2012-02-29

Tradução de "anonymously"

Ainda no bairro de Chelsea em Nova Iorque, entre duas galerias de arte, gostei de ver este quarteirão com as traseiras dos prédios com uma nesga de vista para a rua, embora esta organização urbana prejudique um bocado a privacidade, como se viu tão bem no filme "A janela indiscreta"



mas o que me chamou depois a atenção em casa, ao olhar para a foto, foi a tradução do anúncio em inglês, convidando à denúncia de situações de falta de segurança no trabalho:
"To anonymously report unsafe conditions at this work site call 311"


para esta versão em espanhol:
"Para reportar condiciones peligrosas en un sitio de trabajo, llame al 311. No tiene que dar su nombre."

O tradutor, ou o responsável pelo anúncio, parece ter tido receio de usar a palavra "anónimamente". Embora eu tenha encontrado esta palavra em sítios espanhóis, a sua ocorrência é pouco numerosa e não consta do dicionário da Real Academia Española, onde existe (por exemplo) a palavra "rápidamente".

Numa primeira impressão pareceu-me que queriam evitar uma palavra "cara" em espanhol. Agora já não tenho a certeza.


Vou estar ausente por uns dias.

2012-02-23

Marilyn Monroe

Continuando a vaguear pelo bairro de Chelsea fixei-me nestes prédios revestidos a tijolo que já tinha mostrado na terceira imagem deste post



além de gostar da variedade de volumes de prédios e de reparar nos aparelhos de ar condicionado compactos (em vez de split) de que talvez venha a falar noutro post, quando vejo as torres, de que mostro aqui um pormenor



entro numa espécie de "loop", pensando que as torres têm aspecto de campanários, devem ter sinos, depois penso, que disparate, não faz sentido que sejam sinos, devem ser os motores dos elevadores do prédio mas depois também acho que as aberturas não serviriam para nada, talvez sejam depósitos de água mas as janelas continuam inúteis e volto à conjectura dos sinos fechando o ciclo.

Entretanto entrei noutra galeria onde gostei destas fotos da Marilyn Monroe



que deformei e cortei para regressarem à forma rectangular



depois procurei no Google Images e fui dar a um site com estas fotografias mais nítidas, que foram tiradas por Lawrence Schiller em 1962, ano da morte de Marilyn, com apenas 36 anos.

Esta saída da piscina, que retirei do site acima referido, é inesquecível


e regressando à galeria onde estavam as fotos, fotografei também uma impressão de Tom Wesselmann, intitulado "Judy trying on clothes"



cuja cena não é forçosamente uma sequência de saída de piscina mas que poderia ter sido.

2012-02-20

Frank Stella

Continuando a passear no bairro de Chelsea em Nova Iorque no passado mês de Outubro, já um pouco cansado das diferenças de temperatura entre interior e exterior e do constante tira e põe casaco, gostei deste enquadramento do Empire State Building, a sobressair de arvoredo, em vez de prédios, no cruzamento da 10ª Avenida com a 27ª Rua



depois entrei numa galeria que tinha este quadrado


e mais este


colocados lado a lado nesta composição



em que a parede branca sobre a qual estava colocado o quadro ficou em tom beige.

Como me esqueci de tomar nota do nome do autor coloquei esta última imagem no Google Images que me revelou logo tratar-se de Frank Stella. O Google mostrou-me ainda que a galeria onde vi provavelmente este quadro foi a Paul Kasmin Gallery, onde constatei que a obra se chamava "Grey Scramble X (Double)", tendo sido pintada por Frank Stella em 1968. Mostro aqui uma versão do site da Galeria que terá provavelmente as cores mais fiéis ao original:



No artigo da Wikipédia tinha ainda este Harran II de 1967 em que tomei a liberdade de pintar de preto os cantos inferior esquerdo e superior direito da obra, para se integrar melhor neste blogue de fundo preto:

2012-02-17

Chelsea-3

Vou regressar às deambulações pelo bairro de Chelsea em Nova Iorque, a propósito do qual escrevi vários posts no passado mês de Dezembro e em que uma referência ao Irão me deu mais uma oportunidade de divagar.

Gastei algum tempo a localizar onde foi tirada esta fotografia de Nova Iorque.



Gostei desta vista porque havia algum desafogo na definição da avenida que não estava emparedada por prédios com muito andares, as duas torres ao fundo do lado esquerdo com alguma leveza em relação aos edifícios revestidos a tijolo mais próximos, a grua lembrando a transformação permanente desta cidade.

