãos a leis revogadas. Referir leis revogadas é uma forma de dizer que se entende que ainda poderiam/deveriam estar em vigor. Referir leis e costumes de outros países é uma violação do âmbito territorial da aplicação da lei.
O genocídio, a escravatura, o racismo, o machismo, estiveram consagrados em leis noutras épocas e noutros países mas de acordo com a lei em vigor em Portugal todas estas actividades são actualmente intoleráveis.

Poder-se-ia dizer que existe uma analogia dos juízes com os diplomatas. Um diplomata de um país representa no estrangeiro a posição que o seu país tem sobre variados assuntos e não a sua opinião pessoal. Ao juiz compete julgar de acordo com a lei em vigor no país onde exerce a sua função e não segundo a sua opinião pessoal.

Há assim neste caso uma invasão pelo juiz da função do legislador, criando incerteza sobre se o tribunal se rege pelas leis actuais do país ou se o julgamento decorrerá tomando em consideração as leis doutras épocas e doutras terras pelas quais o juiz nutre preferência ou sente a necessidade de referir. Essa ponderação de leis de outras épocas, de outros  países e de várias religiões terá lugar nas considerações do legislador ao criar a lei pois a legislação deve ter em conta o contexto espaço-temporal em que é definida mas ao juiz compete julgar segundo o consenso da comunidade que lhe outorgou o poder de julgar. Caso as suas convicções sejam inconciliáveis com a lei vigente em casos específicos poderá pedir escusa. E se as considerações são figuras de retórica sem consequência na decisão final será preferível que se omitam, quer para poupar tempo a quem tem que ler o acórdão não sendo relator quer para evitar intranquilidade pública como a que se verificou neste caso concreto.

A gravidade deste caso só pode ser julgada por quem tenha capacidade para aferir se estas considerações do juiz afectaram a decisão sobre o caso em julgamento. Mesmo que não tenham tido impacto na decisão final o juiz deveria ser notificado que opiniões pessoais contra a lei existente, mesmo que sejam citações de leis revogadas, de leis de outros países ou de normas religiosas, não têm lugar em acórdãos.

A juíza que segundo a própria “assinou o acórdão após leitura em diagonal” foi negligente, não nos tendo protegido do erro do colega.


Notas de rodapé:

Achei interessante este doc de alunas de direito da Universidade Nova:
Os deveres pessoais dos cônjuges

Googlei (Código Penal) e apareceu-me este link com uma versão consolidada em pdf :
Codigo_Penal_Consolidação_105737277_18-01-2017.pdf
https://dre.pt/web/guest/legislacao-consolidada/-/lc/105737277/201701182138/exportPdf/normal/1/cacheLevelPage?_LegislacaoConsolidada_WAR_drefrontofficeportlet_rp=indice

e o mesmo para Código Civil:
Codigo_Civil_Consolidação_107065833_02-11-2017.pdf
https://dre.pt/web/guest/legislacao-consolidada/-/lc/107065833/201711021032/exportPdf/normal/1/cacheLevelPage?_LegislacaoConsolidada_WAR_drefrontofficeportlet_rp=indice

Por curiosidade procurei, com a ferramenta de busca, no ficheiro do código Penal as palavras adulterio, adultera, adultero, com e sem acento agudo e confirmei com facilidade a inexistência destas palavras, conforme tinha lido na Wikipédia.

Por outro lado, no Código Civil, localizei imediatamente, num pdf de 428 páginas, a única instância de “adultério”, na página 408, no Artigo 2196º, conforme correctamente referido na Wikipédia.

É fácil propalar boatos na net, que não foi aqui o caso, mas é também fácil fazer verificações!



2017-11-23

Infarmed


É inacreditável a decisão de mudar o Infarmed de Lisboa para o Porto, sem nenhuma razão plausível além duma alegada necessidade de descentralizar e imediatamente a seguir ao insucesso da candidatura da cidade do Porto para albergar a Agência Europeia do Medicamento.

O Partido Socialista enchia a boca a dizer que as pessoas não são números, são pessoas e agora decide sem razões funcionais perturbar as vidas das famílias das pessoas que trabalham no Infarmed.

Os administradores e os expatriados "saem da sua zona de conforto" com confortos adicionais que mais do que compensam essa saída, confortos que são impossíveis de garantir aos trabalhadores do Infarmed.

A retórica de que as pessoas estão primeiro dá lugar à arbitrariedade do príncipe, que quer, pode e manda. As razões da mudança não são políticas, são arbitrárias, porque é essa a ordem de quem manda.

A descentralização deve ser feita criando as novas instituições fora de Lisboa e não mudando extemporaneamente instituições em funcionamento sem razões ponderosas.

O governo de António Costa começa a dar múltiplos sinais de desnorte, iniciou a curva descendente.

2017-11-18

Umberto Eco e a influência dos jeans no pensamento


Tenho andado a reler esta colecção de ensaios, numa edição da Difel de 1986 que comprei nesse ano. Agora andei à procura no Google deste livro e apareceu-me no sítio do WOOK uma sinopse de que transcrevo o início:
«
Umberto Eco, conhecido em Itália e em todo o mundo pelos seus trabalhos sobre estética e semiótica e pelo seu romance O Nome da Rosa é também um incansável estudioso dos modos e modas do nosso tempo.
Viagem na Irrealidade Quotidiana é uma colectânea de textos retirados de três livros recentes: «Sette Anni di Desiderio», «Costume di Casa» e «Dalla Periferia dell' Impero»...
»

Constato que é raro eu reler os livros que tenho em casa mas tenho relutância em separar-me deles e de longe em longe vou realmente à procura de um pequeno trecho de um ou outro livro, que pertencem na esmagadora maioria à categoria de ensaios. Do Umberto Eco li ainda o romance histórico “O Nome da Rosa” de que gostei muito embora tenha tropeçado em muitas citações em Latim que presumo ainda ser ensinado no ensino secundário em Itália. Não consegui passar das primeiras páginas do “Pêndulo de Foucault” mas comprei mais algumas colecções de pequenos ensaios publicados em revistas e jornais de grande circulação.

