2010-04-23

Imperador

Mostrando o rouxinol no post anterior, deveria agora mostrar um imperador.

Como os actuais já não usam esse nome, optei por mostrar este deslumbrante Diwan-i-Am, local de audiências públicas, no forte vermelho de Agra, no estado de Utar Pradesh da Índia, onde o grande imperador mogol Akbar (segunda metade do século XVI) e os seus descendentes receberam os seus súbditos.

É uma arquitectura bem adaptada ao clima, protegendo do sol a pino mas deixando passar a brisa refrescante.



2010-04-21

Rouxinol

Há muito tempo havia uma colecção de mini-livros para crianças, chamada Formiguinha, de que ainda recordo algumas histórias.

Numa delas entrava um mandarim e um rouxinol e a memória que me ficou foi de o mandarim ter metido o rouxinol numa gaiola, para poder apreciar sempre que quisesse o seu canto maravilhoso. Porém o pássaro entrou em depressão, perdendo a vontade de cantar. Mas quando alguém se esqueceu de um telemóvel “made in China” na gaiola, o rouxinol deu umas bicadas no teclado, enviando uma mensagem SMS ao mandarim, dizendo-lhe que caso lhe devolvesse a liberdade viria cantar todos os dias na varanda onde ele costumava observar o pôr-do-sol. O mandarim decidiu arriscar e a história acabou bastante bem, com o mandarim a ouvir regularmente o cantar do rouxinol ao pôr-do-sol.

A memória às vezes atraiçoa-nos e não garanto que este pormenor do SMS fizesse parte do original, se calhar recorriam ao truque de dizer que os animais falavam, mas parece-me um truque tão bom como outro qualquer.

Agora fui ao Google e como com mandarin e nightingale não estava a ter muito sucesso mudei para emperor e lá me apareceu uma história do Hans Christian Andersen. Afinal havia na história um pássaro mecânico e alguma má vontade contra o autómato cujo principal problema julgo tratar-se da falta de memória de massa, o que o tornava bastante repetitivo. Quando a memória de massa aumenta muito, como num ipod, o problema da repetição dos trechos musicais quase desaparece.

Mas o que é facto é que a força da marca “Rouxinol” ficou para sempre associada na minha mente à de um pássaro que canta muito bem, embora nunca tivesse reconhecido o canto do rouxinol.

Devido ao grande interesse que o meu neto, que ainda não fez dois anos, manifesta por todo o pássaro que avista, fui no outro dia ao YouTube e lembrei-me logo de procurar o Rouxinol.

Finalmente pude apreciar o canto desta ave que vale a pena ouvir:






Afinal este rouxinol dentro duma gaiola dá uma performance mais completa, se calhar é o prenúncio da entrada em depressão:





No blogue Sabores Ocultos refere a colecção Formiguinha, da editorial infantil Majora, onde constatei que o número 35 era “O Rouxinol e o Imperador”.

2010-04-18

Alinhamentos indiscretos

Já não me lembro quando contactei com o conceito de intersecção de alinhamentos para definir um local, se foi no mar para referenciar um local debaixo de água, onde estaria algo submerso, se foi num livro, como forma de localizar um tesouro.

Numa paisagem citadina não existe grande utilidade para este conceito mas, com a disponibilidade do Google Earth, apareceu uma aplicação relativamente simples de localizar o ponto de tomada de uma foto, a partir dos alinhamentos que surgem numa fotografia.

Por exemplo na foto do post anterior marquei duas linhas


que correspondem às rectas que tracei no Google Earth e que mostro aqui


e com mais detalhe aqui:


Admito ter feito um pouco de batota, pois neste caso eu sabia de onde tinha tirado a fotografia e o cruzamento das duas rectas, formando desta vez um ângulo muito agudo, define mal a intersecção.

Mas é agora por vezes fácil identificar o local de onde se tirou uma fotografia, usando apenas esta e os mapas do Google Earth.

Adenda: espero que os leitores não sintam enjoo, com a linha do horizonte fazendo um ângulo tão grande com a horizontal. Tinha a máquina há pouco tempo e não conseguia prestar atenção a tudo. E não me apeteceu corrigir com pós-processamento porque as imagens perdem normalmente um pouco da nitidez.

2010-04-17

Praia da Rocha, Setembro de 1974

Passei noutro dia por uma imagem da Praia da Rocha, que presumo tirada do hotel Júpiter, que me fez "desenterrar" umas imagens antigas que tenho dessa praia.

