2008-11-07

Barack Obama

Por variadas razões este blog não costuma tratar temas da actualidade, embora seja influenciado por ela. Abro aqui uma excepção para não parecer excessivamente original, ao não me referir a este tema de que toda a gente fala

Depois da alegria e do alívio que constituiu para mim a vitória de Barack Obama nas eleições americanas deixo aqui alguns pensamentos que me ocorreram.

Os sistemas complexos são vulneráveis a grandes catástrofes. Por exemplo o corpo humano, uma maravilha de equilíbrios delicados mas ao mesmo tempo muito robustos, é capaz de sobreviver a enormes adversidades. No entanto, uns poucos miligramas de alguns venenos, bastam para provocar uma reacção em cadeia conduzindo à morte.

Quando o George W. Bush foi eleito (embora com aquele pormenor desagradável dos confettis dos boletins de voto da Florida) eu pensei que a América era uma democracia tão poderosa e robusta que podia dar-se ao luxo de colocar no lugar de presidente uma pessoa muito pouco dotada, um homem sem qualidades. Afinal, nem mesmo a poderosa América consegue evitar problemas gigantescos quando tem um presidente a tomar decisões erradas uma atrás da outra.

A própria Islândia, um país considerado entre os mais ricos do mundo, vê-se em menos de um mês numa situação financeira calamitosa.

Continuo surpreendido com a dificuldade que as sondagens tiveram de prever a vitória de Obama, que foi folgada no número de votos e esmagadora no número de eleitores.

Esta incerteza permanente e esta fragilidade de instituições que nos pareciam sólidas mostra-nos o cuidado que é preciso prestar ao que se passa à nossa volta e a necessidade permanente dos nossos contributos para que uma situação aparentemente boa e sólida não desabe de forma inesperada.

As últimas certezas sólidas que vi foram as dos amanhãs que cantam, do vento que soprava de leste e do horizonte que era vermelho e ultimamente dos mercados omnipotentes e omniscientes.

Como alusão à auspiciosa eleição de Obama deixo aqui uma imagem do "Moongate Garden", um jardim que existe no Smithsonian em Washington DC, inspirado nos jardins de Pequim que rodeiam o Templo do Céu, sendo um entre inúmeros exemplos da abertura do espírito americano às culturas dos outros povos do mundo.

2008-11-03

Montras no Cairo e em Argel

Fiz um elogio da cópia para ser diferente da actual maioria que elogia a originalidade. Elogiei a cópia para ser original, para não ser uma cópia. A igualdade e a diferença criam tensão. Por um lado gostamos de ser como os outros, fazer parte de uma comunidade, por outro gostamos da diferença pois sem ela perdemos a nossa identidade.

A roupa serve os dois propósitos. Em casos extremos usamos uniformes para que pessoas diferentes pareçam todas iguais. Noutros casos introduzimos grandes variações nos vestuários para que pessoas parecidas fiquem diferentes. Num passeio pelo Cairo surpreenderam-me algumas montras que passo a mostrar.

Peço desculpa pelos reflexos nos vidros que não consegui evitar.

A primeira montra parece-me ser para a classe média. Todos os vestidos são até aos pés, na forma de túnica larga, mangas compridas ou curtas, decotes mais ou menos pronunciados. Existe uma quantidade excessiva de vestidos em exposição, o objectivo parece ser aproveitar todo o espaço de exposição disponível, dispondo aos vestidos em aproximadamente dois andares. É curiosa a supressão sistemática da cabeça em todos os manequins. Não sei se será uma ortodoxia islâmica se uma maior focagem nos vestidos. Com uma concentração tão grande de vestidos a presença de cabeças nos manequins poderia ser aqui um elemento de perturbação.





A segunda montra seria talvez para a classe média alta pois os vestidos têm bordados bastante mais elaborados que na montra anterior. Os manequins ou não têm cabeça ou então trazem todos um véu a combinar com o vestido. É patente a pressão social para usar o véu. Pressão essa bem sucedida pois são raras as mulheres que andam nas ruas do Cairo sem véu.





Nesta terceira imagem duma montra com roupa de criança constata-se que todas os manequins de crianças têm direito a ter cabeça. No entanto, como usam lado a lado muitos manequins idênticos , a cena adquire um tom estranho e não consigo prestar atenção à roupa deste exército de manequins risonhos. Curioso que os manequins das meninas tenham todos imitação de cabelo, com feixes de fibras, mas são todas loiras. Será para parecerem menos reais?





A quarta montra, também com roupa de criança, oferece uma variante da terceira, dando uma sensação, se possível, ainda mais irreal. Acho que ficaria muito bem como uma instalação num museu de arte contemporânea. Presumo que também poderia ser usado como exemplo do que não se deve fazer numa montra, num curso sobre desenho de montras no Ocidente.




Passando agora para Argel, achei interessante esta loja de vestidos para ocasiões formais. Os vestidos deixam ver uma superfície maior da pele, embora esta liberalidade seja por vezes mitigada pelo uso de blusas de algodão justas, muitas vezes de mangas compridas, por baixo dos vestidos. Essa situação era muito frequente no Cairo onde se viam vestidos ou tops de alças usados em conjunto com essas blusas. Aqui não sentiram a necessidade nem de suprimir a cabeça das mulheres nem de lhes pôr um lenço. Notar que os manequins não têm fibras a imitar cabelo e que o penteado está à vista. Como usam muitos manequins num espaço pequeno, acabam por aparecer as caras iguais lado a lado, replicando o efeito das lojas de roupa para criança do Cairo.




Na mesma loja, do outro lado, há uma concentração maior de bordados com fio dourado. Não será bem o gosto ocidental mas é interessante ver uma montra que seria difícil encontrar em Lisboa ou em qualquer cidade da Europa. Com a globalização cada sítio ficou com maior variedade mas mais parecido ao do vizinho. Aqui, ainda não é o caso.


2008-10-28

Detesto praxes

Também detesto praxes. Quando entrei no Instituto Superior Técnico em Lisboa, no ano longínquo de 1966, existia uma semana de recepção ao caloiro, para ajudar a integrar os caloiros no novo ambiente. Faziam umas palestras e havia uns “convívios”, em que tocavam música nas instalações da Associação de Estudantes que se convertiam numa espécie de discoteca. Não era grande coisa mas os colegas mais velhos mostravam boa vontade e não havia qualquer espécie de praxe.

Considero que todas as tradições têm que ser justificadas, uma prática não se pode justificar pelo simples facto de ter sido executada uma ou muitas vezes mas neste caso nem sequer existe tradição em Lisboa e julgo que tão pouco no Porto. Eu associava a praxe à parte reaccionária e tradicionalista da Universidade de Coimbra que entretanto julgo que a aboliu na crise de 1969.

O elogio que fiz da cópia no post anterior não inclui a cópia acrítica de práticas abusivas da nossa dignidade.

Detesto tanto as praxes que nem consigo lembrar-me de uma imagem alusiva ao tema.

Detesto praxes.

2008-10-27

Elogio da cópia

A minha escolha do Egipto como referência para mostrar que era possível mudar a sociedade portuguesa de meados do século XX além de acidental (era a primeira civilização de que se falava na disciplina de História) é irónica pois nesta civilização as mudanças foram muito lentas.

Por exemplo, é impressionante a permanência das formas dos baixos relevos e das pinturas ao longo de centenas de anos, embora eu admita que esta frase soe mal a especialistas treinados em ver as diferenças que provavelmente foram sendo introduzidas na arte egípcia ao longo do tempo.

Claro que a originalidade, a mudança e a evolução são importantes mas por vezes podemo-nos esquecer da importância que também tem a cópia.

A utilização de elementos repetidos quer com fins decorativos, como nesta avenida processional com várias estátuas de carneiros representando Amon, o deus Sol, no seu templo em Karnak


quer com fins estruturais como neste conjunto de colunas idênticas num dos átrios do mesmo templo




continua a ser utilizada ainda hoje, estabelecendo ritmos sofisticados como nesta parte da Cidade das Artes e das Ciências de Valência projectada por Santiago Calatrava,





ou paredes móveis de grande dimensão como esta





neste edifício que faz lembrar uma joaninha






O ADN, cuja estrutura de dupla hélice está representada por este modelo espacial estilizado no átrio de outro edifício da Cidade das Artes e das Ciências serve precisamente para assegurar a reprodução de características que a selecção natural mostrou serem vantajosas


Por vezes esquecemo-nos que grande parte da força da vida reside precisamente na força da cópia.

