Do jornal Expresso fiz há bastante tempo um "scan" de uma infografia com os vários tipos de véus "islâmicos", talvez tenha sido na altura da proibição do véu nas escolas francesas.
Entretanto no jardim Yu, uma atracção turística de Xangai construída há mais de 400 anos, num dia de Agosto de calor muito intenso mas de sol encoberto pelas nuvens, cruzei-me com este grupo de turistas em que a maioria das mulheres usava o véu "islâmico" mais simples, designado por Hijab.
Fiquei algo surpreendido com o "top" do homem mais jovem do grupo, com alças e um decote alargado, em forte contraste com o atabafamento da indumentária das mulheres, fazendo uma quase simetria com o que é mais habitual no Ocidente em que as mulheres usam frequentemente vestuário mais fresco do que os homens.
Recordei-me duma cena semelhante num hotel de Viena, também no Verão, em que o homem estava com uma blusa de alças e a mulher usava um Nikab, dificultando imenso a tomada do pequeno-almoço pois a porcaria do véu atrapalhava o trajecto da comida para a boca.
Do pouco que li sobre os preceitos do Islão em relação à forma de vestir ficou-me a ideia duma recomendação de recato e de uso de roupas não justas ao corpo, quer para homens quer para mulheres.
Destas duas vezes constatei portanto que enquanto as mulheres se iam submetendo a regras incómodas os homens se iam libertando delas. Enquanto no caso do Hijab me fico por esta crítica à eventual falta de conforto, considero o Nikab e a Burka num plano bastante diferente.
Considero um abuso a alegação de que o Islão exige o uso de tal indumentária, o regime de Purdah, de ocultação completa da mulher, tanto é seguido no Afeganistão e Paquistão por muçulmanos como no Noroeste da Índia por hindus, mas é muito pouco comum na Indonésia ou no norte de África. Dado que não faz sentido considerar que as muçulmanas magrebinas são más muçulmanas, somos levados à conclusão que a burqua e o nikab não passam de formas de opressão nascidas em certas zonas geográficas onde, por coincidência, se instalou o Islão.
O uso deste vestuário poderá fazer sentido num deserto, durante uma tempestade de areia, ou para proteger de ventos gelados, mas será sinal de opressão na maioria dos casos pelo que vejo com simpatia a sua proibição.
2010-01-30
2010-01-28
2010-01-26
Templo do Buda de Jade em Xangai
As cidades economicamente importantes que não são capitais políticas, como Xangai ou Nova Iorque, têm tendência para crescer de forma mais desordenada que as capitais.
Este templo do Buda de jade em Xangai será provavelmente o único edifício baixo numa vizinhança de edifícios com muitos andares, como várias igrejas em Nova Iorque.
Gostei deste Buda reclinado em jade branco (julgava que o jade era sempre em tons de verde), em que a ondulação das ancas e os lábios muito vermelhos lhe dão um aspecto andrógino.
Este templo do Buda de jade em Xangai será provavelmente o único edifício baixo numa vizinhança de edifícios com muitos andares, como várias igrejas em Nova Iorque.
Gostei deste Buda reclinado em jade branco (julgava que o jade era sempre em tons de verde), em que a ondulação das ancas e os lábios muito vermelhos lhe dão um aspecto andrógino.
2010-01-23
Tecto decorado
Não sou grande fã de tectos decorados, pelo incómodo óbvio para os conseguir contemplar, pela dificuldade em fazê-los e em mantê-los, etc. Mas de vez em quando gosto de ver alguns.
Neste caso trata-se dum tecto rodeado de nichos com pequenos Budas (os donativos são importantes em mais do que uma religião) que fotografei colocando a máquina sobre uma mesa.
O tecto está numa das salas do Templo do Buda de Jade em Xangai, que mostrarei num próximo post.
Neste caso trata-se dum tecto rodeado de nichos com pequenos Budas (os donativos são importantes em mais do que uma religião) que fotografei colocando a máquina sobre uma mesa.
O tecto está numa das salas do Templo do Buda de Jade em Xangai, que mostrarei num próximo post.
2010-01-21
Nichos
Ainda no mesmo templo de Xian, que julgo ser o Grande Templo da Graça Materna, estava esta estátua do Buda, com cabelo azul, rodeado de uma figura mais jovem e de outra mais idosa. Fui ver porque teria o cabelo de cor azul e vi na net que a tradição conta que o Buda teria o cabelo azulado, pelo que nalgumas regiões é representado com cabelo desta cor. Faço a conjectura que teria um cabelo muito preto e brilhante, o que pode dar reflexos azulados mas nunca do tom da imagem. Mas acaba por ser uma forma prática de identificar as estátuas, neste conjunto a do cabelo azul é o Buda, em conjuntos ocidentais o que tem a chave é o S.Pedro, o que tem asas nos pés é o Hermes ou Mercúrio.
Acho curiosa alguma partilha nas posições de mãos para a meditação/oração no oriente e no ocidente, bem como o uso comum de uma aura, ou auréola à volta da cabeça das pessoas de boa vontade.
Chamou-me também a atenção a presença de todos aqueles nichos no alto da parede ao fundo, cada um com uma pequena estátua do Buda. Referem aqui que na Tailândia estes nichos com Budas estão associados a donativos para o templo.
Estes nichos lembraram-me outros que vi numa igreja em Nápoles, na Itália, e que mostro aqui ao lado.
Penso que estavam numa das paredes de um dos vários altares laterais da igreja.
Surpreendeu-me quer a grande quantidade de nichos e neste caso de santos associados, quer o formato dos nichos que faz lembrar de forma irresistível os camarotes dos teatros, neste caso provavelmente o de S. Carlos, em Nápoles, a mais antiga casa de ópera na Europa, certamente origem do nome do teatro de S. Carlos em Lisboa.
Tinha tirado outras fotos desta igreja, provavelmente recomendada no guia do Lonely Planet, e numa das fotos aparecia uma imagem que me lembrou uma referência a um santo recente que tinha tido a profissão de médico.
Googlando (doctor saint naples) apareceu-me logo uma referência ao Saint Joseph Moscati da igreja “Il Gesú Nuovo”.
Já quase que não vale a pela tomar nota do que se vê nas viagens...
Acho curiosa alguma partilha nas posições de mãos para a meditação/oração no oriente e no ocidente, bem como o uso comum de uma aura, ou auréola à volta da cabeça das pessoas de boa vontade.
Chamou-me também a atenção a presença de todos aqueles nichos no alto da parede ao fundo, cada um com uma pequena estátua do Buda. Referem aqui que na Tailândia estes nichos com Budas estão associados a donativos para o templo.
Penso que estavam numa das paredes de um dos vários altares laterais da igreja.
