2019-12-09

Manufactura dum Jogo Hex


Conheci este jogo na Dinamarca em 1971 quando na viagem de fim-de-curso do IST um colega o comprou em Copenhaga. Na Wikipédia refere dois autores independentes:

«
O jogo foi inventado pelo matemático dinamarquês Piet Hein, que o introduziu em 1942 no Instituto Niels Bohr. Foi independentemente re-inventado em 1947 pelo matemático John Nash na Universidade de Princeton.
»


A configuração mais frequente é com 11x11 casas, quem joga primeiro tem vantagem que se desvanece com o aumento do número de casas. O jogo tem uma característica interessante de não admitir empates o que torna equivalente a melhor defesa ao melhor ataque. Portanto, não é preciso um "killer instinct" pois quem se contenta em se defender dos ataques do adversário está a construir uma linha que sendo a melhor barreira ao avanço do outro é ao mesmo tempo a melhor linha de ataque.

Mandei fazer há muitos anos um tabuleiro de madeira com furos, à semelhança da versão dinamarquesa,  mas nesse tempo não existia Excel e existiam marceneiros a custos razoáveis. Na altura encomendei o tabuleiro com 13x13 casas em vez das 11x11 mais comuns, pensando dar uma vantagem mais pequena a quem inicia o jogo.

Nos tempos que correm, com Excel e com marceneiros mais justamente remunerados, fiz uma ficheiro Excel para desenhar a estrutura de favo de mel e um ficheiro .pdf para a impressão respectiva. Ambos os ficheiros têm o nome "Hexagonos" e estão disponíveis neste sítio.

Depois de imprimir o ficheiro .pdf numa folha A3 de gramagem um pouco maior do que a do papel de  fotocópia numa loja do meu bairro (Loja de Fotografias, Rua Cidade Bolama, Nº 14-C 1800-079 Lisboa) comprei uma moldura de 30x40cm no AKI onde comprei também 70 porcas com furo de 8mm e largura exterior de 13mm. Precisei de cortar duas pequenas tiras de papel nos lados do papel A3 para caber na moldura. Depois derreti cera para dentro dos furos roscados de 35 das porcas para se distinguirem em dois conjuntos e fiquei a pensar que teria sido funcionalmente equivalente e provavelmente mais fácil encher os furos com plasticina em vez de cera.. Finalmente comprei no Tiger duas caixinhas de plástico com um conteúdo para aqui irrelevante.


Seguidamente coloquei o tabuleiro com um conjunto inicial de peças a fingir um jogo numa fase inicial e fotografei:
 




Mahatma Gandhi (4)


Continuando a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20 e continuei com outro post de 2019-11-02 e outro de 2019-11-21

Passo a referir o livro 4.

Parte IV (Livro 4)

4.1) Discordância crescente

À medida que escrevo sobre esta autobiografia do Gandi vou notando um aumento do número de temas em que tenho uma discordância forte em relação a muitas das opiniões do Gandi.

Dada a minha formação de engenheiro e nulo activismo político, tirando a manifestação de uma ou outra opinião sobre a governação aos amigos e em poucos posts deste blogue, embora reconheça o papel muito importante do Gandi na recuperação que a Índia fez da sua soberania, tenho alguma dificuldade em entender uma eventual relação necessária entre o seu trajecto político e as suas opiniões “pré-iluministas”.

4.2) Teosofia

O livro refere que Gandi foi contactado, ainda na África do Sul, por membros da Sociedade Teosófica (Teosofia seria Sabedoria Divina, assim como Filosofia é “Amor pela” Sabedoria) e quando se apercebeu que esperavam dele contribuições para essa sociedade ter uma melhor compreensão da religião hinduísta acabou por ter um estímulo para ler melhor os clássicos indianos, designadamente o Bhagavad-Gita que referi aqui.

Achei estranha a referência de Gandi à memorização que fez de trechos do Bhagavad-Gita, parece-me semelhante a decorar o Corão, na religião cristã a memorização limita-se a meia-dúzia de orações, mesmo durante a celebração da missa o padre tem um livro a servir de ponto para dizer as palavras correctas sem ter que recorrer à memória.

Na liturgia actual, os serviços de notícias da TV, os apresentadores são ajudados por um teleponto para não se enganarem a comunicar as notícias do dia.

Bem sei que quando foi inventada a escrita os contadores de histórias, que tinham anteriormente de as decorar, lamentaram a descoberta desta nova tecnologia, não era a mesma coisa saber uma história de cor ou limitar-se a ler um livro e estes hábitos perduram por séculos, dizem-me que no Irão ainda existem contadores de histórias (https://www.utne.com/arts/irans-streetwise-storytellers-naghals ), que actuam na rua para quem quer ouvir.

Dando o benefício da dúvida, talvez seja um treino na arte da retórica pois tenho lido que o Bhagavad-Gita tem muitos bons exemplos de troca de argumentos.

Na referência à Teosofia na Wikipédia vi o nome de Annie Besant e googlei (annie besant indiana jones) pois julgo ter ouvido falar da Teosofia pela primeira vez na série da TV “Indiana Jones – Crónicas da Juventude) onde o jovem Indiana Jones visitava gente no princípio do século XX, gente essa que ficaria depois muito célebre.

Fui dar ao episódio “The Young Indiana Jones Chronicles - Journey of Radiance” de 1hora e 35 minutos disponível no Youtube e que deixo aqui


4.3) Leite e Caldo de carne

Existem plantas venenosas em que a ingestão de uma pequena quantidade pode causar grande mal-estar ou mesmo a morte. Distinguir as comestíveis das venenosas foi uma tarefa difícil e arriscada, ainda hoje ocorrem desastres quando se confundem cogumelos selvagens, foi uma das áreas de conhecimento em que foi mais útil a transmissão de informação entre os seres humanos.

Não conheço nenhuma proibição de indole religiosa em relação à ingestão de qualquer planta específica (os jejuns são indiscriminados) mas existem proibições de porco para muçulmanos e judeus, abstenção de sangue e produtos derivados para muçulmanos (através das técnicas prescritas para matar os animais) e de vaca para os hindus.

As proibições dos muçulmanos parecem sensatas para a região e época em que foram estabelecidas.

Também existiam razões para a proibição hindu do consumo de carne de vaca, uma delas era que as vacas podiam fornecer leite para consumo humano. Ora o Gandi, ao tomar conhecimento do tratamento que davam às vacas leiteiras achou por bem prescindir do leite da vaca e fez um voto de abstinência de leite de vaca e de ovelha. Entretanto adoeceu (o que é frequente na autobiografia) e embora lhe tenham lido textos sagrados que diziam que em caso de doença grave se devia abrir uma excepção à renúncia de leite, ele só muito tarde condescendeu em beber leite de cabra, que não estava no voto embora o Gandi considerasse que o estava a quebrar.

Doutra vez em que a mulher foi sujeita a uma operação e o médico considerou essencial para a recuperação a ingestão de caldo de carne o Gandi, ouvida a mulher, optou por levá-la para casa pois o médico recusou-se a tê-la no hospital sem a possibilidade de lhe dar caldo de carne. O único ponto positivo neste comportamento que me parece infantil é que faziam os testes neles próprios relatando os resultados a outras pessoas.

Mas tudo isto me parece muito disparatado. Descobrir uma alimentação saudável e descobrir quais os tratamentos mais eficazes para evitar e combater as doenças requer a cooperação de multidões de pessoas que dedicam toda a sua vida a estudar, aplicar e testar de forma sistemática uma multiplicidade de informações e de processos. E mesmo assim, dada a complexidade dos problemas, muitos dos comportamentos e processos que pareceram promissores vêm a revelar-se menos bons passados uns anos e vice-versa. Tentar descobrir processos que se possam aplicar à generalidade da população a partir de esperiências feitas no próprio corpo parece-me praticamente inútil.

E envolver a religião nestes assuntos parece-me contraproducente. Nutrição e Medicina devem ser deixados ao método científico de elaboração de hipóteses e teorias e sua verificação com possibilidade de as rever sempre que surjam factos novos que as infirmem.

