A propósito do dia internacional da mulher lembrei-me que há bastante tempo
referi aqui um livro de que gostei imenso, “Cisnes Selvagens”, da chinesa Jung Chang, em que é passada em revista a história da China no século XX, através da vida quotidiana da avó, da mãe e da própria autora.
Marcou-me esta descrição, feita no início do livro, dos pés enfaixados das mulheres
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A minha avó era uma beldade. Tinha um rosto de forma oval, com faces rosadas e pele sedosa. Usava os cabelos, negros, compridos e muito brilhantes, entretecidos numa grossa trança que lhe caía até à cintura. Sabia ser discreta quando a ocasião o exigia, o que significava quase sempre, mas sob aquele exterior recatado fervilhava um vulcão de energia reprimida. Era de` pequena estatura, um pouco menos de um metro e sessenta, e tinha uma figura muito esbelta, de ombros descaídos, o que era considerado o ideal.
O seu grande valor residia, porém, nos pés enfaixados, chamados em chinês «lírios dourados com oito centímetros»(san- tsun - gin- lian). Significava isto que caminhava «como um tenro rebento de salgueiro numa brisa primaveril», no dizer tradicional dos connoisseurs chineses de mulheres. A visão de uma mulher a caminhar vacilantemente sobre uns pés enfaixados tinha supostamente um efeito erótico nos homens, em parte, sem dúvida, porque a vulnerabilidade dela despertava em quem a via um impulso protector.
Tinha a minha avó dois anos quando lhe enfaixaram os pés. A mãe, que também tinha pés enfaixados, começou por enrolar-lhe à volta dos pés uma tira de pano com cerca de seis metros de comprimento, dobrando todos os dedos, excepto o grande, para dentro e para debaixo da planta. Depois pôs-lhes uma grande pedra em cima, para esmagar o arco. A minha avó gritou de dor e suplicou-lhe que parasse, e a mãe teve de meter-lhe um pano na boca, para amordaçá-la. A infeliz desmaiou diversas vezes, devido à dor.
O processo demorava anos. Mesmo depois de os ossos terem sido partidos, os pés tinham de continuar enfaixados, dia e noite , em tiras de pano, pois no momento em que fossem libertados, tentariam recuperar. Durante anos, a minha avó viveu cheia de dores terríveis e constantes. Quando suplicava à mãe que lhe tirasse as faixas, ela chorava e dizia-lhe que isso arruinaria toda a sua vida futura, e que fazia aquilo pela felicidade dela.
Naqueles tempos, quando uma mulher casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar-lhe os pés. Uns pés grandes, ou seja, uns pés normais, traziam vergonha para a casa do marido. A sogra levantava a orla da comprida saia da noiva e, se os pés tivessem mais de oito centímetros, deixava-a cair, num claro gesto de desprezo, e afastava-se, deixando a pobre rapariga sujeita aos olhares críticos dos convidados, que lhe miravam os pés e murmuravam insultuosamente o seu desdém. Por vezes, uma mãe apiedava-se da filha e tirava-lhe as faixas. Mas quando a criança crescia e tinha de enfrentar o desprezo da família do marido e a reprovação da sociedade, acusava a mãe de ter sido demasiado fraca.
O costume de enfaixar os pés foi introduzido na China há cerca de mil anos, segundo se diz por uma concubina do imperador. Além de a visão das mulheres a coxear sobre uns pés minúsculos ser considerada erótica, os homens excitavam-se a acariciar os pés enfaixados, que permaneciam sempre escondidos nuns sapatinhos de seda bordada. As mulheres não podiam tirar as faixas mesmo depois de adultas, pois os pés começariam a crescer novamente. Só à noite, na cama, lhes era possível aliviar temporariamente o tormento, afrouxando um pouco as tiras de pano. Calçavam, então, uns sapatos de sola macia. Os homens raramente viam nus uns pés enfaixados, que estavam geralmente cobertos de carne apodrecida e exalavam um cheiro horroroso quando se retiravam as faixas. Lembro-me de, em criança, ver a minha avó constantemente cheia de dores. Sempre que regressávamos das compras, a primeira coisa que ela fazia era meter os pés numa bacia de água quente, suspirando de alivio. Depois punha-se a cortar pedaços de pele morta. A dor era provocada não só pelos ossos partidos, mas também pelas unhas, que cresciam para dentro das pontas dos dedos.
Na realidade, os pés da minha avó tinham sido enfaixados precisamente na altura em que a prática estava prestes a desaparecer para sempre. Quando a irmã dela nasceu, em 1917, o costume tinha sido praticamente abandonado, de modo que conseguiu escapar ao tormento.
Na época em que a minha avó cresceu, no entanto, a atitude prevalecente numa cidade pequena como Yixian era ainda a de que os pés enfaixados eram essenciais para um bom casamento - embora fossem apenas um começo.
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É assustador como um disparate cruel como este é capaz de perdurar por 1000 anos!
Obtive este texto do livro "Cisnes Selvagens"
aqui
Ao procurar no google "lirios dourados com oito centimetros" fui dar a
este post com um resumo do livro e com esta fotografia de sapatinhos para pés enfaixados
Lembrei-me também do álbum do Tintin, “Le Lotus Bleu”, de onde tirei estes quadrinhos:
Sendo a primeira edição do álbum Le Lotus Bleu de 1936, constata-se que a informação sobre o abandono do enfaixamento dos pés das mulheres chinesas ainda não chegara à Europa, o que não me parece de admirar, dado que essa extinção, segundo Jung Chang, ocorrera há cerca de 20 anos.
Neste artigo da Wikipedia fala sobre os pés ligados, com fotografias e radiografias e descrições ainda mais horríveis do processo e das suas consequências. Do que nele li ficaram-me fortes dúvidas da prática estar completamente erradicada em 1936, se tal fosse o caso não haveria necessidade de os comunistas proibirem a prática quando chegaram ao poder em 1949. Há também uma referência da comunidade Hui, maioritariamente islâmica, ter adoptado a prática
Pensei que o costume se tivesse limitado a mulheres reservadas para dar prazer aos seus maridos e que as que tivessem que trabalhar no campo não tivessem sido atingidas mas mesmo estas foram afectadas por este hábito insano, embora um pouco menos do que as primeiras.
O que li reforçou a minha convicção que o tratamento cruel das mulheres em vários casos se propaga pela cópia pela sociedade de práticas inicialmente restritas às classes elevadas e que essas “modas” cruzam com facilidade as fronteiras religiosas. Foi o que aconteceu com a adopção da burka no Afganistão, erradamente confundida com uma prática islâmica.
Já quanto aos infanticídios referidos nos quadrinhos, não me parece tão líquido que não fossem um fenómeno presente, no meio dos cataclismos sociais sucessivos pelos quais a China estava a passar.
Mesmo agora a política do filho único, conjugada com a preferência por filho do sexo masculino, levou a uma razão de sexos que revela a presença significativa de abortos selectivos de fetos e/ou infanticídio de bebés pelo facto de serem do sexo feminino
País |
Ratio Masc./Fem. |
0-14 anos Masc. |
0-14 anos Femin. |
China |
1,11 |
142 milhões |
125,3 milhões |
Índia |
1,12 |
190 |
172,8 |
Irão |
1,05 |
7,4 |
7 |
Portugal |
1,07 |
0,91 |
0,84 |
E.U.América |
1,05 |
31,6 |
30,3 |
Pelo ratio dos sexos no momento do nascimento constata-se que “não aparecem” uns 5% de seres femininos, quer na China, quer na Índia.
Adenda: fotos antigas da China sobre este tema
aqui