Ultimamente aprendi a usar o Google Maps no modo “vista de rua” (“street view”), basta “arrastar e largar” (drag and drop) o homenzinho cor-de-laranja, que está em cima da régua onde se pode controlar a escala de visualização do mapa, em cima do local de onde se pretende a vista. Com as ferramentas informáticas actuais (por exemplo os caminhos que se podem gravar no Google Maps, a vista de rua desta aplicação, a georeferenciação das fotos) e com uma máquina digital a tirar dezenas de fotografias torna-se cada vez mais fácil reconstituir os percursos que se fizeram. Neste caso a foto foi tirada na 11th Avenue, próxima do cruzamemnto com a West 27th Street, vendo-se do lado esquerdo o armazém com as palavras “Terminal Warehouse / Free Cold / Bonded Storage”.

Mas nem tudo se consegue reconstruir. Logo a seguir a ter tirado esta foto entrei numa Galeria de que não sei o nome que tinha esta Casa de Bonecas em ponto grande,


com muitas divisões com grande detalhe interior


que tinha sido atingida por uma casa chinesa (ou coreana) voadora


Não faço ideia do que isto significa mas não é necessário que signifique alguma coisa.

Trata-se de uma obra do artista coreano (provavelmente do Sul) chamado Do Ho Suh.

2012-02-12

Acordo Ortográfico

Os leitores mais atentos terão reparado que continuo a escrever com a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico. Compreendo a necessidade de mudar as regras ortográficas de vez em quando, sabe-se que já não escrevemos como no tempo de el-rei D. Duarte, de quem mostro aqui ao lado uma página do seu Livro de Horas, que fui buscar ao site da Direcção Geral de Arquivos.

Não me sentindo habilitado a emitir um parecer sobre a validade das alterações propostas constato, dadas as acesas polémicas existentes, que não existem aqui leis da Natureza que nos possam ajudar, tratando-se de uma pura construção humana. Não gosto desta dicotomia Natureza - Ser humano mas por vezes é cómoda de usar. Do debate havido constatei que os campos opostos se dividiam entre os mais fiéis à fonética e os que preferiam a etimologia. Como durante a minha vida não observei alterações na pronúncia das palavras objecto de alteração no acordo sou levado a concluir que o documento não resulta de uma adaptação da escrita a novas práticas fonéticas mas a um ajuste de contas dos “fonéticos” relativamente a algumas batalhas que perderam para os “que favoreciam a etimologia” nas normas anteriores.

Não valerá a pena referir que as ortografias do Brasil e de Portugal irão provavelmente divergir, basta ir ver o corrector ortográfico do Word para constatar que existem meia-dúzia de variantes para o alemão e imensas para o francês, o inglês e o espanhol. Mesmo no italiano há o de Itália e o da Suíça. Caso alguns dos países que usam a língua Portuguesa não venham a aprovar o acordo aparecerão certamente mais variantes além do Português de Portugal e do Brasil actualmente existentes.

Tenho notado uma tendência para escrever "contracto" em vez da ortografia antiga "contrato", por influência do inglês, sendo este um dos motivos que me desgosta nesta nova ortografia que nos distancia do francês, inglês ou espanhol, em que mantêm os cês e os pês atrás de consoantes embora não tenham ficado mudos como em Portugal. Vai ser mais difícil para os Portugueses aprender a escrever nessas línguas estrangeiras o que , além de diminuir a nossa competitividade, como agora se está constantemente a dizer, dificultará também a emigração, tornando ainda mais difícil a tarefa de governar o nosso Portugal.

E com a leitura de textos na nova ortografia começo a ficar confuso e noutro dia já pensava que inflação se escreveria inflacção embora agora, ao ver a palavra escrita, constate ainda com facilidade que o ”c” está a mais. Por outro lado, quando vejo “diretor” leio “director” pronunciando o c anteriormente mudo, como que corrigindo oralmente o desvio da grafia a que estava habituado.

De qualquer forma ninguém é obrigado a escrever segundo a nova ortografia, a não ser que seja funcionário público, e nesse caso apenas em documentos oficiais. Dizem-me que seria inconstitucional rejeitar um requerimento escrito com a ortografia antiga embora eu ache que esta tolerância terá limites, seria talvez complicado fazer passar um requerimento escrito como no tempo do D. Duarte.

