2026-10-15

Tensegridade, uma Exposição na FCT da Universidade Nova


Uma figura geométrica que sempre me fascinou foi o Hiperbolóide de Revolução de cuja entrada da Wikipédia fui buscar algumas das imagens que seguem

 

Se o hiperbolóide fosse uma peça de roupa diriam que era um cilindro na versão “Slim Fit”, mas o que sempre me espantou foi a possibilidade da superfície ser gerada pela rotação de uma recta à volta de um eixo como se ilustra na animação seguinte

Esta forma  não se encontra com facilidade na “Natureza” no seu sentido frequente e mais  tradicional que exclui as obras humanas, embora inclua, por exemplo, os favos de mel das colmeias. Num sentido mais lato de Natureza, incluindo as obras humanas, o hiperbolóide vê-se com frequência nas torres de arrefecimento das centrais térmicas de produção de electricidade, como por exemplo nestas duas da Central do Pego, em imagem que tirei daqui.

Uma forma muito elegante de construir uma estrutura com um pequeno número de rectas sobre uma superfície invisível dum hiperbolóide foi obtida desta forma, com 12 barras de madeira, mantidas na sua posição por um conjunto de elásticos apoiados nas pontas das barras

 



Uma forma mais simples com apenas 5 barras

 

mostra que além das 5 barras foram necessários 15 elásticos para manter estável esta última estrutura. 

Estas estruturas gozam da propriedade estrutural “Tensegridade” (Tensegrity), um termo inventado por Buckminster Fuller combinando tensão contínua e compressão descontínua.

Se pensa que estas estruturas com tensegridade são exóticas poderá reconsiderar esse pensamento dado que todos os animais vertebrados da Terra têm estruturas combinando ossos, tendões e músculos com tensegridade.

Na Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa decorre uma exposição sobre a Tensegridade de 10/Setembro a 29/Outubro/2026

 

 
com este anúncio e uma ligação .


2026-10-14

Nobel da Paz de 2026: Navanetham Pillay

 

O Comité Nobel Norueguês anunciou em 9/Out a atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2026 a Navanetham “Navi” Pillay, nascida em 1941, pelos seus esforços na promoção da paz e da lei internacional.

O prémio foi-lhe comunicado quando estava no tribunal de Nuremberga, local apropriado para receber esta notícia dado que foram os julgamentos de nazis neste tribunal que estabeleceram as bases da lei internacional. A foto tirada nesse momento é de Daniel Karmann

  


Trata-se duma jurista sul-africana de ascendência Tamil da Índia, advogada defensora dos opositores ao apartheid, juíza do Supremo Tribunal Sul-africano, Alta Comissária para os direitos humanos da ONU (2008-2014), que trabalhou no
 1) TPI - Tribunal Penal Internacional, em português (ICC – International Criminal Court, em inglês) de 2003-2008 
e no
 2) TIJ - Tribunal Internacional de Justiça, em português (ICJ - International Court of Justice, em inglês) tendo presidido ao Tribunal Internacional para o Ruanda entre 1999 e 2003.

Presidiu também à Comissão da ONU de Inquérito Internacional ao Território Palestino Ocupado por Israel. Em Jul/2025 a Comissão afirmou que tinham sido cometidos crimes de guerra pelo Hamas e por Israel na sequência dos ataques de 7/Out/2023 e em Set/2025 esta Comissão determinou que Israel tinha cometido genocídio na guerra de Gaza.

A notícia da CNN de onde retirei a  foto acima informa que os EUA, na própria tarde do anúncio deste Prémio Nobel da Paz, aplicaram mais sanções ao TPI no qual a premiada tem trabalhado.

A mesma notícia da CNN informa que os ministros dos Negócios Estrangeiros do Canadá, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Japão, Países Baixos e Reino Unido reafirmaram o seu continuado e firme suporte ao tribunal. Como apoiantes do TPI lamentam e discordam fortemente das sanções impostas ao tribunal pelos EUA.

Chocaram-me as declarações em Portugal de Marco Rubio que esperava que os aliados dos EUA se solidarizassem com eles na aplicação destas sanções, dado que os EUA os protegem militarmente. A crer em J.D.Vance, não se percebe bem de que ameaça pois segundo ele a Europa não precisa de se preocupar com a Rússia e a Europa tem boas relações com a China que está geograficamente bastante distante da Europa.

Israel naturalmente protestou contra a atribuição deste prémio Nobel, dado que Nina Pillay os acusou de genocídio e de cometerem crimes de guerra.

Em Maio/2025 já me parecia que existia um Genocídio em curso em Gaza. Na época falava-se em 52000 mortes. Desde essa altura a estimativa aumentou para mais de 70000.
 

2026-10-06

As Causas do Atraso Português

Acabo de ler o livro com o título em epígrafe de Nuno Palma, economista e professor catedrático na Universidade de Manchester tendo coordenado investigação na “Comparação  do Desenvolvimento” de diversos países.

A 1ª edição foi em Nov/2023 e esta 4ª edição (revista e actualizada) foi impressa em Jan/2024.

O título é sugestivo e o autor escreve de uma forma fluida, com uma argumentação convincente durante 296 páginas, com abundantes Notas, que seriam de rodapé, ocupando 57 páginas e ainda uma rica Bibliografia ocupando 36 páginas (357-392), mostrando tratar-se da obra de um académico.

Quando se quer fazer comparações do desenvolvimento duma sociedade é natural comparar sociedades numa mesma época mas acaba por ser inevitável comparar uma dada sociedade na época actual, com a mesma sociedade numa época passada, para ver a velocidade com que essa sociedade evoluiu. Uma pessoa interessada nestas comparações acaba por ter uma matriz com as situações de várias sociedades em várias épocas.

Calcular indicadores económicos relevantes é uma tarefa difícil. É melhor que não ter indicadores do que se passou e se passa mas há certamente bastante imprecisão nos valores a que se chega,

Segundo o autor Portugal não esteve atrasado em relação a outros países da Europa desde a sua criação até ao século 18 e a mítica riqueza do Oriente foi mais apropriada pela Coroa do que pelo resto da sociedade, considera que a religião católica não foi factor de pobreza e que a Inquisição não foi tão diferente de outras instituições repressivas de países protestantes como nos quiseram fazer crer.

Existe actualmente uma tendência para identificar o Marquês de Pombal como estando na origem do nosso atraso devido à expulsão dos Jesuítas em 1759 que privou 20000 alunos do ensino secundário de qualquer escolaridade. Referi essa tendência no post “Matemática  em Portugal” em que refiro livro de Jorge Buescu com esse título. Nesse livro é citado o historiador Henrique Leitão (“As correntes historiográficas dominantes durante o século XIX e quase todo o século XX olharam para estes acontecimentos de forma pouco crítica, tomando como base das suas análises os textos da própria propaganda pombalina...”) historiador também citado neste livro de Nuno Palma. Contudo Jorge Buescu refere que o nosso atraso no uso da numeração árabe em Portugal, em comparação com outros países europeus, vinha de mais longe.

Antes do Marquês de Pombal, na entrada do século 17 para o 18  foram descobertas grandes quantidades de ouro no Brasil, a chamada maldição dos recursos, que dificulta a produção local que passa a ser substituída por importações de outros países, enfraquecendo também a pressão dos governados sobre o monarca.

Do século 19 confirmei a ideia que tinha das dificuldades das invasões napoleónicas, das guerras entre liberais e absolutistas, das sucessivas crises políticas e das finanças públicas que culminaram da instauração da República em 1910.

O livro é também muito crítico da governação da Primeira República de 1910 a 1926 em que a estabilidade apenas se verificava na constância da instabilidade governativa e na aprovação de leis, nomeadamente do ensino público, que depois não eram aplicadas. 

O livro dedica 39 páginas (211-249) ao período do Estado Novo e 38 páginas (250-287) à Época Contemporânea. Manifestando discordância em relação à ausência de eleições livres, à censura, à falta de liberdade, chama a atenção que o regime foi incomparávelmente mais brando do que quer o nazismo alemão quer o fascismo italiano. Destaca também anos de grande crescimento económico e uma diminuição apreciável do analfabetismo. 

Eu diria que as finanças públicas no regime de 1910-1926 foram afectadas pela participação na guerra de 1914-18 para a defesa do império português, política que julgo ser aprovada pela classe dirigente de então. Quanto ao analfabetismo, que foi mais eliminado no Estado Novo do que na 1ª República eu diria que estamos a comparar os resultados de 16 anos (1910-1926) com 48 (1926-1974). Contudo no final do Estado Novo o país ainda tinha 25% de analfabetos, um número único no panorama europeu. Lembro-me de ouvir pessoas ricas preocupadas com a alfabetização que iria criar falta de homens para trabalhar no campo e falta de criadas de servir.

Tendo eu nascido em 1949 vivi na 2ª metade do Estado Novo, lembro-me da criação da ADSE (Assitência na Doença aos Servidores do Estado), da existência da Caixa Geral de Aposentações para os funcionários públicos e da criação das Caixas de Previdência para os trabalhadores do sector privado e lembro-me também que a adesão à EFTA (European Free Trade Association) potenciou grande crescimento económico. Dado o baixo ponto de partida do PIB nacional era mais fácil ter taxas de crescimento maiores.

O livro fala pouco dos 13 anos de guerras coloniais serôdias e do serviço militar da época que descrevi no post que publiquei em Abril /2024 intitulado “O Serviço Militar Obrigatório há 50 anos”. Entre finais de 1963 e 1971 o país passou de 9022 milhares de residentes para 8624, uma perda de 418 mil habitantes, menos 4,62%, como se constata nesta tabela sobre a População de Portugal na Pordata.

E além dos problemas graves existiam os ridículos, como a licença anual sobre o uso de isqueiros na via pública, para proteger os fabricantes nacionais de fósforos. As autoridades policiais podiam exigir a exibição dessa licença sob o risco de multa e eventual apreensão do isqueiro.

Quanto à época contemporânea, começa citando a frase popular “O pior cego é o que não quer ver” não sei se referindo o que se fez ou se referindo o que não se fez. O texto desta parte é bastante crítico. Tirando umas referências positivas ao Engº Mira Amaral, o autor é um crítico forte da governação nesta época, comparando as verbas da União Europeia entregues a Portugal para minorar o seu atraso às remessas de ouro do Brasil, uma variante da maldição dos recursos.

Uma boa parte dessas verbas facilitaram dotar o país duma rede de auto-estradas e de vias rápidas que muito facilitou ganhos de escala das empresas, facilitando também a importação e exportação de mercadorias por via terrestre. Uma parte dessas verbas serviu também para outros países da União Europeia colocarem os seus produtos em Portugal e eventualmente fazerem investimentos na criação em Portugal de algumas fábricas, custa acreditar que a União Europeia nos envie um maná pelos nossos lindos olhos.

Resumindo, gostei de ler o livro mas mantenho muitas reservas ao seu conteúdo.