sábado, 12 de julho de 2008

A Revolução Cultural na China (1966-1976)



Quando passei pelo IST entre 1966 e 1971 aumentava em Portugal a luta entre os comunistas fiéis à União Soviética e os que alinhavam pelo comunismo chinês, reflexo da luta que se travava a nível mundial.

Embora já soubesse que não gostava da sociedade portuguesa de então, já nessa altura tinha dúvidas sobre qual a alternativa mais adequada.

É curioso constatar como as sociais-democracias nórdicas, que parecem agora tão adequadas a muita gente, eram na altura ferozmente atacadas quer pela direita salazarista, que diziam que as pessoas lá não eram felizes e que se suicidavam muito, quer pela esquerda pró-soviética ou pró-chinesa, que as classificavam como variantes sem grandes diferenças do capitalismo imperialista.

As violentas críticas do George Orwell ao regime soviético e a invasão da Checoslováquia em 1969, entre outras razões, tinham-me convencido que do país dos sovietes viriam mais problemas do que soluções.

As propostas chinesas, embora à primeira vista muito radicais, pareciam merecer um exame mais profundo pela sua própria radicalidade, pois só uma organização muito diferente do regime salazarista parecia oferecer alguma esperança de mudança.





A apreensão da realidade é uma tarefa sempre difícil, como qualquer pessoa atenta sabe em relação à sua área profissional. Muito mais difícil é saber o que verdadeiramente se passa em países com os quais existe uma guerra fria, como entre o Ocidente e quer a União Soviética quer a República Popular da China.

O facto de existir censura em Portugal dava uma credibilidade excessiva aos autores vítimas de censura pois, embora se saiba que eleger como amigos os inimigos dos nossos inimigos nos coloca muitas vezes em companhias pouco recomendáveis, existe uma espécie de crédito automático que é difícil evitar.



Após várias décadas, ao visitar a Wikipédia sobre autores que li nos anos 70 acerca da Revolução Cultural, constato que se conjectura que a economista Joan Robinson nunca ganhou o prémio nobel de economia por causa dos elogios que fez a essa revolução e que o jornalista australiano Wilfred Burchett, além dos ódios que suscitou, não ficou com a reputação de ser um observador minimamente objectivo, fazendo parte das pessoas que consideram que como é difícil fazer relatos objectivos, nem vale a pena tentar.



No entanto, ainda hoje me lembro da sentença de um tribunal chinês, durante esses períodos da revolução, que condenara um jovem que tinha atropelado um velho a ficar a viver com ele e a cuidar dele até ao seu restabelecimento completo, sentença que me pareceu muito justa, proporcionada e pragmática.

Achei interessante mostrar a capa e a contra-capa dum livro da Joan Robinson que li nessa altura.



Foram entretanto crescendo os sinais de que a Revolução, em que tantos tinham depositado esperanças, não corria muito bem.

O culto da personalidade de Mao, através daqueles bustos e retratos omnipresentes e do livrinho vermelho para substituir todos os outros foram vários aspectos de um movimento para estabelecer um pensamento único.

A recusa em reconhecer os crimes de Estaline tão pouco era tranquilizador e fui ganhando a noção cada vez mais intensa que a revolução cultural tinha sido uma tragédia.





Quando visitei Macau em 1990 já tinha um grande distanciamento em relação à Revolução Cultural. Mas por qualquer motivo, ainda me lembro do ar “as a matter-of-fact” de dois engenheiros chineses que trabalhavam na sucursal duma multinacional de produtos eléctricos em Hong-Kong, que me disseram que existia uma geração perdida na China, uma geração de analfabetos que durante o período em que deveria ter andado na escola a aprender coisas tinha andado nas manifs a celebrar o ditador Mao, a perseguir os seus opositores e/ou os vizinhos de quem tinha inveja.

Enquanto a China tentava recuperar da década de destruição, o território de Hong-Kong saiu da perturbação com grande rapidez. Nele se construiu o edifício do Hong-Kong and Shanghai Bank (entre 1979 e 1986), desenhado pelo arquitecto inglês Sir Norman Foster, um marco da arquitectura moderna, cuja imagem está no início deste post.

O segundo edifício mostrado é o do Banco da China (da República Popular da China), desenhado pelo arquitecto sino-americano I.M.Pei em 1982 e construído entre 1982 e 1990. I.M.Pei desenhou também a pirâmide do Louvre.

Tomando o barco de carreira normal entre a ilha de Hong-Kong e a península de Kowloon podem-se tirar fotografias como esta ao Skyline de Hong-Kong. Acabo de reparar na tendência para usar "skyline" em vez de "casario"...



Foi num destes belos edifícios de escritórios de Hong-Kong, representações exuberantes de um capitalismo algo selvagem, que desapareceram as minhas últimas dúvidas sobre a bondade da Revolução Cultural Chinesa.

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