Como eu esperava este livro não se encontra actualmente disponível, julgo ser a sina destas colecções de pequenos ensaios, ainda mais num mercado pequeno como o português. Presumo que esta colectânea resulta de três livros por muitas vezes este tipo de ensaios focar aspectos específicos do país onde foi escrito. Dir-se-ia que um em cada três ensaios seriam exportáveis pois de 3 colecções obteve-se apenas uma.

Como já tinha lido o livro há uns 30 anos tinha alguma curiosidade em verificar a minha reacção a uma segunda leitura. Constatei que tinha uma memória vaga do que lera na altura, sem a parte desagradável da sensação de “déjà vu”. Constatei ainda que também há 30 anos as pessoas tinham a sensação de viverem experiências nunca vistas, à semelhança do que acontece actualmente. Longe de mim dizer que a mudança não existe mas por vezes o que  parece uma novidade é essencialmente o mesmo que se passou há uns anos, décadas ou mesmo séculos.

Aprecio o sentido de humor do Umberto Eco e as suas descobertas dos significados dos objectos, modas e hábitos do quotidiano em que vivemos. Não seria forçoso que um estudioso da semiótica, que observa os significados dos fenómenos culturais, conseguisse atingir o grande público mas é o caso deste autor.

Tive dificuldade em encontrar na Internet textos do Umberto Eco. Desta “Viagem na Irrealidade Quotidiana” seleccionei um pequeno ensaio de 4 páginas sobre a influência do uso de calças tipo “jeans” na forma de pensar de quem as veste, um dos meus favoritos, intitulado “O Pensamento Lombar”, publicado no Corriere della Sera em 12 de Agosto de 1976.






2017-11-09

Fonte de Fabrice Hybert em Lisboa


Nas voltinhas de bicicleta no Parque das Nações no Passeio dos Jacarandás passei por esta fonte que me chamou a atenção


Googlei este detalhe da imagem


e fui dar a este sítio onde consta que se trata de uma escultura de Fabrice Hybert intitulada "69 homens de Bessines", localizada em N 38°46'48" W 9°5'39". De 10 buracos espalhados pelos corpos (olhos, nariz, boca, orelhas, mamilos, pénis e ânus) saem jactos de água de vez em quando como se constata na próxima imagem




2017-11-03

António Damásio nos Olivais


No passado dia 31 de Outubro de manhã António Damásio deslocou-se à Escola Secundária nos Olivais que tem o seu nome para apresentar o seu novo livro intitulado "A Estranha Ordem das Coisas".


 A sessão teve lugar no ginásio da escola que estava completamente cheio, com alunos, professores e público em geral. António Damásio falou da importância dos sentimentos na vida dos seres humanos, cuja importância tem sido por vezes menosprezada por alguns pensadores, tema de que trata este seu novo livro.


No regresso a pé à minha casa (os Olivais são um mundo!) apreciei este caminho protegido pelas sombras das árvores na rua Cidade de Luanda, com os ciprestes do cemitério dos Olivais ao longe, a lembrar a referência que António Damásio fez à inutilidade da procura actual da imortalidade biológica.

No dia seguinte reparei neste "grafiti" na rua Cidade de Moçâmedes, com a praça Cidade São Salvador (praça das maminhas) ao fundo. Na "street view" do "Google Maps", actualmente mostrando imagem capturada em Fevereiro de 2015, esta placa ainda não tinha a inscrição.



Fiquei a pensar que "Amo, logo existo" é uma transformação da frase de Descartes " Penso, logo existo" directamente inspirada pelo livro de António Damásio "O Erro de Descartes" e talvez também pelas suas passagens pelos Olivais.


2017-10-31

Tiago Oliveira no Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais


Tiago Martins de Oliveira foi empossado no dia 24/Out/2017 como presidente da Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais.

Trata-se dum engenheiro florestal , doutorado em gestão de risco de incêndio e também bombeiro. Trabalha para a Afocelca, cujo site informa que “A AFOCELCA é um agrupamento complementar de empresas do grupo The Navigator Company e do grupo ALTRI que com uma estrutura profissional tem por missão apoiar o combate aos incêndios florestais nas propriedades das empresas agrupadas, em estreita coordenação e colaboração com a Autoridade Nacional de Protecção Civil - ANPC.”

No meio do ruído sobre o perigo dos eucaliptos tenho-me informado que as áreas de floresta geridas pelas companhias de celulose têm consistentemente ardido muito menos do que os minifúndios onde cresce a maioria da floresta portuguesa. No ano de 2017 a área de eucaliptos das celuloses mais uma vez ardeu menos do que a floresta do resto do país.

Foi assim com satisfação que tomei conhecimento da nomeação de Tiago Oliveira para a missão acima referida, uma pessoa rara que alia o gosto pela acção no terreno como bombeiro ao estudo de métodos e processos inovadores para minimizar as áreas ardidas da floresta e que tem tido sucesso na sua actividade de prevenção e combate aos fogos florestais, ao contrário do que se passa na maioria da restante área da floresta portuguesa.

Depois foi com surpresa que soube das reservas (das quais discordo) do Bloco de Esquerda e também de Vital Moreira à nomeação de uma pessoa por ter trabalhado para entidades privadas no combate aos incêndios.

À visão maniqueísta de que os gestores públicos são incompetentes, preguiçosos e corruptos e de que os gestores de empresas privadas são competentes, trabalhadores e honestos, corresponde a visão simétrica de que os gestores públicos são competentes, eficazes e dedicados à causa pública enquanto os que trabalham para os privados só pensam no lucro, no luxo e estão a soldo de interesses inconfessáveis.