2008-10-21

Esgotei as imagens do túmulo da Nofretari




Começo por agradecer ao Lutz o prémio Dardos que gentilmente me atribuiu aqui.

Estas cadeias de prémios são simpáticas mas partilham com os esquemas da pirâmide o problema da expansão exponencial: a certa altura esgotam-se os potenciais contemplados.

No meu caso, os blogs que eu contemplaria encontram-se na minha pequena lista de blogs e quase todos já foram contemplados pelo Lutz pelo que me dispenso de o fazer aqui.



Para sossego dos visitantes deste blogue quero informar que esgotei as imagens a cores do catálogo da exposição na Gulbenkian (em 1979) sobre a Nofretari pelo que este é o último post sobre o tema.

Não resisti a apresentar mais estas 3 imagens porque considero-as todas de uma grande beleza e não fui capaz de seleccionar uma em detrimento das outras.

Aqui ao lado temos o deus Osíris com os símbolos do poder real, coroas do alto e do baixo Egipto e uns ceptros.

Na figura seguinte vemos a Nofretari a fazer umas oferendas à deusa Isis confirmando assim que, quer os seres mortais quer os deuses, sempre gostaram de almoços grátis.

A última imagem tem a Nofretari mais o deus Hórus, que fica muito bem com a sua cabeça de falcão.






2008-10-18

Ainda o túmulo de Nofretari

No post anterior quebrei uma regra muito rígida da pintura egípcia ao representar o olho visto de lado em vez de visto de frente.

A versão tradicional parece incluir mais o espectador na cena da imagem, a rainha parece estar a olhar para o lado e ao mesmo tempo para o espectador, enquanto na versão alterada a Nofretari ignora o espectador completamente.

Surpreende-me que uma representação tão pouco natural seja tão bem aceite pelo nosso cérebro.

Surpreende-me também que este estilo tenha persistido durante tanto tempo com tão poucas mudanças quando, como acabei de mostrar, era tão fácil experimentar pequenas variações.

Continuo a mostrar pinturas do túmulo da rainha Nofretari, desta vez a rainha e ao lado a Isis e o Deus Ra (Sol) com uma cabeça de carneiro.




As explicações sobre o significado das figuras deixa-me sempre um bocado insatisfeito achando que é raro elas fazerem algum sentido.

La Palisse: é por estas imagens não fazerem sentido para ninguém actualmente vivo que esta civilização está extinta.

2008-10-16

Padrões fixos na pintura egípcia


No libreto da exposição da Gulbenkian de que falei no post anterior refere que os frescos do túmulo de Nofretari no Vale das Rainhas ao pé de Luxor foram realizados no século XIII AC e constituem o mais extraordinário exemplo de pintura mural da civilização egípcia que chegou até nós.

Na figura ao lado, obtida por um “scan” do libreto referido, é representada Nofretari oferecendo 4 tecidos, representados por YY invertidos, ao deus Ptah, mumificado e com a carne de cor verde que era a cor da ressureição.

As pinturas egípcias têm um estilo que as identifica com facilidade. Só há pouco tempo me apercebi (e foi por ter lido...) que uma das características mais marcantes é a representação sistemática das pessoas de perfil mas apresentando o olho visível sempre como se estivesse de frente.

Dadas as representações escultóricas bastante realistas que os egípcios nos deixaram, esta falta de realismo das pinturas (e dos baixos relevos) só podia ser propositada. Possivelmente consideravam que uma vez que a representação plana da realidade seria sempre incompleta deixavam o realismo para as esculturas, usando regras bastante rígidas nas representações pictóricas.

Foi essa rigidez que me apeteceu quebrar, representando também o olho de perfil, embora tenha caído numa representação mais convencional, sob o ponto de vista ocidental.





Na pintura ocidental este tipo de representação, em que duas vistas de perspectivas diferentes são apresentadas numa mesma imagem, só voltou a aparecer nas figuras cubistas de Picasso.

2008-10-13

A naturalização dos costumes e a civilização egípcia

A imagem do lado direito mostra a deusa Isis, protagonista do post anterior, conduzindo uma rainha egípcia para o reino dos mortos.

Quando em 1959 entrei no 1º ano (equivalente ao actual 5º ano de escolaridade) do liceu Camões, no anexo do Areeiro, era obrigatório levar gravata . Toda a sociedade seguia regras muito rígidas, com uma grande obsessão pelo que parecia bem e o que não parecia bem e um respeito enorme pela hierarquia.

“Honrar pai e mãe e outros legítimos superiores” era nessa altura a forma mais comum do quarto mandamento do Decálogo. Na versão actual do compêndio do Catecismo da Igreja Católica o mandamento diz apenas “Honrar pai e mãe”, embora nos comentários se afirme “...Os que estão submetidos à autoridade vejam os superiores como representantes de Deus e colaborem lealmente no bom funcionamento da vida pública e social...”.

(Nota: ao ir verificar o compêndio do Catecismo, julgava ir encontrar um texto expurgado da versão autoritária corrente no tempo do Salazar, não estava à espera deste “...vejam os superiores como representantes de Deus...”.)

Chateavam-me as visitas que se tinham que fazer a familiares, as salas de estar fechadas, reservadas para dias raros e de uma forma geral o ambiente abafado cuja descrição encontrei no Primo Basílio do Eça e que devia ser exacta porque fiquei a detestar esse romance.



Estas sociedades bloqueadas transmitem a ideia que as normas, costumes e relações entre as pessoas são realidades imutáveis, são a forma Natural. Daqui decorre a alegação que as coisas sempre foram assim e sempre hão de ser assim.

Foi com grande entusiasmo que nas aulas de História do 3º ano (actual 7º) tomei contacto com a civilização do Egipto dos faraós. Embora já me tivesse apercebido que alguns adereços comuns no passado, como por exemplo a espada com que costumava andar o D.Afonso Henriques, tivessem caído em desuso, as formas radicalmente diferentes de organização da sociedade egípcia em relação à nossa mostraram-me então claramente que as normas sociais se vão alterando ao longo do tempo.

As imagens deste post são do túmulo da rainha Nofretari (Nefertari em inglês), esposa favorita do faraó Ramsés II, túmulo esse que foi objecto duma exposição em 1979 na Fundação Gulbenkian, onde eram exibidas fotografias na escala 1:1 da totalidade do túmulo, montadas sobre painéis que reproduziam fielmente a forma do túmulo. Pena que esssa exposição não tenha passado a permanente pois seria óptima para ser visitada pelas escolas.






As duas imagens acima obtive-as aqui.


2008-10-04

Isis

Os braços das espirais lembraram-me os braços da deusa egípcia Isis numa imagem gravada no sarcófago do faraó Toutankamon e exposta no museu do Cairo.



Na visita que fiz em Abr/2006 tive que deixar a máquina fotográfica na entrada do museu pois era proibido entrar com ela. Quando já dentro do museu vi um visitante a tirar fotos com o telemóvel. Compreendo a proibição de usar flash, quer pelos eventuais danos às obras de arte quer pelo incómodo que causam aos outros visitantes. Tenho grande antipatia pela proibição de fotografar sem flash pelo que sucumbi à tentação de usar o telemóvel para fotografar a base do sarcófago de ouro do faraó Tutankamon.

Estando algo nervoso não configurei bem o telemóvel e o flash foi inadvertidamente accionado quando fotografei a figura alada da deusa Isis na base do sarcófago. Sendo o flash do telemóvel uma luz discreta é contudo conspícuo para os guardas da sala do museu pelo que fui imediatamente detectado e admoestado por um zeloso funcionário. Felizmente não houve mais consequências do que ficar com uma foto tirada em péssimas condições. Como gostava da figura fiz uns retoques para, por assim dizer, a fazer regressar à vida.

Depois achei que o "making of" dos retoques poderia dar uma sequência de imagens engraçada. Fiz um Power-Point mas como não é apresentável neste blogspot fiz agora um filme usando o "Windows Movie Maker". Espero que gostem do resultado:


2008-10-02

Espirais dos Girassóis - 2

Na realidade desenhar as espirais, usando a mesma folha excel em que se calculam as coordenadas de acordo com a fórmula de Helmut Vogel referida no post anterior, até não é muito difícil.










Cada ponto desta nuvem de 200 pontos tem um número de ordem, que aparece na fórmula. Começando no ponto 200 e subtraindo 34 de cada vez até chegar a um número menor ou igual a 34 obtém-se (o conjunto de pontos que constitui) a primeira espiral. Começa-se a segunda espiral tirando uma unidade a 200 e repetindo a subtracção de 34. As últimas 3 ou 4 espirais têm menos um ponto do que as primeiras. Fazendo copy and paste da 2ª espiral, deixando um espaço em branco entre cada rectângulo de valores e repetindo esta operação 33 vezes, o que ainda cabe dentro da minha paciência, obtém-se com uma série única (no sentido de "Chart series") toda uma família de espirais.

Fazendo uma coisa parecida para a família de 21 espirais, fica-se com o boneco da esquerda, de 200 pontos com 21 e 34 espirais.

Na imagem da esquerda mostro os mesmos 200 pontos unidos pelas 13 espirais que eram óbvias na nuvem de 100 pontos e que continuam a existir na nuvem de 200 pontos.

Isto mostra que à medida que aumenta o número de pontos da nuvem começam a ser visíveis um maior número de espirais. Faço notar que, por exemplo, as 34 espirais visíveis na nuvem de 200 pontos são praticamente invisíveis na nuvem de 100 pontos pois neste caso cada uma delas tem apenas 3 pontos.

2008-09-30

Girassóis, Pinhas e Fibonacci



A propósito das espirais que aparecem na imagem aqui à direita neste post, perguntaram-me qual a relação entre a sequência de Fibonacci e as espirais das pinhas e de algumas flores.

Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que as espirais que aparecem no copo visto de cima nada têm a ver com a sequência de Fibonacci.

Neste copo existe um conjunto de 30 espirais passando pelos bicos da superfície do copo, em que pintei duas de verde e outro conjunto, também de 30 espirais, em que pintei duas de laranja.

Estas curvas em forma de espiral podem ser associadas ao que acontece à quadrícula existente numa superfície plana que seja deformada até se transformar numa superfície curva parecida à do copo. Na imagem à direita apresenta-se a quadrícula com e sem deformação.


As espirais laranja, ao evoluírem do centro para a periferia viram para a direita enquanto as verdes viram para a esquerda. Neste caso o número de espirais que vira para a esquerda é exactamente igual ao número de espirais que vira para a direita. A figura é simétrica em relação ao centro e a muitos eixos.

Passo agora a apresentar duas figuras que também são atravessadas cada uma por dois conjuntos de espirais:









Desenhei as espirais a partir da periferia para o centro pois é mais fácil reconhecer a que curva pertence cada ponto. Notar que tive dúvidas em relação a alguns dos pontos centrais pelo que não os liguei.

Nestes dois novos exemplos, em que as espirais verdes viram para a direita quando se afastam do centro e as espirais vermelhas viram para a esquerda quando se afastam do centro, constatamos que na figura “Girassol (100 pontos)” existem 13 espirais verdes e 21 vermelhas, enquanto na figura “Girassol (200 pontos) existem 21 espirais vermelhas e 34 espirais verdes.

A sequência de Fibonnaci é 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, ...(há quem diga que começa em 0) pelo que alguém já terá reparado que os números de espirais verdes e vermelhas que se encontram em cada uma das duas nuvens de pontos pertencem á sequência de Fibonacci.

E o que é que estas duas nuvens de pontos têm a ver com pinhas e com flores, perguntará agora o leitor mais impaciente.

As pinhas ficam para mais tarde mas, em relação às flores, constata-se que os pontos daquelas duas imagens correspondem com bastante exactidão às flores elementares que constituem a inflorescência que é um girassol.

Obtive as nuvens de pontos fazendo uma folha excel que calcula a fórmula proposta por Helmut Vogel em 1979, como modelo para a distribuição das flores na inflorescência de um girassol, em coordenadas polares: r = c √ n; θ = n x 137,5º, conforme explicado aqui.

Surpreende-me como uma fórmula tão simples pode originar esta riqueza de padrões. A seguir mostro as mesmas nuvens de 100 e de 200 pontos sem os segmentos de recta a materializar as espirais, para facilitar a tarefa de quem queira traçar as espirais ele próprio.



Ainda não percebo como surgem estes conjuntos de espirais. Para ter uma maior sensibilidade ao que se passa fiz uma nuvem em que os primeiros 100 pontos, os interiores, foram marcados a preto e os 100 subsequentes a vermelho.


As 21 espirais vermelhas que existiam na nuvem de 100 pontos são as mesmas presentes na nuvem de 200 pontos mas as espirais verdes que passaram de 13 a 34 são, como seria de esperar, diferentes.







A figura ao lado mostra a transição das 13 para as 34 espirais. As 13 espirais da nuvem de 100 pontos continuam lá mas é possível continuar para dentro as novas espirais cujo trajecto, na nuvem de 100 pontos, se limitaria a um ou dois segmentos.

O facto de eu ter recorrido a espirais desenhadas à mão revela a minha ignorância sobre algoritmos para as identificar, o que não quer dizer que não existam mas, mesmo que existam, já estão fora do âmbito deste post.

Julgo ter mostrado do que se fala ao referir a sequência de Fibonacci em relação aos conjuntos de espirais que estão presentes nos girassóis. Continuo surpreendido quer com a simplicidade da fórmula que permite gerar estas nuvens de pontos quer também com a data relativamente recente (1979!) em que Helmut Vogel a propôs.

A distribuição dos pontos apresenta uma densidade muito regular em toda a área abrangida, o que constitui uma vantagem, sendo uma forma muito elegante de preencher um círculo.

Evitei mostrar imagens das pinhas porque são superfícies não planas mas neste site mostram espirais seguindo também a sequência de Fibonacci.

A maior parte deste post resultou de consultas destas entradas na Wikipedia:
- Sunflower, Fermat’s Spiral , Golden angle

Este tema é muito vasto e o Google fornecerá certamente muitos mais sítios a explorar. Este tinha imagens interactivas.

Para finalizar deixo esta imagem da Wikipedia obtida por L. Shyamal e mostrada aqui.

2008-09-29

Regresso à Botânica

O vestido vermelho do post anterior foi feito numa altura em que os mercados financeiros estavam muito mais exuberantes do que actualmente.

Esperando por melhores dias, optei por regressar à Natureza (se bem que ajardinada) tendo sido guiado pelas linhas rectas que no vestido convergiam no umbigo e que aqui convergem num ponto que parece atrair tudo, criando uma sensação de quase vertigem.



Devia ter tomado nota do nome desta planta existente no Jardim Botânico da ilha de Lokrum, a 15 minutos de barco da cidade de Dubrovnik, na Croácia. Como não o fiz deixo aqui uma foto da planta em questão que conjecturo tratar-se duma "puya", uma planta nativa da América do Sul. Se alguém souber o nome agradeço a informação.

A foto da esquerda é a que eu tirei em Lokrum e a da direita é uma imagem que encontrei na net aqui e que foi tirada no Peru. A da direita trata-se de uma Puya de Raymondi, a da esquerda presumo que não.





Gostei muito desta pequena palmeira bem como da foto. Ao fotografar árvores, várias vezes o reflexo do sol nas folhas tem baralhado a minha máquina fotográfica levando a uma exposição incorrecta. Desta vez acho que a imagem saiu bem.

2008-09-27

Belo, Bonito e Esquisito

Pensei que na sequência de um corpo nu e de um corpo envolto num vestido o próximo elemento da sequência deveria ser um vestido sem corpo, neste caso revestindo um manequim.

Trata-se de uma foto que tirei duma montra de Manhattan e que a Sara Pais tinha gentilmente publicado aqui.





O vestido faz lembrar um Origami, tema já abordado neste blogue aqui e aqui e conjecturo se terá sido desenhado pelo Issey Miyake de quem recordo ter visto uns vestidos muito originais com umas pregas como as dos origamis, embora às vezes também fizessem lembrar as saias plissadas da minha juventude de que tenho má memória. Na busca duma imagem parecida passei pelo site deste estilista e fiquei muito bem impressionado com a qualidade da apresentação.

O vestido fez-me também pensar na relação difícil que os Portugueses têm com as coisas boas.

É-nos difícil dizer que algo é belo, a palavra é usada quase exclusivamente antes de um substantivo mas aí no sentido da perfeição, como num belo jantar ou num belo passeio. Neste caso será talvez um pouco mais que bom. Soaria pretensioso dizer que "este vestido é belo".

Poderemos dizer que é um vestido bonito mas aí podemos ser interpretados como querendo dizer que é uma coisa "bonitinha" dir-se-ia que um pouco kitsch.

Mas onde as conotações portuguesas correm verdadeiramente mal é na evolução etimológica do significado de "esquisito", outro dos adjectivos possíveis de aplicar a este vestido. Enquanto que o "exquis" francês, o "exquisite" inglês e o "exquisito" espanhol (dizem-me que também o alemão) significam todos algo extremamente requintado e fora do comum, em português o significado limita-se a caracterizar algo como estranho, fora da norma e mesmo nalguns casos como algo estragado (como em "está com um gosto esquisito"). Os compatriotas teriam tido assim um grande convívio com a labreguice, sendo incapazes de reconhecer as grandes qualidades das coisas requintadas.

P.S. Ontem estava bloqueado. Dizer "o vestido é lindo ou lindíssimo" resolve a questão.

2008-09-25

Winslow Homer


A propósito da maior liberdade que sinto para seleccionar uma parte de um quadro, embora mantendo respeito pela obra e mostrando primeiro uma versão com menos definição da sua totalidade, seleccionei este quadro, "Dinner Horn", que vi na National Gallery em Washington.


O quadro foi pintado em 1870 pelo Winslow Homer, um pintor americano famoso do século XIX.


Gostei imenso da figura da rapariga, da luz, do vento, do ar desembaraçado. Está a tocar a corneta para o jantar.






Segundo a Wikipedia este pintor foi um autodidacta, situação em que me tenho encontrado com grande frequência, não sei se por falta de paciência para ouvir os professores, se por escassez destes nas áreas específicas a que me tenho dedicado.

Estava a pensar dizer que também fui autodidacta na construção deste blogue mas lembrei-me a tempo dos exemplos que me forneceram os blogues que constam da minha lista e que me deram muitas ideias sobre o que poderia ser o meu blogue.

Não são frequentes em Portugal as referências a este pintor. No blogue "Hole Horror", em que as imagens ocupam um pouco menos de espaço que aqui e os textos um pouco mais, tinha um quadro do Winslow Homer neste post.

2008-09-24

Amrita Sher-Gil (2)

Gostei, entre outros, destes dois quadros da Amrita Sher-Gil:





Amrita Sher-Gil (1913-1941)

A propósito de diversidade gostei de uma destas 3 imagens que me enviaram num e-mail, no meio de um ficheiro Power-point com outros quadros. Surpreendeu-me que tivesse sido feito por uma indiana e fui à procura de mais imagens da pintora Amrita Sher-Gil e da sua biografia.

Nessa busca descobri mais duas versões do mesmo quadro, que apresento a seguir:









Eu diria que neste caso parece haver diversidade a mais na apresentação de um mesmo quadro embora o problema seja conhecido: é frequente os posters (ou as reproduções em livros de arte) terem variações grandes das cores em relação ao original e já me tem acontecido ficar um pouco decepcionado pelo original por me ter afeiçoado às cores de uma reprodução.

O mesmo me acontecia quando pedia mais cópias de uma fotografia em papel, sendo raro que as cópias viessem com tonalidade de cor, brilho e ou contraste idênticos à primeira cópia. Aos poucos fui abandonando a ideia de uma reprodução exacta da realidade. Na verdade, como a imagem é muito influenciada pela luz existente, é praticamente impossível, ainda por cima utilizando material fotográfico amador, obter a tal imagem "exacta".

Neste caso específico de reprodução de um quadro a luz usada para o fotografar deveria ser oo mais possível idêntica à usada para o pintar. Acho que a versão da esquerda tem azuis a menos, o do meio perde detalhe, nomeadamente no dragão, parecendo-me que o da direita é o que reproduz mais fielmente o quadro.

Apresento a imagem preferida um pouco maior aqui em baixo. O enquadramento desta imagem corta uma parte do quadro mas tenho vindo a sentir ultimamente que tenho o "direito" de seleccionar uma parte de uma imagem, quer para destacar um pormenor quer para obter um formato mais conveniente. Neste caso não tive possibilidade de escolha em relação ao enquadramento, era o que havia.


2008-09-21

Viva a diversidade!

A propósito do "Viva a diversidade!" do post anterior lembrei-me deste cartaz notável da 5ª Festa da Diversidade de Lisboa em 2003. À primeira vista julguei que fosse alguma maquilhagem mais radical, só após algum tempo me apercebi que se tratava da combinação judiciosa das caras de 6 mulheres com tons de pele, de cabelo e idades muito diferentes.