2011-05-07

Vilnius

Ia eu dizendo há uns dias atrás que a beleza está à nossa volta, para a descobrir basta estar atento. Mas, como seria de esperar, a beleza também está longe, está em todo o lado.

Não fui a Vilnius para fazer uma verificação desta última frase mas também lá encontrei coisas bonitas.

Começo por esta vista parcial da igreja de S.Casimiro, do século XVIII.



A Lituânia era predominantemente católica, à semelhança da Polónia, talvez para marcar diferença em relação à igreja ortodoxa russa, vendo-se contudo também muitas igrejas ortodoxas. Com o domínio soviético a maior parte foi ou fechada ou convertida em salas de espectáculos, agora estão a regressar ao uso religioso tradicional. Curiosa nesta fachada a, por assim dizer, ausência das duas torres dos sinos que perdem a individualidade com a estrutura que as une.

Continuo com este parque no meio da cidade, com as folhas das árvores muito menos desenvolvidas do que em Lisboa.



Muitas vezes as minhas fotos ficam sem pessoas, às vezes perguntam-me se não vivia ninguém naquela cidade, foi o caso deste parque, num fim de tarde.

Não resisti aos reflexos dourados do sol quase a pôr-se nesta rua Gedimino Prospektas (neste caso com pessoas mas sem carros...):



Nem a estas três figuras à entrada de um teatro, na mesma rua de Vilnius


Gostei ainda deste prédio fortemente decorado


e da estátua lá de cima dum cavaleiro, com uma cruzinha no alto do capacete, a combater um dragão (será o S.Jorge?), que com a minha nova máquina fotográfica se pode ver muito ampliado aqui a seguir:

2011-05-01

A beleza está à nossa volta (2)

Olhando com atenção descobre-se que há muita coisa à nossa volta que merece um olhar mais demorado do que aquele que costumamos dispensar.

Como por exemplo este conjunto de simpáticos malmequeres, crescendo num canteiro da urbanização da Portela



ou um conjunto mais pequeno



fazendo agora um zoom sobre duas flores e colocando triângulos pretos nos cantos para as destacar melhor



recordando as sequências de fibonacci do girassol, daqui e daqui e rodando as mesmas flores para um aspecto mais geométrico

2011-04-28

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

O Ipê rosa dum post recente fez-me pensar no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Quando o rei D.João VI de  Portugal fugiu para o Brasil para escapar às invasões francesas, ficou por lá desde 1808 até 1820, promovendo a criação dum Real Horto que após a independência do Brasil em 1822 se passou a chamar Real Jardim Botânico durante algum tempo.

O Jardim vale muito uma visita, a exuberância da sua vegetação é extraordinária, como se pode constatar nesta primeira imagem:


Um pouco mais à frente estava este conjunto de canas de bambu, duma dimensão como nunca tinha visto, fazendo-me lembrar a frase do Eça de Queiroz, de que “o Brasileiro seria o Português desabrochado ao calor dos trópicos”. Não faço ideia se esta imagem literária será algo mais do que isso relativamente às pessoas, mas não há dúvida que o calor e a humidade dos trópicos favorecem muito o crescimento das plantas. Pena não haver um referencial para uma melhor percepção da escala dos bambus mas a presença do troco de palmeira ajuda


Mais à frente estava esta árvore de que não sei o nome, que parece muito despenteada. Ainda fui ver se seria parecida a uma árvore do Jardim Tropical de Lisboa, também "despenteada" mas não me pareceu. Na história da evolução das plantas esta aparenta ser antiga, a estratégia da colocação das folhas para maximizar a exposição ao sol parece ser “tudo ao molhe e fé em Deus”


e para finalizar esta árvore com flores amarelas. Tinha lido que o Ipê amarelo é a árvore nacional do Brasil, mas não consegui confirmar se esta seria uma delas.


De qualquer forma gosto desta composição de ouro sobre azul.

São sempre benvindos esclarecimentos sobre os nomes das plantas aqui mostradas.

2011-04-23

Produtividade, horas de trabalho e feriados

Já manifestei neste blogue aqui e aqui a minha discordância sobre as tão apregoadas vantagens de trabalharmos muito mais tempo do que aquele que já trabalhamos em Portugal.

Repito que o aumento da produtividade através do aumento do número de horas de trabalho por ano é a progressão em direcção ao beco sem saída, ao fim dum certo número de aumentos essa via fica esgotada pois não se podem trabalhar mais do que 24 horas por dia e mesmo esse número é impossível de observar de forma sustentada porque precisamos de dormir.

Recentemente a OCDE publicou um estudo onde concluem que Portugal é o país europeu da OCDE onde mais horas se trabalha, demonstrando mais uma vez que não é insistindo nesta via de aumentar o número de horas em que trabalhamos que melhoraremos a nossa competitividade. Este estudo engloba horas no emprego e fora do emprego.

Se nos restringirmos ao número de horas trabalhadas no emprego constatamos facilmente nas estatísticas da OCDE



que as nossas 1719 horas no ano de 2009 são bastante mais do que as trabalhadas na Dinamarca (1563), na Áustria (1621) ou mesmo do que na Holanda (1378) ou do que na Alemanha (1380). Tudo países mais ricos do que nós e que me parecem exemplos a seguir. Mesmo na Finlândia, onde não passaram das 1652 horas, mesmo com aquele clima que convida a trabalhar só para aquecer. E nos países onde dizem que existem muito poucos feriados constata-se que trabalham menos horas do que cá. Já na Turquia, em 2004 trabalhavam 1918 horas. De uma forma geral os países mais pobres têm normalmente horários de trabalho com mais horas do que os países mais desenvolvidos. Mas em todos eles se observa uma tendência para o número de horas de trabalho diminuir ou manter.

