2016-10-12

Uma história da escrita (2)


O livro de que falei num post anterior continua pelas teorias da leitura e sobre a eterna discussão entre a importância relativa das imagens das letras e dos sons associados às palavras que elas  representam. Conheci pessoas que quando liam (em surdina, engraçada esta palavra surdina) moviam sempre os lábios, como se estivessem a pronunciar as palavras que liam.

O livro fala dos fonemas e da dificuldade da composição das palavras por letras. O Bernard Shaw, insatisfeito com a falta de especificação da língua inglesa escrita de como cada palavra deve ser pronunciada, chegou a propôr um alfabeto com 40 símbolos.

Lembro-me de um inglês me dizer que os seus colegas achavam graça à forma como os portugueses pronunciavam “bitch” e “beach”, sendo a maioria destes incapaz de pronunciar estas duas palavras de maneira diferente.

Existe uma notação muito exacta para caracterizar os fonemas de uma língua, nos dicionários aparece a transcrição fonética de cada palavra. Essa transcrição fonética não é usada como forma escrita de uma língua porque a sua exactidão obrigaria a que variações regionais de pronúncia fossem introduzidas na língua escrita, por vezes mesmo pessoas da mesma região, veriam uma mesma frase expressa de forma escrita com sequências diferentes de símbolos. A transcrição fonética que aparece nos dicionários será a forma mais frequente (ou mais culta) da pronúncia de cada palavra.

A introdução das vogais na escrita foi feita pelos gregos, por exemplo em árabe e em hebraico as vogais não são normalmente representadas, à semelhança de outras línguas antigas. O autor apresenta então este texto (em inglês) em que omitiu as vogais:

“nglsh cn b rd wtht vwls, bt thr r cnsdrbl dffclts”

tendo eu feito uma frase equivalente em português:

“Prtgs pd sr ld sm vgs ms xstm dfcldds cnsdrvs”

No final deste post dou uma interpretação possível destas duas sequências de consoantes que não garanto que sejam as únicas.

O livro refere ainda que as letras do nosso alfabeto não representam apenas sons, sendo também usadas como representações de conceitos (ideias ou palavras). Por exemplo as letras I, V, X, L, C, D, M representam quantidades na numeração romana, o “o” serve de artigo definido, o “e” tem o mesmo papel do “and” em inglês, as letras servem ainda para representarem de forma abreviada diversas entidades nas fórmulas usadas designadamente na matemática, na física e na química. A letra “X” tem uma multiplicidade de significados.

A segunda parte do livro trata com bastante pormenor como foram decifradas escritas antigas que estavam extintas , a Cuneiforme, os Hieroflifos egípcios, a Linear B, a Maia, referindo ainda algumas por decifrar.

Na terceira parte são referidas as escritas actualmente usadas, quer no Ocidente quer no Oriente, a evolução e confusão que existe actualmente com a língua chinesa e a complexidade surpreendente da escrita japonesa, recorrendo esta última a uma mistura de ideogramas, importados da China mas usados muitas vezes com significado diferente do chinês, de um silabário (portanto fonético) e do alfabeto latino.

Sendo a língua principal o Mandarim, falado por 70% dos chineses, o livro defende a tese de que o que se chamam Regionalects ( dialectos falados em regiões ) são mais línguas do que dialectos, referindo o Yue (cantonês), Hakka, Min do Sul, Min do Norte, Xiang, Gan e Wu, adiantando que era um mito a possibilidade de falantes de cantonês e de mandarim se entenderem através da escrita.

Não tendo forma simples de confirmar esta tese, embora sabendo que falantes de Cantonês e de Mandarim não se compreendem a falar, fui verificar se no Google Tradutor existia o Cantonês, além do Chinês tradicional (escrita usada em Taiwan, Hong-Kong e talvez Macau) e do Chinês simplificado (usado na República Popular da China), constatando que o Cantonês ainda não está disponível no Google Tradutor. Depois perguntei no Google (Why there is no Cantonese in Google Translator) e entre várias considerações dizia-se que havia a intenção de o adicionar quando existissem condições. É possível que existam pressões políticas da RPC para que tal não aconteça, mas também pode acontecer que a adição do Cantonês seja inútil por a língua escrita ser idêntica à do Mandarim.

Falarei do chinês num próximo post, a propósito de outro livro.


