2019-11-21

A interdependência é grande


Li este artigo na BBC intitulado "Senado das Filipinas toma conhecimento que China poderia desligar a energia eléctrica no país", na secção de "Reality check".

Achei curiosa a citação de uma frase do senador filipino Richard Gordon: "We have given our grid - although 40% it appears - to a foreign corporation that has interests that collide with our country in the West Philippine Sea,".

Na realidade as Filipinas não deram a sua rede de transporte de electricidade, venderam-na por um preço acordado entre as partes.

Possivelmente a empresa filipina comprou posteriormente um sistema de telecontrolo fabricado na China cujo software terá provavelmente algum nível de suporte por equipa sediada na China, nada que não aconteça na Europa, onde sistemas instalados num dado país são suportados por equipas instaladas noutro país.

A ideia de interdependência entre sociedades é central à construção da União Europeia. Ao conceito cristão de amor ao próximo, que a História mostrou não ser completamente eficaz na prevenção da guerra entre nações predominantemente cristãs, adicionou-se o interesse comercial. Aumentando o número de trocas entre países os governantes e o público em geral terão a ajudá-los a ideia que serão prejudicados se matarem quer clientes quer fornecedores.

Claro que estes negócios serão problemáticos caso ocorra um conflito insanável entre parceiros, como aconteceu por exemplo ao Irão que comprou centrifugadoras para enriquecer urânio à Siemens para as ver posteriormente sabotadas pelo vírus Stuxnet, implantado a partir de local exterior ao Irão nesses equipamentos.

A autarcia porém tem custos elevados, por exemplo no Irão cortaram a maior parte dos acessos à Internet nos últimos 4 dias, na sequência de protestos contra aumento de preços em combustíveis.




Mahatma Gandhi (3)


Continuando a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20 e continuei com outro post de 2019-11-02  passo a referir o livro 3.

Parte III (Livro 3)

3.1) Financiamento das fundações

Gandi era bastante radical neste tema como se vê nesta citação:
«...Alguns dos assim chamados grupos religiosos deixaram de prestar quaisquer contas. Os seus administradores transformaram-se em proprietários e já não são responsáveis perante ninguém. Não tenho a menor dúvida de que o ideal é que tais instituições vivam, como a natureza, do dia a dia. A organização que não conseguir apoio da comunidade não tem direito a existir como tal. As doações que uma organização assim recebe anualmente são o termómetro da sua popularidade e da honestidade da sua administração e acho que todas elas devem passar por este teste.»

Embora considerasse que existiam entidades que pela sua própria natureza não podiam ser geridas sem instalações permanentes, considerava que mesmo para essas as despesas correntes deveriam ser cobertas por doações anuais.

3.2) Educação dos filhos

Gandi apercebeu-se que as instituições educativas inglesas eram um dos pilares do império britânico pelo que chegou a aconselhar os jovens indianos a abandonar esses estudos: “em 1920 convocou jovens a sair das das cidadelas da escravidão – as suas escolas e faculdades. Disse-lhes que era muito melhor permanecer sem instrução e quebrar pedras, em nome da liberdade, do que receber educação superior atados aos grilhões da escravidão”.

Porém, foi incapaz de simultaneamente fornecer alternativas quer através de novas instituições educativas quer através de formação dentro da própria família, para a qual dispunha de tempo insuficiente para essa tarefa, dadas as suas actividades em prol das comunidades indianas.

Este foi um ponto de discórdia com os filhos que se consideraram prejudicados pela falta de instrução escolar.

3.3) Castidade

Os seres humanos são sujeitos a atracções fortes para garantir a sua sobrevivência e a sobrevivência da espécie. Essas atracções são muitas vezes premiadas por sensações muito agradáveis como por exemplo na alimentação ou no sexo, podendo transformar-se em obsessões. As sociedades tentam evitar essas obsessões através de regras morais a que corresponde a virtude da temperança ou de interdições eventualmente religiosas.

Gandi, depois de ter gerado alguns filhos convenceu-se que as relações sexuais deviam ter a procriação como única finalidade, considerando que fazer um voto de castidade o ajudaria a uma abstinência total, um conceito que designa por Brahmacharya.

Às “tentações da carne” na cultura cristã corresponde a “tentação da ascese”, fazendo o controlo através da supressão do impulso. A supressão absoluta da pulsão para comer não é aplicável de forma permanente pelo que os jejuns, se bem que existam, não podem ser para sempre pois sem limite de tempo são incompatíveis com a vida. Já em relação à pulsão sexual, a sua supressão total tem sido adoptada na vida monástica de várias religiões. Poderá ser benéfica para casos específicos, seria certamente nociva se imposta à maioria da população.

3.4) A vida de um carneiro

Durante estadia em casa de Gokhale, um seu mentor, Gandi visitou um templo da deusa Kali onde estavam a sacrificar muitos carneiros. Não aprovo o sacrifício de animais a divindades se bem que presuma que seja uma forma de fornecer proteínas a alguns grupos sociais.

Fiquei contudo chocado com a frase de Gandi “Para mim a vida de um cordeiro não é menos preciosa do que a de um homem”. Compreendo que uma pessoa adira ao vegetarianismo se bem que na natureza existam animais carnívoros. Comer carne é portanto uma actividade natural, o mesmo se podendo dizer de ter uma dieta exclusivamente vegetariana dado que existem espécies herbívoras, que se abstêm de comer carne. Mas é para mim incompreensivel não se sentir maior afinidade com um seu semelhante do que com outra espécie animal.

3.5) Darbar

Na Índia ocorriam reuniões dos governantes com os seus súbditos chamadas “Darbar” ou “Durbar” em inglês, eram formas periódicas de prestar vassalagem. Naturalmente durante o domínio britânico os governantes ingleses organizavam durbars para os quais convocavam os marajás na condição de vassalos.

Escreve o Gandi neste livro que os marajás eram nessas ocasiões forçados a usar sedas e jóias como se fossem mulheres, tratando-se de uma forma de humilhação imposta pelos ingleses.

Por curiosidade googlei Durbar e fui dar a este artigo do jornal Economic Times com estas fotos tiradas de um Durbar realizado em Delhi na semana passada, portanto em Nov/2019.

Constato que a palavra Durbar, como tantas outras, tem mudado de significado e será agora usada para reuniões sociais apresentando novas propostas de indumentárias.