Surpreendeu-me quer a grande quantidade de nichos e neste caso de santos associados, quer o formato dos nichos que faz lembrar de forma irresistível os camarotes dos teatros, neste caso provavelmente o de S. Carlos, em Nápoles, a mais antiga casa de ópera na Europa, certamente origem do nome do teatro de S. Carlos em Lisboa.
Tinha tirado outras fotos desta igreja, provavelmente recomendada no guia do Lonely Planet, e numa das fotos aparecia uma imagem que me lembrou uma referência a um santo recente que tinha tido a profissão de médico.
Googlando (doctor saint naples) apareceu-me logo uma referência ao Saint Joseph Moscati da igreja “Il Gesú Nuovo”.
Já quase que não vale a pela tomar nota do que se vê nas viagens...
2010-01-19
A exclusividade do original
Ao olhar para esta foto com um sino pensei outra vez que quer os chineses quer os ocidentais usam este aparelho mas não os muçulmanos, havendo censuras islâmicas que já referi aqui.
Os sinos aparecem para sincronizar as acções de uma comunidade e por isso são muito úteis em mosteiros como este, localizado em Xian. Na Wikipédia constatei que a vida monástica tem muito pouca expressão no Islão, sendo comum ao cristianismo, ao hinduísmo, ao budismo e a outras religiões da Ásia.
As comunidades sincronizadas por sinos não são forçosamente religiosas, lembro-me sempre dos meus amigos que estiveram na Marinha dizerem que nos navios a única corda que havia era a do sino, tudo o resto eram cabos.
Mas há outra coisa que entretanto me foi chamando a atenção, que é o aspecto impecavelmente conservado de tudo o que aparece nesta imagem. Vivendo em Portugal habituei-me a associar a ideia de ruína à maioria do património edificado com alguns anos, pelo que me parece estranho que um templo antigo se apresente tão bem conservado.
Depois pensei que provavelmente tudo isto terá ficado muito danificado durante a Revolução Cultural pelo que deve ter sido todo reconstruído.
Reconhecendo alguma importância no aspecto único de uma obra de arte, faço notar que alguma dessa exclusividade se deve àquele pensamento pouco generoso (mas criando muito valor nos mercados de arte) que algo é muito valioso por ser possuído apenas por uma pessoa, com a exclusão dos demais. Vejo assim com alguma bonomia a reconstrução de edifícios antigos, que me parece mais frequente no Extremo Oriente do que na Europa. Entretanto lembrei-me do centro histórico de Varsóvia, reconstruído a partir de fotos e de memórias, depois de arrasado pelo exército alemão na guerra 1939-45.
Na minha ingenuidade penso que pedras de formas caprichosas como esta, localizada no recinto ajardinado do mesmo templo, suscitarão menor vontade de cópia, mas pode ser que eu esteja enganado e que esta pedra com linhas sinuosas lembrando curvas de nível, não passe de um produto industrial resultante da cópia massificada de uma pedra que pareceu mais interessante a um dos muitos chineses que se interessam por pedras deste tipo.
Os sinos aparecem para sincronizar as acções de uma comunidade e por isso são muito úteis em mosteiros como este, localizado em Xian. Na Wikipédia constatei que a vida monástica tem muito pouca expressão no Islão, sendo comum ao cristianismo, ao hinduísmo, ao budismo e a outras religiões da Ásia.
As comunidades sincronizadas por sinos não são forçosamente religiosas, lembro-me sempre dos meus amigos que estiveram na Marinha dizerem que nos navios a única corda que havia era a do sino, tudo o resto eram cabos.
Mas há outra coisa que entretanto me foi chamando a atenção, que é o aspecto impecavelmente conservado de tudo o que aparece nesta imagem. Vivendo em Portugal habituei-me a associar a ideia de ruína à maioria do património edificado com alguns anos, pelo que me parece estranho que um templo antigo se apresente tão bem conservado.
Depois pensei que provavelmente tudo isto terá ficado muito danificado durante a Revolução Cultural pelo que deve ter sido todo reconstruído.
Reconhecendo alguma importância no aspecto único de uma obra de arte, faço notar que alguma dessa exclusividade se deve àquele pensamento pouco generoso (mas criando muito valor nos mercados de arte) que algo é muito valioso por ser possuído apenas por uma pessoa, com a exclusão dos demais. Vejo assim com alguma bonomia a reconstrução de edifícios antigos, que me parece mais frequente no Extremo Oriente do que na Europa. Entretanto lembrei-me do centro histórico de Varsóvia, reconstruído a partir de fotos e de memórias, depois de arrasado pelo exército alemão na guerra 1939-45.
Na minha ingenuidade penso que pedras de formas caprichosas como esta, localizada no recinto ajardinado do mesmo templo, suscitarão menor vontade de cópia, mas pode ser que eu esteja enganado e que esta pedra com linhas sinuosas lembrando curvas de nível, não passe de um produto industrial resultante da cópia massificada de uma pedra que pareceu mais interessante a um dos muitos chineses que se interessam por pedras deste tipo.
2010-01-16
RTP2, Serviço Público
Hoje, Sábado dia 16
- às 21h00, na RTP 2, estreia do documentário Maria de Lourdes Pintasilgo (na passagem dos 80 anos do seu nascimento), de Graça Castanheira
- às 22h35, na RTP2, bloco de emissão dedicado a Eric Rohmer: A Minha Noite em Casa de Maud; às 24h35, O Joelho de Claire
estas são duas das sugestões semanais do João Miguel, outro serviço público, normalmente publicadas no A-Z Weblog às quintas-feiras, muito úteis para pessoas que não têm tempo para ler os roteiros culturais mas têm algum tempo para ir a um ou outro evento.
Em baixo uma imagem de Ma nuit chez Maud, com Françoise Fabian e Jean-Louis Trintignant, tirada daqui.
Entre os dois programas acima referidos situa-se o telejornal da RTP2, às 22:00, o mais tranquilo de Portugal.
- às 21h00, na RTP 2, estreia do documentário Maria de Lourdes Pintasilgo (na passagem dos 80 anos do seu nascimento), de Graça Castanheira
- às 22h35, na RTP2, bloco de emissão dedicado a Eric Rohmer: A Minha Noite em Casa de Maud; às 24h35, O Joelho de Claire
estas são duas das sugestões semanais do João Miguel, outro serviço público, normalmente publicadas no A-Z Weblog às quintas-feiras, muito úteis para pessoas que não têm tempo para ler os roteiros culturais mas têm algum tempo para ir a um ou outro evento.
Em baixo uma imagem de Ma nuit chez Maud, com Françoise Fabian e Jean-Louis Trintignant, tirada daqui.
Entre os dois programas acima referidos situa-se o telejornal da RTP2, às 22:00, o mais tranquilo de Portugal.