E termino com soluções para as frases escritas acima apenas com consoantes, agora com as vogais:

“English can be read without vowels, but there are considerable difficulties”

“O Português pode ser lido sem vogais mas existem dificuldades consideráveis”



2016-10-10

António Guterres


Fui colega de turma do Guterres no 6º e 7º ano (agora o 10º e 11º) na sede do Liceu Camões, nos outros 5 anos frequentei o anexo do Areeiro desse mesmo liceu. Depois fui colega dele no IST, no curso de engenharia electrotécnica desde 1966 a 1971.

No liceu lembro-me de pensar que teria sido um excelente profissional quer nas letras quer nas ciências, tendo apenas limitações nas aulas de ginástica.

Eram evidentes nesse tempo as suas enormes qualidades e chocou-me a quantidade de declarações idiotas sobre as suas incapacidades produzidas por imensa gente, incluindo pessoas que a maior parte do tempo pareciam sensatas, quando num momento de maior tensão quando já primeiro-ministro não concluiu uma conta de cabeça.

Pensei em fazer aqui um elogio mas quando li o texto do Marcelo Rebelo de Sousa, publicado no jornal Expresso de 8 de Outubro de 2016, a propósito das sua escolha como Secretário Geral das Nações Unidas, achei que subscrevia praticamente tudo desta parte do texto:

« ...
António Guterres vinha com a fama de ser um aluno excepcional do Técnico, que já na altura era particularmente exigente. Era o melhor do curso dele. Era intelectualmente superior, muito inteligente em termos abstractos, com uma grande capacidade de conceptualização. Mas também era brilhante. Pode ser-se muito inteligente em termos abstractos e não se ser brilhante — ele era brilhante escrito e era brilhante falado. E era rápido. A certa altura houve documentos que fizemos para a SEDES em conjunto, e ele reescrevia esses documentos a um ritmo alucinante. Além da inteligência abstracta, tinha uma grande inteligência concreta, com uma sensibilidade à realidade social. O António Guterres fazia. Era um fazedor.

Por outro lado, é verdade que naquela altura na nossa geração havia um pano de fundo cultural apreciável, mas ele nalguns domínios tinha uma cultura invulgar. Na época havia uma clivagem muito grande entre os de letras e os de ciências, mas não era vulgar os de ciências terem essa formação e essa cultura [que Guterres tinha]. Lia muito, era adicto na leitura, lia sobre Direito, sobre História, sobre Geografia, com uma capacidade de leitura muito superior à minha, e muito rapidamente elaborava sobre aquilo que lia.

Tinha também uma grande sensibilidade económica e uma grande sensibilidade social. Era um conjunto de características que o tornavam diferente dos outros. Mas além disso, tinha um lado afectivo, que lhe saía naturalmente. Era uma pessoa muito simpática e que olhava para o lado positivo da vida. Dava-se com qualquer pessoa e tinha uma grande capacidade de entender os outros. Além disso, tinha uma energia brutal, autossustentada, uma genica e uma capacidade de resistência física e psíquica como a que ele mostrou outra vez, agora, nesta candidatura. A energia que ele tinha aos 20 anos era assim.

O que atraía no António Guterres era o somatório das suas características. Eu tinha amigos que eram pessoas excepcionais de inteligência abstracta, outros que eram pessoas excepcionais de inteligência concreta, outros que eram excepcionais na empatia. Ele fazia o somatório. Por isso há poucas semanas eu garanti que ele era o melhor de todos nós. Tinha um conjunto de características que faziam dele um líder. E era muito sedutor. A argumentar, a persuadir, a mobilizar, a motivar. Mesmo aquilo que mais tarde lhe foi apontado como uma característica negativa — ser melhor a pensar e a sentir do que a decidir — nessa altura não era minimamente perceptível. Como digo, era um líder nato.
...» ( )

Desejo-lhe muitos sucessos nas Nações Unidas.

2016-10-08

As línguas gestuais ou de sinais


No post anterior referi as línguas gestuais usadas pelos surdo-mudos para comunicação e o assunto suscitou a minha curiosidade, tendo começado por este sítio.

À primeira vista parece que se poderia ter definido uma linguagem gestual universal para os surdo-mudos comunicarem entre si, dado que um surdo-mudo não tem acesso à diversidade das línguas orais.

Na realidade existem actualmente no mundo várias linguagens gestuais de surdo-mudos porque, à semelhança das línguas faladas, houve um desenvolvimento paralelo destas línguas em vários locais que não interagiam ou tinham uma interacção fraca. Nenhuma  destas  línguas mima ou nasce da  língua oral do país/região mas sim da história da comunidade surda que a utiliza.