Esta visão do mundo que o divide de forma clara entre o Bem e o Mal adquiriu o adjectivo “maniqueísta” devido a uma filosofia religiosa dualística criada por Maniqueu, um cristão persa do século III que deve ter sido influenciado pelo Zoroastrismo também nascido na Pérsia.

Os seguidores de Zoroastro mantinham um fogo aceso nos seus templos e dizem que este




 que eu fotografei e já mostrei aqui arde ininterruptamente há mais de 1500 anos, presumo que sem causar danos.

A visão dualista simplificada da realidade é inadequada em muitas situações. Não se pode dizer à partida se públicos ou privados são todos bons ou todos maus. Até mesmo nos fogos existem uns que são bons e outros que são maus.


2017-10-27

Desemprego na Catalunha e em Portugal


Ao observar as multidões que se manifestam nas ruas da Catalunha pela independência tive um pensamento ingénuo: então esta gente toda não tem mais nada para fazer?

Googlei (taxas de desemprego na Catalunha) e cheguei logo a este ficheiro pdf, gentilmente escrito em português com as cifras (em Portugal diríamos mais "números") da Catalunha muito bem apresentadas:

onde se constata que a taxa de desemprego em 2015 era de 18,6% sendo o desemprego jovem (menos de 25 anos) de 42,3%, sendo em Espanha de respectivamente 22,1 e 48,3%. A manutenção destas taxas de desemprego em Espanha durante anos e anos à volta dos 20% sem uma mudança de regime são para mim muito difíceis de compreender.

Como comparação em Portugal temos estes números que obtive no Pordata aqui (carregando depois em (ver tabela completa):


Em Portugal ocorreu um quebra de série em 2011 em que foram introduzidos novos critérios de cálculo para diminuir o valor da taxa. Presumo que o critério actualmente usado não seja muito diferente do catalão, talvez o Eurostat harmonize algumas estatísticas. Nos valores de Portugal constata-se que em 2015 a taxa de desemprego dos menores de 25 anos era 32%, um número elevado mas muito abaixo do 42% catalão.

Em Portugal, quando a situação se degrada, emigramos. Na Catalunha às vezes declaram a independência. Ambas são soluções más.







2017-10-25

O jornal Expresso e a chamada luta política


O jornal Expresso tem-se vindo a tabloidizar. De uma forma geral  todos os jornais o têm feito, talvez se sintam na obrigação de tornar os títulos mais chamativos de leitores, a quem dizem frequentemente que estão aqui para os informarem de forma séria e isenta, evitando os sensacionalismos.

No passado sábado o Expresso titulava na primeira página em letras muito grandes que o IPMA avisara com 72 horas de antecedência que o dia 15/Outubro seria o mais perigoso do ano. Logo a seguir informava ainda em letras destacadas que o “Alerta foi ignorado pelas autoridades”.

Claro que no corpo dos textos informava depois que as autoridades tinham mobilizado mais 882 operacionais do que seriam os efectivos na fase D (fase com menos efectivos do que a fase C que acaba no fim de Setembro) mas que não existiam tantos aviões como na fase C. Descrevia depois mais um conjunto de medidas adicionais que as autoridades tinham tomado, desmentindo assim o subtítulo chamativo da primeira página de o alerta ter sido ignorado, numa técnica que se vem tornando monótona de ser tão usada.

Fui verificar qual a contribuição cívica que o jornal Expresso dera na sua penúltima edição em 14 de Outubro de 2017 e constatei que não havia qualquer referência na primeira página à perigosidade do dia seguinte, o dia 15/Outubro.

Já em Julho deste ano o jornal Expresso chamara para a primeira página uma notícia que insinuava que o governo estaria a esconder o número de mortes do incêndio de Pedrógão Grande, insinuação que ainda ocupou o jornal durante algum tempo para se constatar depois que a polémica não tinha qualquer fundamento.

Embora o jornal continue a publicar opiniões de diversos quadrantes do espectro político a sua tomada de partido nas suas partes mais destacadas é cada vez mais evidente.

Constato assim que a luta política acaba por reflectir o espírito da população em geral e em especial dos jornalistas, abusando de figuras de retórica para vencer o adversário em vez do uso de argumentos sólidos que conduzam a discussão para melhores decisões.

Nota-se também no jornal, fora da luta política, um menor cuidado em alguns artigos como é referido aqui, a propósito duma notícia sobre a visita do papa Paulo VI a Fátima, ou aqui, sobre uma tradução errada que não foi corrigida na edição seguinte.

Este post já vai longo, para não prolongar os queixumes mostro uma combinação dos Whacks e X-balls que já referira nestes 3 posts





2017-10-23

O Egoísmo Altruísta, por Adolfo Mesquita Nunes


Gostei desta reflexão do Adolfo Mesquita Nunes no Delito de Opinião:

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2017-10-20

Cobertura de Lisboa pelo Metropolitano


Tentando fugir aos frequentes engarrafamentos dentro da cidade de Lisboa tenho tentado usar o metropolitano com maior frequência. Quando está bom tempo tenho considerado razoável usar o Metro quando existe estação a menos de 1km a pé do local-objectivo. Actualmente é fácil quantificar essa distância no Google Maps.

Para fazer uma ideia da cobertura de Lisboa pelo Metropolitano pensei em colocar círculos transparentes com um raio de 1 km e centro sobre cada estação neste mapa disponível no site do metropolitano


e o resultado foi este


Depois achei que embora fosse claro que a Beira-rio entre 1km depois de StªApolónia e o Parque das Nações,  Alcântara, Belém, Restelo, Ajuda, Lapa e parte do Campo de Ourique estivessem fora dos círculos, além de outras zonas periféricas pensei usar este mapa de Lisboa onde se vêem ruas e parques mas onde faltam algumas estações de metro


e colocar os círculos de 1 km de raio como já fizera com o mapa do metropolitano


Se existissem eléctricos rápidos (imunes a engarrafamentos de outros veículos) à beira-rio a ausência de Metro seria menos grave.