2010-01-13
Vassouras
Há outras formas mais standard de atingir o Nirvana, o estado de ausência de desejo que o Buda desejou. Muitas dessas formas envolvem meditação, sendo os templos sítios à partida apropriados para essa actividade. Como por exemplo este, no centro da cidade de Xian, com vários pátios interiores muito bem arranjados e impecavelmente limpos.
Para essa limpeza parecia concorrer esta vassoura, com detalhes pouco usuais no ocidente, mas com um cabo de bom comprimento.
Por contraste e porque, como se diz no Janelas, "a divagar se vai ao longe", lembrei-me das vassouras indianas, de cabo muito curto como se vê na figura ao lado, obrigando quem as usa a uma posição muito incómoda além de facilitar a inalação da poeira que está a ser deslocada, aumentando a probabilidade de infecções nas vias respiratórias.
A imagem foi obtida de um snapshot de um filme da entrada da igreja na velha Goa onde está o túmulo de S.Francisco Xavier. Na altura (Nov/1990) interroguei-me porque seria que não usavam vassouras com cabo, que me pareciam muito melhores.
Procurando agora no Google com as palavras Indian broom fui dar a este artigo da Time, de Agosto de 1960, em que referem que o Nehru também se referiu ao assunto mas aparentemente sem grande sucesso pois, passados 30 anos ainda se viam estas vassouras na Índia. Mesmo agora, julgo que esta tradição continua.
Muitas vezes os problemas estão na cabeça das pessoas e reproduzem-se através da tradição.
Para essa limpeza parecia concorrer esta vassoura, com detalhes pouco usuais no ocidente, mas com um cabo de bom comprimento.
A imagem foi obtida de um snapshot de um filme da entrada da igreja na velha Goa onde está o túmulo de S.Francisco Xavier. Na altura (Nov/1990) interroguei-me porque seria que não usavam vassouras com cabo, que me pareciam muito melhores.
Procurando agora no Google com as palavras Indian broom fui dar a este artigo da Time, de Agosto de 1960, em que referem que o Nehru também se referiu ao assunto mas aparentemente sem grande sucesso pois, passados 30 anos ainda se viam estas vassouras na Índia. Mesmo agora, julgo que esta tradição continua.
Muitas vezes os problemas estão na cabeça das pessoas e reproduzem-se através da tradição.
2010-01-07
Um caminho para o Nirvana
Dado que o tempo continua fraco, vamos continuando a exploração do espaço interior, em contraposição ao “ar livre”, onde poderíamos apanhar umas molhas. Teria preferido usar “Cadeira Longa” como título deste post mas o termo não é comum e não me apeteceu usar “cadeira de repouso” ou “de descanso”.
Às vezes pensamos que os orientais têm mais tendência para a meditação e os ocidentais para a acção mas os grandes mosteiros da Europa atestam que não há muito tempo havia muita gente meditativa por cá enquanto os chineses, que não leram a Bíblia, não sabem que se deve descansar um dia em cada sete e muitos deles trabalham continuamente.
Não tenho a certeza que esta cadeira seja o melhor caminho para o Nirvana mas o conforto que proporciona é tal que tenho adormecido muitas vezes nela com grande rapidez. Não sendo o melhor é, pelo menos, rápido.
Durante muito tempo atribuí o projecto desta magnifica “chaise longue” a Le Corbusier e só há uns poucos anos me apercebi que tinha havido uma contribuição significativa de Charlotte Perriand.
Estou satisfeitíssimo quer com a forma ergonómica, quer com a possibilidade de variação, de modo contínuo, da posição da cadeira, que pode estar mais elevada para ler ou ver televisão, ou mais baixa para uma posição de maior repouso, facilitando a circulação nas pernas, como nesta imagem em que posa a referida Charlotte Perriand (será?) (adenda: é).
Esta arquitecta viveu de 1903-1999, trabalhou durante dez anos no atelier de Le Corbusier e de Pierre Jeanneret onde deu uma contribuição muito importante na concepção desta cadeira, no ano de 1928, quando tinha apenas 25 anos. Depois teve uma vida aventurosa, com uma estadia no Japão, de onde teve que sair em 1942, tendo ficado retida no Vietname durante a guerra, até 1946.
Não deixo de me surpreender com a idade vetusta da concepção de mobiliário que ainda há poucos anos parecia futurista.
Esta foto e a informação do parágrafo anterior constam no site do Design Museum de Londres onde consta uma biografia de Charlotte Perriand, bem como de outros arquitectos e designers importantes.
A primeira imagem é do site da Cassina, o actual fabricante desta cadeira, disponível em várias lojas de Lisboa. A segunda imagem acho que é daqui mas tirei-lhe pixels para ocupar menos espaço. No site do Design Museum tem a mesma imagem mas com a esquerda e a direita trocadas.
Às vezes pensamos que os orientais têm mais tendência para a meditação e os ocidentais para a acção mas os grandes mosteiros da Europa atestam que não há muito tempo havia muita gente meditativa por cá enquanto os chineses, que não leram a Bíblia, não sabem que se deve descansar um dia em cada sete e muitos deles trabalham continuamente.
Não tenho a certeza que esta cadeira seja o melhor caminho para o Nirvana mas o conforto que proporciona é tal que tenho adormecido muitas vezes nela com grande rapidez. Não sendo o melhor é, pelo menos, rápido.
Durante muito tempo atribuí o projecto desta magnifica “chaise longue” a Le Corbusier e só há uns poucos anos me apercebi que tinha havido uma contribuição significativa de Charlotte Perriand.
Estou satisfeitíssimo quer com a forma ergonómica, quer com a possibilidade de variação, de modo contínuo, da posição da cadeira, que pode estar mais elevada para ler ou ver televisão, ou mais baixa para uma posição de maior repouso, facilitando a circulação nas pernas, como nesta imagem em que posa a referida Charlotte Perriand (será?) (adenda: é).
Esta arquitecta viveu de 1903-1999, trabalhou durante dez anos no atelier de Le Corbusier e de Pierre Jeanneret onde deu uma contribuição muito importante na concepção desta cadeira, no ano de 1928, quando tinha apenas 25 anos. Depois teve uma vida aventurosa, com uma estadia no Japão, de onde teve que sair em 1942, tendo ficado retida no Vietname durante a guerra, até 1946.
Não deixo de me surpreender com a idade vetusta da concepção de mobiliário que ainda há poucos anos parecia futurista.
Esta foto e a informação do parágrafo anterior constam no site do Design Museum de Londres onde consta uma biografia de Charlotte Perriand, bem como de outros arquitectos e designers importantes.
A primeira imagem é do site da Cassina, o actual fabricante desta cadeira, disponível em várias lojas de Lisboa. A segunda imagem acho que é daqui mas tirei-lhe pixels para ocupar menos espaço. No site do Design Museum tem a mesma imagem mas com a esquerda e a direita trocadas.