Embora tenham existido linguagens gestuais desde há milénios, existindo uma referência de Sócrates no século V A.C., não existe documentação durante muito tempo sobre como eram essas línguas, existindo apenas alguns “alfabetos manuais” em que a cada letra é associada uma posição da mão, para possibilitar dentro da linguagem gestual fazer referências à língua escrita usada no país do surdo-mudo.

Esta escultura duma escola de surdo-mudos em Praga


comunica a mensagem: “A vida é bela, sejam felizes e amem-se uns aos outros!”

No mapa a seguir, tanbém do mesmo artigo da Wikipédia constata-se que existem vários pares de países que, usando a mesma língua oral, optaram por línguas gestuais mesmo de diferentes famílias como por exemplo (Portugal, Brasil), (Reino Unido, Estados Unidos) e (Espanha, México).


A LGP (Língua Gestual Portuguesa) faz parte da família da Língua Gestual Sueca. Aprendi aqui que “A Língua Gestual sueca é considerada a língua mãe da LGP uma vez que no século XIX o rei D. João VI, a pedido de sua filha, D. Isabel Maria, mandou chamar a Portugal o professor sueco Per Aron Borg que havia fundado em Estocolmo um instituto para a educação de surdos. Assim, em 1823, cria-se em Portugal a primeira escola para surdos onde leccionaram, a princípio, Per Aron Borg e seu irmão Joahan Borg. Por essa razão, considera-se a língua mãe da LGP a LG sueca, porém, evidentemente, que em Portugal já se utilizaria uma língua gestual que, certamente, também foi usada nessa escola para o ensino de surdos”.

Em 1880 realizou-se um congresso em Milão sobre o ensino dos surdo-mudos em que prevaleceu a tese de que deveria ser proibido o ensino e uso das línguas gestuais pois existiam métodos para integrar os surdo-mudos nas línguas orais, quer através de técnicas de ensino da fala, quer usando a leitura dos lábios, evitando-se assim a formação de guetos. Li em vários sítios que neste congresso predominavam largamente os “ouvintes”, estando os “surdos” fracamente representados.

É interessante esta  simetria do “nós” e “eles”, tomei agora consciência de que além de ser “ouvinte” de programas de rádio possuo também esse adjectivo para a comunidade dos “surdos”. Simetricamente a comunidade dos “ouvintes” usa o adjectivo “surdos” para aqueles que não ouvem.

Em 1980 realizou-se um congresso em Hamburgo onde foram contestadas todas as conclusões do congresso de Milão de 1880.

Nos termos da alínea h) do n.º 2 do artigo 74.º da Constituição da República Portuguesa, «na realização da política de ensino incumbe ao Estado (...) proteger e valorizar a língua gestual portuguesa, enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades». Deste modo, desde 1997, a Língua Gestual Portuguesa passou a ser uma das línguas oficiais de Portugal, junto com a Língua Portuguesa e o Mirandês.

Uma história da escrita


Provavelmente porque falo muito sobre os ideogramas chineses e o grande número de alfabetos actualmente em uso, um amigo emprestou-me um livro muito interessante sobre estes temas.

Trata-se da primeira edição no Reino Unido (1995) de “The Story of Writing” de Andrew Robinson, com paperback em 2000 e reimpressão em 2003. Na net só descobri a imagem ao lado da 2ª edição.

Neste wiki diz que Andrew Robinson frequentou o colégio de Eton, interessou-se por Química e depois estudou na School of Oriental and African Studies em Londres. Foi editor literário to “Times Higher Education Supplement” e é agora escritor a tempo inteiro.

O autor segue uma corrente linguística recente considerando incorrecto o termo “ideograma” para os caracteres chineses, preferindo o termo “logograma”, sublinhando o papel fonético que cada carácter também tem. A lista que segue, ordena qualitativamente o carácter mais fonético ou mais “logográfico” das diversas línguas:

Fonografia pura (grafismos representam sons) (Phonography em inglês)
- Notação fonética
- Italiano
- Inglês
- Japonês
- Chinês
- Códigos criptográficos
Logografia pura (grafismos representam palavras ou frases) (Logography em inglês)

Nas línguas ocidentais o Inglês será o menos fonético, nele a forma escrita de uma palavra dá uma indicação pouco precisa de como se pronuncia.