Gostei muito destes vestidos embora não aprecie as jóias penduradas no nariz desta mulher



e constatei que afinal o uso de sedas e de jóias pelos homens nestas reuniões sociais



talvez faça parte da cultura indiana não sendo uma imposição do colonizador britânico.

2019-11-15

Eka Pada Rajakapotasana



Nunca fiz Yoga mas o nome (Eka Pada Rajakapotasana) deste movimento que vi referido aqui levou-me a este filminho do YouTube




mostrando o movimento que me pareceu particularmente difícil.

Entretanto  neste artigo da BBC dizem que é fácil  confundir "dor numa articulação" em que se deve parar o movimento e "rigidez" em que se deve continuar, mas não dizem como evitar essa confusão.

Citando: «... it can be easy for yoga practitioners to mistake joint pain, which means they should stop the movement, for stiffness, which they should push through. ... »



2019-11-13

Traduzir "Aer enim volat"


Na minha ignorância do latim recorri ao Tradutor do Google para ver o significado de "Aer enim volat", uma canção lindíssima que referi no post anterior.

Uso o Tradutor do Google com alguma prudência pois embora seja uma ferramenta útil sugere frequentemente grandes disparates.

Neste caso comecei por pedir a tradução de "aer enim volat" do latim para português, tendo obtido como resultado "para ar e moscas" o que ironizando eu diria que me pareceu menos feliz, tinha dificuldade em acreditar neste título para uma música em geral e ainda menos para uma música religiosa.

Recorri ao inglês, o que faço com frequência para verificar ou obter uma tradução mais fiável, pois como nos utilizadores da internet usando o alfabeto latino predomina o inglês as traduções inglesas costumam ser de melhor qualidade. Obtive contudo uma tradução equivalente com as mesmas moscas e recorri então ao francês e ao espanhol com os resultados seguintes:

aer enim volat   
inglês          For air and flies
português    Para ar e moscas
espanhol      Para el aire y moscas
francês         Pour l'air et les mouches

Não me conformei mesmo depois desta concordância e depois de ver que "aer" era "ar" e "enim" era "para" verifiquei que "volat" era "ele voa", conforme resultados seguintes.

volat
inglês           He flies
português     ele voa
espanhol       él vuela
francês          il vole

Como em inglês o pronome vinha com maiúscula inicial pensei que se referisse à  divindade ou a algum espírito mas como nas outras línguas não aparecia a maiúscula desisti desta interpretação e optei por "Para o ar ele voa" o que não sendo forçosamente certo já não parecia tão disparatado.

Entretanto reparei que esta confusão de vôo com moscas só pode ocorrer em inglês pois fly tanto significa "vôo" ou "voar" como "mosca" e "flies" tanto é uma forma verbal do verbo "to fly" como o plural de mosca (moscas).

Constato assim com alguma segurança que o Tradutor do Google automatizou o que eu fazia com frequência: caso não exista tradução entre duas línguas específicas, o Tradutor nalgumas situações traduz da língua de origem para inglês ou outra e depois dessa língua intermédia para a língua de destino.

Sugeri à Google que ao menos sinalizem quando a tradução passa por uma língua intermédia.

Entretanto Googlei (Aer enim volat lyrics) e fui dar a um texto com letras da Hildegard onde encontrei para tradução de

aer enim volat   
inglês           For the air is in flight,
francês         Car l’air vole,
alemão         Die Luft nämlich weht dahin

donde mudei a minha tradução no post anterior de "Para o ar ele voa" para "Porque o ar voa".

Também poderia ser "Porque o ar está no vôo", "Porque o ar está em voar" mas decidi-me pela mais simples.




Hildegard von Bingen


Hildegard von Bingen (1098-1179) foi uma freira, abadessa Beneditina, escritora, compositora, filósofa, mística, visionária e poliglota. segundo a versão inglesa da Wikipédia e/ou " mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora" na versao portuguesa. É também Santa e Doutora da Igreja (católica).

É uma figura notável, cuja biografia recomendo, mas aqui fico-me por este Aer Enim Volat, que traduzo livremente como "Porque o ar voa":




para quem  apreciou este pequeno trecho de 2 minutos e 7 segundos deixo ainda outra sugestão mais completa de 1 hora 13 minutos, os celestiais Cânticos do Êxtase:










2019-11-10

SI – Sistema Internacional de Unidades


Um alqueire, um quarteirão, uma jarda, uma dúzia, meia-dúzia, dois mil e quinhentos todas estas medidas e quantidades são uma memória de tempos idos, alguns ainda em uso nos tempos presentes, outros vivendo apenas nos livros antigos.

No último post, ao referir a permanência do “barril”, como unidade de volume em que ainda se transacciona o petróleo, fui tentar perceber o que se passa com as unidades de grandezas físicas.

Um bom começo é consultar a Wikipedia em português ou em inglês sobre este assunto, onde se começa por enumerar as unidades básicas que constituem actualmente o SI.

Lembro-me das referências nas aulas de História à multiplicidade de medidas e de moedas que eram típicas da sociedade feudal, pulverizada em domínios de pequena dimensão predominando a autarcia das aldeias.

Parece-me existirem dois motivos principais para uniformizar as medidas:
- facilitar as trocas de produtos;
- facilitar a realização de cálculos em que se incluem grandezas físicas de diferente natureza,  para evitar nas fórmulas a presença de constantes espúrias, desnecessárias caso o sistema de unidades seja bem concebido.

Na Europa, o desenvolvimento do comércio aumentou a pressão para uma normalização das medidas. À inconveniência da necessidade de converter medidas diferentes sobrepunha-se o problema de medidas com nomes idênticos mas cujo valor variava de região para região.

Romper com a tradição na Europa precisou neste caso de uma revolução, a francesa, que optou por criar medidas novas de raiz em decisão da Assembleia Constituinte em 1790, tendo os padrões do metro e do kilograma sido concluídos em 1799. Porém Napoleão, que apoiara a criação dum sistema de novas medidas, acabou por aprovar um regresso a algumas medidas tradicionais e só em 1830 a França reintroduziu o sistema métrico

Entretanto a Inglaterra aprovou o “Imperial System of Units” em decreto de 1824, de que algumas medidas ainda subsistem no Reino Unido e nos Estados Unidos da América.