2009-12-31
O Fuji reflecte-se no lago Kawaguchi
Depois da tempestade vem a bonança, neste caso visível na superfície espelhada do lago, sinal da ausência de vento.
O Hokusai devia estar farto da realidade e arranjou um reflexo que completa a visão do monte Fuji em vez de se limitar a espelhar a imagem que nessa altura se via.
Estou a tentar estabelecer uma tradição, no último dia do ano uma obra do Hokusai.
Bom Ano Novo para todos!
O Hokusai devia estar farto da realidade e arranjou um reflexo que completa a visão do monte Fuji em vez de se limitar a espelhar a imagem que nessa altura se via.
Estou a tentar estabelecer uma tradição, no último dia do ano uma obra do Hokusai.
Bom Ano Novo para todos!
2009-12-30
Vendaval
Alguns leitores deste blogue sabem que trabalho na REN - Rede Eléctrica Nacional, situação que me facilitou o acesso às imagens publicadas aqui e aqui.
A REN tem os seus canais próprios de comunicação com o público, que não incluem este blogue, mas achei interessante dar a conhecer através de algumas imagens os efeitos devastadores dos ventos de grande intensidade que ocorreram em Portugal na madrugada do dia 23/Dez/2009.
Dada a redundância de Rede Nacional de Transporte (de energia eléctrica), nenhum dos colapsos de linhas de transporte que mostro a seguir causou qualquer energia não fornecida.
Nesta primeira imagem mostro dois postes derrubados na região do Oeste, um a recortar-se no céu cinzento e outro mais por terra, no canto inferior direito.
Estas grandes estruturas metálicas que suportam os condutores são projectadas para resistirem a ventos com velocidades inferiores a 150 km/h. Os estragos observados na região indiciam que os ventos foram superiores a este valor, tendo sido registado um valor de 195 km/h num anemómetro dum parque de geradores eólicos dessa região.
Outra zona atingida foi o Algarve, do céu muitas vezes azul, donde vieram as restantes imagens:
A carrinha dá uma ideia da escala, neste poste que cedeu pelas fundações
As rajadas mais fortes no Algarve ocorreram no interior, pouco habitado, causando menos danos na rede de distribuição do que na região Oeste. A infraestrutura da rede de transporte foi aí bastante afectada.
Na imagem acima vê-se um poste de 400 kV da linha Portimão – Tavira, que ainda não está em serviço.
Estas imagens recordam-nos que as nossas infraestruturas não são completamente imunes às “Forças da Natureza”. Finalizo com uma imagem onde encontro uma certa beleza, pese embora o trabalho e o custo da operação de reabilitação:
A REN tem os seus canais próprios de comunicação com o público, que não incluem este blogue, mas achei interessante dar a conhecer através de algumas imagens os efeitos devastadores dos ventos de grande intensidade que ocorreram em Portugal na madrugada do dia 23/Dez/2009.
Dada a redundância de Rede Nacional de Transporte (de energia eléctrica), nenhum dos colapsos de linhas de transporte que mostro a seguir causou qualquer energia não fornecida.
Nesta primeira imagem mostro dois postes derrubados na região do Oeste, um a recortar-se no céu cinzento e outro mais por terra, no canto inferior direito.
Estas grandes estruturas metálicas que suportam os condutores são projectadas para resistirem a ventos com velocidades inferiores a 150 km/h. Os estragos observados na região indiciam que os ventos foram superiores a este valor, tendo sido registado um valor de 195 km/h num anemómetro dum parque de geradores eólicos dessa região.
Outra zona atingida foi o Algarve, do céu muitas vezes azul, donde vieram as restantes imagens:
A carrinha dá uma ideia da escala, neste poste que cedeu pelas fundações
As rajadas mais fortes no Algarve ocorreram no interior, pouco habitado, causando menos danos na rede de distribuição do que na região Oeste. A infraestrutura da rede de transporte foi aí bastante afectada.
Na imagem acima vê-se um poste de 400 kV da linha Portimão – Tavira, que ainda não está em serviço.
Estas imagens recordam-nos que as nossas infraestruturas não são completamente imunes às “Forças da Natureza”. Finalizo com uma imagem onde encontro uma certa beleza, pese embora o trabalho e o custo da operação de reabilitação:
2009-12-22
Micro-Jardim de Inverno
Noutra altura disse que em Lisboa não tínhamos verdadeiramente Inverno, não passávamos de um Outono frio. Ontem a meio do dia estavam uns 7 graus em Lisboa, enquanto na Europa abundavam as temperaturas muito negativas. Mas hoje já voltámos aos 17 graus, o que é um bocado atípico, no www.wunderground.com indica como médias para esta época do ano, para temperaturas máximas e mínimas, os valores 13 e 7º C.
Mas o tempo está desagradável porque ou faz frio ou faz chuva ou as duas coisas e apetece ficar em casa. Para quem vive num apartamento, situação mais comum em Lisboa, a dimensão do jardim de inverno tem que ser muito reduzida. Na nossa casa temos este micro-jardim, de que apresento dois arranjos de alturas diferentes.
Mas o tempo está desagradável porque ou faz frio ou faz chuva ou as duas coisas e apetece ficar em casa. Para quem vive num apartamento, situação mais comum em Lisboa, a dimensão do jardim de inverno tem que ser muito reduzida. Na nossa casa temos este micro-jardim, de que apresento dois arranjos de alturas diferentes.
2009-12-17
Tremor de terra
Impressionante como se sabe quase tudo tão depressa na net. Senti o tremor de terra há pouco tempo e já está aqui
Jardim de Luz
A Fundação Calouste Gulbenkian continua a tratar muito bem do seu jardim. Numa visita recente à festa dos livros e à loja do museu passei pelas iluminações de Natal no jardim que neste ano consistem em hastes verticais, alinhadas segundo triângulos equiláteros, envoltas por cordões com luzinhas.
A disposição das hastes iluminadas, revelando para os peões que passavam sucessivos alinhamentos, fez-me recordar as viagens de comboio da minha infância, em que gostava de ver a revelação dos alinhamentos existentes nas florestas de árvores plantadas à beira do caminho de ferro.
Aqui deixo votos de Bom Natal e de Feliz Ano Novo, juntamente com uma imagem desse jardim de luz.
A disposição das hastes iluminadas, revelando para os peões que passavam sucessivos alinhamentos, fez-me recordar as viagens de comboio da minha infância, em que gostava de ver a revelação dos alinhamentos existentes nas florestas de árvores plantadas à beira do caminho de ferro.
Aqui deixo votos de Bom Natal e de Feliz Ano Novo, juntamente com uma imagem desse jardim de luz.