O livro refere a(s) linguagem(s) dos surdos/mudos, refutando alegados preconceitos:

1) que a maior parte dos sinais não são ícónicos representando conceitos como coelho, árvore, etc, sendo abstractos “como se fossem letras”;
2) não são independentes da fala, um utilizador da ASL(American Sign Language) não consegue comunicar com um utilizador da Língua de Sinais Chinesa;
3) não são línguas primitivas, alguns dos gestos representam palavras, sendo a estrutura destas línguas bastante eficaz mas com uma estrutura bastante diferente das línguas faladas.

Parece-me que esta referência às línguas dos surdo-mudos se destina em parte a refutar preventivamente o carácter ideográfico da língua chinesa e de seus vizinhos coreano e japonês.

Na realidade as línguas de sinais (ou gestuais) são influenciadas pela língua (oral e escrita) usada pelos “ouvintes” (os que não são surdo-mudos) das comunidades em que nasceram mas a sua autonomia dessas línguas é evidenciada pelo facto de em países como Portugal e o Brasil em que se usa a mesma língua portuguesa, o LIBRAS (Lingua Brasileira de Sinais) e a LGP (Língua Gestual Portuguesa) são mutuamente incompreensíveis para os respectivos utilizadores. Mas estas línguas serão objecto do próximo post.


2016-10-05

Salada de camarão com abacate


Com este calorzinho ainda vai bem esta salada




Em cada prato: leito de alface, 10 camarões (100g), meio abacate, 5 metades de tomates-cereja, metade de um ovo cozido fatiado.

Depois da foto, já na mesa, cada um colocou o molho cocktail comprado no supermercado.

2016-10-03

Prédio deslizante na rua do Ouro


No passado sábado fui à baixa fazer turismo, dizem que Lisboa está na moda e também quis aproveitar, já que me é tão fácil fazer turismo em Lisboa.

Surpreendeu-me a pintura "trompe l'oeil" do tecto da igreja do convento de S.Pedro de Alcântara, parece muito existir ali relevo, as sombras estão muito bem, só não eram consistentes com as fontes de luz que existiam na altura


Continua-me a surpreender a quantidade de turistas que encontrei no trajecto partindo do Rato, passando pelo Príncipe Real, S.Pedro de Alcântara, Chiado, R.Garret, R.do Carmo e Rua do Ouro onde vi o que parecia um prédio de 7 ou 8 andares a deslizar no fundo da rua como se vê na imagem


e que era um barco de cruzeiro dirigindo-se para o mar.


2016-10-02

Ponta de João d'Arens


No post anterior mostrei esta rocha 



dizendo tratar-se de "... a Ponta de João d'Arens que termina o conjunto rochoso que se avista da Praia da Rocha quando se olha para Oeste".

Coloquei agora legenda numa foto que tirei (em 2012-01-15 11:31) olhando para Oeste na Praia da Rocha, para marcar a posição deste rochedo





2016-10-01

João d'Arens


Recomeço com a última imagem do post anterior


mostrando depois a Ponta de João d'Arens que termina o conjunto rochoso que se avista da Praia da Rocha quando se olha para Oeste

esta foto tirei à sombra duma árvore para ver se a luz do sol não entrava pelo telemóvel adentro


 outra vista da rocha de grés


e aqui na vertical com uma nesga de mar ao fundo



mar que enche aqui a imagem


2016-09-30

Caminho para João D'Arens


Entre a praia do Vau e a praia dos 3 Irmãos, no concelho de Portimão, existe uma praia pequena rodeada de falésias e apenas acessível a pé, de motociclo ou de barco, onde às vezes se ia fazer um piquenique.

Existe um caminho fácil sobre a falésia ao pé do mar partindo da praia do Alemão ( ou até da praia do Vau). Verificando as horas a que tirei as fotos constato que demorei cerca de 20 minutos desde a praia do Alemão até chegar ao João D'Arens.