Resumindo, vou continuar a escrever segundo a antiga ortografia enquanto não mudar de ideias sobre este assunto. Se se der o caso de ter que produzir algum texto de acordo com a nova ortografia limitar-me-ei a pedir ao corrector ortográfico (das novas regras) para aceitar as mudanças todas que ele me sugerir. Terei apenas que ver como poderei ter duas versões do corrector ortográfico e se tal não for possível prescindirei do antigo para ter esta possibilidade de conversão automática para a nova ortografia.

2012-02-09

Outra vez o Monte Fuji

Este blogue tem tido muitas visitas, na sequência de uma referência simpática do Maradona.

Entretanto anda tanta gente a falar de tanta coisa que achei melhor reduzir o texto neste post e ficar mais pelas figuras, mostrando mais 3 paisagens incluido o Monte Fuji, que fui buscar aqui.

Começo pelo reflexo num lago, de superfície perturbada por leve brisa



passando depois para uma situação mais fria, em que o lago reflector tem gelo à superfície, reflectindo imagens apenas nalguns sítios



e finalizando com esta imagem a preto e branco que me faz lembrar fotografias de savanas africanas, (digo fotografias porque nunca vi essas paisagens ao vivo)

2012-02-03

O Manifesto ou o Monte Fuji?

Saiu mais uma versão do Manifesto para a Política Energética em Portugal em que resumindo se defende a biomassa e a energia nuclear e em que se atacam as energias eólica e solar.

É impossível discutir estes temas com profundidade num blogue pelo que me limitarei a referir o meu desapontamento por haver pessoas que, mesmo após os desastres de Three Mile Island, de Tchernobyl e tão recentemente de Fukushima, depois de mais de 50 anos de falhanços sucessivos na tentativa de tratar eficazmente os resíduos radioactivos resultantes da actividade das centrais, depois de tantos falhanços financeiros de projectos de centrais nucleares, o último dos quais está a acontecer na Finlândia onde se acumulam os problemas e atrasos, depois da decisão da Alemanha de fechar subitamente no ano passado 8 centrais nucleares e decidir fechar as restantes até 2022 haver pessoas, ia eu dizendo, que achem que vale a pena continuar, aqui e agora no meio desta enorme recessão com o consumo de electricidade a diminuir em Portugal pela primeira vez desde o fim da 2ª grande guerra e sem dinheiro para nada, a estudar o eventual interesse de instalar uma central nuclear em Portugal! Não será tabu mas será certamente uma perda de tempo.

Havendo vários pontos contestáveis no documento, a minha atenção foi chamada para o ponto 34

«É de estranhar que Portugal seja na Europa um campeão das novas renováveis. Se a opção fosse assim tão boa, porque razão é que os outros países, bem mais ricos e desenvolvidos e dotados de um bastante melhor recurso eólico, não adoptaram a mesma política, estando mesmo a abandoná-la, como é o caso da Holanda?»

onde é feita uma referência a eventuais mudanças de estratégia de implementação de renováveis na Holanda que desconheço e sobre as quais não me pronuncio.

Mas um texto em que se afirma que "os outros países da Europa bem mais ricos e desenvolvidos... não adoptaram a mesma política", quando a Dinamarca e a Alemanha precederam Portugal na implementação em larga escala da energia eólica é um texto intelectualmente desonesto.

Tomei nota dos nomes dos subscritores do manifesto que passarei a considerar como pessoas distraídas ou ao serviço de interesses que desprezam o interesse de Portugal.

Entretanto escrevi há pouco tempo um post em que referia a situação das centrais nucleares no Japão mas antes de o visitarem sugiro que contemplem estas imagens do Monte Fuji, que compreendo cada vez melhor ter sido e continuar a ser uma fonte de inspiração inesgotável para tantos artistas japoneses e que fui buscar a este site: http://www.cies.co.jp/photo/

Começo por uma neblina matinal



passo por uma árvore que me parece ter cristais de gelo nos ramos



e termino com um lago e uma árvore em flor

2012-01-27

As maravilhosas paisagens inglesas

Ao passar por este artigo na BBC World, promoção turística feita com bom gosto, mostrando aos visitantes estrangeiros as riquezas paisagísticas que terão a oportunidade de ver em Inglaterra, se lá se deslocarem por ocasião dos Jogos Olímpicos de 2012, não resisti a trazer para aqui esta paisagem inglesa maravilhosa:


O artigo faz parte de uma série escrita por estrangeiros sobre as maravilhas de Inglaterra, intitulado neste caso como um hino às árvores e aos pássaros, temas também caros a este blogue que tem falado mais de árvores mas onde têm aparecido pássaros, designadamente nas versões estilizadas por Charley Harper nos dois últimos posts e ainda em mais três posts a que cheguei colocando a palavra pássaro na caixa de busca do blogue no canto superior esquerdo, ou então indo para aquiaqui, ou aqui.

