2020-09-29

Desastres



Costumo ver o programa GPS (Global Public Square) do jornalisa da CNN Fareed Zakaria que costuma passar aos sábados das 20:00 às 21:00 na RTP3. Trata-se de um programa de informação em que o jornalista entrevista alguns notáveis sobre 3 ou 4 temas da actualidade semanal.

No último programa um dos temas era sobre os fogos na Califórnia onde mostrou esta imagem


que fui depois tentar localizar na internet e que encontrei neste sítio australiano

No artigo referem que esta foto levou muitas pessoas a pensar que se tratava da ponte Golden Gate de São Francisco o que significaria que esta cidade estaria a arder. A confusão foi facilitada por imagens de um nevoeiro cor-de-laranja que efectivamente rodeou essa ponte. No artigo esclarecem que se trata da “Bidwell Bar Bridge” em Oroville que fica a cerca de 300km dessa cidade.

Procurando no google cheguei a esta imagem da ponte num dia sem incêndios


onde se constata a arborização da encosta e a ausência da casas nessa encosta, embora no Google Maps se note que perto desta ponte existe uma marina, com muitas “casas-barco” estacionadas na água, junto a uma encosta com muitas casas.


  
A ponte era uma das mais altas na altura da sua construção concluída em 1966, pois liga duas encostas separadas por um vale profundo, que foi inundado pela albufeira criada pela barragem de Oroville. Neste sítio  tem uma pequena descrição e além da foto acima mais um conjunto de fotografias da ponte muito interessantes.

A barragem de Oroville foi concluída em 1968 e a albufeira tem uma capacidade máxima de 4300hm3 (4.3 trillion litres). Como comparação refiro que a albuteira de Castelo do Bode tem uma capacidade total de 1095 hm3 e a de Alqueva de 4150 hm3. A potência eléctrica instalada é de 819MW (3x273MW), com bombagem, muito mais do que os cerca de 3x50MW de Castelo do Bode ou mesmo os actuais 520MW de Alqueva, estes últimos usados principalmente em ciclo geração/bombagem para tirar partido das diferenças de preço da energia eléctrica nas diversas horas do mercado grossista.

Uma foto do canal do descarregador de cheias no final de Fev/2017



levou-me a visitar mais este artigo da Wikipédia sobre a crise da barragem de Oroville em Fev/2017  .

Uma recomendação de reparação do canal do descarregador de cheias da barragem em 2005 orçada em 100 milhões de US$ foi ignorada até aos enormes danos de Fev/2017 que exigiram um gasto superior a 500 milhões de US$.

Este desastre criou a oportunidade de em 2017 aumentar o produto nacional bruto dos EUA em 500 milhões de USD enquanto a reparação atempada em 2005 permitiria um aumento do produto apenas de 100 milhões. Alguns economistas não estarão satisfeitos com este critério de cálculo do produto mas, como dizem alguns, é difícil encontrar alternativas.
 


2020-09-28

2020-09-24

Obituário gráfico de Ruth Bader Ginsburg

 

A próxima capa da revista "The New Yorker" é esta magnífica ilustração de Bob Staake, evocando um colar de renda de "crochet", usado pela juíza Ruth Bader Ginsberg do Supremo Tribumal dos EUA, composto por símbolos do sexo feminino, um círculo com uma cruz.

Existe um artigo na Wikipédia em Português sobre esta juíza bastante extenso e foram publicados recentemente inúmeros obituários.

Mostro a seguir duas fotos da juíza usando o colar de renda de crochet que inspirou a capa da revista.



2020-09-23

Michael Sandel Justice: What's The Right Thing To Do?

 

Vi em Julho/2012 uma referência do Pedro Mexia no Expresso ao curso do Michael Sandel sobre Justiça e fui dar a este sítio da Universidade de Harvard sobre Michael Sandel

No mesmo sítio têm ligações para cada uma das 24 lições (Lectures) do curso referido e na altura gostei imenso da primeira lição.

Provavelmente pensei que faria um post quando tivesse visto o curso completo mas após ver mais algumas lições acabei por não chegar ao fim do curso nem escrever o post.