Estas são as rochas que se vêem do lado Oeste da praia do Alemão


e esta uma falésia da mesma praia


nesta vê-se a Praia da Rocha ao fundo em que enquadrei para ficarem visíveis poucos prédios e mesmo ao fundo o farol de Ferragudo


aqui vê-se a praia do Alemão através dum"algar" uma espécie de poço natural criado pelo colapso desta rocha frágil


na foto que segue deixei praticamente invisível a muralha de prédios altos da Praia da Rocha


e aqui mostro as formações de grés cuja côr alaranjada combina muito bem com  os pinheiros


e finalmente a praia de João d'Arens, com rochas de tonalidades quentes, desde o amarelo ao castanho alaranjado, areia branca e mar azul-verde


2016-09-29

Resistência à mudança


Sempre me irritou o argumento de que alguém estava a resistir à mudança, pareceu-me sempre que se tratava de uma figura de retórica, chamando ao oponente uma pessoa inflexível e incapaz de se adaptar ao mundo que muda tão depressa, como se todas as mudanças fossem benéficas para toda a gente.

Os anglo-saxões usam às vezes a expressão “only wet babies like change” querendo insinuar que toda a gente resiste à mudança à excepção dos bébés que gostam que mudem as fraldas quando estão molhadas. Ora esta expressão acaba por revelar que existem mudanças que até um bébé é capaz de identificar como positivas, neste caso a mudança da fralda molhada por uma seca.

De uma forma geral as pessoas gostam das mudanças que melhoram a sua vida, por exemplo nunca vi ninguém protestar por lhe aumentarem o ordenado, não gostam de mudanças em que perdem estabilidade do emprego e nalguns casos, na ausência de uma vantagem clara da nova situação, preferem a situação em que estão cujas vantagens e inconvenientes são bem conhecidos.

Esta é aliás a posição conservadora, de manter o que está a funcionar de forma satisfatória em vez de embarcar nos amanhãs que cantam. É portanto com alguma pseudo-surpresa que vejo a direita conservadora tão entusiasmada a clamar por reformas, que adjectivaram de “estruturais” quando se trata de um eufemismo para reduzir salários e pensões e diminuir a estabilidade do emprego, facilitando despedimentos e a mudança de local de trabalho.

E é por isso com alguma ironia que vejo agora a direita portuguesa a clamar por estabilidade fiscal, para atrair os investidores. Então agora querem resistir à mudança? Neste mundo sempre em movimento querem que os impostos sejam eternos? Os impostos não podem ser estruturalmente reformados? Diz que é para atrair os investidores que essa estabilidade é necessária. Os investidores também não virão se os contratos precários continuarem e não encontrem portugueses disponíveis para trabalhar nas suas empresas localizadas em Portugal, preferindo os portugueses deslocalizar-se para países onde existam contratos de trabalho bem pagos e que dêem alguma estabilidade.

A estabilidade tanto é boa para o quadro legal e fiscal como para o quadro laboral e para a segurança do emprego.



2016-09-27

Um Mar Algarvio


Não é para mim adequado procurar um nirvana neste planeta. Mas de vez em quando sabe bem contemplar uma paisagem tranquila como este mar do Algarve, fotografado em Setembro, às 12:47, menos de uma hora antes do meio-dia solar


Quando tirei a foto estava com uns óculos polarizadores pelo que os reflexos do Sol apareciam mais discretos.

Na altura parecia-me que a imagem teria "apenas" dois azuis, embora fosse evidente que existia um gradiante de azuis no céu. Seria assim um contraponto ao quadro azul que comentei em tempos.

Ao ver a foto achei que os padrões variados lhe davam mais vida. Hesitei em manter os pequenos tufos de plantas no bordo inferior da imagem mas depois achei que ficariam bem para mostrar que se tratava de uma visão a partir da terra.

A linha do horizonte fez-me pensar que talvez se aproximasse uma nave extra-terrestre emitindo grandes quantidades de luz como no filme do Spielberg.

E ao ver a linha do horizonte tão parecida com uma recta perfeita pensei também no Óscar Niemeyer e na sua afirmação, num momento mais distraído, em que dizia que na natureza só existiam linhas curvas.

Contemplar o mar parece-me bastante melhor do que ouvir algumas discussões da Assembleia da República.

Os debates no Parlamento podiam (e deviam) ser melhores


Gostei deste texto coloquial do Ricardo Marques do Expresso que resume bem uma parte da sessão de 5ª feira da semana passada:

«
...
O debate no Parlamento podia ter sido diferente? Podia, mas ainda não foi desta. Ontem, durante boa parte da tarde, os partidos e o Governo estiveram entretidos a discutir quem aumenta mais impostos, quem aumenta mais pensões, quem defende mais os que tem menos e quem ataca mais os que tem mais.