Mas o meu embasbacamento com a descoberta que os jardins ingleses resultam duma intervenção humana leva-me sempre a suspeitar de alguma intervenção sempre que vejo alguma paisagem de grande beleza, como a deste campo na propriedade de Stourhead, onde foram filmadas cenas do Barry Lyndon, no Wiltshire, a uns 40 minutos de Bath.

No artigo refere que o “English Countryside” é mais “genuinamente inglês” do que a cidade de Londres. Discordo sempre da pretensa genuinidade do campo em relação à cidade, ainda mais neste caso em que não estamos a ver “campo” nenhum mas um jardim de enormes proporções, construído no início do século XVIII, em que o lago foi obtido através da construção de uma pequena barragem (enfim é um pequeno pecado de perturbação da natureza em vez de ser um grande pecado) e retirando alguma terra de fins agrícolas.

Tudo isto foi tornado possível com a riqueza  obtida na mais antiga casa bancária inglesa, a C. Hoare & Co, única que não foi absorvida pelos grandes bancos actuais. Sem a actividade bancária londrina esta bela paisagem não teria sido construída. Pelo menos neste caso a actividade bancária deixou-nos alguma coisa que vale a pena.

2012-01-24

Charley Harper (1922-2007)

Depois do último post andei à procura de mais alguma informação sobre Charley Harper. No começo encontrei a simpática imagem aqui à direita neste sítio em que presumo que colocaram o artista numa das suas obras.

Depois fui ver a tradução de “Warbler”, o nome do pássaro que aparece na imagem e o Google dizia que era “Rouxinol”. Achei estranho porque sabia que em inglês o rouxinol se chama nightingale. Fui ver a tradução de warbler para francês e deu-me Fauvette, quando rouxinol em francês se diz rossignol. Entretanto aprendi que o rouxinol só existia no velho mundo, os existentes na América foram para lá levados da Europa, Ásia ou África.

Depois fui-me apercebendo que, à semelhança das plantas, também nas designações vernáculas dos animais existem imensas ambiguidades, uma das justificações para as designações em latim, onde há esforços sistemáticos (enfim, tanto quanto possível) para uma taxinomia consistente.

Fiquei sem saber como se traduz Warbler em português, não me parece que faça sentido ser Rouxinol, mas há uma data de pequenos pássaros na América cobertos por esta designação.

Mostro a seguir a imagem original do Warbler


Do texto da Wikipédia sobre Charley Harper destaco esta frase dele: “…and herein lies the lure of painting: In a world of chaos, the picture is one small rectangle in which the artist can create an ordered universe.”










Nesta lindíssima “Octoberama (wood duck)” que mostro aqui à direita podemos ver uma floresta em tons outonais que se reflecte nas águas calmas de um lago, onde desliza o “Wood Duck” que em Português se parece traduzir por Pato-carolino, um pato com uma plumagem vistosa originário da América e que existe no Velho Mundo através de importações.










Dada a pequena dimensão da figura do pato nesta imagem fui buscar, mais uma vez à Wikipédia, uma fotografia do pato em questão, que dizem partilhar genes com o pato mandarim da Ásia


Depois vi ainda este desenho de Charley Harper, de outro pato ao Luar, que considero extraordinário como representação estilizada de reflexos


e também gostei muito do que me parece ser um bordado (ou uma matriz para bordado) baseado na imagem anterior



Para finalizar deixo uma cotovia, (Meadowlark), que se integra bem sobre o fundo negro deste blogue.

2012-01-20

Charley Harper

Em Maio/2011 vi esta imagem no blog "duas ou três coisas"



mas a pergunta que fiz na caixa dos comentários sobre o respectivo autor ficou sem resposta.

Hoje, a propósito de desenhos estilizados de pássaros, fiquei a conhecer o nome do autor que é o título deste post. Depois, por curiosidade, coloquei o ficheiro da imagem no Google Images que me mostrou logo muitos sítios da internet em que aparecia o nome do autor.

Não tenho tido grande sucesso na identificação de flores com o Google images, mas para este tipo de imagens parece dar muito bons resultados.

São diferentes mas a estilização faz-me pensar na Maluda.

Deixo a seguir outra imagem, "Red and Fed" ou "Cardinal on Corn", que fui buscar aqui à indispensável Wikipédia!

2012-01-18

Economia, Moral e Política



É o título dum pequeno livro com 106 páginas, escrito por Vítor Bento, da colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se torna simpática pela dimensão pequena das obras publicadas.

Será difícil tratar alguns temas em obras desta dimensão mas o seu tamanho reduzido poderá ajudar os autores a manter o texto conciso.

Ouvi Vítor Bento pela primeira vez como comentador do jornal das 22:00 da RTP2, em que se destacava pela palavra sensata, pela explicação clara e pela análise fria do que ia acontecendo.

Este pequeno livro mantém essas qualidades que me fizeram apreciar os seus comentários, constitui uma introdução às relações existentes entre a Economia, a Moral e a Política e dá algumas explicações sobre as causas da crise que atravessamos.

É bom ler na página 52 que uma boa parte da crise se deve à falta de ligação entre a Macro e a Microeconomia, em que a tomada de milhares de decisões inteiramente racionais pelos agentes individuais, por exemplo na compra de habitação própria, pelo seu volume criou uma situação que altera o contexto em que a decisão foi tomada. Os mercados não deram sinais económicos a tempo e horas que levassem a uma moderação na contratação desses empréstimos. Quando os sinais (aumento da taxa de juro, dificuldade na obtenção de empréstimo) apareceram, já era demasiado tarde.

Na página 55 surge uma crítica à auto-regulação do sector financeiro que mostrou ser ineficaz quando se tentou substituir ao Estado na ligação entre a micro e a macroeconomia. É evidente que o Estado tem problemas e que existem interesses que o tentam controlar e/ou influenciar. Mas é, na melhor das hipóteses, de uma grande ingenuidade pensar que os mercados se podem auto-regular e que essa auto-regulação conseguirá escapar às pressões dos interesses que tentavam controlar o Estado.

Na página 95 existe ainda uma crítica ao comportamento de horda dos licenciados das Universidades americanas de maior renome que, ao seguirem um pensamento único, criam grande instabilidade ao acabarem com a diversidade que é precisamente a força do mercado.

Eu tinha feito umas considerações com afinidades às da página 95 aqui.

2012-01-15

Energia e Política

No meio de tanto disparate publicado é consolador ler a entrevista de uma pessoa sensata que conhece bem os temas de que está a falar. É o caso deste artigo do jornal Público que em boa hora entrevistou António Costa Silva.

Entre outras afirmações diz estar “extremamente preocupado com os sinais que vêm, relativamente ao cluster das energias renováveis”, referindo-se a Portugal.

Refere a situação das centrais nucleares japonesas que, após o terramoto e tsunami de Março de 2011, em que das 54 existentes, mais de 40 estão fora de serviço. Esta  situação tem perturbado o mercado de gás natural liquefeito ao aumentar bruscamente a procura desta fonte de energia.

Na entrevista são focados os desenvolvimentos políticos no Médio Oriente, a Primavera no mundo árabe, a rivalidade ancestral entre Arábia e Irão, entre sunitas e xiitas, e os conflitos na Síria e no Bahrain também como expressão desta rivalidade

Transcrevo ainda mais uma frase:
«
Quem conhece a história da energia sabe perfeitamente que nenhuma se impôs sem um período inicial de tarifas de apoio para que adquira dimensão e depois siga para o mercado. Para mim, é um erro trágico se o país agora destruir o cluster das energias renováveis. Porque as energias renováveis baseiam-se em recursos endógenos que o país tem, mais uma vez é parte desta luta de olhar para os nossos recursos e criar condições para os produzir.
»

A propósito desta frase aponto este post de Maio/2011 de Gary Becker, prémio nobel da Economia de 1992 e professor da Universidade de Chicago, onde ele discute a supressão das isenções fiscais que continuam a existir como suporte da indústria petrolífera norte-americana!