Parece assim que nos querem pôr a caminhar na direcção oposta à do progresso, em que, em vez de imaginar formas de se produzir mais em menos horas de trabalho nos esgotamos a repetir sem imaginação durante mais horas aquilo que agora fazemos.

Há também um complexo de culpa completamente disparatado em relação aos acasos que colocam feriados ao pé de fins-de-semana. Em muitas empresas opta-se por caracterizar as férias por um dado número de dias úteis. É completamente irrelevante para o volume de trabalho que se presta à empresa que esse dias sejam gozados entre um feriado e um fim-de-semana ou noutra altura qualquer.

É para mim incompreensível que gente que considero razoavelmente esperta não consiga aperceber-se disto, achando sempre que os trabalhadores estão, no fundo no fundo, a usufruir um privilégio a que não deveriam ter direito. E previsivelmente apareceu agora a conversa estúpida a propósito da tolerância habitual na tarde de quinta-feira santa, só porque este ano o feriado do 25 de Abril é adjacente ao domingo de Páscoa e parece que nos estamos a escapar durante uma série excessivamente longa de dias, ao suor a que Deus nos condenou quando nos expulsou do Paraíso.


Em vez de aumentar o horário deveríamos pensar em formas de tornar o trabalho menos penoso e logo mais produtivo. Por exemplo os holandeses no século XVI (ou XVII) em Amsterdão colocavam no topo da fachada de todos os prédios de andares uma viga saliente onde se podia colocar uma roldana que facilitava muito a colocação das mobílias nos andares em relação ao processo muito mais penoso de transporte pelas escadas, conforme se pode ver na foto que tirei dum sítio de viagens.

Em Portugal muito deste transporte faz-se agora pelos elevadores mas, quando os objectos não cabem, ou mesmo em edifícios de 3  andares sem elevador, este aparelho que mostro a seguir


que se começou a ver há algum tempo mostra que já existe um pouco mais de consideração pelos trabalhadores das mudanças.

Uma vez em Bruxelas gostei de ver este camião com um tecto deslizante que possibilita que a descarga se faça de forma abrigada da chuva, minimizando as molhas quer dos trabalhadores quer do material nas operações de carga e descarga.


Claro que não é com estas engenhocas que vamos resolver os problemas do nosso país. Mas elas ilustram de forma simples que o caminho do progresso está na criação de condições que tornem os trabalhadores mais produtivos e não no regresso à escravidão.

2011-04-18

Floração

Estou cada vez mais confuso com a situação de Portugal. Os políticos, ou por paternalismo, ou por conveniência, ou por obrigação raramente nos informam com exactidão do que se passa. Isto torna o passado cada vez mais imprevisível e o presente cada vez mais nevoento.

Ironicamente parece que agora só o futuro se conhece com exactidão: intervenção externa, recessão, austeridade.

Resolvi assim fazer uma ligeira pausa na minha modesta tentativa de compreender o que se passa, aguardando que sejam revelados alguns factos novos, pois as narrativas públicas actuais escapam ao domínio do senso comum (para evitar a forma mais portuguesa e mais ousada de “bom senso”).

Tenho assim contemplado a floração das árvores, muito activa por esta época do ano. Sendo citadino surpreendo-me mesmo assim como foi possível passar tantos anos reparando apenas na floração roxa das Jacarandás em Maio e amarela das Tipuana Tipu em Junho, sem reparar que quase todas as árvores de Lisboa alteram o seu aspecto nesta altura, exibindo flores, frutos, novas folhas, etc.

Bem sei que um pouco mais para o Norte, por exemplo no Porto, esta floração é mais espectacular, sobretudo com as magnólias, e que já tinha referido a floração discreta das oliveiras aqui e aqui mas é interessante constatar que existem sinais discretos (por vezes não tão discretos assim) de mudança de aspecto de uma grande quantidade de árvores.

Estas florações discretas fizeram-me lembrar outra mais conspícua, que só tenho visto em fotografia. Trata-se do espectacular Ipê Rosa do Brasil de que apresento duas imagens que fui buscar ao blogue “Leaves of Grass” que consta da minha lista aqui à direita.


A de cima é um detalhe cheio de flores usado como banner no blogue referido, a de baixo mostra a árvore imponente cuja escala pode ser avaliada, por exemplo, a partir das telhas do alpendre da casa que aparece do lado esquerdo, mas também a partir de outras imagens da mesma árvore neste post.


O blogue “Leaves of Grass” tem ainda bastantes fotos interessantes tiradas nas margens da represa de Jurumirim.

2011-04-15

...mais do que na China, em Espanha, em Portugal...

Através deste post do blogue do António Vidigal cheguei a esta intervenção do Arnold Schwarzenegger, actor e ex-governador da Califórnia, sobre a importância de promover as energias renováveis.


A frase em que refere que a Califórnia “...tem mais renováveis do que a China, ou a Espanha, ou Portugal, ou qualquer outro...” está a seguir a 08:30. sendo uma confirmação insuspeita da relevância actual de Portugal na área das energias renováveis.

No minuto 11:05 tem um bom soundbyte: “China is an ancient culture but with new ideas. We cannot let America be a new culture with old ideas”.

Em 14:46 refere as dificuldades que as pessoas alegam sempre que se fala de melhorar a performance energética dos edifícios e dos processos. O Empire State Building acaba de ser weatherized gasta agora 40% menos de energia do que antes e no edifício Sears de Chicago espera-se reduzir uns impressionantes 80%!

No minuto 19:11 refere que é melhor abandonar o tema do Aquecimento Global, que tem pouca força mobilizadora para a maioria da população, sendo mais mobilizador falar na saúde, nos postos de trabalho, na economia e na segurança nacional, como áreas onde se registarão melhorias com a preferência das energias renováveis face às baseadas nos combustíveis fósseis.

Em resumo, uma apresentação realmente interessante.

2011-04-14

A paranóia das auditorias

Há uns tantos anos falei com um responsável pela rede de PCs de uma empresa que me confessava que não sabia quantos PCs existiam na empresa. Felizmente, tinha uma ideia bastante aproximada de quantos eram, e era sempre possível fazer um inventário, mas o problema dele era que estava a ter dificuldades em montar o processo que lhe assegurasse o seguimento sistemático das entradas e saídas de equipamentos.

Passa-se alegadamente uma situação semelhante com o governo de Portugal. Está a existir alguma dificuldade em conhecer com exactidão as contas do Estado, mais ainda agora em que elas não estão em grande forma e em que o governo e a oposição têm dificuldade em comunicar. A oposição requer uma auditoria. Já tivemos duas auditorias, uma solicitada pelo Durão Barroso e outra solicitada por José Sócrates, que deve ter achado muito boa esta figura de retórica “inventada” por Durão Barroso, para como ele ficar com as mãos mais livres para fazer o que lhe apetecia em vez de ter de seguir a maçada do programa eleitoral.

As contas nacionais são seguidas por muitas instituições, designadamente da União Europeia, essas instituições não apareceram ontem, conhecem as tentações de falsear a contabilidade, têm experiência de falsificação de contas por outros estados, o BCE anda-nos a emprestar dinheiro há um ror de tempo, serão todos tão estúpidos e incompetentes lá no centro da Europa que o nosso governo os consegue enganar a todos?

Esta situação traz-me maus pensamentos: de há uns tempos a esta parte que a oposição (qualquer que seja o partido) desconfia das contas apresentadas pelo governo. Infelizmente, quando chega ao governo, em vez de montar uns mecanismos que garantam um acompanhamento transparente das contas nacionais, refugia-se no quentinho do importante segredo de Estado para evitar que a oposição chateie. Seria tudo melhor se seguissem aquela regra de não fazer aos outros o que não gostariam que fizessem a eles. E os nossos legisladores, que tanto barafustam sobre a falta de transparência, tão pouco conseguem descortinar umas leis que facilitem o seguimento orçamental.

Eu aconselharia mais um grupinho de trabalho para estudarem as leis de 2 ou 3 estados europeus sobre este tema, preferencialmente dos bem colocados na ausência de corrupção. Se com essas leis eles conseguem bons resultados os Portugueses também hão de conseguir.

O seguimento orçamental tem que ser uma actividade contínua, não pode basear-se em auditorias que se executam quando se realizam eleições. Espero que o próximo governo, seja ele de que partido for, bem como a nova Assembleia da República, melhorem os mecanismos já existentes de forma a que acabem com esta paranóia dos pedidos de auditorias no período eleitoral ou pós-eleitoral.

Como imagem alusiva escolhi estes copos lindíssimos de cristal de Baccarat que fotografei com o telemóvel em Paris. Infelizmente o modelo em primeiro plano chama-se Massena, o general que comandou a 3ª invasão francesa a Portugal. São transparentes como deviam ser as nossas contas e invocam uma invasão estrangeira. Vá lá que antes mandavam soldados e canhões, agora enviam economistas.

2011-04-12

Encosta arborizada e recessão

No livro “Colapso” de que falei no post anterior, o autor recorre com frequência ao estudo da evolução da flora duma dada região ao longo do tempo, através da datação de depósitos sedimentares no fundo de lagos, da verificação da predominância de vários tipos de pólen e dando muita importância às árvores, constatando o efeito devastador que pode ter a desflorestação de uma região na sua capacidade de suportar habitats adequados à sobrevivência de sociedades humanas.

Tem uma sugestão particularmente cruel ao perguntar o que teria dito o habitante da ilha de Páscoa ao abater a última árvore existente na ilha: será que disse “Jobs, not trees!” ou numa tradução livre, “os postos de trabalho são mais importantes do que as árvores!”.

Continuo exausto da forma dramática como os media relatam as nossas desventuras económicas e os tempos difíceis que nos esperam. Dizem que a década passada foi uma década perdida com crescimentos muito anémicos e constatei no site Pordata que a média das taxas de crescimento do PIB dos últimos dez anos é cerca de 0,7%.

O Banco de Portugal estimou há uma semanas que em 2011 haveria um decréscimo do produto de 1,4%. Hoje ouvi no noticiário da RTP2 das 22:00, (um pequeno oásis de informação tranquila que se extinguiu com o novo formato em que os pivots, em vez de estarem sossegados sentados a uma mesa, andam para um lado e para o outro sem se perceber para quê) que a previsão se tinha agravado para 1,5% o que compreensivelmente quase me deixou aterrado e a tremer como varas verdes, a nova previsão é 1,5% em vez de 1,4%!!!

Embora eu perceba que diminuir o produto é preocupante, seria preferível que o aumentássemos ou que ficássemos na mesma, se 0,7% é quase nada, 1,4 % não é muito mais e tenho dificuldade em compreender porque é que temos que ficar aterrorizados com a perspectiva da nossa economia se contrair 1,4% num ano.

Pelo menos a encosta da serra de Sintra que se avista do palácio de Seteais não se degradou de 1974, tempo da primeira fotografia, até 2010, momento da segunda foto. A primeira é o “scan” de um slide, tirado em contraluz numa altura em que tinha pouca prática de uso da máquina fotográfica, uma Olympus OM-1. A segunda foi tirada com uma máquina digital. A encosta até parece mais frondosa.



Esta última foto já a tinha mostrado neste post.

2011-04-08

Colapso

Não, ainda não é o colapso de Portugal de que vou falar neste post mas do livro “Collapse: How societies choose to fail or survive”. Encontrei o livro na Loja da História Natural, uma simpática loja recomendada pelo maradona, ao pé da Rua da Escola Politécnica e comprei-o dado que tinha gostado muito doutro livro do mesmo autor, o “Guns, Germs and Steel”.

O livro fala sobre o colapso de muitas sociedades de pequena e média dimensão, alegando o autor que estas sociedades são exemplos mais fáceis de estudar e de perceber as razões do sucesso ou do fracasso, enquanto a queda do império romano é um tema tão complexo que, embora interessante, é quase impossível  dele tirar conclusões.

O autor refere as sociedades do estado de Montana, da ilha de Páscoa, das ilhas de Pitcairn e Henderson, dos Anasazi, dos Maias, da colonização Viking da Gronelândia, do genocídio recente no Ruanda, da ilha partilhada pelo Haiti e pela República Dominicana, da China e da Austrália, finalizando com um resumo das lições práticas que todos estes exemplos nos dão, os papéis que podem ser desempenhados pelas grandes empresas e as razões para por um lado estar preocupado e por outro para ter esperança no futuro.

No meio desta novela sem fim de pedirmos ou não uma intervenção externa na nossa economia, temos uma tendência fortíssima para nos esquecermos da finitude dos recursos do planeta em que vivemos e da enorme dificuldade em garantir a todos os seus habitantes um estilo de vida semelhante ao que existe no ocidente e que tão promovido é pelas agências de publicidade.

Na primeira crise do petróleo em 1973, o presidente da Comissão Europeia Sicco Mansholt, influenciado pelo Clube de Roma, falou muito no crescimento zero, designadamente na necessidade de por um termo no crescimento contínuo do consumo de produtos não renováveis. O crescimento do bem-estar das sociedades tem que se basear no crescimento dos serviços e não no consumo dos recursos finitos existentes.

Este livro do Jared Diamond dá uma ideia da situação actual que me pareceu tender para o lado da grande preocupação, mas a exposição é muito clara e convincente, à parte um ou outro pormenor em que cada leitor encontra a sua discordância do autor. Recomendo.

Nestes tempos da internet é tudo mais fácil: aqui está o endereço da apresentação do tema do livro que o próprio Jared fez no TED.

2011-04-06

Jarra de Flores

No meio está a virtude, não tão ordenada como as ondas mas mais ordenada do que os malmequeres selvagens do post anterior.

2011-04-03

As Agências de Rating não são a Mão Invisível do Mercado

Nos mercados onde se transaccionam produtos físicos a utilidade principal do mercado é facilitar precisamente essa transacção. Fortemente associada a essa facilitação está a capacidade muito boa que os mercados têm para encontrar um preço adequado para a mercadoria transaccionada, através da interacção de numerosos agentes, quer do lado da procura quer do lado da oferta. É essa multiplicidade de agentes, tão prezada pelas diversas Autoridades da Concorrência, que a imagem que segue evoca, embora nela se vejam facilmente outras coisas como, por exemplo, as ondas do mar ou as escamas dum peixe.


Poderia ter usado uma imagem de um mercado de alimentos mas, como pretendo falar de mercados financeiros, considerei que uma representação abstracta seria mais apropriada.

Nos mercados financeiros o objecto da troca nada tem a ver com as necessidades de consumo imediatas de nenhum dos participantes na transacção mas apenas com expectativas de risco de incumprimento dos empréstimos ou de valorização de activos. A essência destes mercados está na incerteza do valor futuro do que se transacciona. Por exemplo, não existe um mercado para a troca de notas de 10 euros por notas de 5 euros porque as pessoas sabem que, quer agora quer no futuro, uma nota de 10 euros valerá sempre exactamente duas notas de 5 euros.
E a razão da existência destes mercados era precisamente fornecer boas previsões quer de riscos quer de probabilidades de valorização de activos.

Existem mesmo algumas pessoas, algo embasbacados pela qualidade de previsões baseadas na conjugação de palpites de múltiplos agentes independentes, que afirmam que essas previsões são melhores do que a estimativa dada por um especialista em assuntos mais banais, como por exemplo o peso de um animal a ser transaccionado. As pessoas comuns sabem que existem métodos melhores do que o mercado para fazer alguns tipos de estimativas, por exemplo para estimar o peso de uma vaca, melhor ainda do que a previsão dum conjunto de leigos ou do que o palpite de um especialista será utilizar uma balança.

Ao longo da história têm aparecido muitos governantes que gostam de definir os preços das mercadorias que se transaccionam nos seus domínios e não serei eu a negar as vantagens de tais práticas, designadamente nas situações em que é patente que o mercado existente está muito longe da perfeição e não é fácil aperfeiçoá-lo. No entanto neste caso corre-se o risco imenso de o governante falhar na determinação do preço mais adequado.

As grandes agências de rating americanas têm vindo a ser atacadas recentemente pelas falhas clamorosas das previsões que fizeram em relação a um grande conjunto de produtos. Mas as críticas dessas agências têm vindo mais das pessoas que ou não acreditam nos mercados ou, duma forma mais suave, têm fortes dúvidas sobre a perfeição dos mercados existentes.

Julgo haver um silêncio ensurdecedor da parte das pessoas que acreditam numa perfeição razoável dos mercados existentes, que quanto a mim deveriam já ter denunciado vezes sem conta a situação de oligopólio e o papel vanguardista e de condicionamento do livre funcionamento do mercado que estas agências representam.

Estas agências são mais uma manifestação do poder da super-potência americana, ao ponto de não existir uma única agência com relevância global em mais lado nenhum, nem sequer no continente europeu.

No caso concreto da dívida soberana de Portugal, é público que houve uma deterioração muito importante da notação atribuída em Dezembro de 2010 para os finais de Março de 2011. A situação do país poderá ter piorado neste primeiro trimestre mas nunca da forma calamitosa que corresponderia a 5 níveis como aconteceu na notação da Fitch. Poderão algumas vozes argumentar que agora é que as agências se deram verdadeiramente conta da gravidade da situação portuguesa. Eu diria a quem assim argumenta que as agências têm andado muito distraídas pois qualquer leitor de jornais portugueses terá tido múltiplas oportunidades de saber que muita gente duvidava (e duvida e duvidará para todo o sempre) dos números do governo e que fomos alertados em todos os media vezes sem conta para o optimismo deslocado do governo do PS e para a gravidade da situação económica de Portugal.

A coluna do Ricardo Costa no Expresso de 2011-04-02 descreve a visita de uma delegação da agência Fitch ao jornal Expresso no dia 14 de Dezembro de 2010, onde ele e o Nicolau Santos tiveram a oportunidade de lhes descrever o que iria provavelmente acontecer em Portugal no futuro próximo. E o que aconteceu no primeiro trimestre correspondeu ao que eles tinha previsto e comunicado à agência Fitch.

Chegamos assim a uma conclusão irresistível: ou a notação de Dezembro de 2010 estava errada, ou a de Março/2011 está errada ou ambas as notações não passam na melhor das hipóteses de conjecturas infundamentadas, na pior do exercício dum poder ao serviço de interesses específicos.

No final deste longo texto começo a achar que a primeira imagem deste post não representa bem um mercado, pela sua regularidade excessiva. Uma representação melhor talvez seja a deste conjunto desordenado de malmequeres.

2011-03-30

Pequena caixa indiana

Usando a mesma técnica de embutir pedrinhas semi-preciosas em mármore branco como referido há uns tempos neste blogue, desta vez o artesão fez uma caixinha com cerca de 10cm de comprimento por 7,5 cm de largura.


Não é tão espectacular como o prato mas uma pessoa concentra-se mais facilmente no detalhe dos embutidos


Recordo a legenda do post anterior em relação às pedras usadas
- Malaquite, de cor verde
- Lápis-lazuli, azul escuro
- Turquesa, de cor azul-turquesa
- Cornalina, de cor laranja mais ou menos avermelhada
- Madrepérola
e o verde-azeitona nos caules das flores talvez seja jade


e uma vista em perspectiva para finalizar:

2011-03-28

Moda em Shiraz e Yazd


Depois de em Maio e  Junho/2010 ter feito uns posts sobre a moda que tinha visto em lojas de Teerão e de Shiraz, que me levaram a pensar que as mulheres do Irão se limitavam ao tchador e a conjuntos de calças mais uns casacos ligeiramente abaixo dos joelhos, como os que se vêem na figura ao lado, que me pareceu na altura ser a moda feminina disponível, fomos visitar o bazar da cidade.

Afinal as mulheres do Irão também gostam de tecidos vistosos, certamente reservados para situações festivas, talvez mesmo um pouco vistosos demais para o gosto mais comum no Ocidente, mas parece que esses tecidos se encontram nos locais com longa tradição de comércio, vulgo bazar, e não nas lojas mais modernas com montras para a rua.


Nesta loja do bazar de Shiraz houve mesmo uma iraniana que fez questão de ficar na fotografia quando notou o meu interesse por estes tecidos vistosos. O vendedor parece bem disposto com a  situação, há uma cliente que olha para a cena.


Nesta outra loja do mesmo bazar existem mesmo vestidos sem ombros mas é possível que sejam usados sobre blusas de manga comprida.


Fiquei a pensar se o tchador é um contraponto a tanta exuberância ou se esta é uma reacção à monotonia do tchador preto e das cores “de burro quando foge” da outra roupa feminina que se vê na rua.

Viajando para o norte chegámos à cidade de Yazd, que já referi noutros posts, em que me deparei primeiro com uma montra do que seria aqui uma loja para noivas


 seguida destas montras estranhas onde os manequins femininos têm as cabeças cortadas a meio e mesmo assim cobertas com um véu ou um chapéu


Embora a paridade de género esteja aqui restabelecida ao nível quantitativo, parece-me simbolicamente terrível optar por esta via de cortar a meio a cabeça do manequim feminino


enquanto os homens continuam com direito a uma imagem íntegra.

E uma pessoa fica a pensar que as mulheres devem levar uma vida de clausura, como por exemplo em Lisboa na primeira metade dos anos 60 do século passado, onde me lembro da raridade das mulheres à noite nas pastelarias então numerosas na Praça de Londres.

Porém, neste “fast-food”, às 10 da noite, ao lado destas montras, havia empregadas a atender ao balcão, situação que julgo que teria sido considerada imprópria em Portugal na altura que referi.


Eu diria para concluir que, embora seja provável que actualmente os países em que o Islão predomina ganhem o campeonato da misoginia, eles estão longe de ter o exclusivo, e existem neles práticas que agora nos chocam mas que também eram dominantes no Ocidente há não muitas décadas.

Bom, não incluindo, por exemplo, estas questões do apedrejamento de Sakineh Ashtiani, que depois da suspensão da pena saiu dos jornais, da violação em grupo duma jornalista da CNN na via pública no Cairo e da cena inquietante da detenção de Iman Al-Obeidi num hotel em Tripoli, na Líbia

2011-03-22

Que possas ser a mãe duma centena de filhos

Na minha segunda viagem à Índia, em 1993, aconselharam-me este livro “May you be the mother of a hundred sons”, escrito por Elisabeth Bumiller, uma jornalista americana, repórter do Washington Post, que chegou à Índia em 1985, viveu lá até 1988 e publicou este livro em 1990.

O tempo voa e já passaram entretanto 21 anos desde que o livro foi publicado e cada ano que passa está um ano mais desfasado da realidade em que foi escrito, mas os costumes enraizados nas sociedades não desaparecem dum dia para o outro e muita coisa ainda será actual.

Nestes olhares de estrangeiros sobre um país existe sempre o risco da incompreensão duma sociedade estranha e de analisar uma sociedade usando os preconceitos da sua. A autora é realmente americana mas acho que fez um bom trabalho, trazendo o benefício da análise sem os preconceitos da sociedade analisada.

Quando o li lembro-me que gostei muito do livro, na descrição duma sociedade com costumes tão diferentes da portuguesa, mas ao fim de tantos anos retive quase apenas que existia um problema terrível com o dote que as raparigas tinham que levar para o casamento, dote esse que levando à ruína os pais conduzia por vezes ao infanticídio. Lembro-me de ser referido uma bebida com ervas que punha as meninas “a dormir”. Nas famílias mais abastadas o problema do dote também existia, mas era resolvido através de abortos selectivos em função do sexo do feto.

Face a este problema, o dos casamentos arranjados pareceu-me menos importante.

Lembro-me também duma referência a uma esposa do marajá de Jaipur e à sua vida faustosa que me levou a comprar o livro “A princess remembers” de que falei aqui e aqui, onde refiro que, embora o marajá fosse hindu e não muçulmano, resguardava a esposa dos olhares dos seus súbditos indianos, à semelhança do que acontecia com as esposas dos homens (muçulmanos) importantes do Afganistão.

Lembro-me ainda da importância da bosta de vaca na vida das pessoas pobres que a usavam como combustível e de ver imensas casas pequenas de camponeses, na estrada de Agra para Jaipur, cobertas de bosta de vaca a secar.

Este tema recordou-me o livro de David S. Landes, “A riqueza e a pobreza das nações” quando ele diz que o uso da bosta de vaca como combustível para cozinhar os alimentos em casas muitas vezes sem chaminé causa imensos problemas respiratórios nas famílias camponesas pobres da Índia que, vivendo tão perto da Natureza, têm afinal que enfrentar uma poluição atmosférica bem pior do que a existente em muitas cidades. Também não me consigo esquecer dele dizer que muita gente do campo gastava à volta de 4 horas por dia para recolher uns gravetos de lenha para o cozinhado diário. Uma pessoa nem se apercebe da facilidade de rodar o botão do fogão a gás e ter ali imediatamente disponível o combustível necessário para cozinhar.

Nas sociedades ocidentais existia este hábito do dote que nalgumas circunstâncias parecia fazer algum sentido económico. Era o caso das classes abastadas em que como a mulher se tinha que abster de qualquer tarefa remunerada, acabava por constituir um encargo para o marido pelo que o dote compensava essa expectável inactividade futura.

No caso das famílias camponesas pobres da Índia a mulher trabalhava duramente no campo, ganhando não só o seu sustento mas contribuindo também para o sustento da família. Neste contexto em que a “empresa familiar” recebia um “meio de produção” e não uma “despesa” qual o sentido do “meio de produção” ir acompanhado de um dote? A única explicação que consigo encontrar é a cópia mecânica e desajustada de costumes com eventualmente algum sentido  económico nas classes abastadas, criando uma situação completamente absurda nas classes mais pobres.

O déficit de mulheres na Índia, que referi numa tabela (em que os valores indianos são de 2009, mostrando a permanência do problema) na parte final dum post que publiquei há pouco tempo, tem sido referido por gente muito famosa, designadamente por Amartya Sen (nobel de economia que recebeu neste mês de Março um doutoramento honoris causa na Universidade de Coimbra) em “More-than-100-million-women-are-missing”.

Tive dificuldade em escolher uma imagem para ilustrar este déficit de mulheres na Índia.

Acabei por escolher esta, que mostra um conjunto de homens a lavar a roupa em Mumbai, junto ao oceano Índico no bairro de Bandra.


Não é que eu sinta a falta das lavadeiras que havia em Portugal, mas é curioso constatar como se estabelece que uma profissão é mais adequada para um dos sexos do que para o outro e depois essa convenção perdura por muito tempo, embora sociedades diferentes usem convenções diferentes. E é evidente que tirei a foto porque a convenção indiana era diferente da portuguesa.

2011-03-17

O Fogo

Comemorando o terceiro aniversário deste blogue e continuando a tradição de mostrar um dos 4 elementos fundamentais, como já passei pela água e pela terra chegou agora a vez do fogo.

Trata-se de um fogo especial, protegido por um vidro, que fotografei em 2010, alegadamente mantido de forma ininterrupta pelos seguidores de Zoroastro desde cerca de 470 DC, portanto há mais de 1500 anos, embora nem sempre neste local.

Diz que vem gente de todo o mundo para ver esta Ateshkadeh (chama sagrada eterna). O deus único Ahura Mazda, sem representação icónica, disse que quando lhe rezassem se voltassem para a luz, o que está na origem da existência de fogo, gerador de luz, nos templos dos seguidores de Zoroastro.

Lembro-me ainda de no liceu me terem ensinado que Zoroastro dizia que existia uma luta permanente entre os princípios do Bem e do Mal e que todos os seres humanos eram chamados a participar nessa luta para apressar a vitória do Bem sobre o Mal. Acho que na altura me disseram que esta vitória estava garantida, a nossa participação era "apenas" para apressar essa vitória. Existem razões para acreditar que Zoroastro nunca visitou Portugal.

2011-03-16

A Central Nuclear em Portugal


Quando Patrick Monteiro de Barros se propôs fazer uma central nuclear em Portugal, alegando que não precisava de qualquer apoio dos cofres públicos, sugeri-lhe no seminário da FIL que fosse construir a sua central para Espanha, visto ser um tão bom negócio privado. Indirectamente beneficiaria o nosso país pois dada a forte interligação eléctrica entre os dois países a boa performance da sua central do outro lado da fronteira certamente se reflectiria em melhores preços no MIBEL (Mercado Ibérico de Electricidade), aproveitando também a infraestrutura legal e regulamentar já existente em Espanha.

Agora que o crescimento do consumo na Ibéria continua algo anémico e visto que o Engº Pedro Sampaio Nunes insiste, com dúbio  sentido de oportunidade, nas enormes vantagens e grande segurança das centrais nucleares mesmo em caso de terramoto, sugiro-lhe que redireccione os ímpetos de investimento do Sr. Patrick Monteiro de Barros para o Japão, país que ficou agora com falta de energia nuclear e onde as suas propostas serão certamente acolhidas com grande entusiasmo.

Nós por cá, que já gastámos tanto dinheiro em obras públicas, certamente teremos imenso a ganhar em evitar estas obras alegadamente privadas.


Imagens da BBC World News mostrando técnicos japoneses medindo eventual contaminação radioactiva, na sequência dos incidentes na central nuclear de Fukushima.

2011-03-11

Lírios dourados com oito centímetros

A propósito do dia internacional da mulher lembrei-me que há bastante tempo referi aqui um livro de que gostei imenso, “Cisnes Selvagens”, da chinesa Jung Chang, em que é passada em revista a história da China no século XX, através da vida quotidiana da avó, da mãe e da própria autora.

Marcou-me esta descrição, feita no início do livro, dos pés enfaixados das mulheres

«
A minha avó era uma beldade. Tinha um rosto de forma oval, com faces rosadas e pele sedosa. Usava os cabelos, negros, compridos e muito brilhantes, entretecidos numa grossa trança que lhe caía até à cintura. Sabia ser discreta quando a ocasião o exigia, o que significava quase sempre, mas sob aquele exterior recatado fervilhava um vulcão de energia reprimida. Era de` pequena estatura, um pouco menos de um metro e sessenta, e tinha uma figura muito esbelta, de ombros descaídos, o que era considerado o ideal.

O seu grande valor residia, porém, nos pés enfaixados, chamados em chinês «lírios dourados com oito centímetros»(san- tsun - gin- lian). Significava isto que caminhava «como um tenro rebento de salgueiro numa brisa primaveril», no dizer tradicional dos connoisseurs chineses de mulheres. A visão de uma mulher a caminhar vacilantemente sobre uns pés enfaixados tinha supostamente um efeito erótico nos homens, em parte, sem dúvida, porque a vulnerabilidade dela despertava em quem a via um impulso protector.

Tinha a minha avó dois anos quando lhe enfaixaram os pés. A mãe, que também tinha pés enfaixados, começou por enrolar-lhe à volta dos pés uma tira de pano com cerca de seis metros de comprimento, dobrando todos os dedos, excepto o grande, para dentro e para debaixo da planta. Depois pôs-lhes uma grande pedra em cima, para esmagar o arco. A minha avó gritou de dor e suplicou-lhe que parasse, e a mãe teve de meter-lhe um pano na boca, para amordaçá-la. A infeliz desmaiou diversas vezes, devido à dor.

O processo demorava anos. Mesmo depois de os ossos terem sido partidos, os pés tinham de continuar enfaixados, dia e noite , em tiras de pano, pois no momento em que fossem libertados, tentariam recuperar. Durante anos, a minha avó viveu cheia de dores terríveis e constantes. Quando suplicava à mãe que lhe tirasse as faixas, ela chorava e dizia-lhe que isso arruinaria toda a sua vida futura, e que fazia aquilo pela felicidade dela.

Naqueles tempos, quando uma mulher casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar-lhe os pés. Uns pés grandes, ou seja, uns pés normais, traziam vergonha para a casa do marido. A sogra levantava a orla da comprida saia da noiva e, se os pés tivessem mais de oito centímetros, deixava-a cair, num claro gesto de desprezo, e afastava-se, deixando a pobre rapariga sujeita aos olhares críticos dos convidados, que lhe miravam os pés e murmuravam insultuosamente o seu desdém. Por vezes, uma mãe apiedava-se da filha e tirava-lhe as faixas. Mas quando a criança crescia e tinha de enfrentar o desprezo da família do marido e a reprovação da sociedade, acusava a mãe de ter sido demasiado fraca.

O costume de enfaixar os pés foi introduzido na China há cerca de mil anos, segundo se diz por uma concubina do imperador. Além de a visão das mulheres a coxear sobre uns pés minúsculos ser considerada erótica, os homens excitavam-se a acariciar os pés enfaixados, que permaneciam sempre escondidos nuns sapatinhos de seda bordada. As mulheres não podiam tirar as faixas mesmo depois de adultas, pois os pés começariam a crescer novamente. Só à noite, na cama, lhes era possível aliviar temporariamente o tormento, afrouxando um pouco as tiras de pano. Calçavam, então, uns sapatos de sola macia. Os homens raramente viam nus uns pés enfaixados, que estavam geralmente cobertos de carne apodrecida e exalavam um cheiro horroroso quando se retiravam as faixas. Lembro-me de, em criança, ver a minha avó constantemente cheia de dores. Sempre que regressávamos das compras, a primeira coisa que ela fazia era meter os pés numa bacia de água quente, suspirando de alivio. Depois punha-se a cortar pedaços de pele morta. A dor era provocada não só pelos ossos partidos, mas também pelas unhas, que cresciam para dentro das pontas dos dedos.

Na realidade, os pés da minha avó tinham sido enfaixados precisamente na altura em que a prática estava prestes a desaparecer para sempre. Quando a irmã dela nasceu, em 1917, o costume tinha sido praticamente abandonado, de modo que conseguiu escapar ao tormento.

Na época em que a minha avó cresceu, no entanto, a atitude prevalecente numa cidade pequena como Yixian era ainda a de que os pés enfaixados eram essenciais para um bom casamento - embora fossem apenas um começo.
»



É assustador como um disparate cruel como este é capaz de perdurar por 1000 anos!


Obtive este texto do livro "Cisnes Selvagens" aqui


Ao procurar no google "lirios dourados com oito centimetros" fui dar a este post com um resumo do livro e com esta fotografia de sapatinhos para pés enfaixados



Lembrei-me também do álbum do Tintin, “Le Lotus Bleu”, de onde tirei estes quadrinhos:


Sendo a primeira edição do álbum Le Lotus Bleu de 1936, constata-se que a informação sobre o abandono do enfaixamento dos pés das mulheres chinesas ainda não chegara à Europa, o que não me parece de admirar, dado que essa extinção, segundo Jung Chang, ocorrera há cerca de 20 anos.

Neste artigo da Wikipedia fala sobre os pés ligados, com fotografias e radiografias e descrições ainda mais horríveis do processo e das suas consequências. Do que nele li ficaram-me fortes dúvidas da prática estar completamente erradicada em 1936, se tal fosse o caso não haveria necessidade de os comunistas proibirem a prática quando chegaram ao poder em 1949. Há também uma referência da comunidade Hui, maioritariamente islâmica, ter adoptado a prática

Pensei que o costume se tivesse limitado a mulheres reservadas para dar prazer aos seus maridos e que as que tivessem que trabalhar no campo não tivessem sido atingidas mas mesmo estas foram afectadas por este hábito insano, embora um pouco menos do que as primeiras.

O que li reforçou a minha convicção que o tratamento cruel das mulheres em vários casos se propaga pela cópia pela sociedade de práticas inicialmente restritas às classes elevadas e que essas “modas” cruzam com facilidade as fronteiras religiosas. Foi o que aconteceu com a adopção da burka no Afganistão, erradamente confundida com uma prática islâmica.

Já quanto aos infanticídios referidos nos quadrinhos, não me parece tão líquido que não fossem um fenómeno presente, no meio dos cataclismos sociais sucessivos pelos quais a China estava a passar.

Mesmo agora a política do filho único, conjugada com a preferência por filho do sexo masculino, levou a uma razão de sexos que revela a presença significativa de abortos selectivos de fetos e/ou infanticídio de bebés pelo facto de serem do sexo feminino





País




Ratio Masc./Fem.




0-14 anos Masc.




0-14 anos Femin.




China




1,11




142 milhões




125,3 milhões




Índia




1,12




190




172,8




Irão




1,05




7,4




7




Portugal




1,07




0,91




0,84




E.U.América




1,05




31,6




30,3

Pelo ratio dos sexos no momento do nascimento constata-se que “não aparecem” uns 5% de seres femininos, quer na China, quer na Índia.

Adenda: fotos antigas da China sobre este tema aqui

2011-03-07

Janela irreal de Portimão



Depois dos últimos posts sobre as janelas da Maluda não resisti a fotografar esta linda janela numa pastelaria/casa de chá da rua Direita ( de seu nome, que não de sua geometria) em Portimão.

Ao lado está a foto original tirada com o meu telemóvel (apenas com menos pixels). Nas situações "normais" para os fotógrafos amadores (ainda por cima armados apenas de telemóvel) é frequente não estar facilmente acessível o ponto ideal para a tomada de vista.

Neste caso a foto foi tirada duma direcção não perpendicular ao plano da janela, tendo como consequência que a janela se transformou de rectângulo em trapézio. Na imagem seguinte deformei a foto para recuperar a forma rectangular.

Os reflexos são reais bem como o candeeiro aceso por trás da janela. É natural que o reflexo do fotógrafo não apareça, dado o ângulo de tomada da foto.

Mas ao escrever isto uma pessoa começa a ver que se trata também duma imagem com uma pequena dose de irrealidade.


2011-03-01

Maluda, Janela 38 (Elevador da Bica) de 1997 e Jyllands-Posten

Outra janela perfeita, impossível de fotografar, com os azulejos formando uma imagem contínua sem as imperfeições da adjacência das pequenas peças.

A geometria parece perder um pouco da sua perfeição apenas na zona dos reflexos, desta vez é o próprio Elevador da Bica que aparece, com a imagem perturbada por aquelas rendas pesadas usadas nalgumas janelas.

À semelhança doutros reflexos destas janelas da Maluda, este também foi captado por um observador invisível, na vida real o "fotógrafo" deveria também aparecer no reflexo da janela.


Esta imagem vem neste livro, que já referi em post anterior.

Entretanto a ausência de reflexo do fotógrafo no reflexo duma janela fez-me lembrar esta foto que tirei à janela das instalações do jornal dinamarquês Jyllands-Posten na praça Kongens Nytorv em Copenhaga. É provável que a minha ausência no reflexo, em que aparece o Magasin du Nord, se deva a ter tirado a foto com um telemóvel mais antigo em situação de falta de luz, mas não deixei de me surpreender com a minha aparente invisibilidade.


Foi neste jornal que apareceram as 12 caricaturas do Maomé, que tanta celeuma então causaram. Os meus colegas do Magrebe consideraram tal publicação como uma provocação desagradável e desnecessária, que foi também o que me pareceu na altura.