2017-10-18

Incêndios em Portugal e noutros sítios


Em Portugal precisamos de fazer muita coisa para evitar repetição das catástrofes provocadas pelos incêndios deste ano. Já temos os relatórios e desastres de grandes proporções que possibilitam adoptar leis e procedimentos que antes seriam considerados impossíveis.

Mas mais uma vez nos convencemos que somos o único país onde existem estes problemas. Por exemplo na Califórnia a situação tem sido como descrita neste artigo breve do Economist: Why the North American forest is on fire.

Vê-se agora a sabedoria do António Costa. Se tivesse demitido logo a ministra agora precisaria também de demitir o sucessor. Assim evitou uma mudança apressada e a nova equipa só será testada na próxima temporada de fogos.

Mesmo assim eu aconselharia alguma calma na nomeação do sucessor dado que ainda falta o Verão de S.Martinho.

2017-10-17

Bicicletas de Lisboa


A EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa, E.M. S.A.) além de tratar dos parquímetros em Lisboa, iniciou um programa de instalação de bicicletas urbanas partilhadas em que me inscrevi.

Começaram pelo Parque das Nações onde instalaram várias "docas" com bicicletas para serem usadas por aderentes. No site gira-bicicletasdeLisboa explicam os detalhes. É preciso descarregar uma aplicação para o telemóvel, aderir ao programa, pagar (com Multibanco ou Paypal) uma taxa anual, mensal ou diária, carregar um saldo e começar a usar. Em cada "doca" existem bicicletas clássicas e eléctricas, selecciona-se uma usando a aplicação, tira-se do sítio, usa-se e volta-se a colocar na mesma ou noutra doca. Actualmente só existem docas no Parque das Nações.

As bicicletas são aparelhos notoriamente difíceis de armazenar em apartamentos de prédios pois estão cheios de protuberâncias que exigem imenso espaço, difícil de encontrar sobretudo em andares habitados há muito tempo e que se foram enchendo ao longo dos anos seguindo a lei do horror que a Natureza tem pelo vazio.

Além disso a cidade de Lisboa está cheia de montes e vales pelo que era necessário uma bicicleta com apoio eléctrico para tornar viável a sua utilização por ciclistas nem profissionais nem atletas amadores. Subi ontem a rua Cidade de Pádua com uma destas bicicletas eléctricas e fiquei muito satisfeito com a moderação do esforço necessário para vencer esta rua tão íngreme.

Estas bicicletas resolvem portanto os dois problemas que referi: não ocupam espaço em casa e não requerem esforço desagradável para vencer as colinas de Lisboa. E o selim é confortável.

Deixo uma imagem da bicicleta devolvida à doca após a minha primeira utilização.





2017-10-14

Federica Mogherini sobre acordo com Irão


Na sequência de intervenção de Donald Trump afirmando que iria terminar o acordo multilateral com o Irão, Federica Mogherini fez uma comunicação afirmando que o acordo com o Irão era multilateral, e nenhum dos signatários tinha poder para terminar o acordo que consiste num anexo duma resolução tomada de forma unânime pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Aqui está essa comunicação, em inglês, sem legendas.




Não me lembro de ter assistido a declarações formais deste teor de altos responsáveis da União Europeia  sobre intervenções do presidente dos E.U.A. É possível ou mesmo provável que se tornem mais frequentes.

2017-10-10

Pavão


Este é o milésimo post deste blogue que já existe desde Março/2008. Pareceu-me adequado fazer um post sobre pavões, pavoneando assim a minha longevidade como bloguista.

Na terceira idade regressa-se à juventude e vejo-me assim a fazer uma redacção sobre o pavão, se bem que na sua elaboração tenha tomado contacto com avanços científicos na explicação da iridescência que dão um ar mais adulto a este texto.

De vez em quando vejo pavões na Quinta Pedagógica nos Olivais. Além do espectáculo sempre deslumbrante da exibição da cauda dos pavões, aprecio o seu comportamento tranquilo, o que me leva a fotografá-los com alguma frequência. Neste post selecciono algumas das muitas fotos que tenho tirado.

Nestas duas primeiras imagens mostro a comunidade que existia em Novembro/2014, 2 machos e 5 fêmeas. O grupo parecia coexistir de forma despreocupada



ocasionalmente com segregação por sexos, 2 machos por um lado e 5 fêmeas por outro



com zoom para as fêmeas



Uma das características que aprecio nos pavões é o silêncio e a discrição com que que se movem. De repente notamos que estão vários pavões à nossa volta sem que tenhamos sido avisados por ruídos vários da sua chegada.

Na foto seguinte, de Maio/2015 esta fêmea aproximou-se bastante da cadeira da esplanada e comeu um pedacinho de chocolate de um gelado que caíra no chão.



Aproximou-se lentamente, mantendo (difícil não antropomorfizar...) um ar altivo, com aqueles penachinhos na cabeça a fazer lembrar um diadema.



As cores das pavoas são muito mais discretas do que as dos pavões mas mesmo assim o pescoço tem uma cor verde muito bonita. Na consulta das entrada da wikipédia sobre pavões, na versão em português e na versão mais completa em inglês constatei que muitas das penas dos pavões são iridescentes, à semelhança do que acontece com muitas outras aves, com borboletas, conchas marinhas, alguns insectos e outros materiais, como por exemplo as opalas.

A iridescência é uma propriedade de objectos cuja côr varia conforme o ângulo de observação dos mesmos. A côr é obtida através de estruturas nanométricas (dimensão entre 1 e 100 nanómetros) designando-se por “coloração estrutural”.

Os físicos Newton e Robert Hooke já tinham notado que as cores iridescentes dos pavões eram criadas por coloração estrutural e não por pigmentos.

São as interferências ópticas (reflexões de Bragg) causadas pelas nanoestruturas periódicas existentes nas bárbulas das penas

Por André Cattaruzzi - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=40852338


que causam as cores iridescentes das penas dos pavões. Depois do Lorde Rayleigh se ter interessado pelos cristais fotónicos em 1887 o assunto foi retomado em 1997 por Eli Yablonovitch tendo desde essa altura sido objecto de grande actividade de investigação, dadas as importantes aplicações industriais que se prevêem no domínio da óptica.