4.4) Binóculo ao mar

Existe ainda a descrição de uma discussão tão continuada sobre a necessidade de levar uma vida simples que o Gandi acabou por convencer numa viagem de barco um dono de um binóculo a atirá-lo literalmente pela borda fora para não ter de o ouvir mais. Um binóculo poderá ser inútil para alguns donos, eu próprio tenho um que tem tido pouco uso, mas parece-me profundamente errado deitar fora um instrumento precioso e potencialmente muito útil. Será porque os camponeses indianos não precisam de binóculos e portanto não é razoável ou justo ter um binóculo? Parece uma rejeição de tudo o que vem do mundo industrializado o que é também completamente errado.


Até o Tintin foi uma vez salvo por causa duns binóculos!


2019-12-04

Medronheiro nos Olivais Sul


"Pelo fruto se vê a árvore", diz na Bíblia, conselho adequado para os espíritos mais práticos, focados na contribuição alimentar de cada espécie vegetal. Nestes tempos, em que os citadinos encontram os seus alimentos na maior parte das vezes nas prateleiras dos supermercados, as árvores nas cidades têm um papel mais decorativo e de fixação do carbono a partir do anidrido carbónico existente na atmosfera. Nos Olivais existem muitas árvores, como os leitores deste blogue têm tido oportunidade de conhecer.

Desta vez reparei num Medronheiro, geralmente um arbusto mas que se pode desenvolver até ficar uma árvore como foi o caso deste, localizado na Quinta do Contador-Mor, encostado à grade da rua Cidade de Lobito.




mostrando a seguir uma parte da imagem anterior em que se vêem melhor os frutos, inicialmente amarelos e vermelhos quando maduros




Dizia na Wikipédia que os frutos aparecem no Outono, estação onde se situa o dia 1/Dez/2019, data em que estas imagens foram obtidas.

Dizia ainda que coexistem na mesma época os frutos e as flores que vão dar origem aos frutos do ano seguinte. Andei à procura das flores e descobri alguns conjuntos de cor branca que parecem uns recipientes com a boca para baixo



Talvez se veja um pouco melhor na ampliação da mesma foto que mostro a seguir


mas para ver bem a forma das flores pode vê-las aqui, onde tem esta imagem do David Perez:







2019-12-02

Precipitação de água em Portugal



De vez em quando leio artigos sobre os problemas com a seca e embora reconheça que existem problemas de abastecimento da água em Portugal, sinto desconforto na forma como o tema é apresentado nos jornais.

O clima de Portugal, na parte continental, apresenta grandes diferenças entre o Norte e o Sul, em que existe muito mais precipitação no Norte do que no Sul, grandes variações na precipitação entre as estações do ano, com muito pouca precipitação durante o Verão e também variações apreciáveis na quantidade de precipitação anual.

Contudo o nosso país, com a sua frente atlântica donde vêm ventos húmidos e conjuntos montanhosos com altitude adequada e frequentemente correndo paralelamente à costa, propiciam precipitações apreciáveis para os valores típicos do continente europeu.

Por exemplo a pluviosidade de Lisboa é semelhante à de Londres e à de Bruxelas, com a diferença de que enquanto nos meses de Verão quase não chove em Lisboa, nas outras duas cidades a precipitação disrtribui-se de forma mais homogénea pelos 12 meses.

Como consequência nalgumas actividades, tais como na gestão da água das albufeiras, usa-se o conceito de “Ano hidrológico” que coincide grosso modo com o ano lectivo, começando em Outubro, quando aparecem tipicamente as primeiras chuvas e terminando em Setembro, quando será espectável que os níveis das albufeiras estejam no seu valor mais baixo do ano.

É normalmente neste fim de ano hidrológico que se fala do nível baixo das albufeiras e das desgraças que nos espreitam se não vier a chuva.

Esta característica do nosso país de, à medida que se vai para o Norte, se ver um país cada vez mais verde, leva-nos a pensar que países mais para o Norte da Europa terão maiores precipitações, mesmo sabendo que a precipitação não depende geralmente da latitude.

O facto do nosso país receber mais turistas no Verão poderá também levar esses visitantes a pensar que vivemos num país cheio de sol quando a realidade é que, além de termos muito sol, temos também muita chuva.

Para ilustrar estas afirmações fui verificar o valor da precipitação por país neste sítio a que o Google me conduziu buscando (yearly precipitation by country), tendo registado os valores de alguns países em tabela que apresento no fim deste post.

Antigamente referia-se que tinha chovido num dado dia 4mm. Isto queria dizer que se tivéssemos uma superfície plana exposta à chuva e donde não saísse a água da chuva, nem por infiltração no terreno, nem por escorrência para superfícies adjacentes mais baixas nem por evaporação e não recebesse água de zonas adjacentes, a altura da água no fim do dia seria 4mm. Numa superficie com a área de 1 m2 o volume de água sobre essa área dessa superfície seria 4 litros, donde a referência actualmente mais frequente a 4 l/ m2.

A água que cai numa área de 1 km2 é 1 milhão de vezes maior do que a que cai num m2 pelo que me pareceu melhor usar o m3 como medida da água que cai em cada km2 do país em questão.

Para avaliar a situação de cada país pareceu-me razoável dividir os m3 de água pelos km2 de superfície de cada país pelo número de habitantes por km2 desse país (valor da densidade populacional obtido na Wikipédia) obtendo assim o valor anual da precipitação de água por habitante expresso em m3.



Dos países seleccionados constata-se que o valor mais elevado com 7625 m3 por habitante é o de Portugal.  Claro que existem todos os factores que referi acima que condicionam o número obtido mas é neste sentido que eu costumo dizer que os portugueses não têm motivo para se queixarem da falta de água do nosso país, se ela falta é porque não está a ser bem gerida pois cai do céu com fartura.

Abordei a falta de água no Algarve neste post.


Fui buscar à Wikipédia esta animação interessantíssima sobre a chuva nos vários meses do ano (https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/MeanMonthlyP.gif ) onde por exemplo se vê a secura do Verão na península ibérica




2019-11-29

Procurando um trevo de 4 folhas


Resultado duma chuvinha, os trevos expandiram-se com muita energia , suscitando curiosidade por esta realidade real:


agora com mais pormenor


E agora, já descobriram onde está o trevo de 4 folhas? Ver minha resposta mais abaixo
















Eu também não.

2019-11-27

Homenagem ao Prof. Jorge Reis Novais


O post anterior sobre dívida fez-me ir à procura de “dívida” neste blogue, tendo encontrado 11 posts com esta palavra, distribuída assim por ano: 2019-1, 2018-1, 2015-1, 2014-1, 2013-3, 2011-4.

Ao reler alguns dos posts relembrei os ataques sucessivos à Constituição da República Portuguesa pelo governo de Pedro Passos Coelho e a defesa firme e clara que o Professor Jorge Reis Novais dela fez nessa altura. Foi sempre um prazer ouvi-lo.

Ultimamente não o tenho visto na TV, provavelmente porque a Constituição não tem sido tão atacada, mas deixo aqui três pequenos filmes com alguns anos que encontrei agora no YouTube











A Dívida Africana à China


Tomei conhecimento desta verificação da BBC sobre se a China estará a sobrecarregar a Àfrica com dívida.

Achei curiosa esta preocupação, referida por exemplo nesta frase:
«
Earlier this year, ahead of a visit to Africa, the then US Secretary of State, Rex Tillerson, said China's lending policy to Africa "encouraged dependency, utilised corrupt deals and endangered its natural resources".
»

pois tem sido uma constante da História, desde que se fazem empréstimos com juros, que quem tem falta de dinheiro peça emprestado a quem o tem, sendo frequente que o devedor tenha dificuldade em pagar o que deve.

Por exemplo Portugal endividiu-se excessivamente em libras esterlinas, depois em dólares americanos e ultimamente sobretudo em euros, estes últimos emprestados por bancos alemães e espanhóis para comprarmos os terrenos das nossas habitações e fazermos auto-estradas primeiro e depois para pagarmos os juros dos empréstimos anteriores e irmos amortizando a dívida.

