2011-03-07

Janela irreal de Portimão



Depois dos últimos posts sobre as janelas da Maluda não resisti a fotografar esta linda janela numa pastelaria/casa de chá da rua Direita ( de seu nome, que não de sua geometria) em Portimão.

Ao lado está a foto original tirada com o meu telemóvel (apenas com menos pixels). Nas situações "normais" para os fotógrafos amadores (ainda por cima armados apenas de telemóvel) é frequente não estar facilmente acessível o ponto ideal para a tomada de vista.

Neste caso a foto foi tirada duma direcção não perpendicular ao plano da janela, tendo como consequência que a janela se transformou de rectângulo em trapézio. Na imagem seguinte deformei a foto para recuperar a forma rectangular.

Os reflexos são reais bem como o candeeiro aceso por trás da janela. É natural que o reflexo do fotógrafo não apareça, dado o ângulo de tomada da foto.

Mas ao escrever isto uma pessoa começa a ver que se trata também duma imagem com uma pequena dose de irrealidade.


2011-03-01

Maluda, Janela 38 (Elevador da Bica) de 1997 e Jyllands-Posten

Outra janela perfeita, impossível de fotografar, com os azulejos formando uma imagem contínua sem as imperfeições da adjacência das pequenas peças.

A geometria parece perder um pouco da sua perfeição apenas na zona dos reflexos, desta vez é o próprio Elevador da Bica que aparece, com a imagem perturbada por aquelas rendas pesadas usadas nalgumas janelas.

À semelhança doutros reflexos destas janelas da Maluda, este também foi captado por um observador invisível, na vida real o "fotógrafo" deveria também aparecer no reflexo da janela.


Esta imagem vem neste livro, que já referi em post anterior.

Entretanto a ausência de reflexo do fotógrafo no reflexo duma janela fez-me lembrar esta foto que tirei à janela das instalações do jornal dinamarquês Jyllands-Posten na praça Kongens Nytorv em Copenhaga. É provável que a minha ausência no reflexo, em que aparece o Magasin du Nord, se deva a ter tirado a foto com um telemóvel mais antigo em situação de falta de luz, mas não deixei de me surpreender com a minha aparente invisibilidade.


Foi neste jornal que apareceram as 12 caricaturas do Maomé, que tanta celeuma então causaram. Os meus colegas do Magrebe consideraram tal publicação como uma provocação desagradável e desnecessária, que foi também o que me pareceu na altura.

2011-02-26

Maluda, Janela 30 - Évora

Mais outra janela, esta pintada em 1990. É uma forma muito Portuguesa, bem como a imagem do casario reflectida na vidraça e suavemente perturbada pela presença dos cortinados.


Esta imagem vem neste livro, que já referi em post anterior

2011-02-25

Maluda, Janela 29

As janelas da Maluda  são fascinantes e julgo que muito apreciadas em Portugal. Por um lado as janelas são um elemento muito importante na caracterização de uma arquitectura. Quando uma pessoa vai, por exemplo, a Goa há uma sensação de familiaridade nos edifícios que julgo ser dada pelas janelas, semelhantes às que se vêem em Portugal. Por outro lado porque a pintora nos dá uma visão platónica de cada uma das janelas, um objecto perfeito livre de qualquer uma das impurezas das janelas reais, as pequenas manchas, alguma lasca na pedra da esquadria, os limites omitidos dos azulejos. As sombras formam-se sobre superfícies sem qualquer deformação, dando-lhes também um aspecto irreal. Finalmente os vidros das janelas são muitas vezes usados de forma que poderíamos considerar quase irónica. É completamente inverosímil que em frente desta janela se situe um prédio em que cada uma das janelas se reflectisse exactamente no centro de cada um dos pequenos vidros que constitui a janela que está a ser mostrada. Para compor a ilusão a pintora dá-se ao trabalho de sobrepor esses “reflexos” com as sombras dos caixilhos das janelas sobre as portas de madeira por trás da janela, uma delas entreaberta!

O nome do quadro tem a simplicidade habitual, chama-se Janela XXIX e foi pintado em 1987.


Esta imagem vem neste livro, que já referi em post anterior

2011-02-24

Janelas da Maluda

Continuando no reino da Geometria, passo agora das simetrias e translações para variações dum mesmo tema.

Esta obra da pintora Maluda poder-se-ia intitular "Todas diferentes, todas iguais" mas tem um nome mais simples: "Janelas, 1973".


Assusta pensar que quando este quadro foi feito, há 38 anos, já o coronel Kadafi tinha feito o seu golpe de estado na Líbia há 4 anos, em 1969! Espero que mais esta ditadura venha a ser derrubada dentro em breve.

2011-02-20

Janela de Isfahan – 2


Da análise que fiz da estrutura da janela mostrada no post anterior pensei se não seria possível fazer um padrão parecido recorrendo ao Microsoft Excel.

Aqui ao lado mostro o primeiro passo, desenhar as linhas da terça parte (superior) dum dos triângulos que marquei no post com a cor amarela.

Trata-se de um gráfico x-y em que as coordenadas x e y de cada ponto são achadas de forma casuística mas procurando alguma independência da foto, da qual se tiraram algumas medidas.

Por exemplo os lados inferiores do losango mais abaixo fazem 30º com o eixo dos xx, isso é essencial à forma, já a largura das réguas de madeira seguiu uma medida tirada numa impressão em papel da janela.

Uso apenas uma “data series”, fazendo a separação entre os vários polígonos usando uma linha em branco a separar os pontos de cada polígono.

Na segunda imagem mostro o segundo passo do processo, o triângulo amarelo obtêm-se fazendo duas rotações sucessivas de 120º  do conjunto de pontos iniciais.

Para verificar o aspecto final do triângulo fiz um gráfico no Excel sem eixos nem grelha e usei um fundo preto na “plot area” do gráfico.



Numa aplicação equivalente ao “Paintbrush” “enchi o exterior dos polígonos duma cor dourada, tendo obtido esta figura:



Fazendo uma simetria em relação a um eixo horizontal, seguida de uma translação para a direita, obtém-se uma simetria em relação ao lado direito do triângulo, resultando um losango:


Fazendo translações do losango, reflexões e mais translações, passando por esta fase intermédia


acabei por chegar a este gráfico no Excel:


que em fundo preto fica assim:


usando a técnica de preenchimento atrás referida obtemos esta variante.


e usando a cor branca/cinzenta ficamos com uma variedade que faz pensar num trabalho de crochet:

2011-02-16

Janela de Isfahan

Ainda na Mesquita do Xá em Isfahan passei por esta janela, que teria menos de um metro de largura, cujo trabalho em madeira me chamou a atenção.


Talvez influenciado pelos posts mais recentes deste blogue sobre as simetrias existentes nas calçadas de Lisboa, tracei umas rectas identificando alguns eixos de simetria


Depois “pintei” com cores transparentes triângulos com o mesmo desenho, uns de amarelo e outros de cor de laranja, para mostrar que uns são reflexões dos outros


Existe outro tipo de triângulo nesta janela, que pintei de cor azul


Todos os triângulos centrais se podem obter através de uma rotação de 60º do triângulo azul adjacente. Os bocadinhos que ficaram por pintar resultam de se ter que colocar esta estrutura numa esquadria rectangular

Mostro para finalizar a janela sem pinturas, deixando entrever o escritório que escondia / iluminava.

2011-02-15

Pessoas de Isfahan

Voltaram as manifestações no Irão, provavelmente influenciadas pelo que se passou na Tunísia e no Egipto, possivelmente algumas das pessoas que estavam descansando neste parque ao pé da ponte dos 33 arcos em Isfahan, terão participado nessas manifestações, onde se corre risco de vida.


Às vezes penso que só vemos imagens destes países mais distantes quando houve alguma catástrofe natural ou decorre uma grande contestação ao poder estabelecido. Estas são imagens de um quotidiano mais frequente mas não necessariamente satisfatório.

A ponte dos 33 arcos é muito bela por fora mas este interior deixa um bocado a desejar, só de vez em quando se avista o rio. Uma das vantagens é que quem passa está mais abrigado do vento , quando ele não encana na direcção da ponte


O senhor de suspensórios (mas sem cinto) é um turista.

2011-02-10

Batedor de tapetes

As recentes manifestações no Egipto levaram-me a rever as fotos que tirei no Cairo em Abril de 2006. Entre elas encontrava-se esta pilha de objectos que já não via há imenso tempo, provavelmente desconhecidos dos leitores mais jovens deste blogue.


Trata-se de um batedor de tapetes, existia um exactamente igual a estes, com a mesma forma e a mesma cor, na casa dos meus pais no Porto. Tenho a vaga memória de a minha mãe dizer que tinha sido proibido bater os tapetes pendurados nas janelas que davam para a rua, pelo que a operação tinha que ser realizada no quintal ou numa janela das traseiras. Acho que ainda dei umas batidelas, num tapete colocado num arame no quintal, na altura não se falava tanto de alergias embora fosse talvez mais uma falta de consciência do que uma ausência.

Lembro-me também de terem comprado o primeiro aspirador de pó lá em casa, um aspirador Electrolux, que custou 1.200$00 nos finais dos anos 50. Redescobri aqui uma série longa do IPC, compilada pelo António Barreto, de 1960 a 1999, a partir de números do Banco de Portugal. Segundo as minhas contas, os valores de 1960 deverão ser afectados de um factor 60 para obter um valor “equivalente” em 1999, um aspirador de 1200$00 em 1960 “custaria” agora cerca de 350 €, um valor muito superior ao preço da maioria dos aspiradores actualmente comercializados, mais uma das numerosas evidências que se vive melhor agora do que há umas décadas atrás. E devido aos aspiradores já não é preciso bater nos tapetes.

No fundo da foto, num dos embrulhos tem escrito “Made in A.R.E”, querendo dizer Arab Republic of Egypt. Fiquei a pensar que é um bocado estranho qualificar uma república de “Árabe”. O que é que esta qualificação quererá dizer?

2011-02-04

Maluda (1934-1999)

A pintora Maluda, Maria de Lurdes Ribeiro nasceu em Pangim, no então Estado da Índia Portuguesa, viveu em Lourenço Marques de 1948 a 1963, ano em que veio para Portugal e em Paris de 1964 a 1967. Fixou-se depois em Lisboa onde morreu em 1999.

No outro dia fui à procura das famosos quadros de janelas e embora não tenha encontrado muitas imagens em formato jpeg com uma dimensão razoável (a maior parte era muito pequena), encontrei este sítio contendo um livro magnífico publicado em 2008, com a quase totalidade das suas obras, por Carlos Humberto Ribeiro e Ianus Unipessoal Lda. O livro até pode ser "descarregado" embora seja bastante grande, ocupando 89 Mbytes.  Encontrei também "Um blog sobre Maluda"e no blog "Restos de Colecção" fiz esta procura com resultados interessantes.

From Maluda

As obras da Maluda parecem-me platónicas, no sentido em que representam uma forma idealizada da realidade, em certa medida mais perfeita do que esta, pois todas as arestas das casas são rectas perfeitas, as sombras são nítidas e sem penumbras as cores são sólidas e bem definidas. Na altura em que pintou boa parte das paisagens urbanas o uso dos computadores ainda não se tinha estendido à síntese de imagens arquitectónicas. Ao revisitá-las agora algumas parecem feitas por programas de computador simples.

É curiosa a existência destes movimentos em sentido contrário: por um lado, os programas de computadores apresentando cenas primeiro mais simples (por incapacidade de construir muitos detalhes) mas cada vez mais realistas, sendo actualmente difícil distinguir uma imagem sintética duma fotografia, por outro lado a pintora Maluda que observando uma imagem complexa a simplifica até a tornar quase abstracta.


A pureza geométrica dos elementos usados e a espantosa nitidez, que tranquiliza a minha condição de míope, são duas das características que me fazem gostar de muitos dos quadros dela.

 Ultimamente não tenho ouvido falar muito da Maluda mas admito que possa ter andado distraído. As duas imagens anteriores denominam-se respectivamente Lisboa XXV (de 1983) e Lisboa XXX (de 1985). As duas seguintes têm os títulos Lisboa XXXI (de 1986) e Lisboa XXXV (de 1988).


Quem fotografa à Beira-Rio bem podia tentar fotografar os enquadramentos destas imagens.

2011-02-02

John Barry



Faleceu no passado 30/Janeiro John Barry, o compositor da música do "Out of Africa", um dos mais belos filmes do século XX. Rever as imagens acompanhadas apenas da música é uma experiência emocionante.

Visto aqui.

2011-01-31

Artesãos no Cairo

Continuando nos embutidos e nas simetrias mostro agora uma caixinha medindo 7 x 4 cm, uma lembrança de um passeio interessante pela cidade do Cairo.

Gosto da decoração da caixa que tem bastante minúcia, incluindo madrepérola e talvez algum osso de camelo, embora a execução não seja perfeita, como se pode constatar nas duas figuras juntas.

Como diziam nos livros de matemática, deixo para o leitor o exercício de classificar a simetria utilizada nesta caixa, de acordo com a classificação referida no post anterior sobre as calçadas de Lisboa, avisando desde já que não publicarei qualquer solução.





Encontrei esta caixinha em Abril/2006 no caminho da mesquita de Al-Azhar (que se situa na Universidade do mesmo nome) para a Mesquita Azul (Aqsunqur).


Eu e a minha mulher deambulámos por umas ruelas na parte menos ocidentalizada do Cairo e deu-me grande prazer fazer a aquisição directa ao produtor, sem passar pelo comerciante do bazar ou pela loja para turista.


Mesmo não sabendo árabe foi fácil negociar o preço da caixinha e de mais uns pratos pequenos visto que o marceneiro tinha uma calculadora onde íamos colocando as sucessivas ofertas de cada um, até chegarmos ao preço de encontro.




Na imagem seguinte mostro o produtor da minha caixinha, ocupado na manufactura doutra caixa com embutidos mas um pouco maior

notando-se que as condições de segurança no trabalho são fracas. O trabalho estava a ser feito na via pública.

Logo a seguir encontrei um produtor de móveis para encher paredes que não se importou de ser fotografado juntamente com a sua produção mais recente


Por esta altura, ao contemplar a notória falta de qualidade do revestimento dos prédios, interrogámo-nos se esta área seria segura, mas decidimos rapidamente que sim, uma vez que se via tanta gente a ganhar honestamente a vida a trabalhar.


Finalmente ainda fotografei outro fabricante de móveis, neste caso uma espécie de canapé, com umas costas muito trabalhadas


Uma boa parte desta gente deve estar bastante farta do Mubarak ou, de uma forma geral, destas condições de vida que deixam bastante a desejar.

Noutra oportunidade mostrarei as mesquitas Al Azhar e Aqsunqur, cujas imagens se encontrarão facilmente na net. Hoje estava mais virado para a vida quotidiana. Às vezes esquecemo-nos que nestes países vive gente como nós.

2011-01-29

As Janelas que se fecham

Soube aqui e aqui que morreu hoje o jornalista José Pedro Barreto, que conheci na blogosfera através do Womenage mas sobretudo do seu último blogue Janelas.

Quem se auto-descreve assim:
«
Nasceu em Cascais na primeira metade do século passado, mas foi cedo para Lisboa, aos cinco dias de idade. É jornalista, trabalhou em vários jornais, e teve emprego em alguns deles.

Dedicou-se sobretudo às questões internacionais, chefiando as respectivas secções de A Tarde, Semanário e do Diário de Notícias. Fartou-se de conhecer o mundo e ainda lhe pagaram por cima.

  Foi também chefe da delegação em Lisboa de O Primeiro de Janeiro, nos tempos em que era um jornal. A certa altura passou para a televisão, também como responsável pela secção Internacional – mais propriamente, a TVI, onde foi director de Informação entre 1996 e 1999.

Como bom jornalista que é, gosta de falar de tudo, mesmo do que conhece bem. Ultimamente, tem praticado sobretudo no blog Womenage à Trois, com um nick que lhe permite escrever uns palavrões de vez em quando sem que a família saiba.


Tem dois filhos, escreveu um livro a meias com Francisco Ribeiro Soares (Andar Feliz em Lisboa, coisa que faz amiúde), traduziu vários, e um dia plantou um pessegueiro por acaso quando atirou o caroço para o jardim.

»

bem merecia estar connosco mais uns anitos.

Embora não o tenha conhecido em pessoa resta-me a consolação de, segundo o seu comentário, o ter estragado com mimos.

Deixo aqui duas janelas fechadas da Maluda, mas que ainda reflectem o mundo

2011-01-25

Tunísia (2)

Um amigo tunisino disse-me num e-mail que a internet e as redes sociais facilitaram a revolução na Tunísia e que era um bocado irónico que esse uso da internet tivesse sido muito promovido pelo próprio ex-presidente Ben Ali, para favorecer os negócios de uma filha que era a principal proprietária da empresa fornecedora de ligações à internet.

Ele costumava dizer aos amigos para não desesperarem de se livrarem do Ben Ali, porque os Portugueses ao fim de 40 anos lá tinham conseguido fazer a sua revolução, lá por já ter passado muito tempo na Tunísia não queria dizer que fosse impossível. Aqui se constata que mesmo o facto de nós Portugueses termos demorado tanto tempo a derrubar o Estado Novo pode afinal ter o seu lado positivo!

Deixo aqui uma imagem de convívio tranquilo numa praceta de Tunis, na confluência da Rue de la Kasbah com a Rue Dar El Jeld  (36º 47’ 52.31” N, 10º 10’ 07.62” E), uma espécie de recanto da Place de la Kasbah, num fim de tarde de Junho de 2009.

Gostei do aspecto acolhedor da praça, dos pequenos lagos, acho que as árvores dão sempre frescura, mesmo que não precisassem de as ter podado de forma tão geométrica e gostaria que voltassem a pôr árvores na Praça do Comércio em Lisboa.


As ideias arquitectónicas bem sucedidas propagam-se, neste caso a fila de arcos em ferradura ao fundo da praça tem o mesmo estilo da famosíssima colunata da mesquita de Córdoba.

Na imagem a seguir, que tirei num hotel nos subúrbios de Tunis, voltam a aparecer os arcos, desta vez sem um papel estrutural, com a função oculta de condutas de ar condicionado.


Os embutidos coloridos no chão de mármore parecem-me bem executados, resultando contudo num conjunto algo confuso. É para condizer com este blogue...

2011-01-22

A realidade objectiva: dizem que 2 mais 2 são 4. Concorda?

Existe uma tentação forte e permanente para dar importância excessiva ao que se chama a opinião das pessoas sobre um determinado assunto.

A principal conquista do iluminismo foi a descoberta de que existiam muitos fenómenos que se desenrolavam de forma autónoma da nossa vontade e que existia muito rara evidência (se é que alguma) de intervenção divina nos fenómenos da chamada natureza.

Constituiu-se assim uma zona considerável do conhecimento humano que se passou a reger pelo método científico. As teorias que prevêem o que vai acontecer a sistemas mais ou menos complexos são postas à prova para verificar se as suas previsões são correctas. Continuam a ser usadas até se descobrirem fenómenos que não consigam prever, situação em que são abandonadas e substituídas por outras mais completas. Dada a possibilidade permanente de serem desmentidas pela realidade não existem teorias científicas com o estatuto de verdade absoluta, apenas existem teorias válidas que ainda não foram desmentidas por nenhum fenómeno.

Existem contudo sistemas de uma complexidade tão grande que não é actualmente possível (e talvez nunca seja) aplicar o método científico. Exemplos triviais são os valores futuros das acções de empresas cotadas na Bolsa ou, um pouco mais complicado, as consequências para a sociedade que resultarão da adopção de um dado programa político. A experiência tem mostrado que nestes casos de grande incerteza as melhores previsões se obtêm integrando as opiniões/palpites do maior número possível de pessoas, se bem que as melhores previsões não sejam garantidamente boas. É este o fundamento do sucesso dos mercados na economia e da democracia na política.