Um outro professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, Eric Posner, que participa no blog acima referido escreveu sobre o mesmo assunto, neste post, o seguinte:

«
The American political system is not that democratic, or at least not that populist. The fact that tax subsidies tend to be targeted on particular activities means that a proposal to eliminate a tax subsidy catalyzes interest-group opposition, often formidable since if the interest group were weak, the tax subsidy would not have been legislated in the first place. Tax subsidies are eliminated from time to time, and it would be interesting to speculate on the conditions that make that possible, but I will not attempt that here.
»

Mesmo agora, em que se discute se o pico de produção petrolífera já passou, sendo portanto esta uma indústria completamente madura, ainda goza de isenções fiscais nos E.U.A!

Regressando à referência no início deste post à indisponibilidade de 40 das 54 centrais nucleares do Japão, 10 meses passados sobre o terramoto e tsunami de Março/2011, duvidei da plausibilidade de um número tão grande de centrais estar indisponível.

Assim ontem à noite andei a fazer umas pesquisas na net e, embora não tenha tido tempo para ler os documentos que aqui refiro, todos do IEEJ (The Institute of Energy Economics, Japan), uma informação portanto credível e que não foi submetida às distorções de jornalistas que muitas vezes não sabem do que estão a falar, constatei no documento “Analysis of Electricity Supply and Demand through FY2012 Regarding Restart of Nuclear Power Plants”de Junho/2011 que nessa altura estavam 35 centrais fora de serviço e que nas Figuras 2-1 e 2-2 da página 5 havia um cenário em que as centrais nucleares, em vez de regressarem ao serviço com o passar do tempo, iam ficando cada vez mais indisponíveis.

Não li o documento todo pelo que fiz apenas a conjectura que à medida que retiram as centrais de serviço para fazer as inspecções vão descobrindo problemas atrás de problemas que os levam a atrasar a reentrada em serviço das centrais em revisão.

No documento de Novembro de 2011 (Japan Energy Brief) confirma-se que a situação da disponibilidade do parque nuclear piorou em relação a Jun/2011 pois apenas 11 centrais estavam então em funcionamento. Dado o texto logo na primeira página que transcrevo:

«
All nuclear power plants to stop by summer 2012

Of 54 nuclear power plants installed in Japan, only 11 are operating as of late November. Without resumption of nuclear plants after regular inspection, there will be a mere 6 reactors operating in January, and most likely will be none in summer 2012. As nuclear power is used to supply a quarter of Japan’s electricity demand, a complete loss of these units will inevitably have a serious impact on electricity supply nationwide. Nevertheless, Junichi Ogasawara, Electricity Group Leader at the Institute of Energy Economics, Japan (IEEJ), advises that the prospect of restarting nuclear plants by next summer is dim.
»

considero confirmado que realmente menos de 14 das 54 centrais nucleares do Japão se encontram operacionais.

Surpreende-me que aqui na Europa, muitas pessoas no sector eléctrico, preocupadas com as crises das dívidas europeias, tenham uma percepção tão distante da grande crise energética por que está a passar o Japão.

Termino o post com imagem dum cartão de Ano Novo enviado por um colega da TEPCO, a companhia proprietária da central de Fukushima que está na iminência de falir. Falou-me das grandes dificuldades do ano de 2011 mas não me tinha apercebido de que estavam tão longe de regressar a uma situação energética parecida à anterior ao terramoto de Março de 2011.

A parte colorida com desenhos é feita com seda pintada, colocada sobre cartão azul


Na parte de trás do postal cortei na foto um bocado do cartão azul


Adenda em 2020-05-30: em "menos de 40 das 54 centrais ... se encontram operacionais" corrigi para "menos de 14..."

2012-01-11

Finalmente os patins a motor!

No álbum "Coke en Stock", começado a publicar em episódios em Outubro de 1956 e em álbum em 1958, álbum esse criticado pela revista "Jeune Afrique" em Janeiro de 1962, por ter os negros a falar em "petit nègre", o que levou o autor Hergé a, por exemplo, substitutir "Missié" na edição de 1958 por "M'sieur" na de 1967, melhorando também a gramática (estes detalhes vêm em "Tintin, Le rêve et la réalité de Michael Farr, éditions moulinsart, 2001), no álbum "Coke en Stock" dizia eu antes de me ter perdido em divagações, o autor do Tintin mostra a componente "visionária" na sua obra com esta magnífica invenção do professor Tournesol, de patins a motor:


Acabo de ver na site da BBC que esta previsão foi finalmente realizada, infelizmente demorou bastante mais tempo do que a viagem até à Lua, uma missão aparentemente mais difícil. Os patins são movidos a electricidade, o que resolve à partida os problemas de poluição que seriam graves em espaços fechados.

Mas o melhor é verem o filme que está aqui.

Para mais invenções do professor Tournesol poderá ver uma lista aqui.

2012-01-09

Martha Nussbaum: você é contra as Nannies?


Neste fim-de-semana visitei uma pessoa de idade que está a perder a memória, precisando de cada vez maior apoio.

Lembrou-me este interessante vídeo que recebi num e-mail, em que a Martha Nussbaum fala sobre as limitações do “Contrato Social” quando o tentamos aplicar a pessoas com limitações físicas ou mentais.

Ela diz que o problema das pessoas dependentes foi por assim dizer varrido para debaixo do tapete, pensando-se que estes seriam casos especiais, constituindo um pequeno problema que poderia ser tratado à parte...

Ela pensa que este não é um problema pequeno, há muita gente com limitações físicas e mentais importantes mas não é só isso, todos nós temos essas limitações na infância e na velhice.

Nenhuma sociedade pode ignorar a existência de membros não totalmente autónomos, eles não são uma excepção, são parte integrante da sociedade.

2012-01-05

Quase-cristais e os mosaicos persas Girih

Nesta altura em que se adensam as nuvens sobre o Irão e vai aumentando a probabilidade de uma intervenção militar americana ou israelita, ao passar pelo site da BBC World deparei com esta notícia que dava conta de terem descoberto quase-cristais numa zona da Rússia, pensando-se que eram materiais vindos do espaço em meteoritos.

Gostei muito da imagem do artigo e fui tentar localizar um sítio onde tivesse uma versão maior da imagem do quase-cristal no Google Images. Acabei por achar esta


num sítio que me parece ser da Indonésia, com uma referência à Eric J. Heller Gallery, em cujo site não consegui entrar, talvez estivesse fora-de-serviço.

Desse sítio guardei ainda estas lindas difracções de quase-cristais decagonais


e outra imagem maravilhosa de mosaicos islâmicos do Irão,


que fora retirada daqui, com a legenda dizendo que se trata dum pórtico do santuário de Darb-i Iman (que já tinha referido neste post) com dois padrões sobrepostos de mosaicos Girih (Archway from the Darb-i Imam shrine with two overlapping girih patterns. (Courtesy: Science)). Este santuário está na cidade de Isfahan mas infelizmente não o visitei quando passei por lá.

Em Abril de 1982 Daniel Shechtman produziu quase-cristais num laboratório em Washington mas foi ridicularizado e incompreendido durante bastante tempo. Em 2011 ganhou o prémio Nobel da Química por essa descoberta. Os cientistas são seres humanos e nem sempre têm a mente tão aberta às novidades como pareceria desejável.

Os arranjos geométricos dos quase-cristais e a forma de preencher o plano com estruturas quase-periódicas tinham sido estudadas pelo matemático e físico inglês Roger Penrose nos anos 70 do século XX, para uma introdução pode ler este artigo da Wikipédia. Confesso que quando tomei conhecimento destas possibilidades de preencher o plano, através dum artigo na revista do Scientific American, pensei em decorar uma das paredes da minha casa com um padrão destes mas nunca cheguei a concretizar.

Quando começou a ser evidente que a matéria se podia organizar em quase-cristais deu-se uma daquelas situações em que um conjunto de técnicas matemáticas que pareciam quase apenas passatempos ociosos encontrou uma aplicação prática ao explicar a estrutura dos quase-cristais

Entretanto agora, ao ver a referência aos mosaicos Girih, constatei que os matemáticos do Irão preencheram o plano com estruturas quase-cristalinas cerca de 500 anos antes de Roger Penrose as ter “redescoberto” no Ocidente. Fui ver também o artigo da Wikipédia sobre mosaicos Girih onde encontrei referência ao tecto do túmulo do poeta Hafez em Shiraz que eu tinha referido num post recente e que volto a mostrar a seguir:

2011-12-31

Alvorada em Isawa na província Kai

É a quarta vez que publico uma estampa de Katsushika Hokusai no último dia do ano. Não é uma tradição muito antiga mas continua a parecer-me boa, existe uma grande quantidade de imagens de grande beleza e tenho assim resolvido o problema da escolha do tema para este dia especial. Já a qualidade do texto que a acompanha poderá sofrer maiores variações.