Deve fazer parte da essência do funcionamento dos bancos emprestarem dinheiro até que o devedor fique excessivamente endividado. Nessa altura tentam executar as garantias dadas quando o empréstimo foi contraído. É uma operação com algum risco mas em que se podem ficar com as garantias do empréstimo por preços muito atractivos.

Por exemplo a Inglaterra reduziu o Egipto à condição de protectorado servindo-se das receitas do canal do Suez para se ressarcir de empréstimos que fizera ao governante local. Também ganhou direitos de exploração do petróleo do Irão na fase em que a dinastia Qajar vendia concessões de bens ou de monopólios iranianos dadas as extravagantes necessidades dos Xás.

Os Estados Unidos da América fizeram por exemplo empréstimos ruinosos para o Brasil durante a ditadura militar com a agravante de terem dado apoio ao regime ditatorial na repressão dos opositores.

Agora que na China se fabrica uma parte muito importante dos produtos consumidos em todo o mundo, a China não só tem muito capital como precisa de muitas matérias primas para produzir todos esses  produtos.

É assim natural que empreste dinheiro a África, quer para investimentos que facilitem a exportação de matérias-primas de que necessita quer para investir o seu excesso de liquidez. E também sucumbirá certamente à tentação de executar algumas garantias para ser indemnizada de dívidas não pagas.

Noutro artigo da BBC o autor interroga-se se a África deve ter cuidado com os empréstimos chineses. Claro que sim mas apenas porque são os que actualmente representam o maior volume e não por serem especificamente chineses. O economista Joseph Stiglitz é referido como usando o termo “sour grapes” para classificar a crítica ocidental do trabalho da China em África. Este termo “sour grapes” deve derivar da fábula da raposa quando dizia que as uvas não prestavam pois estariam verdes como consolo de as não conseguir alcançar.  Stiglitz reconhece naturalmente que a gestão da dívida exige cautela para que não se torne excessiva.

2019-11-23

Homenagem a José Mourinho


Tendo eu muito pouco interesse por futebol é difícil em Portugal não tomar conhecimento de coisas que se vão passando nesse mundo.

Achava graça ao treinador José Mourinho e, face aos grandes resultados que ele ia obtendo com as equipas que treinava, eu considerava que a sua arrogância era dificil de evitar para quem inovava tanto na sua profissão.

Agora parece que conseguiu também a humildade de quem tem sucesso, diz que analisou o que tem feito, identificou erros que cometeu e não vai repetir esses erros vai fazer erros novos!


 


2019-11-22

O Livro do Chá, por Kakuzo Okakura


Quando fiz recentemente um post sobre a Charlotte Periand referi um artigo sobre esta sala de chá para o edifício da UNESCO em Paris



que ela projectou quando tinha 90 anos. Nesse artigo refere-se que na estadia da Charlotte Periand no Japão tomou conhecimento do livro "The Book of Tea" publicado em 1906, escrito originalmente em inglês por Kakuzo Okakura (1862-1913), pintor, escritor e estudioso da arte japonesa, um dos principais fundadores da Escola de Artes de Tóquio de que seria professor. O livro foi escrito para dar a conhecer a cultura japonesa aos ocidentais e a sua leitura teve uma influência profunda e duradoura em Charlotte Perriand.


Fiquei curioso e descobri que existia uma edição em português:

Biblioteca Editores Independentes / 
Cotovia, julho de 2007 
ISBN: 9789727951994
96 páginas,
Tradução de Fernanda Mira Barros 

que comprei.

Gostei do livro que me pareceu cumprir bem o objectivo de dar a conhecer aos ocidentais alguns aspectos importantes da cultura japonesa e da sua arte.

Não resisti a transcrever uma boa parte do capítulo intitulado "A Sala-de-Chá".

Tinha tido há alguns anos experiências desanimadoras na  conversão de digitalizações de textos para sequências de caracteres processáveis por programas como o "Notepad" ou o "Word", nessa altura dava tanto trabalho corrigir os erros da conversão como escrever tudo "à mão".

Na busca que fiz agora na internet descobri que no Google Drive fazem essa conversão, por exemplo de ficheiros .pdf com texto fotografado ou de ficheiros .jpg ou outros. Basta colocar o ficheiro em questão no Google Drive e abri-lo com o programa Docs, a conversão é feita sem necessitar de mais comandos como informam aqui (How to OCR Documents for Free in Google Drive) . Fiquei agradavelmente surpreendido com os melhoramentos do que se chamava "OCR- Optical Character Recognition", as digitalizações que eu fiz do livro até deixavam um pouco a desejar e contudo a conversão de 5 páginas do livro fizeram-se sem erros!

Numa folha de formato A4 com "Times New Roman 12" o texto do livro que passo a transcrever ocupa cerca de uma página e meia:

Páginas 56 a 61 do Capítulo “A Sala-de-Chá” do "Livro do Chá" 
«
...
Que a sala do chá deva ser construída para servir algum gosto individual é uma imposição do princípio de vitalidade na arte. A arte, para ser inteiramente apreciada, tem de fazer justiça à vida contemporânea. Não se trata de devermos ignorar os requisitos da posteridade mas sim de procurarmos fruir melhor o presente. Não se trata de devermos desrespeitar as criações do passado , mas sim de tentarmos assimilá-las na nossa consciência. A escravizante conformidade com tradições e fórmulas agrilhoa a expressão da individualidade em arquitectura. Não podemos senão chorar aquelas insensatas imitações de prédios europeus que se observam no Japão moderno. Maravilhamo-nos com a razão pela qual, entre as nações ocidentais mais progressivas, a arquitectura havia de ser tão despida de originalidade, tão repleta de repetições de estilos obsoletos. Talvez atravessemos agora uma era de democratização na arte, enquanto aguardamos o surgimento de  algum mestre principesco que venha estabelecer uma nova dinastia. Quem dera que amássemos mais os antigos e os copiássemos menos! Já se disse que os Gregos foram grandes por nunca se basearem na antiguidade.

O termo Domicílio do Vazio, para além de transmitir a teoria taoísta do todo-abrangente, implica a concepção de uma necessidade contínua de mudança nos motivos decorativos. A sala-de-chá está vazia em absoluto, excepto naquilo que ali pode colocar-se temporariamente para satisfazer um qualquer humor estético. Algum objecto de arte especial é trazido para a ocasião, e tudo o mais é seleccionado e arranjado para realçar a beleza do tema principal. Não podemos escutar diferentes peças musicais ao mesmo tempo, sendo uma verdadeira compreensão do belo apenas possível através da concentração nalgum motivo central. Assim verse-á que o sistema de decoração na nossa sala-de-chá se opõe àquele que prevalece no Ocidente, onde o interior de uma casa é amiúde convertido num museu. Para um japonês, acostumado à simplicidade de ornamentação e à mudança frequente de método decorativo, um interior ocidental, permanentemente preenchido com um vasto aparato de quadros, estatutária e bricabraque, dá a impressão de uma mera exibição vulgar de riquezas. Para usufruir da visão permanente, até mesmo de uma obra-prima, há que ter um forte poder de apreciação, e a capacidade de sentir a arte tem de ser realmente ilimitada naqueles que conseguem viver, dia após dia, no meio de tamanha confusão de cor e forma como a que amiúde se observa nos lares da Europa e da América.

O Domicílio do Assimétrico sugere outra fase do nosso esquema decorativo. A ausência de simetria nos objectos de arte japoneses foi frequentemente comentada pelos críticos ocidentais. Também isto resulta de um desenvolvimento, através do Zenismo, de ideais taoístas. O Confucionismo, com a sua bem enraizada ideia de dualismo, e o Budismo do Norte, com a sua veneração de uma trindade, não se opuseram de modo algum à expressão de simetria. De facto, se estudarmos os antigos bronzes da China ou as artes sacras da dinastia Tang e do período Nara, reconheceremos uma busca constante de simetria. A decoração dos nossos interiores clássicos era decididamente regular no seu arranjo. Contudo, a concepção de perfeição taoísta e zen era diferente. A natureza dinâmica desta filosofia punha maior ênfase no processo através do qual se procurava a perfeição do que na própria perfeição. A verdadeira beleza só podia ser descoberta por quem completasse mentalmente o incompleto. O vigor da vida e da arte assentava nas suas possibilidades de crescimento. Na sala-de-chá cabe à imaginação de cada convidado completar para si próprio o efeito total. Desde que o Zenismo se tornou o modo de pensar predominante, a arte do extremo Oriente fez por evitar o simétrico como expressão, não apenas de acabamento, mas também de repetição. A uniformidade do padrão foi igualmente considerada fatal para a frescura da imaginação. Assim, as paisagens, as aves e as flores tornaram-se temas favoritos de representação, mais do que a figura humana, que estava presente na pessoa do próprio observador. Já estamos demasiadas vezes em evidência e, apesar da nossa vaidade, até mesmo a auto-estima está sujeita a tornar-se monótona.