Estava-me a estrear na fotografia com uma recém-adquirida Olympus OM-1, com uma objectiva de 50mm. Na altura julgava que iria comprar mais lentes mas o meu horror a pesos levou-me a manter apenas essa objectiva.

Tratam-se de slides que digitalizei há alguns anos e que ficaram assim muito mais acessíveis.

Esta primeira imagem tem em primeiro plano do lado esquerdo a vivenda modernista do pai do José Manuel Tengarrinha, cuja privacidade foi destruída pelos prédios que ergueram na sua vizinhança, os edifícios MiraMar e MiraRocha e o hotel Júpiter. Do lado direito estão uns tantos carros no parque do hotel Belavista, datando a fotografia. Os carros dão muitas vezes ideia de quando a fotografia foi tirada, é impressionante como os modelos estão sempre a mudar.




Esta imagem foi tirada do terraço da cobertura do edifício MiraRocha, nota-se que a praia tinha muito menos gente:




Ainda do mesmo terraço mas a vista para Monchique, então completamente desimpedida, com um espaço se construções apreciável entre a Praia da Rocha e Portimão, agora há aqui uma "muralha de prédios" que tapa quase tudo.

2010-04-15

Juízo Final

Por várias vezes fiz a conjectura que o poder judicial português estava a ser usado por alguns dos seus membros para atacar o poder político, numa aliança com os meios de informação. Há uma exploração da ideia que os políticos são maus e corruptos, estando a verdade a ser defendida pelos jornais. Felizmente que por vezes isso acontece, dando assim os jornais uma contribuição para uma melhor governação mas, assim como nem todos os políticos são maus, tão pouco todos os jornalistas são bons e, por vezes, os escândalos não passam de pretextos para vender mais jornais. A certa altura, os próprios políticos sentem que também eles têm que denunciar alguma coisa e é a fase em que estamos actualmente, com a criação sucessiva de comissões de inquérito parlamentar para apuramento da verdadeira verdade.

Temos assim que a polícia, os magistrados, os media e os parlamentares estão todos a vigiar o comportamento dos nossos políticos. Há que ter portanto esperança pois com tanta gente a vigiá-los será praticamente impossível colocarem pé em ramo verde.

Mesmo que tudo falhe resta ainda a esperança do Juízo Final, que apresento aqui na interpretação feita por Miguel Angelo, num fresco na parede do altar da Capela Sistina no Vaticano:




O uso do sistema judicial para outros fins não se limita a Portugal. Diz-me um colega que estas confusões de lutas entre políticos, magistrados, jornalistas e parlamentares têm tido desenvolvimentos muito semelhantes na Polónia.

Ultimamente, devido aos escândalos quer dos abusos sexuais de menores por padres da igreja católica, quer pelo encobrimento de demasiados desses casos pela hierarquia, surgiu um conjunto de ataques que me parecem desproporcionados e que conduziram com uma rapidez tão grande a ataques directos ao papa, que me fizeram pensar que alguns sistemas judiciais, em conjunto com os jornais, estavam a ser usados de uma forma muito semelhante à que presenciara há relativamente pouco tempo em relação a vários políticos de Portugal.

Nos primeiros casos que referi era a oposição a atacar o poder executivo, agora são os ateus mais militantes a atacar a hierarquia católica.

Mais uma vez é difícil saber do que estamos a falar. As estatísticas portuguesas sobre abuso sexual de menores que encontrei através do Google:
"http://www.dgpj.mj.pt/sections/estatisticas-da-justica/destaques/abuso-sexual-de-menores/downloadFile/file/Abuso_menores.pdf?nocache=1171376063.63" incluem o ano de 2002 e o de 2003 até Agosto. Esta ausência de números leva-nos directamente para discussões onde não existe o sentido da proporção.

Noutra altura ainda hei de regressar a este fresco sobre o Juízo Final. Por agora limito-me a recomendar posts sobre estes ataques no 2 Dedos de Conversa, no Hole Horror e no Mar Salgado .

2010-04-08

Pássaros no Nevoeiro

Não resisti a trazer esta imagem do "Expresso do Oriente", foto tirada por Roger Becker para a National Geographic.



Estas fotografias que parecem pinturas fazem-me pensar que a pintura oriental tem aspectos muito mais naturalistas do que parece à primeira vista.

A ave da esquerda parece-me um corvo-marinho, a da direita uma garça.

Um dos ramos parece um traço desajeitado do pincel.

2010-04-07

Bentley

Nos últimos dias tenho-me cruzado com este Bentley, estacionado ao lado dum passeio no meu trajecto de casa para o trabalho. Não é habitual ver estes carros estacionados na via pública, além de serem raros, normalmente beneficiam da possibilidade de se abrigarem nas garagens que os seus donos possuem. Poder-se-ia dizer que a crise vai tão má que já nem os donos de Bentleys têm garagem para os guardar...




O meu primeiro contacto com a palavra “Bentley” foi num conto dos cinco em que aparecia um Bentley preto. O nome ficou-me na memória provavelmente por nunca ter visto um automóvel dessa marca. Fiz agora google a (enid blyton bentley) e constatei que existia realmente um “mysterious Black Bentley” numa das histórias.

Disseram-me depois que tinha sido uma marca absorvida pela Rolls-Royce, sendo um carro mais desportivo, o Rolls normalmente era conduzido pelo chauffeur, enquanto o Bentley “podia” ser conduzido pelo dono.

Fui agora ver o site da Bentley e constatei que o modelo da imagem foi produzido na década de 1980-1989, tendo sido o reinício da diferenciação da marca, após anos em que eram praticamente iguais aos Rolls-Royce.

O carro terá entre 20 e 30 anos, está bem conservado e é um carro bonito, de uma beleza clássica, com a grelha frontal de grande discrição pois usa a cor da carroçaria em vez do cromado habitual.

Há muito tempo li na revista l’Automobile uns testes que fizeram a um Cadillac, a um Rolls-Royce e a um Mercedes 600, tendo apurado que as performances desses automóveis não justificavam o seu preço, com um topo de gama de então da BMW conseguia-se uma melhor performance e conforto por metade ou terço do preço desses automóveis de grande luxo. O artigo concluía que esses carros se vendiam pelo status que davam o seu dono.

Foi por isso com algum desagrado que ouvi o empresário António Champalimaud dizer há muito tempo numa entrevista na TV que tomara uma decisão economicamente fundamentada quanto optara por adquirir um Bentley, comprara um carro para durar. Embora sendo caros, o preço destes carros seria acessível a um conjunto muito grande de pessoas se fosse realmente um bom investimento, em vez duma despesa desnecessária. Ainda não consegui perceber a necessidade que o empresário sentiu de tentar justificar um consumo supérfluo. Se fosse um político dir-se-ia que tinha mentido.

Mas estes modelos de luxo servem também para afinar em pequenas séries as novidades de conforto, segurança e performance que se estendem passados poucos anos à generalidade dos automóveis.

2010-04-06

Peder Severin Krøyer

Há muitos anos banalizaram-se os posters, impressões económicas em papel de fotografias, que muitas vezes tinham como objecto quadros expostos em museus. O facto de se usar uma palavra estrangeira para exprimir este conceito mostra que ele é recente e não foi inventado em Portugal. Os posters permitiram decorações muito mais alegres e económicas do que as que tinham estado disponíveis até à época. Nos anos 70 do século XX lembro-me dos posters que permitiam cobrir uma parede ou uma porta com aquelas florestas dos países nórdicos existindo também uma companhia com sede em Copenhaga, chamada Minerva, que fazia (não a encontrei na internet logo não existe) reproduções de quadros.

A qualidade da impressão devia ser muito boa porque ainda tenho alguns posters dessa altura, se bem que algo debotados. Na altura (e ainda agora) gostei muito desta imagem, que tenho na minha casa, e que não tive até há pouco tempo curiosidade para conhecer o respectivo autor.




Mas com a internet estas pesquisas ficaram todas mais simples e procurando Kroyer apareceu-me logo uma referência ao pintor Peder Severin Krøyer (1851-1909), de nacionalidade dinamarquesa, que deve ter pintado este passeio na praia ao fim da tarde no Verão de 1893 em Skagen, no extremo norte da península da Jutlândia.

Gosto do minimalismo dinamarquês, da melancolia da paisagem, da tranquilidade das passeantes que conversam, dos reflexos dourados da luz do sol poente nos vestidos e na areia e embora aprecie muito a frequente nitidez do horizonte de Portugal, também não desgosto de ver de vez em quando esta mistura nórdica do mar e do ar.

2010-03-30

Consumos de um PC



Ainda usando o aparelho medidor de consumo de energia eléctrica que referi no post de 26/Março, fiz uma série de testes com o meu PC fixo, que na altura ainda tinha um CRT (tubo de raios catódicos) como monitor, enquanto agora já tem um LCD que gasta menos energia. O consumo variava sobretudo com a actividade do disco e com os estados do monitor em activo ou em modo de poupança de energia. Depois do “shutdown” (encerrar o sistema operativo) ficam tipicamente alguns periféricos a gastar pequenas quantidades de energia em modo standby” (modo espera).