2009-12-14
Nascer da Lua
À medida que se aproxima o solstício de Inverno e os dias vão ficando mais pequenos os meus pequenos passeios quase diários, à beira do rio Tejo ao pé da ponte Vasco da Gama, vão às vezes entrando pela noite dentro. Nesta presenciei ao nascer duma lua cheia. O grão da foto deve-se à falta de luz para a sensibilidade da câmara do meu telemóvel.
2009-12-13
A globalização das plantas
Há muito tempo que os seres humanos transportam consigo as plantas comestíveis, ornamentais , ou com outras aplicações, de um lado para o outro do planeta, contribuindo para uma sensação de déjà vu, mesmo em terras distantes como na China.
Por exemplo, aqui ao lado mostro uma buganvília cuja originalidade está não na planta em si mas na pequena dimensão do vaso e na forma como foi podada, transformando-a numa espécie de bonsai.
A "parede" vegetal que mostro a seguir é parecida a outras que já tenho aqui mostrado, apenas com variações na cor das folhas.
Mesmo estes bambus, embora mais frequentes em zonas tropicais, também se podem ver em locais de clima ameno como Lisboa
Achei contudo que esta variedade do que me parece um cipreste, com terminações cónicas de bico muito acentuado, que vi pela primeira vez na China, neste caso nos jardins à volta dos guerreiros de terracota de Xian, era realmente uma novidade.
2009-12-11
Concentração
Os turistas vão a Xian ver o exército de guerreiros de terracota e eu não fui excepção. Trata-se do túmulo do primeiro imperador chinês, que reinou no séc III AC. Aqui fica uma vista geral da escavação principal
que além de dar uma ideia da vastidão do recinto mostra no primeiro plano os guerreiros já reconstruídos e ao fundo os cacos ainda por processar.
Esta segunda imagem mostra estátuas completas
enquanto esta outra mostra figuras em que faltam vários bocados.

Os portugueses usam a expressão "paciência de chinês" que traduz a memória histórica que temos da diligência e tenacidade de que eles são capazes. Os arqueólogos chineses trabalham neste sítio desde 1974, ano da descoberta do sítio, e não resisti a fotografá-los em acção, embora transgredindo um aviso para não fotografar.
Nesta imagem gosto muito da concentração da arqueóloga:
que além de dar uma ideia da vastidão do recinto mostra no primeiro plano os guerreiros já reconstruídos e ao fundo os cacos ainda por processar.
Esta segunda imagem mostra estátuas completas
enquanto esta outra mostra figuras em que faltam vários bocados.
Os portugueses usam a expressão "paciência de chinês" que traduz a memória histórica que temos da diligência e tenacidade de que eles são capazes. Os arqueólogos chineses trabalham neste sítio desde 1974, ano da descoberta do sítio, e não resisti a fotografá-los em acção, embora transgredindo um aviso para não fotografar.
Nesta imagem gosto muito da concentração da arqueóloga:
Xian ( 西安 )
Quando cheguei a Xian constatei que o nome da cidade tinha um dos muito poucos ideogramas chineses que conheço, neste caso o An (安) que significa paz como substantivo e pacífico, calmo , tranquilo, seguro, etc, como adjectivo. Como Xi (西) significa Oeste, poderíamos dizer que Xian se poderia traduzir como "Ocidente tranquilo". Tendo sido capital do império é natural que, pelo menos nessa altura, fosse um sítio seguro.
Na imagem da torre de sinos do último post vê-se ao fundo esta outra torre, a torre de tambores da Xian. Construída pela primeira vez em 1380 (quando por cá estávamos quase a entrar na crise de 1383-1385), destinava-se a marcar o tempo e a dar toques de aviso de variados eventos, aparentemente como os sinos das igrejas mas sem as igrejas. Os tambores são visíveis na foto que tirei no início da noite:
Ao pé destas torres havia uma passagem subterrânea para peões de limpeza imaculada, que me pareceu confirmar o já longo caminho percorrido pela China no seu desenvolvimento:
Claro que em todas as cidades e países há uns lugares piores e outros melhores, mas nalguns países apenas se conseguem manter bem alguns espaços privados e/ou onde passam muitos turistas. Aqui pareceu-me tratar-se de um espaço urbano público muito bem cuidado sem grande utilização turística, dada a ausência de avisos em inglês.
Na imagem da torre de sinos do último post vê-se ao fundo esta outra torre, a torre de tambores da Xian. Construída pela primeira vez em 1380 (quando por cá estávamos quase a entrar na crise de 1383-1385), destinava-se a marcar o tempo e a dar toques de aviso de variados eventos, aparentemente como os sinos das igrejas mas sem as igrejas. Os tambores são visíveis na foto que tirei no início da noite:
Ao pé destas torres havia uma passagem subterrânea para peões de limpeza imaculada, que me pareceu confirmar o já longo caminho percorrido pela China no seu desenvolvimento:
Claro que em todas as cidades e países há uns lugares piores e outros melhores, mas nalguns países apenas se conseguem manter bem alguns espaços privados e/ou onde passam muitos turistas. Aqui pareceu-me tratar-se de um espaço urbano público muito bem cuidado sem grande utilização turística, dada a ausência de avisos em inglês.
2009-12-04
Sinos
Já disse aqui, a propósito da eventual realização de referendos em todos os estados da União Europeia, com o objectivo de chumbar o Tratado de Lisboa, que tenho uma antipatia genérica por referendos, talvez por a Constituição do Estado Novo de 1933 ter sido aprovada por referendo, mas também por as respostas costumarem ser muito limitativas da opinião dos votantes.
Exagerando um pouco, os referendos lembram-me aquelas sessões dos tribunais dos filmes americanos em que o advogado exige à testemunha que lhe responda exclusivamente com um sim ou um não, para uma pergunta do género: nesse dia estava com uma camisa branca ou uma azul?
O referendo suíço não deveria ter sido feito.
O Lutz tem um post que me parece muito equilibrado sobre o referendo suíço, pelo que vou em frente e passo a falar de um sino que não é cristão.
Dos dados deste sino, apresentados num cartaz no local de que tirei uma foto que apresento aqui ao lado, destaco o peso de 63 toneladas. Não resisto a chamar a atenção que neste caso as medidas no texto em ideogramas estão todas referidas a metros, não sendo usado um sufixo (equivalente ao "c" de "cm") para expressar os submúltiplos.
Fui consultar a Wikipédia, como tantas vezes já referi neste blogue, sobre o tema dos sinos pois, embora o sino me parecesse grande, eu não tinha qualquer sensibilidade ao que era um peso de sino.
Constatei na entrada "bell (instrument)" que não referia este sino especificamente, referindo contudo que o maior sino operacional está em Myanmar e pesa 90 toneladas.