Na sala-de-chá o medo de repetição é uma presença constante. Os vários objectos para a decoração de uma sala devem ser seleccionados de modo a que não se repita nenhuma cor ou padrão. Se temos uma flor natural, uma pintura de flores é inadmissível. Se utilizamos uma chaleira redonda, o jarro de água deve ser angular. Uma chávena com um vidrado negro não deveria associar-se a uma caixa para chá de laca negra. Ao colocar uma jarra ou um recipiente para queimar incenso no Tokonoma, deverá haver cuidado para que não fique exactamente ao centro, não vá dividir o espaço em metades iguais. O pilar do Tokonoma deve ser de um tipo de madeira diferente do dos outros pilares, de modo a quebrar qualquer sugestão de monotonia na sala.

Também aqui o método japonês de decoração de interiores difere do ocidental, onde vemos objectos dispostos simetricamente em prateleiras e noutros locais. Nas casas ocidentais confrontamo-nos amiúde com o que nos parece ser uma reiteração inútil. Encontramo-la ao tentar conversar com um homem, enquanto o seu retrato de corpo inteiro nos fita por trás dele. Questionamo-nos sobre qual será verdadeiro, aquele que está no retrato ou aquele que conversa, e temos a curiosa convicção de que um deles há-de ser uma fraude. Repetidas vezes me sentei a uma mesa festiva contemplando, com um choque secreto para a minha digestão, a representação de abundância nas paredes da sala de jantar. Porquê estas vítimas da caça ou do desporto retratadas, o trinchar esmerado de peixes e frutos? Porquê a disposição de baixelas familiares, recordando-nos aqueles que jantaram e estão mortos?

A simplicidade da sala-de-chá e a sua liberdade face à vulgaridade fazem dela verdadeiramente um santuário distante dos vexames do mundo exterior. Ali, e só ali, pode alguém dedicar-se à adoracão imperturbada do belo. No século dezasseis, a sala-de-chá permitia um desejado descanso do trabalho aos guerreiros valentes e aos governantes implicados na unificação e reconstrução do Japão. No século dezassete, após o desenvolvimento do rígido formalismo da regência Tokugawa, ela oferecia a única oportunidade possível para a livre comunhão dos espíritos artísticos. Perante uma obra de arte grandiosa não havia a menor distinção entre daimyo, samurai e as gentes comuns. Hoje em dia o industrialismo torna o verdadeiro requinte cada vez mais difícil por todo o mundo. Não precisaremos nós, mais do que nunca, da sala-de-chá?


» 

Entretanto, além das edições disponíveis em papel, descobri uma versão completa em inglês do "Book of Tea":


The Project Gutenberg EBook of The Book of Tea, by Kakuzo Okakura
 
Adenda: este post Mobilar ilustra algumas diferenças entre as decorações ocidental e japonesa

 



 

2019-11-21

A interdependência é grande


Li este artigo na BBC intitulado "Senado das Filipinas toma conhecimento que China poderia desligar a energia eléctrica no país", na secção de "Reality check".

Achei curiosa a citação de uma frase do senador filipino Richard Gordon: "We have given our grid - although 40% it appears - to a foreign corporation that has interests that collide with our country in the West Philippine Sea,".

Na realidade as Filipinas não deram a sua rede de transporte de electricidade, venderam-na por um preço acordado entre as partes.

Possivelmente a empresa filipina comprou posteriormente um sistema de telecontrolo fabricado na China cujo software terá provavelmente algum nível de suporte por equipa sediada na China, nada que não aconteça na Europa, onde sistemas instalados num dado país são suportados por equipas instaladas noutro país.

A ideia de interdependência entre sociedades é central à construção da União Europeia. Ao conceito cristão de amor ao próximo, que a História mostrou não ser completamente eficaz na prevenção da guerra entre nações predominantemente cristãs, adicionou-se o interesse comercial. Aumentando o número de trocas entre países os governantes e o público em geral terão a ajudá-los a ideia que serão prejudicados se matarem quer clientes quer fornecedores.

Claro que estes negócios serão problemáticos caso ocorra um conflito insanável entre parceiros, como aconteceu por exemplo ao Irão que comprou centrifugadoras para enriquecer urânio à Siemens para as ver posteriormente sabotadas pelo vírus Stuxnet, implantado a partir de local exterior ao Irão nesses equipamentos.

A autarcia porém tem custos elevados, por exemplo no Irão cortaram a maior parte dos acessos à Internet nos últimos 4 dias, na sequência de protestos contra aumento de preços em combustíveis.




Mahatma Gandhi (3)


Continuando a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20 e continuei com outro post de 2019-11-02  passo a referir o livro 3.

Parte III (Livro 3)

3.1) Financiamento das fundações

Gandi era bastante radical neste tema como se vê nesta citação:
«...Alguns dos assim chamados grupos religiosos deixaram de prestar quaisquer contas. Os seus administradores transformaram-se em proprietários e já não são responsáveis perante ninguém. Não tenho a menor dúvida de que o ideal é que tais instituições vivam, como a natureza, do dia a dia. A organização que não conseguir apoio da comunidade não tem direito a existir como tal. As doações que uma organização assim recebe anualmente são o termómetro da sua popularidade e da honestidade da sua administração e acho que todas elas devem passar por este teste.»

Embora considerasse que existiam entidades que pela sua própria natureza não podiam ser geridas sem instalações permanentes, considerava que mesmo para essas as despesas correntes deveriam ser cobertas por doações anuais.

3.2) Educação dos filhos

Gandi apercebeu-se que as instituições educativas inglesas eram um dos pilares do império britânico pelo que chegou a aconselhar os jovens indianos a abandonar esses estudos: “em 1920 convocou jovens a sair das das cidadelas da escravidão – as suas escolas e faculdades. Disse-lhes que era muito melhor permanecer sem instrução e quebrar pedras, em nome da liberdade, do que receber educação superior atados aos grilhões da escravidão”.

Porém, foi incapaz de simultaneamente fornecer alternativas quer através de novas instituições educativas quer através de formação dentro da própria família, para a qual dispunha de tempo insuficiente para essa tarefa, dadas as suas actividades em prol das comunidades indianas.

Este foi um ponto de discórdia com os filhos que se consideraram prejudicados pela falta de instrução escolar.

3.3) Castidade

Os seres humanos são sujeitos a atracções fortes para garantir a sua sobrevivência e a sobrevivência da espécie. Essas atracções são muitas vezes premiadas por sensações muito agradáveis como por exemplo na alimentação ou no sexo, podendo transformar-se em obsessões. As sociedades tentam evitar essas obsessões através de regras morais a que corresponde a virtude da temperança ou de interdições eventualmente religiosas.

Gandi, depois de ter gerado alguns filhos convenceu-se que as relações sexuais deviam ter a procriação como única finalidade, considerando que fazer um voto de castidade o ajudaria a uma abstinência total, um conceito que designa por Brahmacharya.

Às “tentações da carne” na cultura cristã corresponde a “tentação da ascese”, fazendo o controlo através da supressão do impulso. A supressão absoluta da pulsão para comer não é aplicável de forma permanente pelo que os jejuns, se bem que existam, não podem ser para sempre pois sem limite de tempo são incompatíveis com a vida. Já em relação à pulsão sexual, a sua supressão total tem sido adoptada na vida monástica de várias religiões. Poderá ser benéfica para casos específicos, seria certamente nociva se imposta à maioria da população.