No artigo da wikipédia sobre iridescência encontrei referência a este artigo intitulado “Coloration strategies in peacock feathers” fazendo parte de uns “Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America”, da autoria de 8 autores chineses trabalhando na Universidade Fudan em Xangai. O facto de terem usado o microscópio electrónico no estudo das estruturas existentes nas penas do pavão dá uma explicação para este assunto ainda não estar completamente estudado.

Felizmente estes chineses ainda publicam artigos em inglês, um dia destes é possível que as revistas de física mais importantes sejam publicadas em mandarim. Seria bom que por essa altura pelo menos o pinyin fosse preferido em relação aos ideogramas.



Ainda no mesmo ano, em 29/Nov/2015 16:16 tirei esta foto de 4 pavoas sobre um telhado da Quinta Pedagógica.


Já tinha visto pavões a voar para ramos altos de árvores mas fiquei surpreendido com esta posição sobre telhado.


Fui verificar à Wikipédia onde diz que os pavões são aves da floresta que nidificam e se alimentam no chão mas repousam empoleirados nas árvores.


Ou então em sítios altos de difícil acesso como optaram estas pavoas. Fui ver a que horas foi o sol posto na data da foto, foi às 17:16, provavelmente as pavoas já tinham comido que chegasse e foram preparar-se para passar a noite. Não me lembro de ver galinhas ou galos em sítios tão altos.

Na internet vi uns filmes curiosos em que mostram perus selvagens, que pernoitaram em ramos de árvores, voando para um sítio sem árvores ao nascer do sol. É possível que existam filmes semelhantes para pavões.



A seguir mostro 3 imagens de Fevereiro/2016 de pavões a alimentar-se no prado verde da quinta do Contador-Mor, adjacente à Quinta Pedagógica




Achei graça a este Pavão empoleirado em cima dum “Jogo do Galo”, em Março/2016, confirmando uma atitude Zen que deve ser uma das características que aprecio nos pavões



e termino naturalmente com um pavão exibindo a sua cauda maravilhosa



Será fácil encontrar fotos de leques de pavão melhores do que esta. Normalmente o fundo da fotografia perturba a cena e a iluminação desta cauda é fraca. Por exemplo aqui tem uma foto interessante e outras aqui.





2017-10-06

Catalunha


“As fronteiras são as cicatrizes da História”, frase que na internet é atribuída a Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia.

Será portanto difícil fazer com que as cicatrizes desapareçam de um dia para o outro mas só em casos muito excepcionais fará sentido abrir uma nova ferida.

No caso catalão poderá haver um círculo vicioso difícil de quebrar. A tendência centralizadora de Madrid é ao mesmo tempo causa e consequência das tendências separatistas de algumas regiões de  Espanha, designadamente da Catalunha.

Se houve tempo em que face às telecomunicações da época se constatava que os impérios não conseguiam coordenar esforços de regiões muito distantes, na situação actual em que lentamente se constrói uma União Europeia não se compreende porque se pretende separar de Espanha uma região que nunca foi independente e que goza actualmente de grande autonomia.

O pseudo-referendo ilegal realizado do passado dia 1 de Outubro de 2017 nunca poderá constituir uma base sólida para uma declaração de independência, em primeiro lugar porque foi considerado inconstitucional pelo Tribunal Constitucional de Espanha, colocando os residentes da Catalunha perante o dilema de terem de participar numa actividade ilegal para manifestar a sua oposição à separação. Em segundo lugar porque o Estatuto da Catalunha necessita de dois terços do parlamento catalão para ser alterado e essa maioria não foi conseguida. Em terceiro lugar porque para uma decisão tão grave seria aconselhável para evitar futuros grandes conflitos que uma grande maioria participasse no referendo e que houvesse também uma maioria qualificada a votar pelo sim.

Dadas as circunstâncias, a realização do referendo constituiu apenas uma manobra para declarar unilateralmente a independência pois era mais do que claro que face à actual Constituição iria ser declarado inconstitucional, iria ter alguma afluência do “sim” e quase nenhuma afluência do “não”.

O envio de forças policiais para impedir a realização do referendo ilegal faz parte das atibuições do executivo de cumprir e fazer cumprir a Constituição. Tenho contudo grandes dúvidas sobre a utilidade de enviar forças policiais para tentar impedir uma ilegalidade deste tipo. Sob um ponto de vista político, as imagens inevitáveis de alguma violência sobre cidadãos que “apenas pretendiam votar”, eu acho que pretendiam sobretudo fazer uma futura separação entre “nós” e “eles”, deverão ter fortalecido a causa separatista. Atrevo-me contudo a afirmar que quando se enviam milhares de  polícias para uma missão deste tipo, é inevitável que ocorra alguma violência e não há notícia de ferimentos graves. Enric Millo, o representante do governo espanhol na Catalunha, pediu desculpa pelos excessos na intervenção policial, acusando contudo o governo catalão de ter realizado um voto ilegal.

Parece inevitável que se façam negociações entre um futuro governo da Catalunha e o governo de Espanha. Na actual situação essas negociações parecem quase impossíveis.

A imagem mostrando a península ibérica, com Portugal, as regiões autónomas de Espanha em verde claro, a Catalunha a verde, alguns países vizinhos e o meridiano de Greenwich foram tirados da Wikipédia.
 




2017-10-05

Economia com Todos



Andei a ler este livro feito por um conjunto de economistas que escrevem no blogue "Ladrões de Bicicletas", quase todos os membros desse blogue contribuíram com um artigo para o livro, sendo cada um deles mais extenso do que os posts que habitualmente continuam a aparecer no blogue.