Há dias vi na  “The New Yorker” este artigo do Evan Osnos intitulado “A Political Philosopher on Why Democrats Should Think Differently About Merit” em que Michael Sandel defende que a adesão do partido Democrata à meritocracia o afastou de compromissos com o bem comum e com a dignidade de todo o trabalho. Diz ainda que para que Joe Biden ganhe a próxima eleição presidencial dos EUA, não basta descobrir os defeitos de Donald Trump como presidente dos EUA, é necessário descobrir porque é que tanta gente tenciona votar nele e tomar acções para mudar esses votos.

No Youtube encontrei este video de 9 minutos “The Tiranny of Merit”

 

em que considera necessárias 3 mudanças:
- No papel da Universidade;
- Na dignidade do trabalho;
- No significado do sucesso.

 

Gostei também deste TED talk de 15 minutos ” Why we shouldn't trust markets with our civic life“




Deixo ainda um Youtube com as duas primeiras lições do curso de Harvard, “The Moral Side of Murder” e “The Case for Cannibalism”



As restantes lições podem ser acedidas aqui.
 


2020-09-12

Anna Koote: Porque precisamos de reduzir a semana de trabalho


Depois duma longa vilegiatura de cerca de dois meses e meio no Algarve, agora tornada possível devido à minha condição de reformado, na companhia de netos, filhos e praia, regressei a Lisboa onde tenho um acesso melhor à Internet.

Este blogue tem tido poucos posts, sobretudo nos meses de Julho e Agosto, mas certamente que os leitores habituais encontraram outras leituras e/ou outras actividades para preencherem o seu tempo.

Desde que me registei na revista “The Architectural Review” recebo de vez em quando uns e-mails. Desta vez dei uma vista de olhos pelo conteúdo, existindo um artigo intitulado “Why we all need a shorter working week”, de Anna Koote, publicado em 24/Fev/2014 com esta imagem como chamariz


Lembrava-me desta imagem dum escritório com uma floresta de colunas mas já me esquecera do arquitecto. Com o “Google Images“ foi fácil recordar tratar-se de obra de Frank Lloyd Wright, em 1939, para a sede da empresa Johnson Wax.

Esta “Taylorização” do espaço do  escritório costuma recordar-me a visita que um personagem da trilogia da “Fundação”, obra de ficção científica de Isaac Asimov, fez ao planeta Trantor, sede do império galáctico em decadência acelerada. Aqui ainda se vêem os limites do escritório. Em Trantor, um planeta completamente urbanizado, os escritórios estendiam-se até à linha do horizonte, sem um limite visível.

A identificação da imagem constava nesta página referindo o projecto para os escritórios da firma “Goodby Silverstein” feito pela firma “Jensen Architects”. Nela também mostravam estoutro escritório do filme “Playtime” do Jacques Tati que, à semelhança do Gotlib, tinha um humor “gelado e sofisticado” 


Mas regressando ao artigo “Why we all need a shorter working week”, optei por transcrever algumas das suas frases, que merece contudo uma leitura completa

«
...To unleash the full economic, environmental and creative potential of society, Anna Coote argues we must escape the treadmill
...
Accordingly, we must strive to be more ‘productive’ by producing as many things as possible in the shortest possible span of time. But as the economist Tim Jackson has crisply pointed out, playing a symphony twice as fast as usual doesn’t make it more efficient, just a lot worse. Likewise, you can’t become a more productive carer, teacher, nurse, brain surgeon, architect or road-crossing attendant by doing your work at double speed.
...
Another reason is that more and more people are aware of being caught in a profound and prolonged crisis: we have a global economy that is damned if it grows (because of the likely negative impact on climate change) and damned if it doesn’t grow (because of the likely negative impact on jobs and income). Crisis provides a strong incentive to think afresh and seek out alternatives.
...
And we must make the transition gradually, with incremental changes that help to build popular support. There’s a wide variety of policies adopted by different countries for reducing working hours. The Netherlands, Belgium, Denmark and Germany, have considerably shorter average hours than the UK. Their economies are just as strong, or stronger. Drawing on their experience and on other ideas put forward in Time on Our Side, here are three good ways to make a start.
...
Will any of this ever happen? Today’s utopian dream is often tomorrow’s normal way of life. Think of ending the slave trade, votes for women, seatbelts, smoking bans. We used to put children up chimneys. Women used to be sacked when they got married. We used to expect workers to put in 12-hour days for six days a week. Change will come – in time.