Em 1875 foi finalmente assinada por 12 países a Convenção do Metro, Portugal aderiu em 1876, na versão em francês detalha os estados que aderiram a esta convenção em cada período de 25 anos desde 1875.
Os países signatários fundadores em 1875 foram:
- Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Noruega, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia;
e de 1886 a 1900 aderiram:
- Argentina, Estados Unidos da América, Japão, México, Portugal, Reino Unido, Roménia, Sérvia, Venezuela
Actualmente apenas os Estados Unidos da América, a Libéria e Myanmar não são signatários desta convenção. Neste artigo da Wikipedia (Metrication in the USA) explica o que se tem passado com os esforços de passagem para o SI. De uma forma geral os políticos dos EUA não se decidiram a impor o uso do sistema métrico. Os trabalhos científicos costumam usar o SI, e existem contratos impondo o seu uso como por exemplo da NASA. Com a globalização da manufactura de automóveis esta indústria passou a usar exclusivamente o SI. A indústria da construção é uma das áreas onde predominam as “medidas tradicionais”.

Quando eu passei pelo liceu, de 1959 a 1966 estavam ainda em uso 3 sistemas principais: o CGS (centímetro, grama, segundo), o MKS (metro, kilograma-massa, segundo) e um terceiro, MKfS (metro, kilograma força, segundo), este último já considerado com pouco futuro.  Recordei agora que no CGS a unidade de força era o “dine” e a unidade de energia era o “erg”. Vi na Wikipédia que o sistema CGS continua a ser usado nalguns casos por a dimensão das suas unidades ser mais adequada a experiências de laboratório mas que o sistema SI aprovado em 1960, descendente do MKS com a adição de mais 4 unidades básicas, está a ser cada vez mais usado.

Não me lembro de me falarem no pascal, a unidade de pressão do MKS e também do SI, mas lembro-me de falarem na “atm” (atmosfera) no “bar”(aproximadamente 1 atm), no “milibar”, e de que a pressão atmosférica normal (1 atm) equivalia a uma coluna de 76cm de mercúrio. Noto que enquanto antigamente a pressão dos pneus era especificada em PSI (Pound/square inch) actualmente é mais comum ser dada em bar. Noutro dia tive que converter bar em PSI (1bar= 14.5 PSI) ou vice-versa, a partir de valores equivalentes referidos no manual do meu automóvel, porque o reboque do meu carro tinha o valor da pressão dos pneus especificada numa unidade diferente da disponível na escala do aparelho de encher pneus.

À primeira vista é um bocado surpreendente que a adesão à Convenção do Metro tenha demorado tantos anos bem como a extensão do sistema MKS com 3 unidades básicas para o sistema SI com 7 unidades básicas, que foi concluída apenas em 1960, 161 anos depois do depósito dos padrões do metro e do kilograma em 1799!

Actualmente já não se usam objectos físicos como padrões primários das medidas, sendo todos os padrões das unidades básicas definidos a partir de constantes físicas, por exemplo a unidade de tempo (segundo) que inicialmente era definida como 1/86400 da duração de 1 dia solar médio é actualmente definida como “a duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133”, um metro como"o comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo" e as outras unidades básicas têm a sua definição explicada através do diagrama que mostro a seguir


e que é explicado neste artigo da Wikipédia sobre redefinição de 2019 das unidades básicas do SI. De uma maneira geral as novas definições mantêm invariante o valor de cada padrão para as aplicações mais comuns, sentindo-se a diferença apenas para as aplicações mais sofisticadas.

Esta forma de definir os padrões tem a vantagem de eliminar a dependência que antes existia de os padrões principais estarem depositados num país específico.

Existe outra representação gráfica do SI em que além das unidades básicas são referidas também as constantes físicas usadas pelo SI para definir cada uma delas, duma forma mais abreviada do que a mostrada acima:




Esta é mais uma área como tantas outras em que tem existido um progresso ao longo dum período de tempo muito prolongado em que se conseguiu juntar esforços de harmonização a um nível verdadeiramente planetário.

2019-11-06

A energia em Portugal, por Jorge Vasconcelos



Em Janeiro de 2019 saiu este volume da colecção”Ensaios da Fundação”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Até agora tenho gostado de todos os livros desta colecção que tenho comprado e referido neste blogue e este não foi excepção. A Fundação escolhe bem os ensaístas e eu tenho comprado livros de autores de quem à partida tenho boa impressão. Gosto de ler textos escritos por pessoas que conhecem os assuntos de que estão a falar, e o Engº Jorge Vasconcelos é uma das pessoas muito bem preparadas para falar sobre a energia em Portugal.

O formato físico destes ensaios dá a oportunidade de abordarem um determinado tema com mais profundidade do que com uma série de tweets mas com um dimensão de cento e poucas páginas que ajudam ao foco no essencial.

Gostei muito da enumeração das dificuldades com que se depara um estudioso destas matérias, com a variedade de medidas que são usadas no comércio da energia e a consequente complexidade e dimensão dos obstáculos que resistem à adopção do SI (Sistema Internacional de Unidades) por todo o mundo. Actualmente os únicos países que ainda resistem à sua adopção são os Estados Unidos da América, a Libéria e Myanmar.

Por exemplo, a fixação de preços num mercado tão importante como o petrolífero ainda recorre ao Barril, uma palavra só por si eloquente sobre a importância relativa que os mercados dão à unidade monetária em que o preço é expresso (US$) comparativamente à unidade em que é expresso o volume (barril) do produto transaccionado.

Gostei da referência à polémica entre Newton e Leibniz sobre o que seria verdadeiramente invariante, se a energia cinética, proporcional à massa vezes o quadrado da velocidade, se a quantidade de movimento, proporcional à massa vezes a velocidade. Esta perspectiva histórica mostra-nos que o que está bem estabelecido no nosso tempo não foi desde logo evidente mas, através do raciocínio, da  discussão e da experimentação se conseguiu convergir num consenso que mesmo assim poderá ser abandonado e/ou completado com novas descobertas.

Li o livro rapidamente e com muito agrado, existirá um ou outro ponto em que não concordo inteiramente com o autor mas o facto de não me lembrar agora desses pontos de discórdia significa que a sua importância não será grande. Talvez merecesse a pena referir que os mercados de electricidade que têm sido implementados não poderiam existir sem a capacidade de transmissão e de processamento de informação que só estiveram disponíveis na última década do séc XX.