O Big Ben, nickname do sino enorme usado em Londres para anunciar as horas, cujo peso em Inglaterra só foi ultrapassado pelo de um sino na catedral de S.Paulo, pesa "apenas" 16 toneladas, aproximadamente um quarto do peso deste, tendo sido fabricado em 1856, portanto 400 anos mais tarde.
A manufactura, o transporte e a colocação numa torre de sinos destas dimensões constituíam certamente grandes desafios aos engenheiros da época. Este sino destinava-se a marcar as horas.
No Ocidente não se terá explorado tanto o aumento da dimensão do sino, tendo-se evoluído para os carrilhões, conjuntos de sinos em que cada um dá a sua nota. Lembro-me de ver numa igreja inglesa um aviso de que iria haver uma reunião dos membros da associação de tocadores de sinos do sudoeste da Inglaterra. Em Portugal optaram a certa altura pela facilidade da electrónica, que tocava automaticamente sem necessidade de tocadores de sinos (humanos) a toda a hora, com tanto sucesso que apressaram a saída de uma lei para a prevenção do ruído. Conforme se constata aqui, os sinos das igrejas deixaram de tocar de noite em Portugal (entre as 22 e as 7 horas) desde o ano de 2001 e não ouço muitos durante o dia. Na realidade, actualmente, a utilidade social dos sinos para marcar horas desapareceu.
No Ocidente a igreja usou portanto a função socialmente útil de marcação das horas para lembrar aos habitantes, além das horas, a presença da igreja, associando-se de tal forma a este dispositivo que levou os muçulmanos a associar sinos com terras cristãs.
Tendo alguma curiosidade pelo que haveria na net sobre "islamic bells" fiz essa pesquisa no Google e fui dar a este site que diz ser "supervised and developed by Ministry of Awqaf and Islamic Affairs, Doha-Qatar". Traz aqui esta fatwa (espécie de conselho ou decreto religioso) onde a propósito de uma pergunta sobre se será apropriado ter sinos em casa, diz que "Angels do not go along with those people who have a dog or bell.".
Para finalizar deixo aqui uma imagem no crepúsculo da muito bela torre de sinos de Xian, localizada no centro da cidade. Não cheguei a visitar a torre cujos sinos, embora mais antigos, são muito menores do que o sino de Pequim acima mostrado.
2009-11-22
Amin Maalouf e os sinos
Mostro outra imagem de Argel, com uma rua tão inclinada como as mais íngremes de Lisboa:
Falando do mundo árabe é para mim natural lembrar-me de Amin Maalouf, escritor libanês que conheci pela primeira vez através do livro “As cruzadas vistas pelos árabes”, um ensaio interessantíssimo, onde se tem acesso à memória histórica vista pelo “outro lado”, neste caso o lado não ocidental.
Já só tenho uma memória vaga do conteúdo do livro que me emprestaram, dele recordo a confirmação do comportamento nada fraterno dos cruzados nas terras do próximo oriente, de alguma surpresa com a quantidade enorme de guerras e desavenças entre os reinos árabes da região, do estado avançado da medicina árabe nessa época em relação às práticas ocidentais e da tomada de consciência que, nesta zona do globo em que as terras cristãs tinham fronteiras com o território muçulmano, um dos pormenores que as distinguiam eram os sinos de um lado e as chamadas dos muezzin para a oração do outro. Na Europa existem discussões actuais sobre este tema.

É interessante esta apropriação pelas religiões da marcação do tempo, na versão cristã mais discreta na expressão ao se limitar apenas ao toque dos sinos mas marcando a sua presença em todas as horas, enquanto na versão islâmica as chamadas de atenção são mais espaçadas no tempo mas a mensagem faz-se através da voz humana invocando o nome de Alá e não se trata de um mero toque mas de 5 chamadas por dia para a oração.
Escapa-me a necessidade de dois minaretes e/ou de duas torres de sinos, como é tão habitual em Portugal e, como constatei, na Argélia. Parece que uma torre seria suficiente. É provável que seja por uma questão de simetria, pois se a torre fosse única e ficasse no eixo do edifício colocaria restrições na entrada principal, mas parece desnecessário para a função ter duas torres.
Em Portugal passou-se por uma fase terrível, talvez nos anos 70 do século XX, em que apareceram uns aparelhos electrónicos que faziam uma cacofonia infernal nas aldeias e vilas, infernizando a vida nalgumas casas onde se deixou de poder dormir, tendo ocorrido grandes desavenças e conflitos entre o chamado “bem comum de fazer muito barulho” e o direito ao descanso dos residentes próximos das igrejas. Não sei se isso já acabou, deixei de ouvir queixas, talvez estejamos protegidos pelas leis contra o ruído. Gosto de me deitar tarde e em Arroios lembro-me de há muitos anos, quando estudava no silêncio da noite, ouvir tocar os sinos da igreja nas horas certas. Agora aqui nos Olivais não ouço sino nenhum.

Fiquei com a ideia que um amigo muçulmano me disse que lá também tinham tido um problema parecido, quando a voz potente do muezzin tinha sido substituída por gravações amplificadas a níveis insuportáveis.
Não sei se foi o caso desta outra mesquita de Argel que teria ficado bem não fora aquela varanda que lhe cortou, sem eu reparar na altura, a vista de um bocado do minarete da esquerda.
Em ambos os casos concluo que as torres se destinam a muezzins e não a sinos pelas varandas que as envolvem, característica que seria apenas decorativa numa torre de sinos, embora nalguns casos existam como miradouro.
Voltando ao tema das duas torres parece que os arquitectos se influenciam mutuamente na forma de fazer templos, independentemente da religião a que se destinam. Se predomina um formato numa dada zona é provável que esse formato seja continuado, com as adaptações indispensáveis, mesmo quando as religiões são diferentes. Foi o que observei na Turquia, com a semelhança entre o plano da igreja da Hagia Sofia e das mesquitas otomanas. Noutros casos notam-se semelhanças entre zonas relativamente próximas como observo aqui, entre estas mesquitas e as igrejas, por exemplo, do Sul da Europa.
Em Julho de 2009 Amin Maalouf esteve em Portugal numa conferência a propósito doutro livro seu, “O mundo sem regras”, que decorreu na Gulbenkian, com um pequeno vídeo aqui. Neste livro, também muito interessante, retive as esperanças que o mundo árabe depositou em Nasser e que tão frustadas saíram, bem como sugestões sensatas para o mundo cada vez mais globalizado em que vivemos.
Uma das formas de evitar as duas torres é fazer uma torre separada como acontece em várias igrejas italianas, por exemplo na catedral de Florença e na basílica de S.Marcos em Veneza.
Num exemplo mais terra a terra temos este campanário no bairro da Portela, uma igreja moderna com uma arquitectura algo confusa (mas muito mais discreta do que a fantasia que ameaça instalar-se no Restelo) com o plano principal em cruz grega, edifícios paroquiais e um campanário separado.