»

De vez em quando tenho abordado esta temática da redução do horário de trabalho, designadamente nestes posts:

2017-12-23 Trabalhar muito menos 

2012-08-10 O Fim do trabalho  

2011-04-23 Produtividade, horas de trabalho e feriados 


2020-09-01

O Lar de Reguengos de Monsaraz



Na sequência das numerosas referências à entrevista dada por Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, publicada na edição de 15/Ago/2020 do jornal Expresso fui ler essa parte do jornal.

Fiquei com boa impressão da ministra, que me pareceu bem focada na área de actuação que compete a quem lidera um ministério, delegando nos serviços deste organismo a primeira leitura dos certamente numerosos relatórios que vão chegando.

Pareceu-me na leitura que os jornalistas insistiam demasiado na tecla do relatório elaborado pela Ordem dos Médicos sobre o lar de Reguengos de Monsaraz. Frequentemente os jornalistas valorizam de forma excessiva a qualidade da informação elaborada por entidades alegadamente “independentes”, como se as instituições fossem sistematicamente suspeitas de esconder informação e os alegadamente “independentes” sejam dignos de todo o crédito desde que exteriores a uma instituição existente.

Há muito tempo que se fala dos problemas nos lares de idosos, onde se constataram graves surtos de COVID-19, quer em Portugal quer noutros países, por neles viverem comunidades numerosas onde portanto as possibilidades de contrair doenças infecciosas são maiores do que em casas unifamiliares e se tratarem de pessoas especialmente vulneráveis à COVID19. Considerando que existem 2500 lares de idosos em Portugal, o número de surtos de 369 em Abril/2020 afectou portanto 15% do total enquanto na altura da entrevista em Agosto existiam 69 surtos o que corresponde a 3%.

No dia 1/Set o jornal Público noticia a existência de um surto com 16 mortos num lar de luxo no Porto.

Se no caso de Reguengos foi noticiado que parte apreciável dos profissionais do lar deixaram de comparecer ao serviço, quer por doença quer por demissão, ao ponto de ter sido necessária a intervenção das Forças Armadas para redistribuir alguns dos utentes por outros lares e/ou hospitais, mostrando também as consequências da falta de formação dos profissionais desse lar, problema que será transversal a um país com baixa escolaridade e formação profissional, este lar do Porto mostra que mesmo em lares com boas condições uma brecha nas barreiras contra  o vírus pode mesmo assim ter consequências desastrosas.

Do que foi noticiado em relação a Reguengos parece-me um pouco estranho o interesse da Ordem dos Médicos na elaboração de um relatório sobre o que se  passou no lar de Reguengos. Os desvios em relação às boas práticas aconselhadas e eventualmente obrigatórias eram tão patentes que não me parecia útil qualquer investigação adicional por parte de uma associação de médicos. Entre Reguengos e o lar do Porto uma investigação médica sobre o que falhou no Porto parecer-me-ia à partida mais promissora embora isto não seja uma recomendação para fazer uma.

Já citei neste blogue algumas críticas á forma como os media gerem as notícias que escolhem para destaque, como por exemplo aqui e aqui.

Desta vez cito um artigo aparecido na revista Forbes “Why the world is getting better and why hardly anyone knows it” de que destaco:

«…
Our World In Data suggests that the media are partly to blame. The media does not tell us how the world is changing, it tells us where the world is going wrong. It tends to focus on single events particularly single events that have gone bad. By contrast, positive developments happen slowly with no particular event to promote in a headline. “More people are healthy today than yesterday,” just doesn’t cut it.
…»

Gostei dum comentário no Expresso do Sérgio Sousa Pinto em que destaca as condições economicamente difíceis em que operam muitos dos lares para idosos, pouca verba disponível para fornecer serviços de qualidade aos utentes e gostei também do comentário "A guerra corporativa de Reguengos" noutra edição do mesmo jornal do Daniel Oliveira sobre o papel que o Serviço Nacional de Saúde deverá ter no apoio a lares de idosos, papel esse que não está ainda bem definido.

O artigo do José Gameiro na Revista do Expresso de 29/Agosto "Os médicos são intocáveis?" também me pareceu equilibrado. Embora compreenda a censura que ele faz a António Costa de não ter designado o bastonário da Ordem dos Médicos como o destinatário da alusão que “era mais fácil fazer críticas ao governo na TV do que tratar doentes” acho que a esmagadora maioria percebeu quem era o destinatário. Lembrei-me dos tempos do  pós-25 de Abril em que as pessoas se referiam ao PCP como “um determinado partido”. Não sei se seria para evitar problemas judiciais e se é esse o caso desta vez.
 