Depois de ler o livro fiz uma procura na net e descobri que houvera esta apresentação no El Corte Inglés no dia 13/Jan/2019



O filme da apresentação demora 1 hora e 9 minutos mas, para quem tiver este tempo disponível, vê-se com agrado. Confesso que é raro ver apresentações tão compridas mas neste caso vi com gosto até ao fim. No meu caso vi a apresentação depois de ler o livro mas considero que poderá também ser ao contrário.

Achei graça à manifestação pelo autor do alívio que sentiu por finalmente poder usar alguma ironia no texto deste livro no tratamento de alguns assuntos, pois enquanto teve papéis institucionais importantes em Portugal sempre fora avisado que era muito perigoso usar ironia nas suas comunicações públicas. Notei a presença de algumas afirmações irónicas ao longo do texto que tornaram a leitura mais agradável.

2019-11-02

Mahatma Gandhi (2)


Afinal retomei a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20. Passo a referir o livro 2.

Parte II (Livro 2)

2.1) Início de actividade como advogado na Índia e migração para a África do Sul

Fui surpreendido com a falta de enquadramento de um advogado recém-licenciado na longínqua Inglaterra quando iniciava a sua carreira na Índia nos finais do século XIX. Depois dum bloqueamento da primeira vez que defendeu uma causa em tribunal, Gandi devolveu os honorários que cobrara e passou a questão a outro colega advogado, passando a escrever pareceres e memorandos, evitando assim a pressão da sala do tribunal.

Dificuldades que teve posteriormente no relacionamento com funcionários da administração britânica na Índia levaram-no a emigrar para a África do Sul, para dar apoio a uma firma indiana que lá operava.

Aí descreve a discriminação de que, passado algum tempo, foi alvo num combóio quando portador de um bilhete de 1ª classe o revisor lhe exigiu que fosse para 3ª classe, dada a sua condição de “não branco”, seguido de expulsão violenta do combóio, dada a sua recusa em mudar como retratado no filme “Gandhi” de Richard Attenborough.

2.2) Religiões

Boa parte deste segundo livro aborda o contacto com cristãos e suas tentativas de o converter.

Alguns cristãos com quem contactou faziam uma interpretação abusiva da redenção dos pecados, desde que se fosse cristão podia-se pecar à vontade de consciência tranquila pois Jesus Cristo viera à terra para com a sua morte redimir todos os pecados dos fiéis. Era assim uma religião melhor que muitas outras que exigiam um esforço de praticar o bem e evitar o mal. Segundo a doutrina cristã dominante os pecados dos cristãos são perdoados face a um arrependimento e ao propósito firme de não os repetir. E na Bíblia existem referências a um Juízo Final donde se deduz que a redenção dos pecados não tem esse aspecto automático referido por esses cristãos pouco informados.

Neste período teve oportunidade de ler textos sagrados do Hinduísmo, do Islão, do Budismo,  do Cristianismo e doutras religiões, bem como introdução e comentários aos mesmos. Parece natural que os pais eduquem os filhos na religião em que acreditam e na Europa durante séculos o Cristianismo era a única religião “disponível” se bem que com heresias ocasionais e com as cisões dos séculos XI e XVI conforme gráfico que apresentei aqui.

Nascer na Índia trazia uma experiência diferente da Europa pois as pessoas não precisavam de viajar para terras distantes para entrar em contacto com crenças religiosas radicalmente diferentes das existentes na sua família. Na  minha primeira viagem à Índia fizeram-me pela primeira vez a pergunta sobre qual era a minha religião. Em Portugal partia-se do princípio que seria católico mais ou menos praticante. Com a globalização e a facilidade actual dos fluxos de informação a norma global passou a ser mais parecida com a situação indiana.

2.3) Início de actividade política na África do Sul

Foi através de reuniões de pequenas assembleias de cidadãos indianos cuja dimensão foi aumentando sucessivamente que o Gandi se foi treinando a falar em público a audiências cada vez maiores, constituindo a associação política “Congresso Indiano de Natal” que lutou pelos direitos dos indianos nessa parte de África.

Refere a necessidade de recolher fundos para a actividade política, a boa prática de não contrair dívidas para essa actividade nem de acumular dinheiro por gastar, mantendo portanto um equilíbrio permanente entre receitas e despesas.

Passei por acaso por um artigo sobre o véu islâmico e lembrei-me dum incidente do Gandi no exercício de advocacia na África do Sul em que lhe exigiram que não usasse na sala do tribunal o seu turbante.


Ao fim de 3 anos, em1896 (com 27 anos), o Gandi viajou até à Índia  onde fez alguns discursos e de onde regressou à África do Sul com a mulher, dois filhos e o filho único da irmã viúva.

2019-10-26

Tipos de cortesia


O jornal Expresso tem trazido uma pequena colecção de 4 "livros de auto-ajuda"  produzidos pela "School of Life" uma instituição criada por Alain de Botton. No 3º da série escrito por Philippa Perry e intitulado "Como manter a sanidade mental" (How to Stay Sane) tem um pequeno apontamento sobre diferenças nas regras da cortesia.

Diz a autora (na página 53) que em países densamente povoados como o Reino Unido ou o Japão existe a tendência para a "cortesia negativa" em que as pessoas têm consciência da necessidade de privacidade dos outros e do seu desejo de não a verem invadida. O que parece uma frieza é afinal uma cortesia.

Nos países em que há mais espaço livre como nos EUA (talvez isto não se aplique às grandes cidades) predomina a "cortesia positiva" favorecendo a inclusão e a abertura.

Lembrei-me a propósito destas duas fotos que tirei no Japão, que mostrei em post anterior "comer sózinho", cuja estranheza (para um português) poderá ser explicada pela necessidade de privacidade de japoneses em áreas superpovoadas



2019-10-23

Charlotte Periand, pionnière de l’art de vivre


O João Miguel continua a produzir um conjunto de boas sugestões culturais que estão disponíveis, e são actualizadas, no A-Z Weblog e no facebook. Numa das sugestões recentes referiu um documentário de 53 minutos que iria passar no canal ARTE sobre a arquitecta francesa  Charlotte Perriand (1903-1999) e que estará disponível neste sítio da ARTE de 6/Out a 11/Dez/2019.

Nos tempos que correm acaba por ser mais prático ver os programas de TV nos sítios da internet na altura que nos é mais conveniente, quer na “box” para os canais de gravação automática quer nos sitios na internet de cada canal para os que não são gravados.


Sei agora que a Chaise Longue que referi nestes posts, “Um caminho para o Nirvana” e “O Nirvana como um caminho” tem o título “B306 Chaise Longue”.