Não concordando com tudo o que li, achei mérito em muitas das opiniões bastante diferentes das que normalmente se vêem nos meios de comunicação social com maior audiência, embora os autores apareçam de vez em quando nesses meios.

A maior parte dos autores estão ligados a universidades pelo que também me surpreende que os economistas saiam do ensino com um pensamento que parece único.

Transcrevo um texto  do início do livro, retirado do primeiro post do blogue referido:

«
Os dilemas trágicos que os indivíduos têm de enfrentar em resultado da falta de recursos e de poder tornam-se visíveis num belo filme italiano a que este blogue roubou o nome. Não somos cineastas, mas economistas. Acreditamos que a economia, como o cinema, pode ser um «desporto de combate». Temos partidos e ideologias diferentes e divergentes, mas convergimos no que hoje importa. Pleno-emprego, serviços públicos, redistribuição da riqueza e do rendimento, controlo democrático da economia fazem parte do caminho que queremos percorrer. Recusamos e combatemos as «evidências» e mitos que alimentam o actual consenso neoliberal. Acreditamos que o mercado sem fim é a ideologia transponível do nosso tempo. Mas uma coisa reconhecemos aos nossos adversários e a F. Hayek, o seu grande ideólogo: «nada é inevitável na existência social e só o pensamento faz que as coisas sejam o que são». Este blogue é portanto um espaço de opinião de esquerda, socialista e que pretende desafiar o actual domínio da direita na luta das ideias. Pedalemos então!João, Nuno, Pedro e Zé
»





2017-10-04

O tiroteio em Las Vegas


É sabido que a National Rifle Association defende que se toda a gente andasse armada não existiriam os massacres que ocorrem de vez em quando nos Estados Unidos da América, quer nas escolas quer quando os atiradores usam um palco para atirar contra a plateia.

Este argumento tem alguma lógica embora tenha como efeito colateral que considero indesejável obrigar toda a gente a andar com armas, objectos pesados incómodos para transportar no quotidiano e cuja omnipresença aumentaria o número de acidentes bem como o número de discussões que escalariam numa troca de tiros.

O recente incidente em Las Vegas em que um homem alvejou a partir da janela no 32º andar de um hotel, uma multidão que assistia a um concerto ao ar livre, em que morreram mais de 50 pessoas e centenas ficaram feridas, mostrou que nalguns tipos de incidentes de nada adiantaria que a multidão estivesse armada dado que estavam a ser alvejados a partir de uma distância considerável com armas de repetição automática de cadência elevada, na ordem dos 10 tiros por segundo. Nesta situação, antes do atirador ser sequer localizado, centenas de projécteis já teriam atingido a multidão.

Mostro uma infografia que vi na BBC sobre este tiroteio


Bem sei que a NRA continuará a aconselhar que todos os americanos andem sempre armados.

Mesmo assim tenho dificuldade em perceber porque é que num país onde a liberdade de andar com armas é tão importante se obriga nos voos domésticos os cidadãos americanos a viajar desarmados.

Não seria mais consistente que também nos aviões pudesse toda a gente andar com a sua espingarda de repetição? Ou pelo menos com um revólver?


2017-10-01

Financiar os estudos superiores será rentável?


O post "Benefícios do Ensino Superior em Portugal"do João André no Delito de Opinião chega a uma conclusão interessante:

«
O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles. Apesar das ineficiências, haverá certamente poucas áreas do estado onde haja tantas vantagens entre o serviço prestado e o benefício retirado. Ou, noutras palavras, o Ensino compensa. E muito.
»

Uma confirmação empírica desta conclusão é o interesse manifestado pelas instituições financeiras americanas em financiar os estudos  universitários dos alunos. Desta forma privatizam os rendimentos que o Estado retiraria dos salários dos licenciados cujo rendimento colectável é diminuído pela devolução (juros+amortização do empréstimo) que o licenciado tem que retirar ao seu salário bruto. E diminuem a mobilidade social.


2017-09-28

Pavão voando


Numa das minhas frequentes visitas ao sítio da BBC encontrei esta imagem lindíssima dum pavão a voar


Dizia lá que a imagem fora obtida pelo fotógrafo Sanjeevi Raja, de Coimbatore, do estado de Tamil Nadu no extremo sul da União Indiana, que localizei num site da National Geographic.

Normalmente os pavões chamam a atenção pela sua beleza e pelo espectáculo deslumbrante da abertura da sua cauda, mas embora não estejam a mostrar a cauda constantemente tenho visto muitas exibições ao longo do tempo.

Nessas alturas costumo notar nas penas cor-de-cobre mas não era capaz de dizer em que parte do corpo do pavão estariam essas penas. Quando vi esta foto googlei (peacock flying) e fui dar a este YouTube


que mostra perfeitamente os detalhes do voo do pavão em câmara lenta. Tenho visto pavões a voar mas os movimentos são tão rápidos que só dá para ver que ao contrário das galinhas conseguem voar distâncias apreciáveis.

Este video é espectacular!


2017-09-25

Colocados por género no IST no ano lectivo 2017-18



Vi este gráfico num post do IST no LinkedIn.

Quando passei pelo IST (Instituto Superior Técnico) no período de 1966-1971, no último ano do curso de Engenharia Electrotécnica existiam 4 alunas num universo de cerca de 120. Na Química, curso com maior percentagem de mulheres, a repartição era cerca de 50-50%.

As comparações com a situação actual não são exactas porque naturalmente os curriculos são diferentes e foram introduzidos alguns novos, como por exemplo a engenharia do Ambiente ou a Biológica em que a maioria das pessoas são mulheres.

Constato contudo que após 50 anos, a Engenharia de Telecomunicações e Informática, com os seus 11% de alunas, não aumentou muito os 3% de há 50 anos. Embora as mulheres tenham demonstrado individualmente nesta área uma competência equivalente à dos homens, parece existir uma preferência estatística significativa por outras áreas de actividade.