Para este ano escolhi a imagem representando a "Alvorada em Isawa na provícia Kai"



Nesta alvorada a paisagem está envolta na neblina matinal mas não é de esperar que apareça o D.Sebastião. O mais parecido que talvez se tenha arranjado em Portugal para diversificar no presente a nossa dependência externa são uns Capitalistas de Estado, asiáticos como os japoneses, mas vivendo um pouco mais a Ocidente.

Os viajantes começam as viagens cedo, quer para aproveitar a luz do dia, quer para evitar o calor do Sol a pino, neste caso não se trata de emigração pois vão a pé e a cavalo, a emigração do Japão naquela época sem aviões só se fazia de barco, sendo pouco provável que fosse sugerida pelos governantes.

Desejo aos leitores deste blogue um Bom Ano Novo de 2012.

2011-12-30

Túmulo do poeta Hafez (1315-1390) em Shiraz

De vez em quando somos influenciados pelo conselho de que devemos ler os clássicos e foi assim que encomendei “A riqueza das Nações” na Amazon. Não consegui passar dos 3 ou 4 primeiros capítulos, não só porque contem muitos detalhes datados mas também porque, dado o brilhantismo de muitas das ideias expostas, se fica com a sensação de que já se leu aquelas linhas de raciocínio em muitos sítios.

Quando se encomendam livros na Amazon passamos a receber de vez em quando e-mails dizendo-nos que quem comprou aquele livro que nós comprámos também comprou o outro livro que eles se propõem vender-nos e foi assim que cheguei ao conhecimento da existência da “Teoria dos Sentimentos Morais”, também escrito pelo Adam Smith, que era professor de Moral numa Universidade. Já o comprei mas ainda está na ”lista de espera”, tendo entretanto vindo a aumentar os textos que tenho lido em que se referem a esta obra.

Toda esta conversa para referir que abrindo este último livro ao acaso li que as modas de vestir mudam com muita frequência, ainda mais do que as do mobiliário. Bastante mais tempo duram as obras da arquitectura em pedra mas um poema bem escrito pode durar todo o tempo do mundo.

Surpreendeu-me constatar esta superior permanência de coisas imateriais aparentemente tão frágeis como um poema.

Vem isto a propósito do túmulo do poeta Hafez na cidade de Shiraz, antiga capital do Irão, colocado num recinto muito visitado por turistas, na grande maioria iranianos


e é neste espaço ajardinado que se encontra o túmulo do poeta, protegido por este abrigo sobre colunas


já mostrado no meu penúltimo post onde dou destaque ao maravilhoso tecto que tem uma imagem duma grande qualidade neste sítio da Wikipédia.


A construção actual data dos anos 30 do século passado.


Fiquei surpreendido pelo número de visitantes deste sítio, não conheço um único túmulo em Portugal que seja tão visitado como este, nem o túmulo de Luís de Camões na igreja do mosteiro dos Jerónimos merece tanta atenção, as pessoas deslocam-se mais para ver a igreja, o portal e o claustro do que propriamente o túmulo, que é provavelmente um cenotáfio pois é muito duvidoso que as ossadas sejam do poeta.


Estas visitantes tinham um ar compenetrado (pelo menos duas delas) e na fotografia seguinte podem-se ver algumas  que trazem livros provavelmente com poemas do poeta para os lerem ao pé do seu túmulo! Poemas que foram escritos no século XIV!


Não resisto a reparar na falta de decoro de um dos homens ao pé do túmulo, com os cabelos ao vento e os braços desnudados por uma camisa de manga curta.


Julgo que se mantém no Irão a proibição das iranianas assistirem ao vivo a jogos de futebol, alegadamente para não se perturbarem com a visão dos jogadores com as pernas e os braços à mostra, na televisão de Portugal passou há pouco tempo um filme iraniano em que essa proibição era um dos temas.



Não sendo eu um grande fã de poemas mesmo assim deixo aqui uma ligação para vários poemas deste poeta, e para o seu Ghazal 1 sendo o Ghazal uma forma poética que tendo sido inventada no Irão se espalhou por muitos sítios, até na Alemanha, neste caso divulgada por Goethe.