No gráfico coloquei algumas legendas para mostrar o género de actividade. Quando há uma actividade frenética no disco, por exemplo quando o programa antivírus ou anti-malware anda a aceder aos ficheiros todos, o meu PC chega a consumir um pouco mais de 200W. Ema actividade normal (que corresponde a fazer pouco) fica-se pelos 170W. Quando o CRT entra em “Power-save” (modo de poupança de energia) o PC gasta cerca de 100W. Após encerrar o sistema operativo ficava um consumo residual de 20W, atribuíveis a um conjunto de portas USB, um subwoofer com amplificador, um scanner, uma impressora de jacto de tinta, a caixa do PC (que mesmo desligado fica com um consumo residual e o próprio CRT.

Acabei por comprar um conjunto de tomadas com interruptor para suprimir os 20W residuais.

Ao fim das 8760 horas de um ano, ao consumo permanente de 20W corresponde um valor acumulado de energia anual de 175 kWh. Custando 1 kWh actualmente cerca de 12c€, os 175kWh custarão 21€, o que não sendo nenhuma fortuna é contudo uma despesa completamente inútil.

Acho que não vale a pena uma pessoa andar muito obcecada pelos consumos de energia de aparelhos que são usados ocasionalmente, sendo estes consumos que ocorrem de forma permanente aqueles com que se deve ter mais cuidado.

2010-03-29

Pombos nos Olivais

Esta imagem poderá ser banal mas atraiu-me a atenção a dependência menos directa destes pombos em relação aos seres humanos. Uma pessoa está tão habituada a ver estas aves em praças a serem alimentados pelos passantes que é quase estranho vê-los à cata de alimento num ambiente mais natural.


2010-03-26

Eficiência energética e tempo de vida



Há uns tempos adquiri um equipamento muito interessante que possibilita medir o consumo de um ou mais electrodomésticos de uma forma simples.

O equipamento iMeterPlug, mostrado aqui ao lado, e fabricado por uma empresa portuguesa com sede em Coimbra, consiste numa caixa com uma ficha saliente que se liga numa tomada eléctrica, possuindo essa mesma caixa uma tomada onde se liga o aparelho cujo consumo se pretende medir.

O desenho é radical pois não existem botões de comando nem mostradores, comunicando o aparelho com o exterior através da tecnologia Bluetooth. Instalando uma aplicação no PC ou em telemóveis com Java tem-se acesso aos valores medidos instantaneamente, tais como a potência activa, a reactiva, a tensão, a corrente, a frequência e o ângulo de fase, como ilustrado na representação parcial da interface de diálogo no PC que mostro a seguir.


Além destas medidas a caixa pode contar a energia consumida e armazenar para downloads futuros os valores medidos cada (por exemplo) minuto, tendo o meu modelo capacidade para armazenas 1250 amostras. Estes valores podem ser enviados via Bluetooth da caixa para o PC, onde é fácil colocá-los numa folha Excel e fazer algum processamento adicional como por exemplo apresentá-los num gráfico.

Foi o que fiz em tempos com o meu frigorífico, um combinado de cerca de 300 litros de capacidade, com a parte de baixo para congelados, com 2 compressores, adquirido em 1988, tendo tido uma reparação importante durante a sua vida e algumas mudanças de borrachas.

O gráfico com valores vermelhos mostra o consumo do frigorífico antigo durante 1250 minutos, cerca de 21 horas. Vê-se que um dos compressores consome cerca de 100 W enquanto o outro 150W. Os compressores ligam e desligam de forma independente, ocorrendo frequentemente o funcionamento simultâneo, altura em que o consumo se situa cerca de 230W.




Ao fim de 8,4 dias o frigorifico antigo consumiu 22,6 kWh dando um consumo médio diário de 2,7 kWh. O combinado mais ou menos com a mesma idade, de um colega a quem emprestei o iMeterPlug, tinha uma consumo médio semelhante.

Há menos de um mês o frigorífico antigo avariou-se e achámos que estava na altura de o substituir. Comprámos um combinado parecido, também à volta de 300 litros de capacidade, classe de eficiência A+. Foi com bastante curiosidade que fui verificar o consumo da nova aquisição. Conforme se pode ver no gráfico a seguir




a evolução da eficiência energética dos frigoríficos ao longo destes 22 anos foi espectacular. O consumo médio do frigorífico novo ficou-se pelos 0,6 kWh diários, em vez dos 2,7 kWh! Noto também que faz muito menos barulho do que o modelo anterior.

Há muitos anos li numa revista da Science et Vie que a indústria automóvel deveria evitar o erro dos fabricantes de frigoríficos, que tinham feito umas máquinas tão perfeitas que os consumidores não necessitavam de mudar de modelo, acabando o mercado por ficar saturado.

Continuo a achar este pensamento profundamente errado e achava que era desejável que os bens de consumo duradouros fossem tão duradouros quanto possível, sem obsolescências prematuras e premeditadas.

É irónico que sejam agora os próprios frigoríficos a matizar esta minha opinião. Poderá eventualmente ser mais ecológico produzir produtos um pouco mais baratos e menos duráveis, quando houver uma expectativa boa de melhorar a eficiência energética num futuro próximo.

Aos preços actuais dos frigoríficos e da electricidade em Portugal, uma diferença de consumo diária de 2,1 kWh paga o frigorífico novo em 5 anos!

Mesmo assim, é possível que a troca de um frigorífico antigo a funcionar bem por um novo mais eficiente não corresponda a um começo de poupança de energia ao fim de cinco anos, pois o frigorífico novo poderá ter muita energia envolvida no seu fabrico, adquirida a um preço menor por ter sido comprada com uma tarifa de grande consumidor industrial.

2010-03-24

Primavera

Com uns diazitos de atraso comemoro aqui a chegada da Primavera. Nos tempos de crise não podia usar o ouro sobre azul, tive que recorrer a este branco sobre azul, de uma árvore florida nos Olivais Sul.


2010-03-23

Estátuas coloniais

Quando estive em Macau em 1990 fotografei o Hotel Lisboa, que me surpreendeu pela sua arquitectura exótica para os olhos de um ocidental.


Devo ter incluído no enquadramento a estátua equestre do antigo governador de Macau, João Maria Ferreira do Amaral (1803-1849), em parte para documentar a sua presença, pois parece-me que seria possível encontrar um enquadramento que não a incluísse. No entanto presumo que não fiquei fascinado com a atitude do ex-governador, que parecia estar a bater em alguém que estava ao lado do cavalo e que seria presumivelmente um chinês, pois na imagem quase que só se vê o cavalo.

Para compensar esta falha mostro outra imagem que encontrei aqui.



Tenho uma vaga memória de me terem dito em Macau que os chineses não gostavam da estátua e dalgum bru-á-á em Portugal quando a estátua foi retirada, ainda durante a administração portuguesa do território, constatei agora numa consulta na net que isso ocorreu em 1992.

Na altura achei a conversa de que não se deve apagar o passado completamente disparatada, ao confundir a preservação da memória com a comemoração ou celebração de um dado evento ou personagem histórico, de que os habitantes do território ou os seus antepassados não guardam boas recordações.

A estátua foi recambiada para Lisboa e encontrei-a por acaso há uns dois ou três anos na Alameda da Encarnação, no topo relvado mais próximo do cruzamento da Av. de Berlim com a Av. Cidade do Porto.



Não sei qual o motivo para a colocar aqui mas os contentores das obras já estão no sítio há imenso tempo, a estátua parece estar de castigo...

2010-03-22

World Land Grab

Achei sugestiva esta imagem que vi pela primeira vez aqui e que foi tirada daqui.



Há alguns detalhes criticáveis na figura, por exemplo não faz sentido referir que a China comprou 1050 hectares no México, existem herdades no Alentejo com esta área, 1050 hm2 são 10,5 km2 que correspondem a um quadrado com 3,2 km de lado. Com certeza que existem companhias americanas proprietárias de áreas muito maiores quer no México quer na América Central e/ou do Sul, além de não serem mostrados terrenos detidos pelos países europeus.

A imagem inclui uma certa “dramatização” pois as áreas dos terrenos possuídos são colocadas sobre o mapa dos países. Embora seja óbvio que as escalas são diferentes e se possa argumentar que era preciso dar alguma dimensão para que os números coubessem dentro dos círculos, fico com uma sensação de alguma “batota gráfica”.

Existem contudo casos significativos, como por exemplo Madagáscar, que fazem pensar numa nova forma de colonialismo. O estabelecimento de alguns produtores estrangeiros num país é factor de enriquecimento, pela troca de experiências, mas acima de um certo limiar transforma-se numa invasão ou colonização.

Esta conversa recordou-me esta foto de um palmeiral seguido de uma bolanha (campo de cultivo de arroz) da Guiné-Bissau, que tirei em 1974, no fim do perímetro urbanizado de Bissau, julgo que após o 25 de Abril.



A Guiné foi abençoada com alguma falta de recursos naturais, o que lhe permitiu evitar guerras sangrentas como a de Angola, mas tal não foi suficiente para garantir a prosperidade.

Antes da última guerra colonial a Guiné (tinham ocorrido várias campanhas chamadas “de pacificação” durante o século XX) era auto-suficiente em arroz mas com a guerra muitos campos foram abandonados. Após a independência julgo que a auto-suficiência de arroz não voltou a ser atingida.

Para finalizar deixo esta memória da presença colonial portuguesa, ainda com a bandeira de Portugal no então palácio do Governador, que foi bastante danificado na guerra que culminou com o exílio de Nino Vieira e suponho que em ocasiões posteriores. Na estátua dizia “AO ESFORÇO DA PÁTRIA”. Julgo que a estátua foi removida do local logo após a independência.

2010-03-20

Os montes de Guilin

Ao longo do rio Li vão desfilando estes montes e as pessoas nos barcos entretêm-se a procurar padrões, como no teste de Rorschach ou naquelas nuvens que parecem feitas de algodão.



Quando passámos pelo rio já o sol ia alto e o movimento do grande número de barcos que descia o rio agitava as águas, impedindo que elas ficassem como um espelho.

Da próxima vez terei que ir observar a paisagem de madrugada num dia sem vento, para ver se obtenho uma imagem como esta que vinha num DVD que comprei no local.


2010-03-18

Canavial nas margens do rio Li

Sinto pouca vocação para participar nas discussões políticas intermináveis que deslizam em Portugal, embora me vá mantendo informado.

Este blogue pode também servir para lembrar os seus leitores que existe muito mundo para além de Portugal.

Desta vez seleccionei um canavial, nas margens do rio Li, que passa pela cidade de Guilin.


No meio daquele calor de ananases parecia que as canas nos iam atacar:


2010-03-17

A Terra

Como comecei há dois anos este blogue com uma imagem do Mar, desta vez mostro uma imagem da Terra, embora um bocadinho molhada.

A 1300km de Xangai e a 500km de Hong-Kong/Macau ficam os montes Guilin, que em tempos me surpreenderam ao materializar paisagens que julgava serem estilizadas quando eram afinal realistas.

Tratam-se de formações cársicas, existentes em várias partes do mundo, mas montes tão redondinhos e cobertos por tanta vegetação são raros na Europa.

Nesta imagem no calor de Agosto vêm-se, além dos montes, os fertilíssimos campos de arroz de um verde inesquecível, onde é possível fazer mais do que uma colheita por ano.



As linhas telefónica e eléctrica perturbam a paisagem mas devem ser muito úteis para os habitantes. Daqui a uns anos é provável que melhorem a implantação respectiva.

2010-03-14

Natural mais Artificial

A diferença entre “natural” e “artificial”, que umas vezes é simples, noutras envolve valores e ideologia. Mas neste dia que foi soalheiro não me apetece entrar em considerações morais ou políticas, limitando-me a mostrar um exemplo de uma combinação harmoniosa de natural com artificial (de algodão com fibra sintética).

Tratam-se de umas modestas meias que comprei em Xangai na “Nanjing Road” uma rua pedestre com muitas lojas que desagua no Bund, a famosa margem do rio Huangpu (que estava toda em grandes obras de preparação duma exposição internacional) e cuja etiqueta apresento a seguir:



Mais uma vez me perturbei com a minha condição de analfabeto, estando reduzido a compreender os algarismos.

Na altura o guia chinês disse-me que aquelas percentagens 64.5% e 35.5% diziam respeito à composição das fibras de que as meias eram feitas, à semelhança do que se passa com as etiquetas de meias no ocidente. Confirmou-me também que os 64.5% correspondiam a algodão, essa parte natural que facilita a transpiração dos pés enquanto os restantes 35.5% respeitavam a uma fibra sintética de que não sabia o nome em inglês.

Quando cheguei a Lisboa verifiquei no Google, usando as ferramentas de idiomas (normalmente uso tradução inglês-chinês porque costuma ser mais completa), que a “composição” corresponde ao ideograma 成分, que antecede o sinal de dois pontos, e que “algodão” é representado por 棉. Já para a fibra sintética não consegui encontrar um ideograma idêntico. O mais parecido que encontrei foi este ideograma 氨纶, que corresponde a “Spandex”, um anagrama de “expands” usado para uma fibra sintética inventada em 1959 por Joseph Shivers na Dupont e que é também designada pelos nomes de Lycra e de Elastano.

Para encontrar o ideograma fui à Wikipédia, à procura de fibras têxteis, e traduzi vários nomes que eram referidos para chinês, à espera de encontrar ideogramas parecidos. Andei à procura de um programa OCR (Optical Character Recognition) para chinês mas apenas encontrei programas pagos, confirmando a maior dificuldade no reconhecimento automático dos caracteres chineses, em comparação com os ocidentais, e consequente escassez de programas OCR para chinês, embora admita que esses programas sejam mais abundantes em sites que usam caracteres chineses.

Fiquei curioso em saber o que é que “: <20mg/kg”.

A globalização vai avançando baseada no inglês mas tenho sempre algum receio que a língua universal passe a ser o chinês.

2010-03-10

Natural e Artificial

Se no último post mostrei uma imagem que poderia parecer “natural” quando era “artificial”, por contraponto mostro agora uma “artificial” que afinal é “natural”.

A imagem está longe de ser bonita mostrando simplesmente o crescimento descontrolado de uma muito pequena parte da cidade de Xangai.




Ao dizer que isto não passa de uma vista da “Natureza”, pois sendo os seres humanos uma parte da natureza também as suas construções o serão, constatamos que o conceito de “natureza” passaria a incluir tudo o que existe, parecendo ficar um conceito bastante inútil ao confundir-se com existência.

Poder-se-ia considerar que a “naturalidade” da imagem lhe vem de uma, pelo menos aparente e bastante completa, falta de ordenação do território, com cada prédio “plantado” ao sabor da especulação imobiliária e uns viadutos plantados após constatação que não tinha sido reservado espaço suficiente para as vias de comunicação. Neste contexto a ordem “artificial” parece não ultrapassar o prédio, esse sim planificado do princípio ao fim.

Tenho observado esta menor planificação urbanística nas grandes metrópoles que não são capitais, como Xangai ou Nova Iorque, enquanto nas capitais como Pequim ou Washington, o espaço urbano é muito mais planificado. Mesmo em países e cidades pequenas como Porto e Lisboa se nota um bocado esta diferença, só há relativamente pouco tempo o Porto se dotou de vias de comunicação estruturadas, algumas das saídas antigas da cidade faziam-se por ruas estreitas intermináveis que levavam os não locais a pensar que se tinham perdido no caminho.

Achei interessante a grande regularidade desta outra construção, onde os permutadores de calor exteriores dos ares condicionados (todos eles duplos) são pré-instalados na totalidade dos apartamentos, evitando a desordem de permutadores de várias formas e cores, possivelmente obtendo descontos de quantidade, sendo uma solução mais económica e melhor adaptada a um condomínio de pequenos proprietários.



Mas mais uma vez a ordem tem dificuldade em ultrapassar o edifício individual, logo ao lado há umas construções em mau estado e um esparguete de cabos eléctricos.

Concluindo, acabo por descobrir alguma utilidade na distinção clássica entre "natural" como construção em que os seres humanos estiveram bastante ausentes e "artificial" quando tiveram intervenção significativa, embora a fronteira seja bastante arbitrária.

2010-03-05

Artificial e Natural

A escultura de Manolo Valdez inspirada na Dama de Elche que referi em post anterior estava colocada no passeio em frente à Caixa Forum em Madrid. Na entrada desse Caixa Forum, uma antiga subestação de distribuição de electricidade convertida numa galeria de arte patrocinada pelo banco La Caixa, contempla-se este deslumbrante jardim vertical




projectado por Patrick Blanc, referido também aqui e aqui.

Esta foto não é “contemporânea” da escultura acima referida do Manolo Valdez, foi tirada em Mar/2009, quando decorria uma exposição de esculturas do Rodin, de que este burguês de Calais (um dos seis) era um exemplo.

Pensei que este jardim vertical seria uma boa ilustração da dificuldade em estabelecer uma separação entre o que é artificial e o que é natural.

Existe esta distanciação, que julgo mais típica do Ocidente, entre o que é "humano" e o que é "natural", como se os seres humanos não fossem parte integrante da Natureza.

Vi uma vez um filme sobre a natureza, na Géode de la Villette, mostrando uma castor a fazer uma barragem, alterando para sempre (era o que dizia no filme) o sistema ecológico pré-existente. No final reparei que entre vários patrocinadores do filme se encontrava a EDF.

Já disse que trabalho no sector eléctrico e julgo também ter dito que simpatizo com barragens, pela energia renovável que proporcionam e pelos lagos que criam em paisagens por vezes excessivamente secas.

Escapa-me completamente o tipo de pensamento que considera boa a existência de configurações de terreno que originam a formação de lagos e que considera má a construção humana que cria configurações funcionalmente equivalentes que originam a formação de lagos artificiais.

Em português existe algum embasbacamento perante os processos "naturais", dizer que se resolveu qualquer coisa através de um "artifício" tem um tom algo pejorativo, como se apenas fossem boas as soluções "naturais", aquelas que dispensam a arte dos seres humanos.

Este jardim vertical parece-me uma versão melhorada do que, já ia dizer, consegue a natureza sem a intervenção humana. Na realidade este jardim é também uma obra da natureza, com uma contribuição da parte da natureza que tem, entre outras coisas, consciência de si.

Mas já é tempo de finalizar estas considerações e mostrar a parede na sua quase totalidade:


2010-02-21

O que faz falta

Gostei muito da crónica de Miguel Sousa Tavares no Jornal Expresso de 2010-02-20 e em especial deste excerto sintético:



2010-02-19

Dama de Elche

No outro dia, ao passar no Paseo del Prado ao pé da Caixa Forum em Madrid, vi esta escultura





cuja tabuleta informava ter sido feita por Manolo Valdez em 2004, chamando-se “La dama”.

Trata-se de uma referência à Dama de Elche, uma escultura do século V AC, encontrada em 1897 em Elche, povoação a uns 30 km de Alicante.

Reconheci-a porque era um dos cromos da minha colecção de “Maravilhas do Mundo” que mostro aqui ao lado.

A estátua teve uma vida animada depois de descoberta, foi comprada por um francês e esteve exposta no Louvre vários anos até ser devolvida à Espanha, através de troca por outras obras de arte, onde ficou no museu do Prado até passar para o museu arqueológico de Madrid onde se encontra actualmente.

Numa próxima oportunidade irei vê-la (ou revê-la) pois já não me recordo de a ter visto. Às vezes acho que esse é um dos problemas das fotografias, uma pessoa pensa lembrar-se do que viu mas na verdade do que se lembra é das fotografias que tirou.

A seguir apresento duas imagens que estão na Wikipédia e outra de um blogue de teorias conspirativas que não me merecem crédito. Incluo a imagem deste último porque com uma mulher real se fica com uma ideia muito melhor do exotismo do adorno. Já nessa altura havia adornos femininos muito pouco práticos. Mas como estamos longe das mulheres de cara tapada...












Para finalizar, aqui sugerem que foi a Dama de Elche que inspirou o George Lucas, na caracterização da princesa Leia:

2010-02-15

Laranja iluminada

Tenho a sorte (e o engenho) de viver num prédio dos Olivais em Lisboa, desenhado por um arquitecto competente, que não desdenhou do saber antigo de usar janelas recuadas, seguidas de uma pequena varanda, cujas dimensões exíguas nos pouparam da tentação de as estragar com marquises. Durante o Verão o sol vai alto a não entra na casa, mantendo-a fresca, durante o Inverno o sol (quando descoberto) vai baixo e entra a jorros, reduzindo as necessidades de aquecimento pagante.

Foi o que aconteceu ontem, em que não resisti a fotografar uma meia laranja translúcida iluminada pelo sol. O prato está sobre uma mesa de vidro, o que pode tornar a cena um pouco confusa para quem não sabe.



Este post não contém nenhuma metáfora ao momento político actual, gostei apenas de ver e fotografar esta meia-laranja iluminada no meu pequeno-almoço.

2010-02-14

Portugal visto por El Corte Inglés – 2

Na sequência do post anterior mostro agora uma outra imagem, que me foi também enviada pelo El Corte Inglés, mas que ainda não tive a oportunidade de ver noutro suporte.



A imagem é muito apelativa mas com alguns problemas de detalhe.

Na versão completa que me foi enviada o “tecido de azulejo” prolonga-se para baixo formando uma espécie de cauda. No entanto, a mulher fica ali a vogar no ar, de uma forma algo artificial. Ao fazer o enquadramento do detalhe mostrado na imagem acima, optei por a cortar de forma tangente aos pés do modelo, que assim se “apoia” no limite inferior da imagem. Parece-me que além do “morphing” do azulejo sobre a pele do modelo, as zonas brancas do azulejo foram especificadas como transparentes, deixando entrever a pele do modelo. Mas num certo sentido o modelo parece sair da parede de azulejo, o que me deixa um certo desconforto.

O estilo surrealista parece-me particularmente delicado: por um lado aprecio muitas obras surrealistas pela forma como nos fazem ver coisas e relações que doutra forma nos passariam despercebidas mas, por outro lado, aparecem algumas de mau gosto. Não é o caso desta, que acaba por ser uma imagem globalmente muito bela, mas que desaponta um pouco na integração do belíssimo modelo no resto da composição.