2017-09-15

O estuário do Tejo como espelho


Vou tirando umas fotos de vez em quando, a maior parte das vezes com o telemóvel, muitas vezes pensando que as vou mostrar neste blogue, mas nem sempre concretizo rapidamente a intenção e as fotos vão ficando nas pastas do PC à espera de serem mostradas.

Desta vez pensei em publicar esta foto de Setembro de 2014, num dia ao fim da tarde,



em que a superfície da água estava como um espelho. Lisboa é uma cidade ventosa e estas situações são menos frequentes e não sendo raras suscitam contudo maior propensão para tirar mais uma foto. Constatei que no meu blogue são frequentes estes espelhos à beira-rio, facilmente acessíveis fazendo busca de “beira-rio”.


Ao ver a foto apeteceu-me dar uma volta à beira-rio mas quando saí de casa apercebi-me que o vento presente não seria compatível com água espelhada. Ao pé do rio confirmei a minha espectativa de ausência de espelho:



Na margem ao pé da água viam-se as aves habituais, desta vez guinchos e alfaiates.


No mesmo percurso, sobre o lodo, vira na véspera duas alforrecas,


que era o nome pelo qual conhecia estes animais quando eles davam à praia no Algarve, tendencialmente em Setembro. Mais tarde conheci o termo “medusa”, na Wikipédia usam o termo “Medusozoa”. Nunca reparara na existência de uma forma em cruz.




2017-09-09

Água de Côco


Recentemente encontrei num supermercado em Portugal um côco objecto de uma adaptação que tornava facilmente acessível a água de côco, tão apreciada nos países em que eles crescem.



Este é um dos efeitos da globalização, é possível agora aceder a alguns produtos no sítio onde vivemos sem precisar de fazer uma viagem de muitas horas. Claro que depois quando viajamos para lugares distantes esses produtos já deixaram de ser um dos motivos para fazer a viagem, mas entretanto temos acesso permanente na nossa terra a uma muito maior diversidade.

Neste caso apreciei muito o conjunto de adaptações que transforma um côco com a sua água num recipiente tão fácil de abrir como uma lata de um refrigerante, côco colocado sobre cilindro de cartão para lhe dar estabilidade e incluindo dentro desse cilindro uma palhinha telescópica que uma vez estendida já não encolhe, mostrando uma enorme atenção ao detalhe.

O côco é produzido na Tailândia e transformado em Espanha (Genuine Coconut), tendo a transformação sido objecto de um prémio  (Fruit Logistica Innovation Award 2016).

Aqui tem um filme explicando como se abre o côco e como depois se pode aceder também à polpa do mesmo.


2017-09-06

O obscurantismo em Portugal


Noutro dia alguém me enviou num e-mail este texto execrável escrito por uma aristocrata portuguesa em 1927, portanto há 90 anos:




De vez em quando deploro e lamento esta vergonha nacional do analfabetismo em Portugal em pleno século XX e costumo sempre referir que essa é a pesada herança que nos deixou Salazar e seus entusiásticos apoiantes e não o ouro entesourado no meio da profunda miséria da sociedade portuguesa durante a maior parte desse século.

É evidente que a existência de tantos analfabetos num país dum continente onde todos os outros países tinham reduzido a taxa de analfabetismo a valores residuais deveria coexistir com opiniões obscurantistas como a que acabo de transcrever.

Porém, nos tempos que correm é muito fácil pôr a circular textos forjados na Internet pelo que “googlei” o nome da alegada autora do texto tendo chegado a uma entrada da Wikipédia que curiosamente apenas existe em língua inglesa.

Constatei portanto que a pessoa existira e que embora tenha dedicado tempo a criar literatura para crianças e a escrever livros sobre como governar uma casa e como educar os filhos, deveria considerar os seus como feios, fracos e pouco saudáveis em comparação com os alegadamente melhores representantes da alma portuguesa, os nessa altura 75% de analfabetos.

Através dessa busca cheguei também a um artigo muito interessante de Maria Filomena Mónica, publicado em 1977 na revista “Análise Social” intitulado “«Deve-se ensinar o povo a ler?»: a questão do analfabetismo (1926-39)” e disponível no link do título.

Achei o artigo muito esclarecedor sobre as opiniões em confronto, não tive disposição (ou arte) para fazer um resumo do mesmo mas não resisti a transcrever partes do texto de 33 páginas, para estimular uma leitura completa:

«
1. A QUESTÃO DO ANALFABETISMO
O debate que se realizou na Assembleia Nacional em 1938 constitui uma das mais importantes fontes da ideologia salazarista no que respeita à educação popular. A Assembleia reuniu para discutir a reforma da instrução primária do ministro Carneiro Pacheco, Mas a discussão deu lugar a uma desenvolvida e reveladora exposição da nova ideologia oficial, que negava os mais caros princípios pedagógicos do liberalismo e do republicanismo e, consequentemente, o ideal de um sistema de escolaridade obrigatória e gratuita.
 

a) AS «CAUSAS» DO ANALFABETISMO
O facto de, em 1930, em cada 100 portugueses 70 não saberem ler chocava algumas pessoas e, simultaneamente, tranquilizava outras. Para os sectores mais progressivos da intelligentsia portuguesa, que sempre se haviam envergonhado com uma taxa tão alta, o analfabetismo era o principal obstáculo ao desenvolvimento do País. Para os salazaristas, porém, era uma virtude.
...
Os salazaristas ressuscitaram a crença tradicional (para cuja divulgação durante o século xix contribuíra, entre outros, Ramalho Ortigão) de que o povo português «não sentia necessidade de aprender». Mas os republicanos adoptaram a explicação, não menos convencional, de que o analfabetismo se devia aos padres, à «reles canalha da batina»
.
»