A culpa é tua, eu é que sou bom. Não, a culpa é tua e o bom sou eu. Tu és mau, queres fazer mal às pessoas e às famílias. Tu és pior, muito pior e também fazes mal às empresas. Eu baixei os impostos, tu subiste. Eu? Eu baixei mais do que tu e tu é que sobes. Eu não sou como tu. Como tu é que eu não sou.
...
»


2016-09-26

A praia em Setembro


Nos tempos de estudante costumava passar 2 meses de férias na  Praia da Rocha, que muito apreciava para conversar, conviver e pôr a leitura em dia, e que com pena me vi forçado a reduzir para apenas um mês, quando iniciei actividade profissional. Nessa altura o meu período preferido ia de 15 de Agosto a 15 de Setembro, começando por um tempo normalmente mais quente e com uma segunda parte já em transição para o Outono.

Era comum no Algarve ocorrerem um ou dois dias com uma chuvinha regressando depois o bom tempo. Depois da chuva o ar ficava mais transparente, talvez por a poeira ter assentado, e era mais agradável apanhar uns banhos de sol que já não era tão opressivamente quente. O senão era que os dias já eram mais pequenos.

Com o começo das aulas cada vez mais cedo a possibilidade de gozar dias de férias em Setembro foi-se reduzindo. Felizmente neste ano tive a oportunidade de regressar ao Algarve na 3ª semana de Setembro, depois de uma chuvinha ligeiramente atrasada no final da 2ª semana, e consolei-me com o que me pareciam os dias maravilhosos de Setembro de antigamente, numa praia ainda frequentada mas muito mais calma:


2016-09-15

O Verão ainda não acabou


Ao contrário do que parece esta chuvinha que caiu há poucos dias mais a que se anuncia para o fim desta tarde é apenas a chuvinha habitual da transição de Agosto para Setembro que este ano se atrasou uns 15 dias.

Ontem o céu no Parque das Nações estava bastante dramático (lembrou-me "L'empire des lumières" do Magritte) como há tempos que não se via


mas o tempo vai voltar a aquecer, para finalizar o Verão de forma condigna.


2016-09-13

Leques japoneses



Quando fui passear ao Japão em 2014 encomendaram-me uma “Bento box” ou “caixa bento”, uma lancheira usada no Japão em que o modelo clássico é do género desta caixa com divisórias colocada sobre um tabuleiro com uma tigela de sopa ao lado, conforme se vê na  figura que fui buscar à wikipedia aqui.


Em Kyoto procurei na internet por Bento Box e encontrei a firma “Bento&co.” com uma loja nessa cidade anunciada aqui.

Usei o Google Maps para ver como poderia lá chegar por transporte público e o trajecto incluía tomar o metro, de uma limpeza notável


andar um pouco na avenida Karasuma Dori


(via em que aquele edifício com cobertura verde-clara faz lembrar a Escandinávia, se constata que a circulação se faz pela esquerda, influência provável do império Britânico, que os sinais luminosos para o trânsito têm as lâmpadas em fiada horizontal em vez de vertical como no Ocidente)

e tomar mais à frente a transversal Rokkaku Dori (Dori deve querer dizer “Rua”, larga ou estreita).

Uma das transversais da Karasuma Dori que acabo de mostrar tinha este aspecto, onde me chocou a infraestrutura de distribuição de electricidade



e uns transformadores no alto dum poste colocado numa rua


São por exemplo estas coisas que nos levam a dizer, “na Europa não é assim”, tomando consciência que existem realmente características comuns a todos os países europeus que não se encontram noutras partes do mundo. Esta confusão das instalações eléctricas é tanto mais surpreendente quanto o Japão tem um gosto por organização e disciplina que na Europa parece quase obssessivo. Fiquei a pensar se seriam razões técnicas, económicas ou sociais/culturais/políticas que estariam na origem desta situação.

E retomando o percurso virámos na Rokkaku Dori. Encontrei no Google Earth esta vista de rua que mostra a entrada de uma loja de leques que não resistimos a visitar.


O padrão que mostro a seguir é recorrente no Japão,


umas vezes representa escamas de peixes, outras as ondas do mar, calçadas, às vezes mesmo zínias, desta vez deve ter sido escolhido por poder também representar uma multidão de leques.

No início do andar de cima tirei esta foto


que pude depois comparar com outra neste sítio da internet onde constatei que se trata duma loja estabelecida em 1823, a Miyawaki Baisenan, uma das lojas mais históricas do Japão, está a 7 anos do bicentenário.

O leque que mostro a seguir tinha afixado um preço de 20.000 yens, ao câmbio actual seria cerca de 115€, existiriam mais baratos e mais caros.



Duvido que o controle de brancos da foto anterior estivesse neutro mas gosto da tonalidade quente.

Na foto seguinte constata-se que existem sofás para os clientes poderem apreciar confortavelmente sentados os produtos que vão adquirir



em que além dos motivos florais sobre papel dourado também existem flores sobre suporte de madeira


em que desta vez está bem visível o fio branco que liga cada uma das tabuinhas de madeira que constituem o leque. Já não sei se o que segue é uma janela ou um espelho


A loja está ainda preparada  para clientes que prefiram apreciar os leques em cadeiras em vez de sofás



não descurando as preferências por um ambiente japonês tradicional, de mesas baixas e almofadas sobre tatami


Regresso à multidão de leques que desta vez são ondas do mar, chamando a atenção para a subtileza dos ritmos com que aparecem as ondas com “espuma”. Existem diagonais onde nunca existe “espuma” e outras com outros ritmos. Os ritmos são mais monótonos quando se observam as linhas horizontais.



E para finalizar, um leque sobre madeira mostrando uma ponte, água, nuvens e garças voando


Depois regressámos ao mundo real na Rokkaku Dori



onde os cabos eléctricos e transformadores também são conspícuos e chegámos à casa das caixas Bento,


onde comprámos o que nos tinham encomendado, deixando uma espécie de selfie do autor deste blogue no reflexo da montra da loja

2016-09-12

O alegado paradoxo da taxa de encarceramento


Na sequência do post anterior li a intervenção do presidente do STJ na abertura deste ano judicial em Set/2016 que me pareceu sensata.

Houve contudo um parágrafo, que tenho ouvido de vez em quando por outras pessoas na comunicação social e que transcrevo:
«
Preocupações - perplexidade - centradas na circunstância de Portugal, como salientam os Relatórios de Segurança, ter uma criminalidade moderada, em posição privilegiada no contexto europeu, mas apresentar, paradoxalmente, uma das mais elevadas taxas de encarceramento por 100.000 habitantes, e a maior duração média da permanência na prisão em relação aos países da União Europeia.
»
e que me suscita grande discordância.

Não vejo aqui nenhum paradoxo mas tão só um indício de que a nossa taxa de encarceramento poderá ser excessiva por ser das mais elevadas na União Europeia. A referência à concomitância da taxa elevada com uma maior duração média de permanência na prisão parece-me também desnecessária pois será de esperar alguma correlação entre taxa de encarceramento e duração média do mesmo, as duas variáveis não são independentes pelo que bastaria referir a taxa.

Para usar uma linguagem simples, pode acontecer que a nossa criminalidade seja moderada porque como conseguimos manter os maus encarcerados, eles têm fortes limitações na execução de crimes fora das prisões. Já dentro das prisões surpreendem-me um bocado as notícias que circulam nos media da disseminação de drogas ilegais dentro dos estabelecimentos prisionais.

Ignorar a possível causalidade entre grande taxa de encarceramento e criminalidade moderada (moderada possivelmente por essa taxa de encarceramento) parece-me surpreendente para um presidente do STJ, interrogando-me se se tratou duma frase menos feliz ou se existem graves erros no meu raciocínio.
 

2016-09-10

Leque



Num noticiário de TV no passado dia 1 de Setembro notei numas imagens da cerimónia de abertura do ano judicial que a temperatura da sala (no sentido de propriedade física da palavra) estaria muito elevada e que o operador da câmara, provavelmente a sofrer também com o calor, se entretinha a registar de forma talvez excessiva os incómodos dos participantes.

Antigamente estas cenas de desconforto térmico eram frequentes nas igrejas durante o Verão, em que as senhoras usavam leques, não sei se o ar condicionado do Salão Nobre do Supremo Tribunal de Justiça estava avariado ou se não existe.

No Japão há alguns anos dispensaram as pessoas de algumas formalidades do vestuário durante a época de Verão, para poder reduzir um pouco a intensidade do ar condicionado, poupando energia e mantendo o conforto. A própria Assunção Cristas tentou uma medida parecida quando foi ministra, não sei se com sucesso. Como habitualmente choveram muitas críticas, a uma medida que me pareceu sensata.