A maior “transparência” dos edifícios (e a presença do betão armado...) permite que se tenha um acesso visual ao carrilhão de sinos, como é patente nesta imagem onde se constata que além do badalo (a lingueta interna) existe no mesmo sino também um martelo exterior. Todo o conjunto tem aspecto de ser accionado por mecanismos controlados electricamente à distância.
Falando do mundo árabe é para mim natural lembrar-me de Amin Maalouf, escritor libanês que conheci pela primeira vez através do livro “As cruzadas vistas pelos árabes”, um ensaio interessantíssimo, onde se tem acesso à memória histórica vista pelo “outro lado”, neste caso o lado não ocidental.
Já só tenho uma memória vaga do conteúdo do livro que me emprestaram, dele recordo a confirmação do comportamento nada fraterno dos cruzados nas terras do próximo oriente, de alguma surpresa com a quantidade enorme de guerras e desavenças entre os reinos árabes da região, do estado avançado da medicina árabe nessa época em relação às práticas ocidentais e da tomada de consciência que, nesta zona do globo em que as terras cristãs tinham fronteiras com o território muçulmano, um dos pormenores que as distinguiam eram os sinos de um lado e as chamadas dos muezzin para a oração do outro. Na Europa existem discussões actuais sobre este tema.
É interessante esta apropriação pelas religiões da marcação do tempo, na versão cristã mais discreta na expressão ao se limitar apenas ao toque dos sinos mas marcando a sua presença em todas as horas, enquanto na versão islâmica as chamadas de atenção são mais espaçadas no tempo mas a mensagem faz-se através da voz humana invocando o nome de Alá e não se trata de um mero toque mas de 5 chamadas por dia para a oração.
Escapa-me a necessidade de dois minaretes e/ou de duas torres de sinos, como é tão habitual em Portugal e, como constatei, na Argélia. Parece que uma torre seria suficiente. É provável que seja por uma questão de simetria, pois se a torre fosse única e ficasse no eixo do edifício colocaria restrições na entrada principal, mas parece desnecessário para a função ter duas torres.
Em Portugal passou-se por uma fase terrível, talvez nos anos 70 do século XX, em que apareceram uns aparelhos electrónicos que faziam uma cacofonia infernal nas aldeias e vilas, infernizando a vida nalgumas casas onde se deixou de poder dormir, tendo ocorrido grandes desavenças e conflitos entre o chamado “bem comum de fazer muito barulho” e o direito ao descanso dos residentes próximos das igrejas. Não sei se isso já acabou, deixei de ouvir queixas, talvez estejamos protegidos pelas leis contra o ruído. Gosto de me deitar tarde e em Arroios lembro-me de há muitos anos, quando estudava no silêncio da noite, ouvir tocar os sinos da igreja nas horas certas. Agora aqui nos Olivais não ouço sino nenhum.
Fiquei com a ideia que um amigo muçulmano me disse que lá também tinham tido um problema parecido, quando a voz potente do muezzin tinha sido substituída por gravações amplificadas a níveis insuportáveis.
Não sei se foi o caso desta outra mesquita de Argel que teria ficado bem não fora aquela varanda que lhe cortou, sem eu reparar na altura, a vista de um bocado do minarete da esquerda.
Em ambos os casos concluo que as torres se destinam a muezzins e não a sinos pelas varandas que as envolvem, característica que seria apenas decorativa numa torre de sinos, embora nalguns casos existam como miradouro.
Voltando ao tema das duas torres parece que os arquitectos se influenciam mutuamente na forma de fazer templos, independentemente da religião a que se destinam. Se predomina um formato numa dada zona é provável que esse formato seja continuado, com as adaptações indispensáveis, mesmo quando as religiões são diferentes. Foi o que observei na Turquia, com a semelhança entre o plano da igreja da Hagia Sofia e das mesquitas otomanas. Noutros casos notam-se semelhanças entre zonas relativamente próximas como observo aqui, entre estas mesquitas e as igrejas, por exemplo, do Sul da Europa.
Em Julho de 2009 Amin Maalouf esteve em Portugal numa conferência a propósito doutro livro seu, “O mundo sem regras”, que decorreu na Gulbenkian, com um pequeno vídeo aqui. Neste livro, também muito interessante, retive as esperanças que o mundo árabe depositou em Nasser e que tão frustadas saíram, bem como sugestões sensatas para o mundo cada vez mais globalizado em que vivemos.
Uma das formas de evitar as duas torres é fazer uma torre separada como acontece em várias igrejas italianas, por exemplo na catedral de Florença e na basílica de S.Marcos em Veneza.
Num exemplo mais terra a terra temos este campanário no bairro da Portela, uma igreja moderna com uma arquitectura algo confusa (mas muito mais discreta do que a fantasia que ameaça instalar-se no Restelo) com o plano principal em cruz grega, edifícios paroquiais e um campanário separado.
A maior “transparência” dos edifícios (e a presença do betão armado...) permite que se tenha um acesso visual ao carrilhão de sinos, como é patente nesta imagem onde se constata que além do badalo (a lingueta interna) existe no mesmo sino também um martelo exterior. Todo o conjunto tem aspecto de ser accionado por mecanismos controlados electricamente à distância.
2009-11-15
Argel
A imagem do casamento no Cairo fez-me recordar uma viagem a Argel em 2006, em que o número de antenas parabólicas neste prédio me pareceu como um indício de abertura ao exterior. Também alguma incapacidade de chegar a consensos na instalação de equipamentos colectivos...

A cidade não tem grandes atracções turísticas mas gostei dos prédios brancos com janelas azul turquesa e varandas de ferro forjado, a precisar de alguma conservação.

Ficaram poucas mulheres nesta foto, na rua havia muito mais homens que mulheres.

Na altura o fim-de-semana era à quinta e sexta-feira, sendo este último o dia da oração principal do Islão. Nos outros países do norte de África as fábricas e escritórios fecham ao sábado e domingo, o mesmo acontecendo na Argélia após a independência. Há uns 15 anos, numa aparente cedência aos movimentos islâmicos mudaram para a 5ª e 6ªfeira, o que dificultava os contactos entre firmas argelinas e estrangeiras.
Desde Julho de 2009 que passaram a descansar às sextas e sábados, passando assim a ter 4 dias úteis em comum com a maior parte do mundo. É uma reaproximação que penso ter passado despercebida para muita gente.
A cidade não tem grandes atracções turísticas mas gostei dos prédios brancos com janelas azul turquesa e varandas de ferro forjado, a precisar de alguma conservação.
Ficaram poucas mulheres nesta foto, na rua havia muito mais homens que mulheres.