Um pouco depois refere o texto de Virgínia de Castro Almeida que mostrei acima, comentando-o desta forma:
«
 Em 1807, o presidente da English Royal Society usara exactamente os mesmos argumentos para combater a proposta de lei relativa à introdução de escolas elementares em Inglaterra. Mas isso fora em 1807.
»

e sobre a igualdade prossegue:
«
Alguns sociólogos contemporâneos mostraram como as sociedades industriais avançadas utilizam o sistema escolar para legitimar as desigualdades sociais, fundando-se na ideologia meritocrática segundo a qual as posições privilegiadas são acessíveis a todos os indivíduos de igual talento.
As sociedades democráticas, em especial os Estados Unidos da América, sentiram a necessidade de justificar as profundas desigualdades económicas que nelas se mantêm, apesar dos proclamados ideais de liberdade, fraternidade e igualdade. Uma das formas possíveis de justificação residia em explicá-las por diferenças individuais inatas de capacidade intelectual, como reveladas pela selecção escolar. Sendo a transferência de status por via hereditária condenada pela ortodoxia do poder, passou a considerar-se a diferenciação social como produto de aptidões individuais.
A visão salazarista da sociedade como uma estrutura hierárquica imutável conduziu a uma concepção diferente do papel da escola: esta não se destinava a servir de agência de distribuição profissional ou de detecção do mérito intelectual, mas sobretudo de aparelho de doutrinação. Para o salazarismo não havia, aliás, qualquer razão para justificar as desigualdades económicas, que eram inevitáveis e instituídas por Deus, E convinha até, pelo contrário, rebater as falsas ideias do passado que apresentavam a escola como a «grande niveladora». Salazar afirmava mesmo categoricamente que a educação, só por si, pouco nivelaria, ou seja, que numa sociedade naturalmente hierarquizada, a educação pouco poderia contribuir para uma maior igualdade

»
prosseguindo
«...
O ataque mais articulado contra a escola única surge em 1928 pela pena de Marcello Caetano. Vamos analisá-lo em certo pormenor,
...
Deste modo, M. Caetano, reconhecia, e aceitava, o papel que os factores sociais desempenhavam no desenvolvimento intelectual, mas para negar a  possibilidade de mobilidade ascendente. Nas suas próprias palavras: «Uma criança inteligente, filha de um operário hábil e honesto, pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado,  pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser.» Cada classe possuía a sua hierarquia interna, nos limites da qual o mérito contava. Num sentido mais lato, porém, o  status era herdado.
Nestas condições, a escola única acarretaria desastrosas consequências para os indivíduos que através dela se promovessem. Filho de operário que «subisse» por intermédio da «escada educacional» pagava um alto preço: «
Seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tinha a mesma preparação hereditária que tinha para o ofício, não passaria nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio, mas incapaz de singrar na vida nova que lhe [haviam indicado] sem o ouvir.»
»
 Pensaram em punir os analfabetos para acabar com o analfabetismo

«... No entanto, só uma pena foi instituída por lei: em 1929, um decreto proibiu os analfabetos de emigrar. Mas nunca se cumpriu.
...
»

não me parecendo que isso fosse uma punição mas antes uma manifestação de apreço: a nação não podia prescindir desse recurso tão apreciado que constituíam os seus analfabetos.

Referindo depois a reforma de 1937
«
 A reforma de Carneiro Pacheco, de 1937, coroou todas as tentativas anteriores de cristianizar a escola e realizou as aspirações mais reaccionárias quanto à redução do currículo escolar e à supremacia da religião no ensino. Nas palavras do Diário da Manhã, a escola podia finalmente devotar-se a «formar o espírito e o carácter da criança», livre das «preocupações enciclopedistas», que tanto a haviam prejudicado. Como um inspector escreveu por essa altura, parafraseando a doutrina oficial, «por muito que se glorifiquem as letras do alfabeto, convençamo-nos de que a luz que delas irradia só perdurará se atingiras consciências e puder fecundar as almas. O nosso trabalho há-de consistir principalmente em prover as crianças de sólidas virtudes cristãs, entre as quais o amor ao trabalho, a disciplina da ordem e a alegria de viver.» A trilogia final sintetiza o programa do Estado Novo para a escola primária.
»
e a redução da escolaridade obrigatória

«
Dois corpos de legislação merecem ser aqui mencionados, porque estabeleceram as principais transformações que o Estado Novo introduziu no sistema escolar primário. Com a justificação de que era necessário reduzir as despesas públicas e impedir a «acumulação» de um número excessivo de alunos nos liceus, reduziu-se a escolaridade obrigatória, primeiro para quatro119 e depois para três anos120. Esta redução foi acompanhada da limitação das matérias ensinadas, de acordo com a doutrina de que «saber ler, escrever e contar é suficiente para a maior parte dos Portugueses.» E, como não fazia sentido transmitir muitos conhecimentos a alunos que apenas viriam a desempenhar trabalhos servis, tudo o que ultrapassava as aptidões mais elementares passou para um sistema «complementar», que, encerrado em 1932, não voltou a abrir. O Decreto-Lei n,° 27 279 definia claramente a nova ortodoxia: «O ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever e contar e a exercer as virtudes morais e um vivo amor a Portugal.»
»

A espécie humana conseguiu, através do estabelecimento de regras, procedimentos e valores de diversa natureza, obter progressos muitíssimo mais rápidos do que os que conseguem ser introduzidos no ADN da espécie, através da selecção natural de mutações favoráveis, que precisam de milhões de anos. Mas estes progressos, se bem que rápidos, não alteram a natureza humana pelo que precisam de um esforço de manutenção permanente para evitar retrocessos e/ou evoluções em sentidos desfavoráveis.

A conquista da alfabetização generalizada da população foi um enorme progresso que tem que ser defendido.



2017-08-29

Sobreiro em relvado algarvio


É algum atrevimento da minha parte classificar esta árvore isolada no meio dum relvado dum aldeamento algarvio como um sobreiro, apenas porque me pareceu que o tronco estava revestido de cortiça


é um contraponto às fotos em que aparece um sobreiro solitário no meio duma planície imensa do Alentejo, aqui é no meio dum jardim



e gostei das folhas iluminadas: