2009-11-22

Amin Maalouf e os sinos

Mostro outra imagem de Argel, com uma rua tão inclinada como as mais íngremes de Lisboa:

Falando do mundo árabe é para mim natural lembrar-me de Amin Maalouf, escritor libanês que conheci pela primeira vez através do livro “As cruzadas vistas pelos árabes”, um ensaio interessantíssimo, onde se tem acesso à memória histórica vista pelo “outro lado”, neste caso o lado não ocidental.

Já só tenho uma memória vaga do conteúdo do livro que me emprestaram, dele recordo a confirmação do comportamento nada fraterno dos cruzados nas terras do próximo oriente, de alguma surpresa com a quantidade enorme de guerras e desavenças entre os reinos árabes da região, do estado avançado da medicina árabe nessa época em relação às práticas ocidentais e da tomada de consciência que, nesta zona do globo em que as terras cristãs tinham fronteiras com o território muçulmano, um dos pormenores que as distinguiam eram os sinos de um lado e as chamadas dos muezzin para a oração do outro. Na Europa existem discussões actuais sobre este tema.


É interessante esta apropriação pelas religiões da marcação do tempo, na versão cristã mais discreta na expressão ao se limitar apenas ao toque dos sinos mas marcando a sua presença em todas as horas, enquanto na versão islâmica as chamadas de atenção são mais espaçadas no tempo mas a mensagem faz-se através da voz humana invocando o nome de Alá e não se trata de um mero toque mas de 5 chamadas por dia para a oração.

Escapa-me a necessidade de dois minaretes e/ou de duas torres de sinos, como é tão habitual em Portugal e, como constatei, na Argélia. Parece que uma torre seria suficiente. É provável que seja por uma questão de simetria, pois se a torre fosse única e ficasse no eixo do edifício colocaria restrições na entrada principal, mas parece desnecessário para a função ter duas torres.

Em Portugal passou-se por uma fase terrível, talvez nos anos 70 do século XX, em que apareceram uns aparelhos electrónicos que faziam uma cacofonia infernal nas aldeias e vilas, infernizando a vida nalgumas casas onde se deixou de poder dormir, tendo ocorrido grandes desavenças e conflitos entre o chamado “bem comum de fazer muito barulho” e o direito ao descanso dos residentes próximos das igrejas. Não sei se isso já acabou, deixei de ouvir queixas, talvez estejamos protegidos pelas leis contra o ruído. Gosto de me deitar tarde e em Arroios lembro-me de há muitos anos, quando estudava no silêncio da noite, ouvir tocar os sinos da igreja nas horas certas. Agora aqui nos Olivais não ouço sino nenhum.


Fiquei com a ideia que um amigo muçulmano me disse que lá também tinham tido um problema parecido, quando a voz potente do muezzin tinha sido substituída por gravações amplificadas a níveis insuportáveis.

Não sei se foi o caso desta outra mesquita de Argel que teria ficado bem não fora aquela varanda que lhe cortou, sem eu reparar na altura, a vista de um bocado do minarete da esquerda.

Em ambos os casos concluo que as torres se destinam a muezzins e não a sinos pelas varandas que as envolvem, característica que seria apenas decorativa numa torre de sinos, embora nalguns casos existam como miradouro.

Voltando ao tema das duas torres parece que os arquitectos se influenciam mutuamente na forma de fazer templos, independentemente da religião a que se destinam. Se predomina um formato numa dada zona é provável que esse formato seja continuado, com as adaptações indispensáveis, mesmo quando as religiões são diferentes. Foi o que observei na Turquia, com a semelhança entre o plano da igreja da Hagia Sofia e das mesquitas otomanas. Noutros casos notam-se semelhanças entre zonas relativamente próximas como observo aqui, entre estas mesquitas e as igrejas, por exemplo, do Sul da Europa.

Em Julho de 2009 Amin Maalouf esteve em Portugal numa conferência a propósito doutro livro seu, “O mundo sem regras”, que decorreu na Gulbenkian, com um pequeno vídeo aqui. Neste livro, também muito interessante, retive as esperanças que o mundo árabe depositou em Nasser e que tão frustadas saíram, bem como sugestões sensatas para o mundo cada vez mais globalizado em que vivemos.

Uma das formas de evitar as duas torres é fazer uma torre separada como acontece em várias igrejas italianas, por exemplo na catedral de Florença e na basílica de S.Marcos em Veneza.

Num exemplo mais terra a terra temos este campanário no bairro da Portela, uma igreja moderna com uma arquitectura algo confusa (mas muito mais discreta do que a fantasia que ameaça instalar-se no Restelo) com o plano principal em cruz grega, edifícios paroquiais e um campanário separado.



A maior “transparência” dos edifícios (e a presença do betão armado...) permite que se tenha um acesso visual ao carrilhão de sinos, como é patente nesta imagem onde se constata que além do badalo (a lingueta interna) existe no mesmo sino também um martelo exterior. Todo o conjunto tem aspecto de ser accionado por mecanismos controlados electricamente à distância.


2009-11-15

Argel

A imagem do casamento no Cairo fez-me recordar uma viagem a Argel em 2006, em que o número de antenas parabólicas neste prédio me pareceu como um indício de abertura ao exterior. Também alguma incapacidade de chegar a consensos na instalação de equipamentos colectivos...


A cidade não tem grandes atracções turísticas mas gostei dos prédios brancos com janelas azul turquesa e varandas de ferro forjado, a precisar de alguma conservação.


Ficaram poucas mulheres nesta foto, na rua havia muito mais homens que mulheres.


Na altura o fim-de-semana era à quinta e sexta-feira, sendo este último o dia da oração principal do Islão. Nos outros países do norte de África as fábricas e escritórios fecham ao sábado e domingo, o mesmo acontecendo na Argélia após a independência. Há uns 15 anos, numa aparente cedência aos movimentos islâmicos mudaram para a 5ª e 6ªfeira, o que dificultava os contactos entre firmas argelinas e estrangeiras.

Desde Julho de 2009 que passaram a descansar às sextas e sábados, passando assim a ter 4 dias úteis em comum com a maior parte do mundo. É uma reaproximação que penso ter passado despercebida para muita gente.

2009-11-09

Do casamento

Este blogue não tem manifestado de forma explícita as opiniões do seu autor sobre temas da actualidade mas não há regra sem excepção e este post é disso um exemplo.

Tenho seguido com algum interesse a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tema abordado de vez em quando em vários dos blogues referidos na lista de ligações.

Por muito que tente não consigo deixar de me surpreender com os excessos dos argumentos usados nas discussões em Portugal, nomeadamente à volta deste tema.

Dada a evolução que se tem observado nas últimas décadas, quer no conhecimento quer na forma como é encarada no Ocidente a homosexualidade, parece-me chegado o tempo de possibilitar, a pessoas do mesmo sexo que pretendam levar uma vida em comum, o acesso a um conjunto de efeitos jurídicos mais completo do que a actual união de facto e que seja praticamente idêntico ao actual casamento civil.

O casamento civil, na sua forma tradicional no Ocidente e em Portugal, com cerca de 150 anos, sempre esteve associado à geração e criação de filhos. O estabelecimento de um relacionamento estável entre os noivos tinha como um dos objectivos principais criar as condições para que o esforço prolongado de formação e educação das crianças se fizesse no seio de uma relação afectiva estável. O casamento civil em Portugal foi criado não para negar o aspecto muito importante da procriação neste instituto, mas para retirar à igreja católica a exclusividade da celebração deste tipo de união.

Claro que nem todos os casais eram férteis mas negar a importância dos filhos no casamento é semelhante a dizer que o cinto de segurança não tem qualquer relevância para a integridade física de quem o usa porque em x por cento dos acidentes não melhora a condição de quem o colocou.

A extensão pura e simples do casamento na sua forma actual a pares de pessoas do mesmo sexo afecta assim de forma muito importante os casamentos existentes, ao negar qualquer relevância à componente de geração de filhos desses casamentos.

Tenho dúvidas também em relação à adopção de crianças por pares de pessoas do mesmo sexo e considero prudente não adoptar desde já essa possibilidade.

Um aspecto que me surpreendeu quando da discussão da despenalização do aborto foi existirem pessoas que falavam como se fôssemos o primeiro país a aprovar leis deste tipo.
Nas discussões agora sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo ouve-se argumentar que qualquer cidadão com um mínimo de decência não pode senão apoiar a extensão pura e simples do casamento actual a pares de pessoas do mesmo sexo.

Existem democracias respeitáveis, como por exemplo a francesa, a inglesa e a alemã, em que os legisladores consideraram melhor criar um estatuto muito semelhante ao do casamento actual mas com algumas diferenças, designadamente sobre a possibilidade de adopção e consequentemente com um nome diferente. É esse o caminho que me parece que deveria ser agora seguido em Portugal.

Como ainda não fotografei uniões de pessoas do mesmo sexo, deixo aqui duas imagens de casamentos mais tradicionais, uma tirada na praia de Positano, no verão de 2004, num ambiente algo confuso em que os noivos passam quase despercebidos no meio da multidão



e outra que tirei a um casamento no Cairo, em Abril de 2006.



É curioso como a noiva italiana tem véu e um decote mais reduzido do que a egípcia (que além disso não tem véu), sendo também interessante o contraste dos trajes dos noivos com os das pessoas que os rodeiam.

2009-11-06

As regras da deusa Maat

A Helena descobriu as regras da deusa Maat, que lhe foram reveladas pelo Pepiseneb, sobre as pinturas egípcias que eu mostrara (entre outros posts) aqui.

Mostro agora a própria deusa Maat, referida pela wikipédia aqui, numa foto de Sandro Vannini que fui buscar aqui. É mais caracterizada pela peninha na cabeça do que pelas asas, que aparecem também noutras deusas.


2009-11-02

Montreal


As plumas iluminadas do jardim botânico de Montreal levaram-me a rever algumas imagens que guardei desta cidade, quando a visitei em Setembro de 2003. Esta mostra uma zona central de escritórios. Constato com alguma surpresa que, mesmo neste tempo de globalização, ainda não foi possível normalizar completamente os sinais de trânsito, aquele sinal com uma orla verde a envolver as setas pretas teria um fundo azul e setas brancas na Europa.

Da janela do hotel via-se ao longe um conjunto de casas estranho, constituído por vários paralelepípedos deixando espaços entre si.



Com a ajuda do Google Images, usando as palavras “Montreal” e “architecture” foi fácil identificar esta construção como o conjunto Habitat, do arquitecto Moshe Safdie, construído para a Expo Universal de 1967, que foi um enorme sucesso, designadamente no número de visitantes que conseguiu atrair. Foi um evento com alguns percalços, foi durante ele que rebentou a guerra dos 6 dias, e foi durante a visita do general De Gaulle à exposição que ele exclamou “Vive le Québec libre!”, suportando em território canadiano o movimento separatista do Québec. Portugal não se fez representar nesta Expo, a existência da guerra colonial em África deve ter contribuído para essa ausência.

Noutra ocasião tirei esta foto ao mesmo conjunto, erguido nas margens do rio de São Lourenço, que escoa as águas do lago Ontário para o oceano Atlântico.




Tenho algumas reticências em relação a formas muito inovadoras na arquitectura para habitação, pois a experiência tem-me mostrado que existem muitos arquitectos que sacrificam o conforto e/ou a economia da construção e manutenção do edifício à originalidade da forma. Neste caso vejo uma dificuldade acrescida no isolamento térmico pois o conjunto apresenta uma maior superfície de contacto com o exterior do que numa forma mais compacta, o que será uma desvantagem apreciável num sítio com invernos tão rigorosos. Mas o conjunto é visualmente muito animado e inquestionavelmente original.

Na proximidade do jardim botânico está o estádio olímpico, construído em 1976, com o que era a maior torre inclinada do mundo. Os cabos de aço servem para içar a lona de grandes dimensões que faz a cobertura do estádio.





Ainda da janela do hotel vi, um pouco mais para a esquerda uma esfera transparente, que nesta imagem ficou no canto inferior esquerdo



Outra vez nas margens do rio S.Lourenço, no mesmo sítio em que fotografei o conjunto Habitat, fixei também esta imagem da Biosfera, a cúpula geodésica que constituiu o pavilhão dos Estados Unidos da América na Expo67, que tinha posteriormente sido abandonada mas recuperada há relativamente pouco tempo.



A construção de cúpulas geodésicas foi defendida de forma entusiástica por Buckminster Fuller que achava, com uma certa razão, que deveríamos ter acesso a habitações de construção mais económica. Infelizmente as cúpulas geodésicas apresentam habitualmente problemas de infiltração de água muito difíceis de resolver pelo que, sendo construções de grande beleza, não têm tido a aplicação generalizada que em tempos se pensou que lhes estava reservada.

E termino este post mostrando uma molécula C60, descoberta pela primeira vez em 1985, composta por 60 átomos de Carbono, a que foi dado o nome de “Buckminsterfullerene”, por vezes chamada de “Bucky ball”, numa foto que tirei com o meu telemóvel à entrada do Pavilhão do Conhecimento no Parque das Nações (antiga Expo 98) em Lisboa.


2009-10-29

Plantas iluminadas

Na Inglaterra o céu não está sempre cinzento, um optimista diria que o tempo é mais instável que sempre mau, mas para mostrar umas plumas iluminadas tive que saltar para o jardim botânico de Montreal, onde além destas ervas, que me fizeram lembrar fogo de artifício preso, para comemorar eventos




estavam ainda estas plumas, também a brilhar sob a luz do sol


2009-10-28

Plumas

Não sei se serão todas mas existem muitas plantas cujas plumas se renovam no Outono. Era o caso destas, ainda nos Kew Gardens.






2009-10-24

Kew Gardens no Outono, à volta do lago

Muitas vezes as minhas imagens não têm pessoas. Não sei se entretanto me reconciliei com a figura humana ou se é por um jardim ser uma paisagem ultra-humanizada, as figuras humanas ficam lá muito bem.

Seguem-se três fotos na margem de um lago dos Kew Gardens que ajudam a perceber porque é que a Grã-Bretanha, cujos habitantes fogem com frequência para os 4 cantos do mundo queixando-se amargamente do clima, ainda não é uma ilha deserta.










Tectos de beirais de telhados chineses - 2


Ontem andei a rever as fotografias que tirei nos Kew Gardens em Nov/2007 e hesitei entre publicar mais algumas fotos de lá ou concluir as imagens de beirais de telhados chineses. Acabei por optar pela conclusão dos beirais.

Aqui ao lado temos um canto do telhado da Cidade Proibida. O amarelo era a cor imperial e por isso só os edifícios imperiais podiam ter telhas dessa cor, como é o caso deste telhado.

Parece que também só nesses edifícios se podiam usar as figurinhas que se vêm na foto. Quando acabou o império foi possível estender o uso destas figurinhas a edifícios mais plebeus mas não consegui apurar se teriam alguma função além de decorativa.

A imagem seguinte mostra um duplo tecto de um dos pavilhões da Cidade Proibida. Foi em Agosto, estava um calor tremendo e uma neblina que afectava a nitidez do telhado mais alto!



Para finalizar "cropei" dois dragões de uma decoração numa trave. Daria um bom marcador de livros.


2009-10-22

Outono: Gingko Biloba

Nos últimos dias em Lisboa o Outono deu uma ar de sua graça. Antes que chegue o verão de S.Martinho coloco aqui duas fotos tiradas a árvores Gingko Biloba nos belíssimos Kew Gardens, em Londres, de onde já mostrara fotos aqui e aqui.






Tectos de beirais de telhados chineses





Depois do realismo socialista voltamos à arte imperial chinesa, na decoração de fachadas e sobretudo dos tectos de beirais de telhados de edifícios notáveis da China.


Mais uma vez estou a partilhar com os meus leitores a minha ignorância sobre um tema bastante especializado, ainda por cima localizado numa terra longínqua, mas tirei umas fotos que me pareceram interessantes e uma vez que isto é um blogue, sinto uma responsabilidade editorial aligeirada.


Surpreendeu-me a clara preferência, nos palácios, templos e edifícios a eles subordinados, por construções com estrutura e paredes exteriores de madeira, com a quase ausência da utilização da pedra para esses fins.


Nos edifícios importantes era frequente um telhado duplo, coberto por telhas cilíndricas de cerâmica vidrada. Muitas vezes o exterior era lacado com um tom castanho avermelhado como se vê na figura à direita, num edifício que enquadrava o pátio quadrado onde se situava o Templo do Céu.


As decorações das traves de suporte do telhado tinham a exuberância patente na imagem.






Na imagem seguinte mostro outro tipo de decoração de beirais, que neste caso se prolongava no tecto do edifício, enquadrando também o Templo do Céu.



Para finalizar mostro os beirais do próprio Templo do Céu, já referido num post mais atrás :

2009-10-19

Mao-Tse-Tung, 70%-30%


Antes de entrarmos na Cidade Proibida e talvez como explicação para a presença da grande fotografia de Mao-Tse-Tung, sobre a porta que dá acesso da praça Tian-an-men ao antigo palácio dos imperadores das dinastias Ming e Qing, o guia chinês em Pequim da nossa excursão informou-nos que a posição (mais-ou-menos oficial) actual dos líderes chineses sobre essa figura histórica é que acertou em 70% do que fez e errou em 30%.

O próprio guia, com quem simpatizei quando disse que tinha trabalhado dois anos na agência Nova China mas que tinha mudado de emprego para guia turístico porque não gostava de ter de mentir, subscrevia esta avaliação 70-30.



Desde o abismo da guerra do ópio em 1840, a China passou por muitos mau bocados, conforme tentei resumir aqui e aqui, mas o que se passou até 1949, data da proclamação da República Popular da China, deve ter sido tão terrível, que boa parte da população chinesa ainda nutre admiração por Mao.

A foto sobre a porta acaba por ser o menos, quando comparada com o espaço ocupado pelo enorme mausoléu de Mao, também na praça Tian-an-men. Ao pé do mausoléu estava esta estátua do que se chamava “Realismo Socialista”, uma espécie de “doutrina” aplicada à arte, que surgiu como reacção (que se poderia dizer “reaccionária”) a movimentos artísticos modernos quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia.

A profusão de câmaras de video no poste do lado esquerdo faz inevitavelmente pensar no 1984 do George Orwell mas será por má vontade, pois existem cada vez mais câmaras de video instaladas em espaços públicos ocidentais.


Entretanto pareceu-me curioso adjectivarem com “Realismo” um movimento que faz representações tão idealizadas e românticas dos proletários, camponeses, soldados e a umas poucas camaradas do sexo feminino.


De facto constata-se que as duas ou três figuras femininas estão longe de preencher as quotas que seriam impostas nos tempos que correm, como representação mínima aceitável da contribuição que cerca de metade da população chinesa deu para a revolução. A forte compleição dos revolucionários também faz duvidar de tanta privação e exploração de que teriam supostamente sido vítimas.

Mesmo assim não resisto a apresentar ainda uma terceira vista da mesma estátua, sendo aqui mais visível o medalhão de Mao-Tse-Tung e um grande dinamismo e movimento nas figuras representadas que parecem mais activas do que as do Padrão dos Descobrimentos em Belém


e fazem-me lembrar também os cartazes do MRPP que enchiam as paredes de Lisboa nos tempos do PREC.

Não havia vento e o céu estava de chumbo já não se podendo dizer que “o horizonte é vermelho e o vento é de Leste”!

2009-10-14

Junto ao chão

Esta vista dum tabuleiro central de uma rua de Pequim lembrou-me a avenida principal de Olhão há várias dezenas de anos, por ser um sítio de algum convívio de pessoas, embora aqui estejam várias a dormir. A foto foi tirada por volta das duas da tarde pelo que se trataria de uma sesta. Na altura não reparei que alguns dos dorminhocos tinham tido o cuidado de tirar os sapatos.



Não sei se as avenidas novas em Lisboa tiveram as placas centrais alguma vez assim, quando não existiam tantos carros na cidade tenho uma vaga memória de terra batida. Talvez ao fim da tarde as pessoas usem mais este passeio, cuja limpeza é patente.

Julgo que foi no fim deste passeio que estava este homem da foto a seguir, que hesitei em enquadrar doutra forma



Não sei se existe alguma variação morfológica que torne mais confortável esta posição para os asiáticos. Em Portugal “estar de cócoras“ tem uma conotação normalmente negativa mas na Ásia vê-se muitas vezes as pessoas a conversar nesta posição, com um ar tranquilo de quem pode ficar assim sem problema durante horas a fio.

Não só ficam a descansar assim como também trabalham muitas vezes nesta posição. Por exemplo este trabalhadores de telecomunicações que estão a fazer a fusão de fibras ópticas em cima daquela caixa preta que parece uma bateria, num passeio da praça Tian-an-men, mais uma vez impecavelmente limpo.



Quando fizeram este trabalho, no passeio à frente da minha casa nos Olivais, as pessoas da PT tinham uma mesinha de trabalho e cadeiras desmontáveis para evitar trabalhar em cima do chão. A internet em todo o sítio implica também a extensão a todo o mundo das tecnologias de telecomunicações.

Na Índia, além do chão ser frequentemente o plano de trabalho, quer ao ar livre quer em oficinas, também se trabalha sentado na posição de lótus. Em 1993, enquanto as encomendas postais em Portugal tinham que ser embrulhadas em papel pardo, atadas com fio de sisal e eventualmente talvez lacradas, na Índia tinham que ser envoltas num tecido que tinha que ser cosido com linha, à mão.



Na Connaught Place, em Nova Deli este senhor que prestava esse serviço estava precisamente a preparar uma pequena encomenda para eu depois a poder enviar pelo correio para Bombaim. Foi o primeiro trabalho do dia pelo que além de observarmos o desenrolar do trabalho, nesta admiração tão típica dos Portugueses, tivemos ainda a oportunidade de o vermos acender uma velinha a um deus hindu, num mini-altar integrado no local de trabalho, e fazer uma breve oração.

2009-10-10

Ciprestes antigos




Achei o ambiente dentro da Cidade Proibida um bocado claustrofóbico. Havia pátios a que se seguiam outros pátios seguidos por mais pátios, ligados por corredores labirínticos onde era impossível ter uma ideia do conjunto.

Disse-me uma vez um chinês que vivia em Macau, que não existia na China nada de equivalente à nossa “obsessão” com o mar e com a vista (desafogada) para o mar. Para os chineses a terra era mais importante.

Os pavilhões que umas vezes limitavam os pátios, outras vezes pareciam servir para dar acesso a outros pátios, tinham uma construção rectangular uniforme, distinguindo-se mais pela decoração, quer exterior quer interior, embora esta nem sempre estivesse acessível às enormes multidões de turistas, quase exclusivamente chineses.

A certa altura encontrámos um pequeno jardim, com umas pedras de formas caprichosas, muito apreciadas pelos chineses mas que não me apetece mostrar e umas árvores com uns troncos cheios de nós e de texturas sinuosas que achei notáveis.

Teriam trezentos ou quatrocentos anos e mostraram-me que afinal algumas das pinturas chinesas de árvores eram realistas e não fantasiosas como eu pensava.

Tenho estado aqui a escrever porque o enquadramento da imagem à esquerda ficou muito delgado e era preciso preencher este espaço do lado direito com texto.

Na foto seguinte cortei no enquadramento a multidão de visitantes, deixando assim contemplar as árvores num ambiente tranquilo semelhante ao que existiria aqui quando a Cidade era Proibida e não andavam por este jardim muitos cortesãos.


2009-10-08

Flor chinesa? Origem tropical, Amaranthaceae

Nos produtos industriais, nas marcas, nos produtos agrícolas existe uma cada vez maior globalização, o que faz com que quando se viaja não se encontre tantas novidades como antigamente.

Como grande compensação em cada país existe agora uma muito maior variedade.

No fim desta viagem à China constatei que tinha poucas imagens dos jardins chineses, terei que lá voltar...

Entretanto deixo aqui um tapete florido



com um detalhe da planta que me chamou a atenção, com umas flores que pareciam constituídas por bainhas serpenteantes



da qual não sei o nome nem me lembro de a ter visto na Europa. Será nativa da China?



Mesmo estando tudo mais parecido ainda se encontram algumas diferenças.

E quando se sai da Europa usa-se mais vezes frases contendo "... na Europa...", enquanto quando se está dentro da Europa parece que só existem os países que a constituem.

Adenda: depois do comentário da Lídia Batista informando que se tratava de uma planta da família Amaranthaceae, foi fácil identificá-la como sendo uma Celosia cristata, sendo os nomes mais comuns em Português: Crista-de-Galo, Amaranto, Celósia, Suspiro. Sobre a origem geográfica existe algum consenso na net que teve uma origem tropical, mas há quem fale na Ásia, outros na África e também na América.

2009-10-06

Ideogramas chineses – 2, ou a Paz: 安

Neste post falei da dúzia e meia de ideogramas chineses que vim a conhecer há quase 20 anos.

Entretanto, usando as ferramentas de tradução do Google, passei a conseguir incorporar ideogramas nos textos que escrevo, quer no blogspot, quer no Microsoft Word (e em todo o MS Office) quer mesmo no Notepad (citei duas aplicações da Microsoft por serem comuns, muitos outros fornecedores terão as mesmas posibilidades).

Por exemplo, se nas ferramentas de tradução do Google colocar “masculino” ou “macho” e solicitar tradução do Português para Chinês, aparecerá 男性. Se usar o inglês “male” ou “masculine” ficará melhor servido porque são apresentados 10 ideogramas como substantivos e 7 como adjectivos. Indo verificar o significado de 性 constata-se que pode ser associado ao sufixo inglês “-ness”, os dois ideogramas 男性 seriam assim maleness (ou masculinidade). De qualquer forma o símbolo 男 pode agora ser facilmente inserido num texto, usando um “copy / paste” (ou um “copiar / colar” para quem opta pela língua portuguesa para o PC).

Esta facilidade é relativamente recente para os ocidentais. Os chineses têm teclados especiais que lhes permitem compor directamente os ideogramas carregando em séries de teclas convenientemente estruturadas.

Voltando aos 4 símbolos que me pareceram potencialmente mais úteis, 出 (saída), 入(entrada), 男 (masculino) e 女 (feminino) notei, num carro que parecia ser da Polícia, o símbolo visível neste outro carro da polícia (google images: chinese police car) que fui buscar à internet.

Achei estranho que aparecesse uma referência ao género, ainda por cima feminino. Que me desculpem as pessoas mais sensíveis a estes preconceitos mas o ideograma para Polícia deve ter muitas décadas ou mesmo séculos, altura em que as forças policiais seriam provavelmente exclusivamente masculinas.

Perguntei então ao guia da excursão porque aparecia o símbolo representando o feminino, se bem que coberto por um traço horizontal, num carro da polícia e ele explicou-me que eu tinha visto o ideograma 安 (an) que significa paz e/ou segurança, uma mulher debaixo de telha está em segurança.

Fiquei depois na dúvida se a representação da mulher em casa representa paz para quem sai de casa, se a paz existe dentro da casa onde está uma mulher, ou outras possibilidades mais ou menos politicamente correctas.

O carácter 公 que aparece à esquerda de 安 significa “Público”, pelo que estes dois caracteres significam “Segurança Pública”. No Google, ao traduzir “Police”, também aparece “治安”, em que o ideograma da esquerda significa “governance”, esta combinação seria assim “Administração da Segurança” ou, literalmente e de forma mais engraçada, “Gestão da Paz”.

Depois disto vi o ideograma “安” em muitos sítios, por exemplo na praça Tian-an-men (porta da paz celestial) ou Xi’an (paz do Oeste, cidade onde encontraram os mihares de guerreiros de terracota).

Em todas as línguas os significados das palavras vão mudando ao longo do tempo e a respectiva etimologia mostra por vezes alguns preconceitos, mas pareceu-me que esta forma de construir ideogramas torna mais fácil que alguns preconceitos perdurem durante mais tempo.

O carro na foto aparece numa notícia da compra da marca americana “Hummer” pelos chineses. Às vezes penso que os americanos têm muito jeito para o negócio: a certa altura os japoneses compraram muitos edifícios americanos emblemáticos, causando grande preocupação na América. Passado não muito tempo houve um crash no mercado imobiliário americano e a economia japonesa ficou fraca, tendo muitos desses edifícios sido revendidos pelos japoneses a preços muito inferiores aos de compra. Estes Hummer gastam gasolina que se fartam e talvez não sejam o veículo ideal para o próximo futuro.

2009-10-04

Ceci n’est pas un Magritte

Um dos fascínios da obra de Magritte está na abordagem da interacção entre o objecto e a sua representação.

Talvez o caso mais famoso deste aspecto seja o do quadro “La trahison des images” de 1928, mostrando um cachimbo e uma legenda dizendo “Isto não é um cachimbo”.

Por vezes na Matemática instala-se uma certa tensão entre a representação dum conceito e o próprio conceito e suponho ser essa uma das razões para Douglas Hofstadter mostrar várias obras de Magritte no “Gödel, Escher, Bach, an eternal Golden Braid”, como referi aqui.

No comentário político, como no blogue “o cachimbo de magritte”, esta imagem ilustrará que a “...realidade nem sempre é o que parece...”

Neste contexto, a frase ”Ceci n’est pas un texte”, que julgo não ter sido usada por Magritte, é vagamente engraçada por ser absurda e auto-referente, mas não encerra nenhuma ambiguidade.


Já as t-shirts da imagem aqui ao lado, fotografadas no museu Magritte em Bruxelas (mas que já vi noutros sítios), parecem-me captar a essência da ambiguidade.

Num sentido estrito a frase escrita na T-shirt é verdadeira, porque Magritte não projectou nenhuma T-shirt com uma frase dizendo “Ceci n’est pas un Magritte”.

Mas, por outro lado, foi o próprio Magritte que indirectamente, através do quadro do cachimbo legendado, levou à existência desta T-shirt pelo que se poderá dizer que a T-shirt é um Magritte.

Ficamos assim na dúvida se a frase será falsa ou se será verdadeira.

2009-09-30

A Clarividência - 2

O Luís M. Jorge de “A Vida Breve”, que tem analisado bem a nossa realidade política, tem andado bastante satisfeito com a sua capacidade de previsão dos resultados das Eleições Legislativas de Setembro/2009.

Para ilustrar essa clarividência, cujo original já tinha mostrado aqui, fiz umas alterações bastante toscas a esse quadro famoso de Magritte, que mostro a seguir: