2026-03-29

Isfahan bombardeada (2) – Palácio Chehel Sotoun

 

Além dos estragos referidos no artigo Isfahan Bombardeada de 1/Mar/2026 faltava referir os estragos no palácio Chehel Sotoun e na Mesquita Jameh ambos classificados como Património Mundial da UNESCO.

Reconheci o palácio numa das fotos que tirei na altura, não tinha fixado o nome. Do que vi agora constato que estava muito perto da praça Naqsh-e Jahan nas traseiras do palácio Aali Qapu, num jardim com canteiros de amores-perfeitos 
 

  

e Dinossauros do Museu de História Natural

 

tirando então esta foto ao palácio Chehel Sotoun propriamente dito
 

que dentro tinha pinturas de grandes dimensões, como esta representação duma batalha que ia quase até ao tecto
 

e outras de recepção na corte, com plateia exclusivamente masculina assistindo a espectáculo de duas bailarinas dançando ao som de 4 músicos e uma guitarrista, numa imagem que retirei da Wikipédia

 
https://en.wikipedia.org/wiki/Chehel_Sotoun#/media/File:Tahmasp_and_Humayun_meeting._Chehel_Sotoun,_painted_circa_1647.jpg

Na altura surpreendeu-me esta abundância de figuras humanas que talvez sejam interditas por interpretações mais exageradas do Islão, mas julgo que a ideia por trás da norma é de evitar a idolatria. Estas fazem lembrar as fotos que se tiram durante uma festa, ou cortês como esta ou sanguinolenta como uma batalha, a probabilidade de causarem idolatria é quase nula.

Reparei agora na legenda deste último quadro que referia o Xá Tahmasp e Humayun, o 2º da lista dos notáveis imperadores mogóis da Índia, com períodos de reinado entre parêntesis: Humayun(1530-1540;1555-1556).

Não é que tenha conhecido o Humayun em pessoa mas impressionou-me o seu mausoléu, um precurssor do Taj Mahal, 
 
 
encomendado pela sua notável esposa principal Bega Begum, quando visitei Nova Delhi pela primeira vez em 1993, bem como a sua história pessoal de ao fim de 10 anos de reinado ter pedido o trono durante 15 mas no final desse período o ter recuperado para viver como imperador durante mais um ano.

Dado que o palácio Chehel Sotoun foi concluído em 1647 e que os frescos murais devem ter sido pintados nesse ano, o fresco em que o deposto Humayun foi recebido pelo Xá Tahmasp (que reinou de 1524-1576) descreve uma recepção que ocorreu em 1544, quando a capital da Pérsia era Soltaniyeh, tratando-se assim duma cena histórica, passada cem anos antes. Nas duas figuras centrais do fresco, o Xá está do lado direito e tem uma espada enquanto o hóspede Humayun parece desarmado. O Xá cedeu 12000 cavaleiros e 300 veteranos da sua guarda a Humayun para que ele recuperasse o trono com a condição de se converter ao Xiismo. Humayun acedeu mas pouco depois regressou ao Sunismo.

A distância em linha recta ( na geodésica) entre Nova Delhi e Soltaniyeh  ) é 2788km. Por curiosidade perguntei no Google Mapas qual a extensão dum percurso pedestre actualmente entre estas duas cidades obtendo como resposta que seriam 3364km que precisariam de 757 horas. Calculei a velocidade média que deu 4,4 km/hora, uma velocidade que me pareceu razoável. Se andassem 6 horas por dia o percurso seria percorrido em 126 dias, cerca de 4 meses. Mas com os cavalos seria provavelmente mais rápido.
 
  
 
Não sei quanto  tempo levaram a fazer a viagem mas a recepção pelo Xá ocorreu 4 anos depois da perda do trono por Humayun. Arranjar comida para umas dezenas de soldados que acompanharam Humayun (e sua notável esposa Bega Begum) colocou problemas complicados. O artigo da Wikipédia sobre Humayun esclarece contudo que a parte difícil da viagem foi sobretudo entre Kandahar e Herat, dois locais dentro das fronteiras actuais do Afeganistão. Os imperadores mogóis deviam deslocar-se frequentemente a lugares distantes de Delhi e na sequência das batalhas que levaram Humayun a perder o trono este decidiu ir à Pérsia pedir ajuda quando já estava em Kandahar. Daqui a Herat, então no império persa onde foram recebidos com honrarias, o percurso pedestre é actualmente 568km, entre Lisboa e Madrid a pé são 595km. Notar que de Herat a Soltaniyeh ainda são 1462km (329horas).

A biografia de Humayun na Wikipédia, refere por vezes os Portugueses que se iam envolvendo nas disputas entre governantes locais e entre estes e o imperador.

Mas regressando ao palácio Chehel Sotoun cujos estragos são mostrados neste artigo do “The Architects Newspaper” tentei localizar qual seria o departamento governamental que teria sido bombardeado.

Na imagem seguinte mostro a vista aérea do Google Maps da zona onde se situa o palácio Chehel Sotoun (clique na imagem para ver maior)
 


O edifício bombardeado terá sido provavelmente o “Isfahan Provincial Government” que mostro a seguir numa vista de uma foto incluída no Google Maps.

 


Como diria o diácono Remédios, “não havia necessidade”, faz-me pensar que se alguma vez estivermos em guerra ainda bombardeiam o Terreiro do Paço e o edifício da Caixa Geral de Depósitos, onde já existem departamentos do Governo.

Finalizo voltando a mostrar um conjunto de estudantes em visita de estudo a este palácio 
Chehel Sotoun que mostrei num post a propósito da morte de Mahsa Amini, outra vítima dos teocratas na sua obsessão pela ocultação dos cabelos femininos

 

acompanhada da seguinte legenda:
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Em Isfahan tirei nessa viagem esta foto dum conjunto de alunas iranianas em visita de estudo a um edifício histórico de Isfahan, todas de casaco preto sendo a senhora com casaco vermelho uma portuguesa da nossa excursão. A quantidade de cabelo à vista é parecido à da imagem da falecida (Mahsa Amini)
»

Este post vai muito comprido, não sei se farei outro a propósito de estragos na Mesquita Jameh que o Resumo da IA caracterizou assim:
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A Mesquita Jameh de Isfahan, ou Mesquita de Sexta-feira, é a mais antiga mesquita preservada no Irão e um Património Mundial da UNESCO, ilustrando 12 séculos de evolução arquitetónica islâmica. Localizada no centro histórico de Isfahan, destaca-se pelos seus quatro iwans (pátios abertos), cúpulas de dupla concha nervuradas e intrincados azulejos, servindo como protótipo para o design de mesquitas na Ásia Central. 
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