2020-08-29

Parede de Hibiscos

 

Continuo em modo "férias", palavra pouco exacta para uma vilegiatura de mais de 2 meses de um reformado.

Desta vez apreciei esta parede forrada de hibiscus, é uma liberdade dos jardineiros, adaptando as plantas às construções humanas.

seguida de um zoom digital

e a  mesma imagem mas  com um Tonemap modificado (High+20, Shadow-10)



2020-08-06

Beirute e Hiroshima



Em 4/Ago/2020 houve uma enorme explosão em Beirute que, segundo este artigo do The New York Times, causou a morte de mais de 130 pessoas, feriu outras 4000 e obrigou 300.000 a abandonar as suas casas, muitas das quais já não existem.


A explosão teve origem em 2.750 toneladas de nitrato de amónio, um fertilizante também usado como explosivo em minas, nalgumas aplicações militares e em actos terroristas. Investiga-se actualmente quais as razões de armazenamento num mesmo local de uma quantidade tão grande de fertilizante mas já ocorreram acidentes enormes com nitrato de amónio noutros portos além deste no porto de Beirute.


Segundo contas rápidas desse artigo do NYTimes esta quantidade de nitrato de amónio equivale a 1.155 toneladas de TNT que produziria uma onda de choque capaz de destruir a maior parte dos edifícios num raio de 250 metros e estilhaçaria vidros num raio de 2 km.

A bomba não nuclear mais potente lançada por um avião dos EUA em 2017 (GBU-43 Massive Ordnance Air Blast) tem um poder explosivo de 9,35 toneladas de TNT.

Já a bomba que foi lançada em Hiroshima em 6/Ago/1945, há exactamente 75 anos, a mais fraca bomba nuclear usada num ataque militar até aos dias de hoje, equivalia a 15.000 toneladas de TNT.

Existem movimentos com o objectivo de eliminar todas as armas nucleares armazenadas no nosso planeta. O Global Zero é um desses movimentos.

 

Adenda: neste artigo da Wired, um especialista em explosões, através da análise dos vídeos disponíveis na net e de outras explosões que aconteceram noutras cidades tendencialmente portuárias, aponta para o nitrato de amónio, rejeitando a hipótese duma bomba construída para provocar uma explosão.


2020-07-26

Remover estátuas


Na sequência do assassínio do cidadão morte-americano George Floyd por um polícia no estado de Michigan, com completo à vontade em frente de telemóveis que filmaram a cena, tiveram lugar muitas manifestações nos E.U.A. e em muitas cidades doutros países incluindo Lisboa.

Desta vez as manifestações encaminharam-se para o derrube de variadas estátuas, nos EUA os alvos principais foram figuras importantes designadamente militares dos estados confederados do Sul, que declararam a secessão (1861-1865) por não aceitarem as leis de extinção da escravatura em todos os estados da federação da América do Norte.

Em Portugal a abolição da escravatura não provocou nenhuma guerra cilvil, a que tivemos no século XIX (1828-1834) foi entre absolutistas (D.Miguel) e liberais/constitucionalistas (D.PedroIV). Não tenho conhecimento de estátuas de D.Miguel que depois de perder a guerra foi para o exílio na Europa onde faleceu. Curiosamente, no concelho de Loures, em Stº António dos Cavaleiros existe uma praça com o nome de D.Miguel mas para o Google Maps é caso único.

Na Inglaterra, designadamente em Bristol, derrubaram e deitaram à água nas docas a estátua dum filantropo e benemérito da cidade cuja fortuna se devera ao comércio de escravos. Em Londres removeram estátua doutro traficante de escravos, e uma de Cecil Rhodes, defensor da supremacia dos “brancos”, foi retirada da universidade de Oxford.

Andei à procura de traficantes de escravos de nacionalidade portuguesa e um primo meu do Porto referiu-me o Conde de Ferreira. Existe um artigo sobre ele na Wikipédia, trata-se de Joaquim Ferreira dos Santos, 1º Conde de Ferreira  (Porto, 1782-1866), comerciante de escravos, empresário comercial e filantropo português, Par do reino em 1842, Conselheiro da rainha D.Maria II, com várias condecorações e comendas. O hospital psiquiátrico de Conde de Ferreira foi inaugurado em1883.

Quando eu vivia no Porto, até aos meus 10 anos, lembro-me de expressão coloquial “ainda vais parar ao Conde Ferreira” quando se fazia ou dizia algo mais amalucado mas nunca me referiram a origem da  maior parte do dinheiro da personagem. Mas, ou por desconhecimento ou por falta de activistas no Porto para esta causa, a estátua não foi perturbada.

Noutros sítios colocaram tinta vermelha em estátuas sem as remover. Foi o caso de Lisboa onde a escolhida foi a estátua do padre António Vieira (Lisboa 1608, Salvador da Bahia 1697) instalada em 2017 no largo Trindade Coelho, em frente da igreja de S.Roque.

 

Muita gente criticou a vandalização da estátua embora alguns tenham também criticado o simbolismo da mesma, com uma pretensa infantilização dos indios representados através de 3 crianças. A estátua foi seleccionada num concurso e embora eu não a ache extraordinária parece-me de interpretação simples: o padre António Vieira, um Jesuíta, exibe a cruz de Cristo na sua função de missionário, rodeado de crianças que provavelmente tem andado a catequisar, a ordem dos Jesuítas dedicava particular atenção à criação de colégios para ministrar uma educação com valores cristãos. O índios aparecem porque o padre lutou para que os índios do Brasil não fossem escravizados e o padre é objecto de críticas por não ter desenvolvido uma campanha equivalente para os africanos trazidos para o Brasil como escravos se bem que não tenha defendido a escravatura e tenha afirmado que os escravos tinham que ser tratados com humanidade. Também me parece mal que tenham vandalizado esta estátua que entretanto já foi restaurada.

Remover estátuas de espaços públicos de passagem, como praças, rotundas, jardins e semelhantes, não é “reescrever” a História, como é frequente dizer-se a propósito destes acontecimentos. A História não é uma descrição única do passado mas a perspectiva que cada sociedade num determinado momento tem desse passado, visto à luz do que então se conhece e dos valores dominantes nessa altura nessa sociedade. Nesse sentido é missão de cada geração de historiadores darem uma perspectiva actual do processo histórico. E com a mudança dos valores ao longo do tempo é natural que hajam  mudanças nos destaques reservados a figuras históricas.

As ex-colónias portuguesas devolveram algumas estátuas de colonizadores, cuja presença incomodava os ex-colonizados, como referi num post intitulado “World Land Grab” de 22/Mar/2010.

De Macau, na sequência da devolução da administração do território à China, devolveram a estátua do ex-governador Ferreira do Amaral que foi colocada no bairro da Encarnação como referi neste post “Estátuas coloniais ” de 23/Mar/2010.

Na revista NewYorker publicaram recentemente uma entrevista com a filósofa Susan Neiman, tendo como ponto de partida o livro dela publicado em 2019 intitulado “Learning from the Germans: Race and the Memory of Evil,” em que ela compara as formas como a Alemanha e os EUA confrontaram as partes negras do seu passado. Da entrevista destaco esta parte:
«
 The statues really need to go, first of all. And they’re going. It’s a symbolic act, but an important symbol. And the idea that the statues are about history or heritage is ridiculous. We don’t memorialize every piece of our heritage. We pick out what we want people to remember. Monuments are visible values. They portray the men and women who embodied the values that we want our community to share, that we want our children to learn. So they have to go. And hopefully that process should be a democratic and public one. They don’t all need to go into the harbor. Contextualization can be an option in some cases. It really needs to be decided case by case. But we have to acknowledge that we’re not upholding history, we’re upholding values, and those are not the values that we want in the twenty-first century.
»
e num registo mais ligeiro destaco ainda este truísmo: “Politicians always do things for political motives. I think that’s what makes them politicians.”

Ainda na NewYorker veio um artigo sobre a remoção duma estátua de Félix Djerzinski, bolchevista fundador da Cheka, polícia secreta soviética sucedida pela N.K.V.D. responsável pelas purgas estalinistas, sucedida pela K.G.B. dos romances de John Le Carré na Guerra Fria e finalmente sucedida pela F.S.B. O derrube da estátua acabou por ser inconsequente na actual situação pois Vladimir Putin, que foi funcionário do K.G.B., é por assim dizer um “descendente” do pensamento político de Félix Djerzinski.


2020-07-16

Santa Sofia passa de Museu para Mesquita


Na passada sexta-feira dia 10/Jul/2020 tive a notícia na BBC que um tribunal turco abrira o caminho para que o Museu da Agia Sofia em Istambul voltasse a ser uma mesquita.

 
Referi-me a esse edifício neste post sobre a Santa Sabedoria, cuja passagem de mesquita  a museu em 1935, que fez parte da laicização da república turca, é agora revertida.

O gesto de Ataturk em 1935 foi de grande generosidade quando se considera a tradição islamo-cristã que era até então construir igrejas sobre mesquitas ou mesquitas sobre igrejas, por vezes mantendo o edifício com algumas alterações, continuando o uso religioso mas mudando os rituais de acordo com a religião dos exércitos vencedores. Por exemplo na mesquita de Córdoba construiram uma igreja em parte da  mesquita, se bem que tenham mantido boa parte ou mesmo a maioria do edifício existente, designadamente o Mihrab que indica a direcção de Meca embora a comunidade islâmica de Córdoba não tenha acesso à mesquita para orações públicas.

Na Agia Sofia (em turco AyaSofya) colocaram um Mihrab ligeiramente ao lado do eixo da igreja que estava dirigido para Jerusalém, conforme referi neste post.

A Europa não tem responsabilidade de tudo o que se passa no planeta mas os constantes adiamentos no processo de adesão da Turquia à União Europeia, contribuíram para enfraquecer politicamente a parte da sociedade turca que favorecia a adesão à UE e um estado laico. Numa união política frequentemente as adesões são favorecidas pelos membros periféricos que terão maior vantagem económica na expansão e dificultadas pelos países centrais que vêem mais problemas do que vantagens. Neste caso Portugal manifestou sempre apoio à adesão da Turquia enquanto o eixo franco-alemão esteve sempre bastante contra. A Alemanha talvez devido à experiência de difícil integração da comunidade turca na sociedade alemã, a França talvez por pressão da comunidade arménia nela residente que designadamente conseguiu que fosse aprovada uma lei punindo em França quem alegasse que não existira genocídio do povo arménio no império otomano.

Na altura eu era muito a favor da adesão da Turquia à União Europeia, conforme aleguei neste post e noutro sobre a adesão da Turquia ao alfabeto latino. Agora tenho a noção que essa adesão ficará fora da agenda durante bastantes anos.

Revisitei ainda a Agia Sofia a propósito dos Serafins que referi neste post.

Dizem que o edifício continuará a poder ser visitado pelo público em geral, à semelhança do que acontece com muitas das mesquitas na Turquia. Visitei mesquitas aí, em Lisboa, no Irão, na Índia e no Egipto, onde não consegui foi curiosamente no vizinho Marrocos, um país bastante tolerante quando comparado com outros países predominantemente islâmicos.


2020-07-11

Jarra com flores Lantana Camara


Há uma semana (o tempo voa) o neto que em Julho/2015, com 4 anos, mostrara gosto pela simetria através desta composição

 
que eu referi aqui, solicitou apoio para realizar uma jarra cilíndrica de papel. Dada a dificuldade um pouco maior de reconstituir uma planificação de sólido com uma base circular propus um prisma quadrangular que foi aceite.

Na perspectiva ecológica de reciclar o que se pode, reaproveitei uma folha A5 que um irmão mais novo do neto, com menos de 3 anos, preenchera com o que alguns classificariam de rabiscos, que neste caso valorizaram o papel transformado em jarra conforme se constata neste arranjo floral concretizado sobre a jarra prismática


As inflorescências utilizadas no arranjo são as comuns Lantana Camara, uma espécie inavasora que é actualmente muito comum em Portugal dada a muito pequena manutenção que necessita. Fixei o nome com facilidade pois tomei dele conhecimento quando Santana Lopes era presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Tirei ainda outra foto numa “plongée” vertical mas não acertei no método automático de focagem, eufemismo para referir que não procurei forma de alterar o método usado pela máquina fotográfica por omissão, tendo como consequência que ficou bem focada a inflorescência mais alta, com prejuízo das restantes




2020-06-24

Cycas Revoluta


Há uns dias notei que a cica de que tenho às vezes falado neste blogue produziu finalmente um fruto, como se constata na imagem que segue


e nestoutra que tirei mais ao pé e recorrendo ao HDR (High Dynamic Range)

 


Trata-se duma Cycas Revoluta, rapidamente identificada pelo Google Images.

Não me consegui decidir por escolher apenas uma foto e mostro uma variante sem HDR, com uma parte do fruto sobreexposta

 

Nesta espécie existem plantas macho e plantas fêmea, na imagem seguinte a variedade macho está do lado esquerdo e a fêmea do lado direito

 

Esta é a mesma planta que mostrei neste estado em Jun/2013



e já benzinho 2 anos depois em Junho/2015





2020-06-22

Tempos de COVID-19, os sapatos dos cães






Esta foto dum cão ficou fraca mas serve para documentar o uso por estes animais de calçado nestes tempos de COVID-19, para evitar contaminar o chão das casas onde vivem, agora que muitas pessoas passaram a deixar ao pé da porta de casa, do lado de dentro ou do lado de fora, os sapatos "de fora" e os "de dentro".

Suponho que os cães continuem a andar descalços dentro de casa.

Nota: substituí a foto inicial por outra melhor que tirei hoje ao mesmo cão.

A Acedia segundo S. Tomás de Aquino


A propósito dum presumido suicídio recente dum actor muito popular em Portugal o jpt (José Pimentel Teixeira) escreve no Delito de Opinião sobre a depressão como doença e não como distinção de qualidade perante outros mortais.

Recorda também nesse postal um texto que escreveu no blog ma-chamba sobre a acedia segundo S.Tomás de Aquino de que mostro o início

« Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII, quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez, e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.
... »

recomendando a leitura completa.

A imagem ao lado, que é referida por exemplo aqui, é um retrato (naturalmente póstumo) de S.Tomás de Aquino (1225-1274) pintado por Sandro Botticelli (1444-1510).

Sobre a procura da felicidade escrevi este post.


2020-06-21

Imagens maravilhosas do "Dias com árvores"


Sou leitor habitual do blogue "Dias com árvores", escrito por apaixonados pela botânica, que me têm ajudado nalguns posts que tenho feito neste blogue.

Além do interesse dos textos, o "Dias com árvores" apresenta fotografias de grande qualidade e beleza que por vezes não resisto a apresentar aqui.

Foi o caso das 5 imagens maravilhosas que passo a mostrar e que podem também ser vistas na sua origem ali.






2020-06-17

A Europa segundo Francisco Seixas da Costa




Quando às vezes ouço que a Europa não existe, o que existem são muitos estados nacionais, lembro-me sempre de ter reparado na frase que frequentemente me ocorre, quando estou num local fora da Europa: "na Europa não é assim". Esta forma ocorre-me com mais frequência do que "em Portugal não é assim", esta última ocorrendo-me noutros países europeus.

Na comemoração dos 35 anos da adesão de Portugal à CEE o embaixador Seixas da Costa pronunciou um notável discurso que merece ser lido na íntegra e de que cito esta parte:


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2020-06-10

Alvor e sua ria


A ria de Alvor pode ser visitada a partir de vários passadiços, uns sobre as dunas outros sobre o sapal.

As fotos que seguem foram tiradas sobre o sapal



Nas duas primeiras imagens  vê-se a vila de Alvor ao fundo,



na última vê-se ao fundo a serra de Monchique com o topo envolto em nuvens



2020-06-05

Prados dos Olivais (8)


Os canteiros estão talvez com as plantas excessivamente crescidas mas alguns sítios ficam muito bonitos



e na Quinta Pedagógica, que continua encerrada ao público em geral, as ovelhas continuam a pastar






2020-05-29

HDR (High Dynamic Resolution) no iPhone


A enorme vantagem das máquinas fotográficas incluídas nos telemóveis é a sua disponibilidade quase permanente, para quem anda quase sempre com o telemóvel, como é o meu caso. Claro que têm a desvantagem da qualidade das imagens não ser tão boa como a de uma máquina fotográfica. O meu telemóvel tem 8 anos pelo que a qualidade dos telemóveis actuais deve ser muito melhor.

No meu modelo aborrece-me a limitação de a objectiva ser uma grande angular. embora compreenda que seja prático para as fotografias de grupos familiares ou de amigos, e de ter pouca sensibilidade luminosa, o que limita as fotos em interiores com pouca luz dado que não gosto de usar flash.

Uma terceira limitação aparece nos fins-de tarde como neste tirado na prainha em Alvor, com Lagos e a Ponta-da-Piedade ao fundo, em que a terra tem muitas zonas de sombra e o céu ainda tem muita luz,



em que há dificuldade em ver as sombras.