3.4) A vida de um carneiro

Durante estadia em casa de Gokhale, um seu mentor, Gandi visitou um templo da deusa Kali onde estavam a sacrificar muitos carneiros. Não aprovo o sacrifício de animais a divindades se bem que presuma que seja uma forma de fornecer proteínas a alguns grupos sociais.

Fiquei contudo chocado com a frase de Gandi “Para mim a vida de um cordeiro não é menos preciosa do que a de um homem”. Compreendo que uma pessoa adira ao vegetarianismo se bem que na natureza existam animais carnívoros. Comer carne é portanto uma actividade natural, o mesmo se podendo dizer de ter uma dieta exclusivamente vegetariana dado que existem espécies herbívoras, que se abstêm de comer carne. Mas é para mim incompreensivel não se sentir maior afinidade com um seu semelhante do que com outra espécie animal.

3.5) Darbar

Na Índia ocorriam reuniões dos governantes com os seus súbditos chamadas “Darbar” ou “Durbar” em inglês, eram formas periódicas de prestar vassalagem. Naturalmente durante o domínio britânico os governantes ingleses organizavam durbars para os quais convocavam os marajás na condição de vassalos.

Escreve o Gandi neste livro que os marajás eram nessas ocasiões forçados a usar sedas e jóias como se fossem mulheres, tratando-se de uma forma de humilhação imposta pelos ingleses.

Por curiosidade googlei Durbar e fui dar a este artigo do jornal Economic Times com estas fotos tiradas de um Durbar realizado em Delhi na semana passada, portanto em Nov/2019.

Constato que a palavra Durbar, como tantas outras, tem mudado de significado e será agora usada para reuniões sociais apresentando novas propostas de indumentárias.

Gostei muito destes vestidos embora não aprecie as jóias penduradas no nariz desta mulher



e constatei que afinal o uso de sedas e de jóias pelos homens nestas reuniões sociais



talvez faça parte da cultura indiana não sendo uma imposição do colonizador britânico.

2019-11-15

Eka Pada Rajakapotasana



Nunca fiz Yoga mas o nome (Eka Pada Rajakapotasana) deste movimento que vi referido aqui levou-me a este filminho do YouTube




mostrando o movimento que me pareceu particularmente difícil.

Entretanto  neste artigo da BBC dizem que é fácil  confundir "dor numa articulação" em que se deve parar o movimento e "rigidez" em que se deve continuar, mas não dizem como evitar essa confusão.

Citando: «... it can be easy for yoga practitioners to mistake joint pain, which means they should stop the movement, for stiffness, which they should push through. ... »



2019-11-13

Traduzir "Aer enim volat"


Na minha ignorância do latim recorri ao Tradutor do Google para ver o significado de "Aer enim volat", uma canção lindíssima que referi no post anterior.

Uso o Tradutor do Google com alguma prudência pois embora seja uma ferramenta útil sugere frequentemente grandes disparates.

Neste caso comecei por pedir a tradução de "aer enim volat" do latim para português, tendo obtido como resultado "para ar e moscas" o que ironizando eu diria que me pareceu menos feliz, tinha dificuldade em acreditar neste título para uma música em geral e ainda menos para uma música religiosa.

Recorri ao inglês, o que faço com frequência para verificar ou obter uma tradução mais fiável, pois como nos utilizadores da internet usando o alfabeto latino predomina o inglês as traduções inglesas costumam ser de melhor qualidade. Obtive contudo uma tradução equivalente com as mesmas moscas e recorri então ao francês e ao espanhol com os resultados seguintes:

aer enim volat   
inglês          For air and flies
português    Para ar e moscas
espanhol      Para el aire y moscas
francês         Pour l'air et les mouches

Não me conformei mesmo depois desta concordância e depois de ver que "aer" era "ar" e "enim" era "para" verifiquei que "volat" era "ele voa", conforme resultados seguintes.

volat
inglês           He flies
português     ele voa
espanhol       él vuela
francês          il vole

Como em inglês o pronome vinha com maiúscula inicial pensei que se referisse à  divindade ou a algum espírito mas como nas outras línguas não aparecia a maiúscula desisti desta interpretação e optei por "Para o ar ele voa" o que não sendo forçosamente certo já não parecia tão disparatado.

Entretanto reparei que esta confusão de vôo com moscas só pode ocorrer em inglês pois fly tanto significa "vôo" ou "voar" como "mosca" e "flies" tanto é uma forma verbal do verbo "to fly" como o plural de mosca (moscas).

Constato assim com alguma segurança que o Tradutor do Google automatizou o que eu fazia com frequência: caso não exista tradução entre duas línguas específicas, o Tradutor nalgumas situações traduz da língua de origem para inglês ou outra e depois dessa língua intermédia para a língua de destino.

Sugeri à Google que ao menos sinalizem quando a tradução passa por uma língua intermédia.

Entretanto Googlei (Aer enim volat lyrics) e fui dar a um texto com letras da Hildegard onde encontrei para tradução de

aer enim volat   
inglês           For the air is in flight,
francês         Car l’air vole,
alemão         Die Luft nämlich weht dahin

donde mudei a minha tradução no post anterior de "Para o ar ele voa" para "Porque o ar voa".

Também poderia ser "Porque o ar está no vôo", "Porque o ar está em voar" mas decidi-me pela mais simples.




Hildegard von Bingen


Hildegard von Bingen (1098-1179) foi uma freira, abadessa Beneditina, escritora, compositora, filósofa, mística, visionária e poliglota. segundo a versão inglesa da Wikipédia e/ou " mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora" na versao portuguesa. É também Santa e Doutora da Igreja (católica).

É uma figura notável, cuja biografia recomendo, mas aqui fico-me por este Aer Enim Volat, que traduzo livremente como "Porque o ar voa":




para quem  apreciou este pequeno trecho de 2 minutos e 7 segundos deixo ainda outra sugestão mais completa de 1 hora 13 minutos, os celestiais Cânticos do Êxtase:










2019-11-10

SI – Sistema Internacional de Unidades


Um alqueire, um quarteirão, uma jarda, uma dúzia, meia-dúzia, dois mil e quinhentos todas estas medidas e quantidades são uma memória de tempos idos, alguns ainda em uso nos tempos presentes, outros vivendo apenas nos livros antigos.

No último post, ao referir a permanência do “barril”, como unidade de volume em que ainda se transacciona o petróleo, fui tentar perceber o que se passa com as unidades de grandezas físicas.

Um bom começo é consultar a Wikipedia em português ou em inglês sobre este assunto, onde se começa por enumerar as unidades básicas que constituem actualmente o SI.

Lembro-me das referências nas aulas de História à multiplicidade de medidas e de moedas que eram típicas da sociedade feudal, pulverizada em domínios de pequena dimensão predominando a autarcia das aldeias.

Parece-me existirem dois motivos principais para uniformizar as medidas:
- facilitar as trocas de produtos;
- facilitar a realização de cálculos em que se incluem grandezas físicas de diferente natureza,  para evitar nas fórmulas a presença de constantes espúrias, desnecessárias caso o sistema de unidades seja bem concebido.

Na Europa, o desenvolvimento do comércio aumentou a pressão para uma normalização das medidas. À inconveniência da necessidade de converter medidas diferentes sobrepunha-se o problema de medidas com nomes idênticos mas cujo valor variava de região para região.

Romper com a tradição na Europa precisou neste caso de uma revolução, a francesa, que optou por criar medidas novas de raiz em decisão da Assembleia Constituinte em 1790, tendo os padrões do metro e do kilograma sido concluídos em 1799. Porém Napoleão, que apoiara a criação dum sistema de novas medidas, acabou por aprovar um regresso a algumas medidas tradicionais e só em 1830 a França reintroduziu o sistema métrico

Entretanto a Inglaterra aprovou o “Imperial System of Units” em decreto de 1824, de que algumas medidas ainda subsistem no Reino Unido e nos Estados Unidos da América.