É muito devido às tão agradáveis e numerosas sonecas que esta cadeira me tem proporcionado (a maior parte das vezes consigo iniciar repouso, adormecer profundamente e acordar retemperado ao som do alarme do telemóvel em 20 minutos, tudo incluído) que me tenho interessado pela história desta cadeira e de Charlotte Perriand.

Neste filme que passou no canal ARTE dizem que foi após um tempo passado num hospital que no regresso a casa sentiu que existiam móveis a mais na sua habitação e que aderiu emocionalmente às teses funcionalistas então em voga.

Depois da formação em arquitectura trabalhou no atelier de Le Corbusier de 1927 a 1937, tendo-se dedicado nesse período sobretudo a projectos de interiores.

Nota: já devia ser tempo de encontrar traduções adequadas em português para o termo inglês “Design”, mas usar “artes decorativas” para alguém que se quer afastar da “decoração” parece muito inadequado, por outro lado “projecto” parece demasiado vago se bem que “design” só adquira o significado específico de “arquitectura de interiores” quando contextualizado.

Nesse projecto de interiores participou activamente na concretização em conjunto com Le Corbusier e Pierre Jeanneret da já referida “B306 Chaise Longue”, além desta “Cadeira de braços LC1” cuja imagem encontrei na National Gallery of Victoria




e também esta Poltrona LC2
interessando-se pela aplicação dos processos industriais de produção em massa ao mobiliário das casas de habitação. Foi-se interessando pela melhoria das habitações das classes trabalhadoras, cujas condições em Paris eram nessa altura deploráveis, o que deve ter contribuído para a saída do atelier de Le Corbusier. Aproximou-se do PC francês, tendo-se afastado após acordo Stalin-Ribbentrop.

Nas vésperas da invasão de Paris em 1940 viajou de barco para o Japão, a convite do Ministério do Comércio e Indústria, via colega japonês com quem trabalhara no atelier de Le Corbusier, para melhorar padrões dos produtos japoneses tendo em vista a exportação para o Ocidente.

Ficou encantada com o minimalismo japonês que encontrou e talvez perplexa sobre que alterações sugerir às soluções japonesas. Ficou imediatamente fã do chão em Tatami, uma esteira feita,entre outros materiais com palha de arroz. Diziam no filme: “elle s’est immédiatement tatamisé”.

"O vazio tem imenso poder, é nele que nos movemos", parece-me ter ouvido durante o filme, comentando o espaço vazio comum nas casas tradicionais japonesas.

Com a entrada do Japão na guerra saiu do país e esteve no Vietnam, então colónia francesa, até ao fim da guerra, altura em que voltou para França.

Esteve envolvida na construção da estância de férias Les Arcs, em Bourg-Saint-Maurice, a uns 140km de Genève de que existem umas imagens interessantes aqui:


Aos 90 anos desenhou uma sala de chá para o edifício da UNESCO em Paris



E nesta Architectural Review tem uma pequena biografia.






2019-10-13

Entrevista de Amartya Sen na New Yorker




Li há poucos dias uma entrevista do Amartya Sen (nascido em 1933) para a New Yorker intitulada “Amartya Sen’s Hopes and Fears for Indian Democracy”, economista indiano laureado com o prémio nobel de que sou fã e que tenho referido nalguns posts deste blogue.

Nela foi mais uma vez referida a importância da democracia na supressão das formas mais extremas de fome que levavam à morte em massa de milhares ou mesmo milhões de pessoas numa dada região.

Ele mostrou que a presence de uma fome mortal numa sociedade democrática é imediatamente combatida com sucesso pelo governo da ocasião, que não se pode dar ao luxo de perder quer directamente eleitores morrendo à fome quer indirectamente pelos sobreviventes descontentes.

Mas o tempo tem-lhe mostrado que outras injustiças tais como a subalimentação sistemática de partes da população, a frequente discriminação das mulheres ou a inexistência de boas escolas para a maioria das crianças são muito mais difíceis de combater, mesmo em regimes democráticos.




A propósito dos comunistas retirei este pequeno extracto:

«
And also, in terms of sympathy for the poor, I thought the communists had something really important to offer. On the other hand, I was always shocked by the absence of political theory. It is not often recognized that Marx had very little interest in political organization. This whole idea of the dictatorship of the proletariat really makes no sense whatsoever. [Laughs.] And, as John Kenneth Galbraith argued, you need opposition, what he called “countervailing power.” There is no countervailing power in their thinking.
»
que me atrevi a traduzir assim:
«
E também, em termos de simpatia pelos pobres, eu pensei que os comunistas tinham realmente algo importante para oferecer. Por outro lado, sempre me chocou a ausência de teoria política. É poucas vezes reconhecido  que Marx tinha muito pouco interesse em organização política. A própria ideia da ditadura do proletariado não faz nenhum sentido. [Risos.] E tal como John Keneth Galgraith argumentou, é precisa oposição, o que ele chamou “contra-poder”. Não existe contra-poder no pensamento deles.
»

Estas considerações apareciam num contexto de censura à política do actual primeiro-ministro da União Indiana, Narendra Modi, pela sua deriva hinduísta em detrimento das outras culturas que habitam no vasto território da União e do abuso da concentração do poder.

Pareceu-me uma coincidência interessante estas reflexões sobre a importância da oposição na altura das eleições legislativas em Portugal.

No caso do PS e também do PSD, parece-me que não basta existir oposição quando têm maioria absoluta pois, como nessas circunstâncias a oposição diz sempre mal de tudo o que fazem, acabam por não a ouvir.

A necessidade do partido do governo fazer alguma negociação com a oposição tempera as medidas que acabam por ter maior qualidade, como aconteceu em Portugal na legislatura de 2015-2019.

Espero que estes hábitos de negociação sistemática com a oposição perdurem na legislatura em que agora entramos.

2019-10-04

Vieiras de Tenerife no blogue "Dias com árvores"


O blogue "Dias com árvores" do Paulo V. Araújo e Maria P. Carvalho continua a brindar-nos com imagens líndíssimas das mais variadas plantas acompanhadas de textos com uma parte mais dedicada a botânicos profissionaise/ou amadores juntamente com outra dirigida ao público em geral.