Uma forma de contornar este problema é alterar o enquadramento para reduzir a parte de céu na imagem, ficando agora as zonas sombrias mais visíveis, embora neste caso quer a superfície da água quer o céu fiquem sobreexpostos. Neste caso ainda seria necessário cortar posteriormente uma banda de uns 25% da base da imagem pois o novo enquadramento ínclui partes que não ficam bem. 


Decidi então tentar, talvez pela primeira vez, a opção HDR em que a máquina fotográfica do telemóvel tira três fotos em sequência rápida do mesmo motivo com aberturas diferentes, combinando-as depois numa única foto. Como nas definições optei por "Guardar exposição normal" a imagem que mostro a seguir foi obtida com uma exposição normal. O céu continua sobreexposto mas não tanto como na segunda foto e as sombras são menos escuras devido à inclusão no enquadramento de parte da banda que considerei que devia ser suprimida, pelo menos em parte.


A imagem seguinte é a HDR em que o céu e as sombras têm uma exposição realmente mais equilibrada do que nas imagens anteriores:



Vou adoptar esta opção HDR em situações em que existam partes do motivo muito diferentes umas das outras no que respeita à intensidade da iluminação.


2020-05-18

Oxímoro da Autoridade Tributária


Nos anos mais recentes costumo entregar a declaração de IRS nos meados de Maio e este ano não foi excepção.

Fico incomodado com este oxímoro da Autoridade Tributária quando solicito uma Prova de Entrega da declaração de IRS


mas só este ano decidi escrever sobre o assunto. Claro que a AT me está a informar que com a recepção desta Prova de Entrega da declaração não devo dar esta operação por concluída pois ainda irá ser verificada e eventualmente validada a nível central, ficando concluída apenas após esta validação, altura em que poderei solicitar um "Comprovativo".

Em vez da frase

"Prova de Entrega não serve de Comprovativo"

sugiro

"Este comprovativo não dá entrega por concluída", para manter aproximadamente o mesmo número de letras.


2020-05-13

Cavalo pastando em prado dos Olivais Sul


É como vêem, um cavalo pastando num prado dos Olivais, nesta parte da cidade de Lisboa.


Na realidade o cavalo não está na via pública mas dentro da área da Quinta Pedagógica que tem estado fechada ao público sem data fixada para a reabertura. Normalmente este cavalo está confinado num relvado circundado por uma cerca mas neste dia um dos tratadores deixou-o ir dar uma voltinha pela quinta. Às vezes o confinamento de uns é a liberdade de outros. A cerca existente entre mim e o cavalo está invisível porque tirei a foto com a objectiva numa das malhas da rede metálica que nos separava. Mostro uma ampliação do motivo principal da imagem anterior


e ainda mais outra ampliação

 



2020-05-05

Artigo na New Yorker sobre impreparação dos E.U.A. para o COVID-19


 


Têm vindo a surgir "notícias" sobre a ausência de informação prestada pela China e mais as já habituais teorias da conspiração sobre o que se terá passado num laboratório de virologia na cidade de Wuhan.


Não tendo inteira confiança nas informações prestadas pela China, país onde o governo controla muita informação, considero que as suspeitas manifestadas pela Casa Branca sobre a falta de transparência chinesa nesta pandemia me merecem a mesma credibilidade que as informações fornecidas pelo governo americano (e corroboradas entre outros pelos primeiros-ministros do Reino Unido, da Espanha e de Portugal) ao resto do mundo sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque que serviu de "justificação" para a intervenção em 2003 nesse país onde, conforme afirmara Hans Blix das Nações Unidas, ninguém encontrara provas da existência de tais armas, que até hoje ninguém conseguiu encontrar.

Num artigo que será publicado na edição de 11/Mai/2020 são referidos os diversos avisos que os cientistas chineses, em colaboração com cientistas ocidentais foram dando sobre os morcegos como reservatórios de coronavírus e perigos de novos surtos semelhantes ao SARS de 2003.

Quando li esta entrevista no sítio da revista New Yorker na Internet achei-a um pouco longa, como é frequente nesta revista. Fiz uma conversão para doc constatando no fim que o artigo ocupa 10 páginas A4 em Times New Roman 12 confirmando a minha impressão que se trata dum artigo longo.