Em 1875 foi finalmente assinada por 12 países a Convenção do Metro, Portugal aderiu em 1876, na versão em francês detalha os estados que aderiram a esta convenção em cada período de 25 anos desde 1875.
Os países signatários fundadores em 1875 foram:
- Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Noruega, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia;
e de 1886 a 1900 aderiram:
- Argentina, Estados Unidos da América, Japão, México, Portugal, Reino Unido, Roménia, Sérvia, Venezuela
Actualmente apenas os Estados Unidos da América, a Libéria e Myanmar não são signatários desta convenção. Neste artigo da Wikipedia (Metrication in the USA) explica o que se tem passado com os esforços de passagem para o SI. De uma forma geral os políticos dos EUA não se decidiram a impor o uso do sistema métrico. Os trabalhos científicos costumam usar o SI, e existem contratos impondo o seu uso como por exemplo da NASA. Com a globalização da manufactura de automóveis esta indústria passou a usar exclusivamente o SI. A indústria da construção é uma das áreas onde predominam as “medidas tradicionais”.

Quando eu passei pelo liceu, de 1959 a 1966 estavam ainda em uso 3 sistemas principais: o CGS (centímetro, grama, segundo), o MKS (metro, kilograma-massa, segundo) e um terceiro, MKfS (metro, kilograma força, segundo), este último já considerado com pouco futuro.  Recordei agora que no CGS a unidade de força era o “dine” e a unidade de energia era o “erg”. Vi na Wikipédia que o sistema CGS continua a ser usado nalguns casos por a dimensão das suas unidades ser mais adequada a experiências de laboratório mas que o sistema SI aprovado em 1960, descendente do MKS com a adição de mais 4 unidades básicas, está a ser cada vez mais usado.

Não me lembro de me falarem no pascal, a unidade de pressão do MKS e também do SI, mas lembro-me de falarem na “atm” (atmosfera) no “bar”(aproximadamente 1 atm), no “milibar”, e de que a pressão atmosférica normal (1 atm) equivalia a uma coluna de 76cm de mercúrio. Noto que enquanto antigamente a pressão dos pneus era especificada em PSI (Pound/square inch) actualmente é mais comum ser dada em bar. Noutro dia tive que converter bar em PSI (1bar= 14.5 PSI) ou vice-versa, a partir de valores equivalentes referidos no manual do meu automóvel, porque o reboque do meu carro tinha o valor da pressão dos pneus especificada numa unidade diferente da disponível na escala do aparelho de encher pneus.

À primeira vista é um bocado surpreendente que a adesão à Convenção do Metro tenha demorado tantos anos bem como a extensão do sistema MKS com 3 unidades básicas para o sistema SI com 7 unidades básicas, que foi concluída apenas em 1960, 161 anos depois do depósito dos padrões do metro e do kilograma em 1799!

Actualmente já não se usam objectos físicos como padrões primários das medidas, sendo todos os padrões das unidades básicas definidos a partir de constantes físicas, por exemplo a unidade de tempo (segundo) que inicialmente era definida como 1/86400 da duração de 1 dia solar médio é actualmente definida como “a duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133”, um metro como"o comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo" e as outras unidades básicas têm a sua definição explicada através do diagrama que mostro a seguir


e que é explicado neste artigo da Wikipédia sobre redefinição de 2019 das unidades básicas do SI. De uma maneira geral as novas definições mantêm invariante o valor de cada padrão para as aplicações mais comuns, sentindo-se a diferença apenas para as aplicações mais sofisticadas.

Esta forma de definir os padrões tem a vantagem de eliminar a dependência que antes existia de os padrões principais estarem depositados num país específico.

Existe outra representação gráfica do SI em que além das unidades básicas são referidas também as constantes físicas usadas pelo SI para definir cada uma delas, duma forma mais abreviada do que a mostrada acima:




Esta é mais uma área como tantas outras em que tem existido um progresso ao longo dum período de tempo muito prolongado em que se conseguiu juntar esforços de harmonização a um nível verdadeiramente planetário.

2019-11-06

A energia em Portugal, por Jorge Vasconcelos



Em Janeiro de 2019 saiu este volume da colecção”Ensaios da Fundação”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Até agora tenho gostado de todos os livros desta colecção que tenho comprado e referido neste blogue e este não foi excepção. A Fundação escolhe bem os ensaístas e eu tenho comprado livros de autores de quem à partida tenho boa impressão. Gosto de ler textos escritos por pessoas que conhecem os assuntos de que estão a falar, e o Engº Jorge Vasconcelos é uma das pessoas muito bem preparadas para falar sobre a energia em Portugal.

O formato físico destes ensaios dá a oportunidade de abordarem um determinado tema com mais profundidade do que com uma série de tweets mas com um dimensão de cento e poucas páginas que ajudam ao foco no essencial.

Gostei muito da enumeração das dificuldades com que se depara um estudioso destas matérias, com a variedade de medidas que são usadas no comércio da energia e a consequente complexidade e dimensão dos obstáculos que resistem à adopção do SI (Sistema Internacional de Unidades) por todo o mundo. Actualmente os únicos países que ainda resistem à sua adopção são os Estados Unidos da América, a Libéria e Myanmar.

Por exemplo, a fixação de preços num mercado tão importante como o petrolífero ainda recorre ao Barril, uma palavra só por si eloquente sobre a importância relativa que os mercados dão à unidade monetária em que o preço é expresso (US$) comparativamente à unidade em que é expresso o volume (barril) do produto transaccionado.

Gostei da referência à polémica entre Newton e Leibniz sobre o que seria verdadeiramente invariante, se a energia cinética, proporcional à massa vezes o quadrado da velocidade, se a quantidade de movimento, proporcional à massa vezes a velocidade. Esta perspectiva histórica mostra-nos que o que está bem estabelecido no nosso tempo não foi desde logo evidente mas, através do raciocínio, da  discussão e da experimentação se conseguiu convergir num consenso que mesmo assim poderá ser abandonado e/ou completado com novas descobertas.

Li o livro rapidamente e com muito agrado, existirá um ou outro ponto em que não concordo inteiramente com o autor mas o facto de não me lembrar agora desses pontos de discórdia significa que a sua importância não será grande. Talvez merecesse a pena referir que os mercados de electricidade que têm sido implementados não poderiam existir sem a capacidade de transmissão e de processamento de informação que só estiveram disponíveis na última década do séc XX.

Depois de ler o livro fiz uma procura na net e descobri que houvera esta apresentação no El Corte Inglés no dia 13/Jan/2019



O filme da apresentação demora 1 hora e 9 minutos mas, para quem tiver este tempo disponível, vê-se com agrado. Confesso que é raro ver apresentações tão compridas mas neste caso vi com gosto até ao fim. No meu caso vi a apresentação depois de ler o livro mas considero que poderá também ser ao contrário.

Achei graça à manifestação pelo autor do alívio que sentiu por finalmente poder usar alguma ironia no texto deste livro no tratamento de alguns assuntos, pois enquanto teve papéis institucionais importantes em Portugal sempre fora avisado que era muito perigoso usar ironia nas suas comunicações públicas. Notei a presença de algumas afirmações irónicas ao longo do texto que tornaram a leitura mais agradável.

2019-11-02

Mahatma Gandhi (2)


Afinal retomei a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20. Passo a referir o livro 2.

Parte II (Livro 2)

2.1) Início de actividade como advogado na Índia e migração para a África do Sul

Fui surpreendido com a falta de enquadramento de um advogado recém-licenciado na longínqua Inglaterra quando iniciava a sua carreira na Índia nos finais do século XIX. Depois dum bloqueamento da primeira vez que defendeu uma causa em tribunal, Gandi devolveu os honorários que cobrara e passou a questão a outro colega advogado, passando a escrever pareceres e memorandos, evitando assim a pressão da sala do tribunal.

Dificuldades que teve posteriormente no relacionamento com funcionários da administração britânica na Índia levaram-no a emigrar para a África do Sul, para dar apoio a uma firma indiana que lá operava.

Aí descreve a discriminação de que, passado algum tempo, foi alvo num combóio quando portador de um bilhete de 1ª classe o revisor lhe exigiu que fosse para 3ª classe, dada a sua condição de “não branco”, seguido de expulsão violenta do combóio, dada a sua recusa em mudar como retratado no filme “Gandhi” de Richard Attenborough.

2.2) Religiões

Boa parte deste segundo livro aborda o contacto com cristãos e suas tentativas de o converter.

Alguns cristãos com quem contactou faziam uma interpretação abusiva da redenção dos pecados, desde que se fosse cristão podia-se pecar à vontade de consciência tranquila pois Jesus Cristo viera à terra para com a sua morte redimir todos os pecados dos fiéis. Era assim uma religião melhor que muitas outras que exigiam um esforço de praticar o bem e evitar o mal. Segundo a doutrina cristã dominante os pecados dos cristãos são perdoados face a um arrependimento e ao propósito firme de não os repetir. E na Bíblia existem referências a um Juízo Final donde se deduz que a redenção dos pecados não tem esse aspecto automático referido por esses cristãos pouco informados.

Neste período teve oportunidade de ler textos sagrados do Hinduísmo, do Islão, do Budismo,  do Cristianismo e doutras religiões, bem como introdução e comentários aos mesmos. Parece natural que os pais eduquem os filhos na religião em que acreditam e na Europa durante séculos o Cristianismo era a única religião “disponível” se bem que com heresias ocasionais e com as cisões dos séculos XI e XVI conforme gráfico que apresentei aqui.

Nascer na Índia trazia uma experiência diferente da Europa pois as pessoas não precisavam de viajar para terras distantes para entrar em contacto com crenças religiosas radicalmente diferentes das existentes na sua família. Na  minha primeira viagem à Índia fizeram-me pela primeira vez a pergunta sobre qual era a minha religião. Em Portugal partia-se do princípio que seria católico mais ou menos praticante. Com a globalização e a facilidade actual dos fluxos de informação a norma global passou a ser mais parecida com a situação indiana.

2.3) Início de actividade política na África do Sul

Foi através de reuniões de pequenas assembleias de cidadãos indianos cuja dimensão foi aumentando sucessivamente que o Gandi se foi treinando a falar em público a audiências cada vez maiores, constituindo a associação política “Congresso Indiano de Natal” que lutou pelos direitos dos indianos nessa parte de África.

Refere a necessidade de recolher fundos para a actividade política, a boa prática de não contrair dívidas para essa actividade nem de acumular dinheiro por gastar, mantendo portanto um equilíbrio permanente entre receitas e despesas.

Passei por acaso por um artigo sobre o véu islâmico e lembrei-me dum incidente do Gandi no exercício de advocacia na África do Sul em que lhe exigiram que não usasse na sala do tribunal o seu turbante.


Ao fim de 3 anos, em1896 (com 27 anos), o Gandi viajou até à Índia  onde fez alguns discursos e de onde regressou à África do Sul com a mulher, dois filhos e o filho único da irmã viúva.

2019-10-26

Tipos de cortesia


O jornal Expresso tem trazido uma pequena colecção de 4 "livros de auto-ajuda"  produzidos pela "School of Life" uma instituição criada por Alain de Botton. No 3º da série escrito por Philippa Perry e intitulado "Como manter a sanidade mental" (How to Stay Sane) tem um pequeno apontamento sobre diferenças nas regras da cortesia.

Diz a autora (na página 53) que em países densamente povoados como o Reino Unido ou o Japão existe a tendência para a "cortesia negativa" em que as pessoas têm consciência da necessidade de privacidade dos outros e do seu desejo de não a verem invadida. O que parece uma frieza é afinal uma cortesia.

Nos países em que há mais espaço livre como nos EUA (talvez isto não se aplique às grandes cidades) predomina a "cortesia positiva" favorecendo a inclusão e a abertura.

Lembrei-me a propósito destas duas fotos que tirei no Japão, que mostrei em post anterior "comer sózinho", cuja estranheza (para um português) poderá ser explicada pela necessidade de privacidade de japoneses em áreas superpovoadas



2019-10-23

Charlotte Periand, pionnière de l’art de vivre


O João Miguel continua a produzir um conjunto de boas sugestões culturais que estão disponíveis, e são actualizadas, no A-Z Weblog e no facebook. Numa das sugestões recentes referiu um documentário de 53 minutos que iria passar no canal ARTE sobre a arquitecta francesa  Charlotte Perriand (1903-1999) e que estará disponível neste sítio da ARTE de 6/Out a 11/Dez/2019.

Nos tempos que correm acaba por ser mais prático ver os programas de TV nos sítios da internet na altura que nos é mais conveniente, quer na “box” para os canais de gravação automática quer nos sitios na internet de cada canal para os que não são gravados.


Sei agora que a Chaise Longue que referi nestes posts, “Um caminho para o Nirvana” e “O Nirvana como um caminho” tem o título “B306 Chaise Longue”.




É muito devido às tão agradáveis e numerosas sonecas que esta cadeira me tem proporcionado (a maior parte das vezes consigo iniciar repouso, adormecer profundamente e acordar retemperado ao som do alarme do telemóvel em 20 minutos, tudo incluído) que me tenho interessado pela história desta cadeira e de Charlotte Perriand.

Neste filme que passou no canal ARTE dizem que foi após um tempo passado num hospital que no regresso a casa sentiu que existiam móveis a mais na sua habitação e que aderiu emocionalmente às teses funcionalistas então em voga.

Depois da formação em arquitectura trabalhou no atelier de Le Corbusier de 1927 a 1937, tendo-se dedicado nesse período sobretudo a projectos de interiores.

Nota: já devia ser tempo de encontrar traduções adequadas em português para o termo inglês “Design”, mas usar “artes decorativas” para alguém que se quer afastar da “decoração” parece muito inadequado, por outro lado “projecto” parece demasiado vago se bem que “design” só adquira o significado específico de “arquitectura de interiores” quando contextualizado.

Nesse projecto de interiores participou activamente na concretização em conjunto com Le Corbusier e Pierre Jeanneret da já referida “B306 Chaise Longue”, além desta “Cadeira de braços LC1” cuja imagem encontrei na National Gallery of Victoria




e também esta Poltrona LC2
interessando-se pela aplicação dos processos industriais de produção em massa ao mobiliário das casas de habitação. Foi-se interessando pela melhoria das habitações das classes trabalhadoras, cujas condições em Paris eram nessa altura deploráveis, o que deve ter contribuído para a saída do atelier de Le Corbusier. Aproximou-se do PC francês, tendo-se afastado após acordo Stalin-Ribbentrop.

Nas vésperas da invasão de Paris em 1940 viajou de barco para o Japão, a convite do Ministério do Comércio e Indústria, via colega japonês com quem trabalhara no atelier de Le Corbusier, para melhorar padrões dos produtos japoneses tendo em vista a exportação para o Ocidente.

Ficou encantada com o minimalismo japonês que encontrou e talvez perplexa sobre que alterações sugerir às soluções japonesas. Ficou imediatamente fã do chão em Tatami, uma esteira feita,entre outros materiais com palha de arroz. Diziam no filme: “elle s’est immédiatement tatamisé”.

"O vazio tem imenso poder, é nele que nos movemos", parece-me ter ouvido durante o filme, comentando o espaço vazio comum nas casas tradicionais japonesas.

Com a entrada do Japão na guerra saiu do país e esteve no Vietnam, então colónia francesa, até ao fim da guerra, altura em que voltou para França.

Esteve envolvida na construção da estância de férias Les Arcs, em Boug Saint-Maurice, a uns 140km de Genève de que existem umas imagens interessantes aqui:


Aos 90 anos desenhou uma sala de chá para o edifício da UNESCO em Paris



E nesta Architectural Review tem uma pequena biografia.






2019-10-13

Entrevista de Amartya Sen na New Yorker




Li há poucos dias uma entrevista do Amartya Sen (nascido em 1933) para a New Yorker intitulada “Amartya Sen’s Hopes and Fears for Indian Democracy”, economista indiano laureado com o prémio nobel de que sou fã e que tenho referido nalguns posts deste blogue.

Nela foi mais uma vez referida a importância da democracia na supressão das formas mais extremas de fome que levavam à morte em massa de milhares ou mesmo milhões de pessoas numa dada região.

Ele mostrou que a presence de uma fome mortal numa sociedade democrática é imediatamente combatida com sucesso pelo governo da ocasião, que não se pode dar ao luxo de perder quer directamente eleitores morrendo à fome quer indirectamente pelos sobreviventes descontentes.

Mas o tempo tem-lhe mostrado que outras injustiças tais como a subalimentação sistemática de partes da população, a frequente discriminação das mulheres ou a inexistência de boas escolas para a maioria das crianças são muito mais difíceis de combater, mesmo em regimes democráticos.




A propósito dos comunistas retirei este pequeno extracto:

«
And also, in terms of sympathy for the poor, I thought the communists had something really important to offer. On the other hand, I was always shocked by the absence of political theory. It is not often recognized that Marx had very little interest in political organization. This whole idea of the dictatorship of the proletariat really makes no sense whatsoever. [Laughs.] And, as John Kenneth Galbraith argued, you need opposition, what he called “countervailing power.” There is no countervailing power in their thinking.
»
que me atrevi a traduzir assim:
«
E também, em termos de simpatia pelos pobres, eu pensei que os comunistas tinham realmente algo importante para oferecer. Por outro lado, sempre me chocou a ausência de teoria política. É poucas vezes reconhecido  que Marx tinha muito pouco interesse em organização política. A própria ideia da ditadura do proletariado não faz nenhum sentido. [Risos.] E tal como John Keneth Galgraith argumentou, é precisa oposição, o que ele chamou “contra-poder”. Não existe contra-poder no pensamento deles.
»

Estas considerações apareciam num contexto de censura à política do actual primeiro-ministro da União Indiana, Narendra Modi, pela sua deriva hinduísta em detrimento das outras culturas que habitam no vasto território da União e do abuso da concentração do poder.

Pareceu-me uma coincidência interessante estas reflexões sobre a importância da oposição na altura das eleições legislativas em Portugal.

No caso do PS e também do PSD, parece-me que não basta existir oposição quando têm maioria absoluta pois, como nessas circunstâncias a oposição diz sempre mal de tudo o que fazem, acabam por não a ouvir.

A necessidade do partido do governo fazer alguma negociação com a oposição tempera as medidas que acabam por ter maior qualidade, como aconteceu em Portugal na legislatura de 2015-2019.

Espero que estes hábitos de negociação sistemática com a oposição perdurem na legislatura em que agora entramos.

2019-10-04

Vieiras de Tenerife no blogue "Dias com árvores"


O blogue "Dias com árvores" do Paulo V. Araújo e Maria P. Carvalho continua a brindar-nos com imagens líndíssimas das mais variadas plantas acompanhadas de textos com uma parte mais dedicada a botânicos profissionaise/ou amadores juntamente com outra dirigida ao público em geral.

A parte botânica dá-nos uma ideia da vastidão deste ramo da biologia, a para o público em geral contém considerações muito ponderadas, como é o caso de mais este post sobre as Vieiras de Tenerife, onde fui buscar as duas imagens que mostro a seguir







2019-10-01

Velocidade de transmissão de informação e cabos domésticos


Tive acesso à Internet em casa desde Maio/1998 através dum Zoom Fax Modem com velocidade de 33.6kbit/s e disponibilizada por um pacote NETPAC da Portugal Telecom.

Na altura coloquei uma calha desde o sítio onde tenho o PC até à tomada do telefone, foi preciso um cabo com 15 metros pois o trajecto quase nunca é em linha recta.

Em 2003 já tinha uma ligação ADSL (Asymmetric Digital Subscriber Line) com um “Alcatel Speed Touch USB 330 Modem” e um novo contrato com a PT. Diz na Wikipédia que este aparelho podia ir até 7Mbit/s nos downloads e 1 Mbit/s nos uploads. Não me lembro das velocidades típicas do serviço, os valores acima eram majorantes impostos pelo equipamento.

Nessa altura já se dizia que as velocidades de acesso à internet podiam ser enganadoras dado que os servidores que continham os diversos domínios podiam não conseguir responder com a velocidade máxima da ligação à Internet do assinante.

Por curiosidade estive agora a verificar que tenho e-mails apenas a partir de 2005, é posssível que  tivesse alguns anteriores mas deviam ser poucos.

Quando chegou a fibra óptica ao meu prédio nos Olivais Sul em Jul/2009 subscrevi o serviço, mas preferi usar a Wi-Fi disponibilizada no router (que tinha para o PC fixo uma performance  de cerca de 10Mbit/s ) do que passar um cabo Ethernet com 30metros do PC até ao router em substituição do cabo de 4 condutores com 15m para a ADSL que ia do PC até à tomada do telefone fixo.

Um PC portátil ao lado do fixo consegue cerca de 20Mbit/s e em locais próximos do router (distância de 1 metro) chegou aos 50Mbit/s. Daqui é fácil concluir que o problema da baixa velocidade estava no PC fixo e não no router do operador de telecomunicações

Entretanto constatei que por vezes a velocidade do Wi-Fi descia a valores exasperantes, do género 100kbit/s, que presumo devidas a problemas do operador, mas estas ocorrências raras aumentaram a minha vontade de migrar para uma ligação Ethernet.

Andei hesitante em comprar um TP-link, aparelhos que usam a rede de fios eléctricos duma casa para transmitir sinais de uma rede ethernet. Coloca-se um aparelho TP-link ligado a a uma tomada de 220V ao pé do router e outro aparelho TP-link a outra tomada eléctrica ao pé do PC e ligam-se o PC ao TP-link próximo com um cabo ethernet e o router ao TP-link próximo dele com outro cabo ethernet.

Embora tenha tido boas referências do TP-link, numa conversa que tive sobre estes equipamentos disseram-me a certa altura que o aparelho se tinha avariado, ilustrando a vantagem de um cabo simples que tem uma fiabilidade mais elevada.

Da informação que consultei na Internet constatei que os cabos CAT5 (Categoria 5) com 4 pares de condutores entrançados são adequados para ligações Ethernet até 100metros, funcionando bem com velocidades de 100Mbit/s e mesmo mais, tendo também constatado que eram muito mais flexíveis do que os cabos que eu vira utilizar em algumas aplicações profissionais, conseguindo passar pelos cantos apertados das calhas que eu instalara alguns anos atrás.

A instalação de cabos pelos operadores de telecomunicações em casas impreparadas para o efeito é feita usando pistolas de cola quente. Quando um dos cabos deixa de ser necessário costuma ser abandonado no local, normalmente junto a um rodapé. Desta vez retirei o cabo coaxial que servira para a TVCabo e que deixara de ser usado e coloquei
- o cabo de fibra óptica;
- o cabo do router (passando por caixinha) até ao telefone fixo;
- o novo cabo para ligação Ethernet
numa calha com capacidade para estes 3 cabos, ficando a pensar que deveria ter usado uma calha ligeiramente maior, para algum novo cabo que venha a ser necessário.

Existem cabos Ethernet com as fichas de 8 terminais já ligadas para comprimentos de vários metros, de 10 e de 20m. Comprimentos maiores talvez só por encomenda e no meu caso o cabo teria que passar por um orifício sendo preferível colocar a ficha após a passagem por esse orifício para manter este com dimensão pequena.

A ligação de um cabo Ethernet a uma ficha RJ45 é fácil para quem tem prática. No meu caso falhei duas ligações antes da primeira ligação bem sucedida. É necessário dispor de um alicate para esmagar os contactos da ficha nos condutores previamente colocados lado-a-lado numa ordem pré-determinada, no meu caso usei a T568B.

Este filme do YouTube (Cat RJ45 easy Technique) foi essencial para eu conseguir que os 8 condutores ficassem bem planos e bem paralelos, de forma a que cada um entrasse no orifício que lhe estava destinado na ficha RJ45.




Ao fim de algum tempo e depois de algumas deslocações de mobiliário seguidas da devida reposição consegui uma ligação Ethernet directa entre o router e o PC fixo que no teste da FCCN deu cerca de 90 Mbit/s quer no download quer no upload.

Notei que nalguns sítios a informação parecia chegar mais depressa e certamente o tempo de  transmissão de ficheiros vai ser bastante menor.


Adenda: não costumava ver  programas da TV no PC entre outras razões porque me cansava das pausas frequentes que ocorriam. Constato agora que com os 90 Mbit/s em vez dos 10 Mbit/s anteriores estas transmissões fluem muito melhor.