A parte botânica dá-nos uma ideia da vastidão deste ramo da biologia, a para o público em geral contém considerações muito ponderadas, como é o caso de mais este post sobre as Vieiras de Tenerife, onde fui buscar as duas imagens que mostro a seguir







2019-10-01

Velocidade de transmissão de informação e cabos domésticos


Tive acesso à Internet em casa desde Maio/1998 através dum Zoom Fax Modem com velocidade de 33.6kbit/s e disponibilizada por um pacote NETPAC da Portugal Telecom.

Na altura coloquei uma calha desde o sítio onde tenho o PC até à tomada do telefone, foi preciso um cabo com 15 metros pois o trajecto quase nunca é em linha recta.

Em 2003 já tinha uma ligação ADSL (Asymmetric Digital Subscriber Line) com um “Alcatel Speed Touch USB 330 Modem” e um novo contrato com a PT. Diz na Wikipédia que este aparelho podia ir até 7Mbit/s nos downloads e 1 Mbit/s nos uploads. Não me lembro das velocidades típicas do serviço, os valores acima eram majorantes impostos pelo equipamento.

Nessa altura já se dizia que as velocidades de acesso à internet podiam ser enganadoras dado que os servidores que continham os diversos domínios podiam não conseguir responder com a velocidade máxima da ligação à Internet do assinante.

Por curiosidade estive agora a verificar que tenho e-mails apenas a partir de 2005, é posssível que  tivesse alguns anteriores mas deviam ser poucos.

Quando chegou a fibra óptica ao meu prédio nos Olivais Sul em Jul/2009 subscrevi o serviço, mas preferi usar a Wi-Fi disponibilizada no router (que tinha para o PC fixo uma performance  de cerca de 10Mbit/s ) do que passar um cabo Ethernet com 30metros do PC até ao router em substituição do cabo de 4 condutores com 15m para a ADSL que ia do PC até à tomada do telefone fixo.

Um PC portátil ao lado do fixo consegue cerca de 20Mbit/s e em locais próximos do router (distância de 1 metro) chegou aos 50Mbit/s. Daqui é fácil concluir que o problema da baixa velocidade estava no PC fixo e não no router do operador de telecomunicações

Entretanto constatei que por vezes a velocidade do Wi-Fi descia a valores exasperantes, do género 100kbit/s, que presumo devidas a problemas do operador, mas estas ocorrências raras aumentaram a minha vontade de migrar para uma ligação Ethernet.

Andei hesitante em comprar um TP-link, aparelhos que usam a rede de fios eléctricos duma casa para transmitir sinais de uma rede ethernet. Coloca-se um aparelho TP-link ligado a a uma tomada de 220V ao pé do router e outro aparelho TP-link a outra tomada eléctrica ao pé do PC e ligam-se o PC ao TP-link próximo com um cabo ethernet e o router ao TP-link próximo dele com outro cabo ethernet.

Embora tenha tido boas referências do TP-link, numa conversa que tive sobre estes equipamentos disseram-me a certa altura que o aparelho se tinha avariado, ilustrando a vantagem de um cabo simples que tem uma fiabilidade mais elevada.

Da informação que consultei na Internet constatei que os cabos CAT5 (Categoria 5) com 4 pares de condutores entrançados são adequados para ligações Ethernet até 100metros, funcionando bem com velocidades de 100Mbit/s e mesmo mais, tendo também constatado que eram muito mais flexíveis do que os cabos que eu vira utilizar em algumas aplicações profissionais, conseguindo passar pelos cantos apertados das calhas que eu instalara alguns anos atrás.

A instalação de cabos pelos operadores de telecomunicações em casas impreparadas para o efeito é feita usando pistolas de cola quente. Quando um dos cabos deixa de ser necessário costuma ser abandonado no local, normalmente junto a um rodapé. Desta vez retirei o cabo coaxial que servira para a TVCabo e que deixara de ser usado e coloquei
- o cabo de fibra óptica;
- o cabo do router (passando por caixinha) até ao telefone fixo;
- o novo cabo para ligação Ethernet
numa calha com capacidade para estes 3 cabos, ficando a pensar que deveria ter usado uma calha ligeiramente maior, para algum novo cabo que venha a ser necessário.

Existem cabos Ethernet com as fichas de 8 terminais já ligadas para comprimentos de vários metros, de 10 e de 20m. Comprimentos maiores talvez só por encomenda e no meu caso o cabo teria que passar por um orifício sendo preferível colocar a ficha após a passagem por esse orifício para manter este com dimensão pequena.

A ligação de um cabo Ethernet a uma ficha RJ45 é fácil para quem tem prática. No meu caso falhei duas ligações antes da primeira ligação bem sucedida. É necessário dispor de um alicate para esmagar os contactos da ficha nos condutores previamente colocados lado-a-lado numa ordem pré-determinada, no meu caso usei a T568B.

Este filme do YouTube (Cat RJ45 easy Technique) foi essencial para eu conseguir que os 8 condutores ficassem bem planos e bem paralelos, de forma a que cada um entrasse no orifício que lhe estava destinado na ficha RJ45.




Ao fim de algum tempo e depois de algumas deslocações de mobiliário seguidas da devida reposição consegui uma ligação Ethernet directa entre o router e o PC fixo que no teste da FCCN deu cerca de 90 Mbit/s quer no download quer no upload.

Notei que nalguns sítios a informação parecia chegar mais depressa e certamente o tempo de  transmissão de ficheiros vai ser bastante menor.


Adenda: não costumava ver  programas da TV no PC entre outras razões porque me cansava das pausas frequentes que ocorriam. Constato agora que com os 90 Mbit/s em vez dos 10 Mbit/s anteriores estas transmissões fluem muito melhor.

2019-09-28

Escada verde sobre fundo rosa com sombras tropicais


Deste post da Helena Araújo intitulado "Drake" saltei para este conjunto  "Pura vida" donde destaco este "pura vida - o paraíso sempre alhures" onde está esta imagem de que me lembrava e que tanto apreciei:




2019-09-22

Factfulness (Factualidade) e o abastecimento de água no Algarve



Recentemente tenho-me deliciado a ler o livro do Hans Rosling (póstumo), do filho (Ola Rosling) e nora (Anna Rosling Rönnlund) intitulado "Factfulness" (Factualidade) contendo as explicações mais satisfatórias e completas que até agora encontrei para ter observado melhorias contínuas (pelo menos como tendência) das condições de vida dos portugueses durante 60 anos e contudo, durante esse período de tempo, sempre ter ouvido dizer que isto ia de mal a pior e que o futuro seria ainda mais negro e mesmo as  melhorias irrecusáveis eram quase nada em relação ao que poderiam ter sido.

Recomendo vivamente a leitura deste livro. Eu já vira umas 3 apresentações do Hans Rosling de que gostei muito e referi em post do ano passado, mas o livro vale também muito a pena (que não é pena alguma)!

Como pequeno exemplo para ilustrar a melhoria das condições de vida no Algarve recordo-me da existência de cisternas em muitas casas ou pelo menos de tanques adjacentes à casa para recolha da água da chuva. Tomei conhecimento que essas cisternas passaram a ser visitadas regularmente pelas autoridades sanitárias que povoavam as mesmas com pequenos peixes que comiam ovos de mosquitos e presumo que outros pequenos animais nocivos. Nem sempre a água das cisternas seria boa para beber mas pelo menos era adequada para lavagens. A dispersão das casas e a baixa densidade populacional tornava difícil a banalização de água canalizada em todas as habitações pelo que seriam frequentes as doenças provocadas por consumo de água em más condições sanitárias.

A certa altura banalizou-se a perfuração de furos para chegar aos lençóis freáticos e utilizar para regadio, com água abundante em alguns sítios como por exemplo em Silves e na planície entre Faro e Olhão. Surgiu então o problema da gestão de um recurso público. Em anos mais secos o nível da água no lençol freático descia e furos menos profundos ficavam secos. Se num dado ano secavam os furos com profundidade de 10m os furos que eram feitos no ano seguinte iriam até além dos 10m e assim sucessivamente. Na ausência de limitação da extracção de água subterrânea o nível freático foi baixando de ano para ano, existindo furos com profundidade de 100m!

Uma exploração sustentável do lençol freático seria extrair num dado período a água que em  média iria aumentar o nível freático. A corrida a furos mais fundos, forte indício de sobreexploração dos lençóis freáticos, levou a uma descida dos níveis destes e a um acréscimo do gasto em energia para elevar os metros cúbicos de água. Notar que 1m3 de água pesa 1000kg (uma tonelada). Toda a gente passou a ter que elevar a água umas dezenas de metros mais do que seria necesário se se tivesse mantido uma extracção sustentável.

Outra consequência da descida da do nível dos lençóis freáticos foi que nalguns casos, como por exemplo no concelho de Portimão, essa descida levou á "invasão" do lençol freático por água salgada proveniente do mar. Durante mais de um ano a água canalizada em Portimão era tão salgada que era imprópria para fazer café e as máquinas de fazer café expresso passaram a ser abastecidas com água de Monchique, obtida através de garrafões ou "jerrycans" que eram cheios nas fontes existentes na serra. No início dos anos 70 tornou-se um hábito das famílias com automóvel fazer viagens à serra com vasilhame para transportar água de fontes onde se formavam bichas de pretendentes da água respectiva.

A seguir mostro um garrafão clássico com capacidade de 5 litros e envolto em  vime entrançado para proteger o vidro e fornecer uma pega para facilitar o manuseamento. Ao lado deste mostro a versão em que o vime foi substituído pelo plástico.

Estes garrafões eram mais usados para conter vinho mas também podiam ser usados para transportar/guardar água. Notei agora como o “design” do garrafão com o entrançado de vime foi desnecessariamente imitado na versão em plástico. E é fácil perceber que envolver em plástico o recipiente de vidro de um garrafão requer muito menos mão-de-obra do que envolver o mesmo recipiente com vime entrelaçado, existiram motivos fortes para que os plásticos se tornassem tão ubíquos


No garrafão seguinte, da Água do Luso, é mantido o motivo do vime entrelaçado mas o “design” é ligeiramente alterado.

Mas para transportar 5 litros de água era preciso contar com 2 ou 3 kg adicionais para o garrafão aos 5 kg de água nele contidos, a não ser que se usassem “jerrycans” de 10 ou 20 l de capacidade que pesavam bastante menos de 1kg cada.

No início dos anos 90 a água em Portimão já não era salobra e só faltava de forma muito esporádica, enquanto em Albufeira existiam ainda quebras de fornecimento de água quase todos os dias do mês de Agosto, quando existiam mais turistas.

Disse-me um amigo que no Sotavento havia também quebras sistemáticas de fornecimento de água durante o Verão, antes da construção das barragens de Beliche e de Odeleite.

No Algarve foi entretanto possível construir um sistema multimunicipal de abastecimento de água conforme se pode ver na figura seguinte



tendo acabado ou tornado raras as quebras de fornecimento de água para consumo humano, quer através dum melhor aproveitamento directo da água da chuva aumentando as bacias onde é recolhida quer com o aumento da capacidade de armazenamemnto quer com a construção de adutores que permitem socorrer zonas mais carenciadas com água disponível em zonas mais distantes, pois todo o sistema multimunicipal está interligado. Além da regularidade do abastecimento a qualidade da água fornecida é também muito melhor.

Fui ver as datas de construção das grandes barragens do Algarve que resumi em tabela

Barragem                 Concelho      Conclusão    Capacidade total (hm3)

Arade                       Silves              1955            28,4
Odeáxere (Bravura)  Lagos               1955            34,8
Beliche                    Castro Marim    1986            48  
Funcho                     Silves               1993            42,7       
Odeleite                   Castro Marim    1997          132  
Odelouca                  Monchique        2009          157  
   
que se destinam todas a regadio e abastecimento de consumos domésticos.

Esta tabela dá uma ideia do esforço continuado ao longo de um período de tempo muito prolongado, demonstrando que os regimes democráticos com eleições em cada 4 anos também são capazes de desenvolver projectos com horizontes temporais superiores ao ciclo eleitoral, desde que existam necessidades suficientemente importantes por satisfazer ao longo do tempo.

Aqui tem uma breve descrição da história da empresa “Águas do Algarve”, uma empresa do grupo “Águas de Portugal” criada no ano 2000, resultante da fusão das empresas multimunicipais “Águas do Barlavento Algarvio” e “Águas do Sotavento Algarvio”.


2019-09-11

Malika Favre (2)


A revista new yorker vai ter mais uma capa feita pela ilustradora Malika Favre de que falei aqui e aqui.

Fui mais uma vez à procura de outras obras dela e gostei muito desta, que encontrei aqui, acho que me impressionaram as sombras, os reflexos e a ausência de  horizonte.