Tinha a ideia que a palavra leque vinha da língua japonesa e que teriam sido os Portugueses a trazer essa novidade para a Europa. Afinal, segundo este artigo da Wikipédia os abanos já tinham sido usados por muitos povos e o papel dos Portugueses foi apenas reavivar uma prática que tinha caído em desuso na Europa.

Em inglês usam a palavra “fan” (como para ventoinha), em francês “éventail”, em espanhol “abanico” e por aí fora sem parecenças com a palavra “leque”. A palavra em japonês é “扇子” e a sua pronúncia não parece nada “leque”. No artigo da wikipédia diz que leque é uma forma abreviada de “abano das léquias”, sendo as léquias umas ilhas entre o Japão e a Formosa chamadas assim a certa altura pelos portugueses (por razões que não consegui apurar) sendo actualmente mais comum o nome de ilhas Ryukyu. O Japão anunciou em 1879 a anexação formal destas ilhas, tendo essa acção sido contestada então pela China. Já nessa altura o presidente dos EUA foi solicitado para servir de árbitro, tendo dado razão ao Japão.

Há muitos tipos de leques, achei curioso este leque que julgo que me ofereceram num restaurante chinês em Lisboa, feito com madeira com muitos orifícios e posteriormente pintada com vários grous.




Demorei algum tempo a descobrir o que evitava que as peças de madeira se separassem. É um fio de nylon transparente, com nós nas duas últimas peças do leque, é para isso que servem os dois buraquinhos em cada uma delas. O fio passa depois pelo interior de cada uma das peças de madeira, convenientemente atado com nó em cada uma das peças interiores sendo o nó dado numa posição assimétrica em cada peça de madeira para favorecer a abertura num dos sentidos e limitá-la no outro. Talvez esta técnica seja antiga e usassem um fio fino de cor discreta. Com fio de nylon só a partir da 2ª metade do século XX.



Há muitos anos, numa visita de técnicos japoneses à EDP, ofereceram-me um leque numa caixa levíssima de madeira que suponho ser de balsa. Não o tenho usado mas nestes dias de calor também me lembrei dele. Apresento primeiro a caixa em que veio acondicionado





depois aberto sobre um fundo escuro, tinha uma etiqueta que informava que este leque tinha seda


e finalmente contra o azul do céu






2016-09-06

Saúde, Riqueza e Desigualdade


Acabo de ler "A Grande Evasão" de Angus Deaton.

A evasão deste livro refere-se à libertação por boa parte da humanidade da prisão da doença e da morte prematura, sobretudo na segunda metade do século XX se bem que referindo os progressos que ocorreram em tempos mais recuados. Para a maioria dos países que então se libertaram do jugo colonial existiam poucos dados estatísticos e mesmo agora a falta de informação fiável dificulta a análise detalhada da sua evolução. A diminuição da mortalidade infantil foi o motor principal do enorme aumento da esperança de vida à nascença, complementado nos países mais desenvolvidos com o prolongamento da vida dos idosos. Existem melhorias na saúde dum país que podem ser obtidas através de cuidados médicos mas outros que só se conseguem educando a população e construindo e mantendo as infraestruturas do chamado saneamento básico. Em Portugal o grande esforço no saneamento foi feito após o 25 de Abril e a União Europeia deu uma grande contribuição para esse esforço.

Além da evasão da doença o livro fala também da evasão da pobreza, da importância da desigualdade, quer dentro de um país quer entre países, quer como motor de progresso quer como travão do mesmo progresso.

Na terceira parte o livro fala sobre a ajuda internacional e as suas limitações.

Gostei do livro e recomendo-o.


Adenda:  a Organização Mundial de Saúde declarou na passada segunda-feira (2016-09-05) que o Sri Lanka está livre de Malária.

"Em Portugal, os últimos casos de Malária adquirida no país foram diagnosticados em 1959, e desde então a totalidade das ocorrências são casos importados por pessoas que visitaram países tropicais...". Ainda não nos libertámos das leis da morte mas vamo-nos libertando de algumas doenças.

2016-09-04

Continua o calor


Este calor está a ficar monótono, excessivamente agradável. Hoje à uma da tarde "...nem uma agulha bulia, na quieta melancolia, dos pinheiros do caminho..." como se pode constatar nestas duas imagens da Ponte Vasco da Gama tiradas na sombra da alameda de pinheiros adjacente ao jardim Garcia da Orta no Parque das Nações.