2011-05-28

Um canteiro de relva nos Olivais Sul

Nos anos em que chove em Abril e Maio dá para ver que aquele relvado do bairro, que nos anos secos fica muito amarelado por esta altura, afinal contém uma grande variedade de plantas, estando longe de ser uma monocultura. Esta é uma vista geral do canteiro de relva em frente do prédio onde moro nos Olivais Sul:


além da relva existem muitos trevos que além de serem facilmente identificáveis pelo conjunto de três folhas (nunca vi um de quatro excepto em desenhos e logotipo dos alfa-romeos) têm nesta altura estas inflorescências, predominantemente brancas


que também aparecem aqui, numa área em que os trevos ocuparam quase todo o espaço disponível. O nome de trevo em inglês é "clover" e é fácil obter imagens da flor do trevo na internet


existe uma variante menos comum da flor do trevo , de cor lilás.


Como tenho uma máquina fotográfica nova que tem pixels em grande abundância optei por mostrar apenas duas das flores acima um pouco maiores. Isto não é verdadeiramente uma flor mas uma inflorescência, cada um cos conezinhos é que é uma flor


um pouco ao lado estavam estas pequenas flores amarelas que mostro muito ampliadas numa imagem mais à frente


e ainda outra variedade de florinhas amarelas


que mostro aqui mais ampliadas. O observador mais atento notará que a falta exactidão na focagem continua a ser um dos meus pontos fracos como fotógrafo, mas fica-se com uma ideia


existe ainda uma terceira variedade de flores amarelas, cor muito popular nestas pequenas flores


e ainda esta, que pelo tamanho das folhas da relva se vê que foi bastante ampliada


fotografei depois esta florinha lilás, tendo recorrido ao pós-processamento para ver se ficava mais focada mas sem grande sucesso


tendo tido mais sorte na focagem desta outra variedade lilás, com 5 pétalas, número muito comum nas flores


depois fotografei as numerosas espigas que flutuam ao sabor do vento enquanto não passa o cortador de relva (que tão pouco poupa as florinhas...)


e aqui estão muito ampliadas as primeiras florinhas amarelas que mostrei lá atrás


ainda ficaram para a posteridade estas de côr vermelha


e para finalizar mais umas tantas amarelas.


Este ano portanto optei por florinhas no seu habitat. Contudo, existem tantas florinhas destas por aí espalhadas que noutro ano ainda volto a fazer arranjos florais como os que fiz aqui e aqui.

2011-05-23

Quinta Pedagógica dos Olivais

A proximidade das praias magníficas nas proximidades de Lisboa contribui para que os parques da cidade não sejam tão usados como seria desejável. A Quinta Pedagógica dos Olivais será uma excepção, mantendo um conjunto muito representativo de animais domésticos tais como vacas, burros, cavalos, ovelhas, cabras, porcos e muitas aves de capoeira. Tem também uma secção com plantas diversas, para que as crianças não pensem que as alfaces nascem nas prateleiras dos supermercados e várias "oficinas" onde, por exemplo, se coze pão.

Como as pessoas deixaram de viver em quintas e estes animais não estão normalmente no Jardim Zoológico, esta quinta pedagógica, cuidadosamente gerida pela Câmara Municipal de Lisboa, é um local muito procurado, com um corropio de visitas escolares e uma presença assídua dos habitantes do bairro dos Olivais, designadamente dos mais novos e presumo que doutras zonas de Lisboa.

Esta foto dá uma ideia da animação num dos relvados, com um cavalo branco ao fundo


e esta outra mostra, além dum edifício onde decorrem algumas das actividades educativas (ao fundo), uma agave cuidadosamente aparada, suponho que para evitar que as terminações pontiagudas das folhas constituam perigo para os visitantes mais novos. O corte recente das folhas tinha deixado uns losangos brancos (onde elas foram cortadas) em disposição muito geométrica. Talvez existam ali alguns números de Fibonacci.

Coqueiros em Lisboa

No outro dia fiquei surpreendido ao ver estes cocos a germinar no Horto do Campo Grande, em Lisboa. Não faço ideia do tamanho final com que vão ficar estas plantas quando chegarem a adultas mas é curioso germinarem tão bem por cá.

Coqueiros lembram-me às vezes a destreza com que o Prof.Cavaco Silva os trepou numas férias em S.Tomé e Príncipe, já lá vão muitos anos.

2011-05-18

Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2)

Retomando a visita do Jardim Botânico do Rio de Janeiro do post de 28/Abril, passo a mostrar estas plantas surpreendentes:







Como se constata ao lado trata-se da Ravenala madagascariensis, planta da família STRELITZIACEAE, nome comum “Árvore-do-viajante”, nativa da ilha de Madagáscar.


Deve o seu nome ao facto de guardar água entre os pecíolos, podendo assim matar a sede a viajantes que conheçam esta característica.


Estas plantas são aparentadas daquela a cuja flor chamamos “Estrelícia”, originária da África do Sul, portanto não muito longínqua desta.


A imagem que mostro a seguir duma Estrelícia veio num dos power-points que me enviam, desconheço o seu autor.

2011-05-12

Martha Graham e Ryan Woodward

Ontem dia 11 de Maio de 2011, o Google tinha uma animação extraordinária, comemorando o 117º aniversário do nascimento da dançarina e  coreógrafa norte-americana Martha Graham:


 


Esta pequena obra-prima de animação foi feita por Ryan Woodward, autor desta outra curta animação "Thought of you", que parece um sonho :




2011-05-11

Caixa chinesa

Comprei há muitos anos uma caixinha chinesa, com 5,7 cm de altura, esmaltada segundo a técnica "cloisonné" que eu julgava ter sido inventada na China. Afinal a técnica nasceu no Mediterrâneo, foi usada no Egipto e muito no império Bizantino, tendo sido levada pelos comerciantes muçulmanos para a China apenas no século XIII ou XIV. Consiste na colocação de separadores metálicos que evitam a mistura das diversas cores do esmalte que vai recobrir a peça.

Lembrei-me da caixinha ao colocar a imagem do dragão do último post, porque associo frequentemente dragões à China, embora eles fossem também muito populares na Europa.

Esta caixinha apresenta casais de grous, com a sua característica crista vermelha e uma árvore talvez da família dos pinheiros. As imagens corresponderão na maior parte dos monitores a uma versão ampliada do objecto real. Não é uma peça preciosa mas é um produto artesanal muito interessante. Apresento-o numa sequência de 5 imagens.







2011-05-07

Vilnius

Ia eu dizendo há uns dias atrás que a beleza está à nossa volta, para a descobrir basta estar atento. Mas, como seria de esperar, a beleza também está longe, está em todo o lado.

Não fui a Vilnius para fazer uma verificação desta última frase mas também lá encontrei coisas bonitas.

Começo por esta vista parcial da igreja de S.Casimiro, do século XVIII.



A Lituânia era predominantemente católica, à semelhança da Polónia, talvez para marcar diferença em relação à igreja ortodoxa russa, vendo-se contudo também muitas igrejas ortodoxas. Com o domínio soviético a maior parte foi ou fechada ou convertida em salas de espectáculos, agora estão a regressar ao uso religioso tradicional. Curiosa nesta fachada a, por assim dizer, ausência das duas torres dos sinos que perdem a individualidade com a estrutura que as une.

Continuo com este parque no meio da cidade, com as folhas das árvores muito menos desenvolvidas do que em Lisboa.



Muitas vezes as minhas fotos ficam sem pessoas, às vezes perguntam-me se não vivia ninguém naquela cidade, foi o caso deste parque, num fim de tarde.

Não resisti aos reflexos dourados do sol quase a pôr-se nesta rua Gedimino Prospektas (neste caso com pessoas mas sem carros...):



Nem a estas três figuras à entrada de um teatro, na mesma rua de Vilnius


Gostei ainda deste prédio fortemente decorado


e da estátua lá de cima dum cavaleiro, com uma cruzinha no alto do capacete, a combater um dragão (será o S.Jorge?), que com a minha nova máquina fotográfica se pode ver muito ampliado aqui a seguir:

2011-05-01

A beleza está à nossa volta (2)

Olhando com atenção descobre-se que há muita coisa à nossa volta que merece um olhar mais demorado do que aquele que costumamos dispensar.

Como por exemplo este conjunto de simpáticos malmequeres, crescendo num canteiro da urbanização da Portela



ou um conjunto mais pequeno



fazendo agora um zoom sobre duas flores e colocando triângulos pretos nos cantos para as destacar melhor



recordando as sequências de fibonacci do girassol, daqui e daqui e rodando as mesmas flores para um aspecto mais geométrico

2011-04-28

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

O Ipê rosa dum post recente fez-me pensar no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Quando o rei D.João VI de  Portugal fugiu para o Brasil para escapar às invasões francesas, ficou por lá desde 1808 até 1820, promovendo a criação dum Real Horto que após a independência do Brasil em 1822 se passou a chamar Real Jardim Botânico durante algum tempo.

O Jardim vale muito uma visita, a exuberância da sua vegetação é extraordinária, como se pode constatar nesta primeira imagem:


Um pouco mais à frente estava este conjunto de canas de bambu, duma dimensão como nunca tinha visto, fazendo-me lembrar a frase do Eça de Queiroz, de que “o Brasileiro seria o Português desabrochado ao calor dos trópicos”. Não faço ideia se esta imagem literária será algo mais do que isso relativamente às pessoas, mas não há dúvida que o calor e a humidade dos trópicos favorecem muito o crescimento das plantas. Pena não haver um referencial para uma melhor percepção da escala dos bambus mas a presença do troco de palmeira ajuda


Mais à frente estava esta árvore de que não sei o nome, que parece muito despenteada. Ainda fui ver se seria parecida a uma árvore do Jardim Tropical de Lisboa, também "despenteada" mas não me pareceu. Na história da evolução das plantas esta aparenta ser antiga, a estratégia da colocação das folhas para maximizar a exposição ao sol parece ser “tudo ao molhe e fé em Deus”


e para finalizar esta árvore com flores amarelas. Tinha lido que o Ipê amarelo é a árvore nacional do Brasil, mas não consegui confirmar se esta seria uma delas.


De qualquer forma gosto desta composição de ouro sobre azul.

São sempre benvindos esclarecimentos sobre os nomes das plantas aqui mostradas.

2011-04-23

Produtividade, horas de trabalho e feriados

Já manifestei neste blogue aqui e aqui a minha discordância sobre as tão apregoadas vantagens de trabalharmos muito mais tempo do que aquele que já trabalhamos em Portugal.

Repito que o aumento da produtividade através do aumento do número de horas de trabalho por ano é a progressão em direcção ao beco sem saída, ao fim dum certo número de aumentos essa via fica esgotada pois não se podem trabalhar mais do que 24 horas por dia e mesmo esse número é impossível de observar de forma sustentada porque precisamos de dormir.

Recentemente a OCDE publicou um estudo onde concluem que Portugal é o país europeu da OCDE onde mais horas se trabalha, demonstrando mais uma vez que não é insistindo nesta via de aumentar o número de horas em que trabalhamos que melhoraremos a nossa competitividade. Este estudo engloba horas no emprego e fora do emprego.

Se nos restringirmos ao número de horas trabalhadas no emprego constatamos facilmente nas estatísticas da OCDE



que as nossas 1719 horas no ano de 2009 são bastante mais do que as trabalhadas na Dinamarca (1563), na Áustria (1621) ou mesmo do que na Holanda (1378) ou do que na Alemanha (1380). Tudo países mais ricos do que nós e que me parecem exemplos a seguir. Mesmo na Finlândia, onde não passaram das 1652 horas, mesmo com aquele clima que convida a trabalhar só para aquecer. E nos países onde dizem que existem muito poucos feriados constata-se que trabalham menos horas do que cá. Já na Turquia, em 2004 trabalhavam 1918 horas. De uma forma geral os países mais pobres têm normalmente horários de trabalho com mais horas do que os países mais desenvolvidos. Mas em todos eles se observa uma tendência para o número de horas de trabalho diminuir ou manter.

Parece assim que nos querem pôr a caminhar na direcção oposta à do progresso, em que, em vez de imaginar formas de se produzir mais em menos horas de trabalho nos esgotamos a repetir sem imaginação durante mais horas aquilo que agora fazemos.

Há também um complexo de culpa completamente disparatado em relação aos acasos que colocam feriados ao pé de fins-de-semana. Em muitas empresas opta-se por caracterizar as férias por um dado número de dias úteis. É completamente irrelevante para o volume de trabalho que se presta à empresa que esse dias sejam gozados entre um feriado e um fim-de-semana ou noutra altura qualquer.

É para mim incompreensível que gente que considero razoavelmente esperta não consiga aperceber-se disto, achando sempre que os trabalhadores estão, no fundo no fundo, a usufruir um privilégio a que não deveriam ter direito. E previsivelmente apareceu agora a conversa estúpida a propósito da tolerância habitual na tarde de quinta-feira santa, só porque este ano o feriado do 25 de Abril é adjacente ao domingo de Páscoa e parece que nos estamos a escapar durante uma série excessivamente longa de dias, ao suor a que Deus nos condenou quando nos expulsou do Paraíso.


Em vez de aumentar o horário deveríamos pensar em formas de tornar o trabalho menos penoso e logo mais produtivo. Por exemplo os holandeses no século XVI (ou XVII) em Amsterdão colocavam no topo da fachada de todos os prédios de andares uma viga saliente onde se podia colocar uma roldana que facilitava muito a colocação das mobílias nos andares em relação ao processo muito mais penoso de transporte pelas escadas, conforme se pode ver na foto que tirei dum sítio de viagens.

Em Portugal muito deste transporte faz-se agora pelos elevadores mas, quando os objectos não cabem, ou mesmo em edifícios de 3  andares sem elevador, este aparelho que mostro a seguir


que se começou a ver há algum tempo mostra que já existe um pouco mais de consideração pelos trabalhadores das mudanças.

Uma vez em Bruxelas gostei de ver este camião com um tecto deslizante que possibilita que a descarga se faça de forma abrigada da chuva, minimizando as molhas quer dos trabalhadores quer do material nas operações de carga e descarga.


Claro que não é com estas engenhocas que vamos resolver os problemas do nosso país. Mas elas ilustram de forma simples que o caminho do progresso está na criação de condições que tornem os trabalhadores mais produtivos e não no regresso à escravidão.

2011-04-18

Floração

Estou cada vez mais confuso com a situação de Portugal. Os políticos, ou por paternalismo, ou por conveniência, ou por obrigação raramente nos informam com exactidão do que se passa. Isto torna o passado cada vez mais imprevisível e o presente cada vez mais nevoento.

Ironicamente parece que agora só o futuro se conhece com exactidão: intervenção externa, recessão, austeridade.

Resolvi assim fazer uma ligeira pausa na minha modesta tentativa de compreender o que se passa, aguardando que sejam revelados alguns factos novos, pois as narrativas públicas actuais escapam ao domínio do senso comum (para evitar a forma mais portuguesa e mais ousada de “bom senso”).

Tenho assim contemplado a floração das árvores, muito activa por esta época do ano. Sendo citadino surpreendo-me mesmo assim como foi possível passar tantos anos reparando apenas na floração roxa das Jacarandás em Maio e amarela das Tipuana Tipu em Junho, sem reparar que quase todas as árvores de Lisboa alteram o seu aspecto nesta altura, exibindo flores, frutos, novas folhas, etc.

Bem sei que um pouco mais para o Norte, por exemplo no Porto, esta floração é mais espectacular, sobretudo com as magnólias, e que já tinha referido a floração discreta das oliveiras aqui e aqui mas é interessante constatar que existem sinais discretos (por vezes não tão discretos assim) de mudança de aspecto de uma grande quantidade de árvores.

Estas florações discretas fizeram-me lembrar outra mais conspícua, que só tenho visto em fotografia. Trata-se do espectacular Ipê Rosa do Brasil de que apresento duas imagens que fui buscar ao blogue “Leaves of Grass” que consta da minha lista aqui à direita.


A de cima é um detalhe cheio de flores usado como banner no blogue referido, a de baixo mostra a árvore imponente cuja escala pode ser avaliada, por exemplo, a partir das telhas do alpendre da casa que aparece do lado esquerdo, mas também a partir de outras imagens da mesma árvore neste post.


O blogue “Leaves of Grass” tem ainda bastantes fotos interessantes tiradas nas margens da represa de Jurumirim.

2011-04-15

...mais do que na China, em Espanha, em Portugal...

Através deste post do blogue do António Vidigal cheguei a esta intervenção do Arnold Schwarzenegger, actor e ex-governador da Califórnia, sobre a importância de promover as energias renováveis.


A frase em que refere que a Califórnia “...tem mais renováveis do que a China, ou a Espanha, ou Portugal, ou qualquer outro...” está a seguir a 08:30. sendo uma confirmação insuspeita da relevância actual de Portugal na área das energias renováveis.

No minuto 11:05 tem um bom soundbyte: “China is an ancient culture but with new ideas. We cannot let America be a new culture with old ideas”.

Em 14:46 refere as dificuldades que as pessoas alegam sempre que se fala de melhorar a performance energética dos edifícios e dos processos. O Empire State Building acaba de ser weatherized gasta agora 40% menos de energia do que antes e no edifício Sears de Chicago espera-se reduzir uns impressionantes 80%!

No minuto 19:11 refere que é melhor abandonar o tema do Aquecimento Global, que tem pouca força mobilizadora para a maioria da população, sendo mais mobilizador falar na saúde, nos postos de trabalho, na economia e na segurança nacional, como áreas onde se registarão melhorias com a preferência das energias renováveis face às baseadas nos combustíveis fósseis.

Em resumo, uma apresentação realmente interessante.

2011-04-14

A paranóia das auditorias

Há uns tantos anos falei com um responsável pela rede de PCs de uma empresa que me confessava que não sabia quantos PCs existiam na empresa. Felizmente, tinha uma ideia bastante aproximada de quantos eram, e era sempre possível fazer um inventário, mas o problema dele era que estava a ter dificuldades em montar o processo que lhe assegurasse o seguimento sistemático das entradas e saídas de equipamentos.

Passa-se alegadamente uma situação semelhante com o governo de Portugal. Está a existir alguma dificuldade em conhecer com exactidão as contas do Estado, mais ainda agora em que elas não estão em grande forma e em que o governo e a oposição têm dificuldade em comunicar. A oposição requer uma auditoria. Já tivemos duas auditorias, uma solicitada pelo Durão Barroso e outra solicitada por José Sócrates, que deve ter achado muito boa esta figura de retórica “inventada” por Durão Barroso, para como ele ficar com as mãos mais livres para fazer o que lhe apetecia em vez de ter de seguir a maçada do programa eleitoral.

As contas nacionais são seguidas por muitas instituições, designadamente da União Europeia, essas instituições não apareceram ontem, conhecem as tentações de falsear a contabilidade, têm experiência de falsificação de contas por outros estados, o BCE anda-nos a emprestar dinheiro há um ror de tempo, serão todos tão estúpidos e incompetentes lá no centro da Europa que o nosso governo os consegue enganar a todos?

Esta situação traz-me maus pensamentos: de há uns tempos a esta parte que a oposição (qualquer que seja o partido) desconfia das contas apresentadas pelo governo. Infelizmente, quando chega ao governo, em vez de montar uns mecanismos que garantam um acompanhamento transparente das contas nacionais, refugia-se no quentinho do importante segredo de Estado para evitar que a oposição chateie. Seria tudo melhor se seguissem aquela regra de não fazer aos outros o que não gostariam que fizessem a eles. E os nossos legisladores, que tanto barafustam sobre a falta de transparência, tão pouco conseguem descortinar umas leis que facilitem o seguimento orçamental.

Eu aconselharia mais um grupinho de trabalho para estudarem as leis de 2 ou 3 estados europeus sobre este tema, preferencialmente dos bem colocados na ausência de corrupção. Se com essas leis eles conseguem bons resultados os Portugueses também hão de conseguir.

O seguimento orçamental tem que ser uma actividade contínua, não pode basear-se em auditorias que se executam quando se realizam eleições. Espero que o próximo governo, seja ele de que partido for, bem como a nova Assembleia da República, melhorem os mecanismos já existentes de forma a que acabem com esta paranóia dos pedidos de auditorias no período eleitoral ou pós-eleitoral.

Como imagem alusiva escolhi estes copos lindíssimos de cristal de Baccarat que fotografei com o telemóvel em Paris. Infelizmente o modelo em primeiro plano chama-se Massena, o general que comandou a 3ª invasão francesa a Portugal. São transparentes como deviam ser as nossas contas e invocam uma invasão estrangeira. Vá lá que antes mandavam soldados e canhões, agora enviam economistas.

2011-04-12

Encosta arborizada e recessão

No livro “Colapso” de que falei no post anterior, o autor recorre com frequência ao estudo da evolução da flora duma dada região ao longo do tempo, através da datação de depósitos sedimentares no fundo de lagos, da verificação da predominância de vários tipos de pólen e dando muita importância às árvores, constatando o efeito devastador que pode ter a desflorestação de uma região na sua capacidade de suportar habitats adequados à sobrevivência de sociedades humanas.

Tem uma sugestão particularmente cruel ao perguntar o que teria dito o habitante da ilha de Páscoa ao abater a última árvore existente na ilha: será que disse “Jobs, not trees!” ou numa tradução livre, “os postos de trabalho são mais importantes do que as árvores!”.

Continuo exausto da forma dramática como os media relatam as nossas desventuras económicas e os tempos difíceis que nos esperam. Dizem que a década passada foi uma década perdida com crescimentos muito anémicos e constatei no site Pordata que a média das taxas de crescimento do PIB dos últimos dez anos é cerca de 0,7%.

O Banco de Portugal estimou há uma semanas que em 2011 haveria um decréscimo do produto de 1,4%. Hoje ouvi no noticiário da RTP2 das 22:00, (um pequeno oásis de informação tranquila que se extinguiu com o novo formato em que os pivots, em vez de estarem sossegados sentados a uma mesa, andam para um lado e para o outro sem se perceber para quê) que a previsão se tinha agravado para 1,5% o que compreensivelmente quase me deixou aterrado e a tremer como varas verdes, a nova previsão é 1,5% em vez de 1,4%!!!

Embora eu perceba que diminuir o produto é preocupante, seria preferível que o aumentássemos ou que ficássemos na mesma, se 0,7% é quase nada, 1,4 % não é muito mais e tenho dificuldade em compreender porque é que temos que ficar aterrorizados com a perspectiva da nossa economia se contrair 1,4% num ano.

Pelo menos a encosta da serra de Sintra que se avista do palácio de Seteais não se degradou de 1974, tempo da primeira fotografia, até 2010, momento da segunda foto. A primeira é o “scan” de um slide, tirado em contraluz numa altura em que tinha pouca prática de uso da máquina fotográfica, uma Olympus OM-1. A segunda foi tirada com uma máquina digital. A encosta até parece mais frondosa.



Esta última foto já a tinha mostrado neste post.

2011-04-08

Colapso

Não, ainda não é o colapso de Portugal de que vou falar neste post mas do livro “Collapse: How societies choose to fail or survive”. Encontrei o livro na Loja da História Natural, uma simpática loja recomendada pelo maradona, ao pé da Rua da Escola Politécnica e comprei-o dado que tinha gostado muito doutro livro do mesmo autor, o “Guns, Germs and Steel”.

O livro fala sobre o colapso de muitas sociedades de pequena e média dimensão, alegando o autor que estas sociedades são exemplos mais fáceis de estudar e de perceber as razões do sucesso ou do fracasso, enquanto a queda do império romano é um tema tão complexo que, embora interessante, é quase impossível  dele tirar conclusões.

O autor refere as sociedades do estado de Montana, da ilha de Páscoa, das ilhas de Pitcairn e Henderson, dos Anasazi, dos Maias, da colonização Viking da Gronelândia, do genocídio recente no Ruanda, da ilha partilhada pelo Haiti e pela República Dominicana, da China e da Austrália, finalizando com um resumo das lições práticas que todos estes exemplos nos dão, os papéis que podem ser desempenhados pelas grandes empresas e as razões para por um lado estar preocupado e por outro para ter esperança no futuro.

No meio desta novela sem fim de pedirmos ou não uma intervenção externa na nossa economia, temos uma tendência fortíssima para nos esquecermos da finitude dos recursos do planeta em que vivemos e da enorme dificuldade em garantir a todos os seus habitantes um estilo de vida semelhante ao que existe no ocidente e que tão promovido é pelas agências de publicidade.

Na primeira crise do petróleo em 1973, o presidente da Comissão Europeia Sicco Mansholt, influenciado pelo Clube de Roma, falou muito no crescimento zero, designadamente na necessidade de por um termo no crescimento contínuo do consumo de produtos não renováveis. O crescimento do bem-estar das sociedades tem que se basear no crescimento dos serviços e não no consumo dos recursos finitos existentes.

Este livro do Jared Diamond dá uma ideia da situação actual que me pareceu tender para o lado da grande preocupação, mas a exposição é muito clara e convincente, à parte um ou outro pormenor em que cada leitor encontra a sua discordância do autor. Recomendo.

Nestes tempos da internet é tudo mais fácil: aqui está o endereço da apresentação do tema do livro que o próprio Jared fez no TED.

2011-04-06

Jarra de Flores

No meio está a virtude, não tão ordenada como as ondas mas mais ordenada do que os malmequeres selvagens do post anterior.

2011-04-03

As Agências de Rating não são a Mão Invisível do Mercado

Nos mercados onde se transaccionam produtos físicos a utilidade principal do mercado é facilitar precisamente essa transacção. Fortemente associada a essa facilitação está a capacidade muito boa que os mercados têm para encontrar um preço adequado para a mercadoria transaccionada, através da interacção de numerosos agentes, quer do lado da procura quer do lado da oferta. É essa multiplicidade de agentes, tão prezada pelas diversas Autoridades da Concorrência, que a imagem que segue evoca, embora nela se vejam facilmente outras coisas como, por exemplo, as ondas do mar ou as escamas dum peixe.


Poderia ter usado uma imagem de um mercado de alimentos mas, como pretendo falar de mercados financeiros, considerei que uma representação abstracta seria mais apropriada.

Nos mercados financeiros o objecto da troca nada tem a ver com as necessidades de consumo imediatas de nenhum dos participantes na transacção mas apenas com expectativas de risco de incumprimento dos empréstimos ou de valorização de activos. A essência destes mercados está na incerteza do valor futuro do que se transacciona. Por exemplo, não existe um mercado para a troca de notas de 10 euros por notas de 5 euros porque as pessoas sabem que, quer agora quer no futuro, uma nota de 10 euros valerá sempre exactamente duas notas de 5 euros.
E a razão da existência destes mercados era precisamente fornecer boas previsões quer de riscos quer de probabilidades de valorização de activos.

Existem mesmo algumas pessoas, algo embasbacados pela qualidade de previsões baseadas na conjugação de palpites de múltiplos agentes independentes, que afirmam que essas previsões são melhores do que a estimativa dada por um especialista em assuntos mais banais, como por exemplo o peso de um animal a ser transaccionado. As pessoas comuns sabem que existem métodos melhores do que o mercado para fazer alguns tipos de estimativas, por exemplo para estimar o peso de uma vaca, melhor ainda do que a previsão dum conjunto de leigos ou do que o palpite de um especialista será utilizar uma balança.

Ao longo da história têm aparecido muitos governantes que gostam de definir os preços das mercadorias que se transaccionam nos seus domínios e não serei eu a negar as vantagens de tais práticas, designadamente nas situações em que é patente que o mercado existente está muito longe da perfeição e não é fácil aperfeiçoá-lo. No entanto neste caso corre-se o risco imenso de o governante falhar na determinação do preço mais adequado.

As grandes agências de rating americanas têm vindo a ser atacadas recentemente pelas falhas clamorosas das previsões que fizeram em relação a um grande conjunto de produtos. Mas as críticas dessas agências têm vindo mais das pessoas que ou não acreditam nos mercados ou, duma forma mais suave, têm fortes dúvidas sobre a perfeição dos mercados existentes.

Julgo haver um silêncio ensurdecedor da parte das pessoas que acreditam numa perfeição razoável dos mercados existentes, que quanto a mim deveriam já ter denunciado vezes sem conta a situação de oligopólio e o papel vanguardista e de condicionamento do livre funcionamento do mercado que estas agências representam.

Estas agências são mais uma manifestação do poder da super-potência americana, ao ponto de não existir uma única agência com relevância global em mais lado nenhum, nem sequer no continente europeu.

No caso concreto da dívida soberana de Portugal, é público que houve uma deterioração muito importante da notação atribuída em Dezembro de 2010 para os finais de Março de 2011. A situação do país poderá ter piorado neste primeiro trimestre mas nunca da forma calamitosa que corresponderia a 5 níveis como aconteceu na notação da Fitch. Poderão algumas vozes argumentar que agora é que as agências se deram verdadeiramente conta da gravidade da situação portuguesa. Eu diria a quem assim argumenta que as agências têm andado muito distraídas pois qualquer leitor de jornais portugueses terá tido múltiplas oportunidades de saber que muita gente duvidava (e duvida e duvidará para todo o sempre) dos números do governo e que fomos alertados em todos os media vezes sem conta para o optimismo deslocado do governo do PS e para a gravidade da situação económica de Portugal.

A coluna do Ricardo Costa no Expresso de 2011-04-02 descreve a visita de uma delegação da agência Fitch ao jornal Expresso no dia 14 de Dezembro de 2010, onde ele e o Nicolau Santos tiveram a oportunidade de lhes descrever o que iria provavelmente acontecer em Portugal no futuro próximo. E o que aconteceu no primeiro trimestre correspondeu ao que eles tinha previsto e comunicado à agência Fitch.

Chegamos assim a uma conclusão irresistível: ou a notação de Dezembro de 2010 estava errada, ou a de Março/2011 está errada ou ambas as notações não passam na melhor das hipóteses de conjecturas infundamentadas, na pior do exercício dum poder ao serviço de interesses específicos.

No final deste longo texto começo a achar que a primeira imagem deste post não representa bem um mercado, pela sua regularidade excessiva. Uma representação melhor talvez seja a deste conjunto desordenado de malmequeres.