Fez-me lembrar as férias e a minúcia do Escher.

 

2019-08-30

Linhas Platónicas


À medida que o raio de uma circunferência aumenta em relação ao comprimento de um dado arco  dessa circunferência este fica cada vez mais próximo de uma recta, uma linha perfeita que pode ser considerada uma ideia do mundo platónico.

Os comprimentos das linhas de horizonte que mostro a seguir são muito pequenas em relação aos cerca de 6000km do raio do da Terra, donde a sua quase perfeita rectidão.








2019-08-23

Lembrando Maluda


Ao ver a sombra desta escada pensei na Maluda

que poderia usar este motivo como ponto central de uma composição.

A seguir mostro o contexto imediato da mesma escada


e aqui mais alargado






Talvez um dia tente uma estilização desta cena, mas agora que falei na Maluda fiquei intimidado com eventual  comparação.

Revisitei posts deste blogue em que mostro imagens estilizadas de Olhão da Maluda, aqui e aqui, donde tirei esta imagem.






2019-08-19

Fim-de-tarde


Gostei de ver os brancos mais amarelos ou mais azulados, conforme ainda à luz do sol ou à sombra mas a diferença de tonalidades nem sempre aparecia nas fotos cuja cor era corrigida de forma automática pela máquina fotográfica de bolso.

Para controlar estes detalhes é preciso um treino contínuo, indisponível para quem quer continuar fotógrafo-amador. Assim, é preferível ter estes controlos automáticos, uma pessoa tira várias fotos que ficam todas razoáveis e depois escolhe aquela que lhe agrada mais.

Foi esta a escolhida:




2019-08-11

Nuvens Altocumulus no Verão Algarvio


Durante o dia este é o céu algarvio mais comum, fotografado em 1/Agosto/2019


embora não seja raro aparecerem às vezes algumas nuvens, como por exemplo estas que fotografei em 7/Ago



Num sítio da internet mostravam esta imagem em que me baseei para dizer que estas nuvens eram Altocumulus:




 

2019-08-07

Problema com GPS desde 6/Abril/2019


Em Abril deste ano o GPS do meu carro, um Citroën de 2010, passou a mostrar de forma sistemática a mensagem "zona não cartografada” em vez do mapa do local da viatura. O sistema de navegação continuava a dar indicações sobre como se dirigir para um dado objectivo, quer vocais quer mostrando setas de mudança de direcção, acompanhadas da distância até à mesma, mas tinha deixado de mostrar o mapa.

Tirei  o cartão SD com o programa do GPS e verifiquei a sua integridade fazendo um “scan” num PC, aparentemente o cartão estava bom.

Um amigo referiu-me que em Abril deste ano se passara qualquer coisa com o sistema de satélites GPS que poderia causar problemas em programas mais antigos. Procurei informação na internet incluindo sítios da Citroën mas sem sucesso. Telefonei para uma sucursal da Citroën mas disseram-me que teria que levar lá o automóvel para ser visto por um técnico. Dado que as intervenções das oficinas das marcas costumam ser dispendiosas preferi continuar com o sistema degradado visto que continuava a ter acesso a indicações sobre como atingir um dado local.

Recentemente, no fim de Julho, o meu relógio de pulso que mostra o dia do mês avariou-se e procurei a data do dia no écran do carro pois o telemóvel não estava à mão. Tive dificuldade em localizar a data no écran, constatando que consulto frequentemente as horas mas quase nunca a data. Os algarismos que indicavam a data mostravam 04-12-2089 o que explicava parcialmente a minha dificuldade em identificar esta série de algarismos como uma data pois o ano não se parecia com 2019. Quando identifiquei 04-12-2089 como uma  data passei ao passo seguinte de corrigir a data-hora. Ao princípio só conseguia modificar as horas e os minutos, reparei que tinha um “v” numa caixa com o texto “Sincronizar data com GPS” Tirando o “v” consegui alterar a data para 2019 mas ao recolocar o “v” a data voltou ao valor errado anterior. Retirei o “v” outra vez, corrigi outra vez a data e dei esta correcção por concluída.

Nesta altura ocorreu-me que talvez fosse a presença da data errada que inibisse a apresentação do mapa pelo sistema GPS. Coloquei um novo destino no GPS para testar esta hipótese e o mapa voltou a aparecer!

Depois acabei por descobrir informação útil na internet sobre este assunto, designadamente no sítio da Citroën na Nova Zelândia onde indicam que se faça o que eu fiz. Neste sítio identificam o meu GPS “ “My Way – Wip Nav ” produced between 2007 & 2015” como o único que terá problemas. Não sei se será o único mas confirmo que este teve problemas.

Presumo que o programa do GPS do meu carro considera que mapas muito antigos, como será o meu actual datado de 2010 em 2089, não devem ser considerados, o que explicaria o comportamento do sistema.

É pena que a Citroën Portugal não tenha uma informação equivalente no seu sítio, de uma forma geral os sítios portugueses são pobres neste tipo de ajuda a quem comprou os seus produtos, concentrando-se quase exclusivamente na promoção de novos produtos.

O primeiro satélite dos 24 que constituíram o primeiro sistema GPS foi lançado em 14/Fev/1989, conforme referem neste artigo da Wired de onde retirei a imagem que segue



O tempo voa, (é como os satélites...).

2019-07-30

Feito na Etiópia


Há uns 4 anos que compro todos os anos um calção de banho em saldo por pouco mais de 10 euros, tenho mantido o formato, cõr única sem desenhos calção ficando acima do joelho, o que me surpreende nestes tempos em que há tanta mudança, vou variando a côr embora além doutras tenha 3 tonalidades de azul.

Desta vez constatei que o fato de banho foi feito na Etiópia, conforme se constata na longa lista de "Feito em ..." em diversas línguas. Sendo a primeira vez que reparo que comprei uma coisa feita num país de África fui verificar onde tinham sido feitos os calções anteriores em que constava Vietnam, Sri Lanka e China.

São pequenos sinais de mudança, num continente com tantos problemas por resolver.

2019-07-28

Toldo em açoteia


Surpreendeu-me a quantidade de cabos instalados neste toldo, sombreando uma açoteia algarvia duma casa ao pé do mar, indiciando local muito ventoso.

Mas gostei dos panos brancos contra o azul do céu, uma mistura de aldeia da roupa branca e de navio à vela estacionário, cheio de cabos, de ferragens e de nós.