Na altura o fim-de-semana era à quinta e sexta-feira, sendo este último o dia da oração principal do Islão. Nos outros países do norte de África as fábricas e escritórios fecham ao sábado e domingo, o mesmo acontecendo na Argélia após a independência. Há uns 15 anos, numa aparente cedência aos movimentos islâmicos mudaram para a 5ª e 6ªfeira, o que dificultava os contactos entre firmas argelinas e estrangeiras.
Desde Julho de 2009 que passaram a descansar às sextas e sábados, passando assim a ter 4 dias úteis em comum com a maior parte do mundo. É uma reaproximação que penso ter passado despercebida para muita gente.
2009-11-09
Do casamento
Este blogue não tem manifestado de forma explícita as opiniões do seu autor sobre temas da actualidade mas não há regra sem excepção e este post é disso um exemplo.
Tenho seguido com algum interesse a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tema abordado de vez em quando em vários dos blogues referidos na lista de ligações.
Por muito que tente não consigo deixar de me surpreender com os excessos dos argumentos usados nas discussões em Portugal, nomeadamente à volta deste tema.
Dada a evolução que se tem observado nas últimas décadas, quer no conhecimento quer na forma como é encarada no Ocidente a homosexualidade, parece-me chegado o tempo de possibilitar, a pessoas do mesmo sexo que pretendam levar uma vida em comum, o acesso a um conjunto de efeitos jurídicos mais completo do que a actual união de facto e que seja praticamente idêntico ao actual casamento civil.
O casamento civil, na sua forma tradicional no Ocidente e em Portugal, com cerca de 150 anos, sempre esteve associado à geração e criação de filhos. O estabelecimento de um relacionamento estável entre os noivos tinha como um dos objectivos principais criar as condições para que o esforço prolongado de formação e educação das crianças se fizesse no seio de uma relação afectiva estável. O casamento civil em Portugal foi criado não para negar o aspecto muito importante da procriação neste instituto, mas para retirar à igreja católica a exclusividade da celebração deste tipo de união.
Claro que nem todos os casais eram férteis mas negar a importância dos filhos no casamento é semelhante a dizer que o cinto de segurança não tem qualquer relevância para a integridade física de quem o usa porque em x por cento dos acidentes não melhora a condição de quem o colocou.
A extensão pura e simples do casamento na sua forma actual a pares de pessoas do mesmo sexo afecta assim de forma muito importante os casamentos existentes, ao negar qualquer relevância à componente de geração de filhos desses casamentos.
Tenho dúvidas também em relação à adopção de crianças por pares de pessoas do mesmo sexo e considero prudente não adoptar desde já essa possibilidade.
Um aspecto que me surpreendeu quando da discussão da despenalização do aborto foi existirem pessoas que falavam como se fôssemos o primeiro país a aprovar leis deste tipo.
Nas discussões agora sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo ouve-se argumentar que qualquer cidadão com um mínimo de decência não pode senão apoiar a extensão pura e simples do casamento actual a pares de pessoas do mesmo sexo.
Existem democracias respeitáveis, como por exemplo a francesa, a inglesa e a alemã, em que os legisladores consideraram melhor criar um estatuto muito semelhante ao do casamento actual mas com algumas diferenças, designadamente sobre a possibilidade de adopção e consequentemente com um nome diferente. É esse o caminho que me parece que deveria ser agora seguido em Portugal.
Como ainda não fotografei uniões de pessoas do mesmo sexo, deixo aqui duas imagens de casamentos mais tradicionais, uma tirada na praia de Positano, no verão de 2004, num ambiente algo confuso em que os noivos passam quase despercebidos no meio da multidão
e outra que tirei a um casamento no Cairo, em Abril de 2006.

É curioso como a noiva italiana tem véu e um decote mais reduzido do que a egípcia (que além disso não tem véu), sendo também interessante o contraste dos trajes dos noivos com os das pessoas que os rodeiam.
Tenho seguido com algum interesse a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tema abordado de vez em quando em vários dos blogues referidos na lista de ligações.
Por muito que tente não consigo deixar de me surpreender com os excessos dos argumentos usados nas discussões em Portugal, nomeadamente à volta deste tema.
Dada a evolução que se tem observado nas últimas décadas, quer no conhecimento quer na forma como é encarada no Ocidente a homosexualidade, parece-me chegado o tempo de possibilitar, a pessoas do mesmo sexo que pretendam levar uma vida em comum, o acesso a um conjunto de efeitos jurídicos mais completo do que a actual união de facto e que seja praticamente idêntico ao actual casamento civil.
O casamento civil, na sua forma tradicional no Ocidente e em Portugal, com cerca de 150 anos, sempre esteve associado à geração e criação de filhos. O estabelecimento de um relacionamento estável entre os noivos tinha como um dos objectivos principais criar as condições para que o esforço prolongado de formação e educação das crianças se fizesse no seio de uma relação afectiva estável. O casamento civil em Portugal foi criado não para negar o aspecto muito importante da procriação neste instituto, mas para retirar à igreja católica a exclusividade da celebração deste tipo de união.
Claro que nem todos os casais eram férteis mas negar a importância dos filhos no casamento é semelhante a dizer que o cinto de segurança não tem qualquer relevância para a integridade física de quem o usa porque em x por cento dos acidentes não melhora a condição de quem o colocou.
A extensão pura e simples do casamento na sua forma actual a pares de pessoas do mesmo sexo afecta assim de forma muito importante os casamentos existentes, ao negar qualquer relevância à componente de geração de filhos desses casamentos.
Tenho dúvidas também em relação à adopção de crianças por pares de pessoas do mesmo sexo e considero prudente não adoptar desde já essa possibilidade.
Um aspecto que me surpreendeu quando da discussão da despenalização do aborto foi existirem pessoas que falavam como se fôssemos o primeiro país a aprovar leis deste tipo.
Nas discussões agora sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo ouve-se argumentar que qualquer cidadão com um mínimo de decência não pode senão apoiar a extensão pura e simples do casamento actual a pares de pessoas do mesmo sexo.
Existem democracias respeitáveis, como por exemplo a francesa, a inglesa e a alemã, em que os legisladores consideraram melhor criar um estatuto muito semelhante ao do casamento actual mas com algumas diferenças, designadamente sobre a possibilidade de adopção e consequentemente com um nome diferente. É esse o caminho que me parece que deveria ser agora seguido em Portugal.
Como ainda não fotografei uniões de pessoas do mesmo sexo, deixo aqui duas imagens de casamentos mais tradicionais, uma tirada na praia de Positano, no verão de 2004, num ambiente algo confuso em que os noivos passam quase despercebidos no meio da multidão
e outra que tirei a um casamento no Cairo, em Abril de 2006.

É curioso como a noiva italiana tem véu e um decote mais reduzido do que a egípcia (que além disso não tem véu), sendo também interessante o contraste dos trajes dos noivos com os das pessoas que os rodeiam.
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