Mas qualquer sucesso de uma actividade humana gera uma tendência para a tentar aplicar em domínios de onde deveria permanecer afastada. É o que se está a passar actualmente com a procura incessante de opiniões de pessoas não preparadas para responder sobre os mais diversos assuntos.

Por exemplo, pouco antes da Expo98 a RTP perguntava aos transeuntes se achavam que a linha vermelha do Metropolitano iria estar pronta antes do início da exposição. Fiquei traumatizado ao ouvir as pessoas mandarem os seus bitaites completamente infundados sobre se iria ou não estar pronto. Depois interroguei-me porque é que a RTP fazia esta pergunta a pessoas sem a informação necessária para fundamentar uma resposta. Depois porque é que enviavam para o ar esta reportagem inútil.

Mais recentemente uma iniciativa chamada “Projecto Farol” fez aparentemente a pergunta:

- Portugal está pior hoje do que há 25 (e/ ou há 40 anos). Concorda?

São situações parecidas pois sabemos que as pessoas vítimas do inquérito muito provavelmente pouco ou nada sabem sobre as condições de vida há 25 ou 40 anos em comparação com as actuais. Neste caso sabe-se que a situação actual é muito melhor do que há 40 anos atrás. Então porque se faz a pergunta? E porque se faz esta pergunta em vez de outra qualquer que também revelaria a deficiência de informação comum na população portuguesa?

Já agora poderiam ter perguntado “Dizem que 2 mais 2 são 4. Concorda?” e assim ficaríamos também a conhecer a opinião dos portugueses sobre o resultado desta operação aritmética.

A propósito deste inquérito tem aqui uma descrição das condições de vida de uma família rural pobre, as razões para a classe média se sentir prejudicada, considerações sobre a ditadura da palermice e uma constatação da fraca qualidade da opinião portuguesa.

Esta nossa preferência pelas opiniões não informadas com mais ou menos paixão, sobre as avaliações mais rigorosas das situações, é uma das principais causas para perdermos tempo em discussões inúteis. Sobra depois pouco tempo para discutir, face ao conhecimento da situação real ou passada, qual o melhor caminho para seguir no futuro, terreno essencial da discussão política.

Para fechar deixo uma lembrança modesta da guerra colonial, que ocupava em permanência um exército de 100.000 homens na Guiné, em Angola e em Moçambique, mesmo depois de um milhão de Portugueses, emigrantes para a França e Alemanha, ter abandonado o país na década de 60.


Trata-se do Agrupamento de Transmissões de Bissau, vendo-se ao fundo as antenas usadas para interceptar as comunicações militares do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e que, depois do 25/Abril/1974, serviram também para o Governador da Guiné comunicar com o Comando do referido Partido.

2011-01-20

Calçada Portuguesa

Na Wikipédia diz que a calçada portuguesa apareceu no século XIX em Lisboa. O apogeu do mosaico ocorreu durante o império romano. Por exemplo em Pompeia existe este mosaico no chão, do qual eu diria que a calçada portuguesa é tributária:


Em Portugal existem mosaicos no chão em Conímbriga. No entanto as pedrinhas usadas no tempo dos romanos costumavam ser mais pequenas. A versão portuguesa dos mosaicos no chão usará talvez mais simetria do que a romana.

A versão inglesa da Wikipédia sobre a Calçada Portuguesa aponta a penosidade do trabalho do calceteiro como provável causa para a extinção da profissão algures num futuro mais ou menos próximo.

O tratamento do mosaico na Wikipédia é uma excelente introdução ao tema de como preencher uma superfície com pedras.

2011-01-19

As Calçadas de Lisboa

Um dia destes, a propósito dos padrões geométricos que são frequentemente objecto da atenção deste blogue, enviaram-me um prospecto sobre as calçadas de Lisboa, que está disponível em formato pdf nesta página do IST, numa iniciativa patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Ainda nessa página existe um link para uma galeria de imagens de João Ferrand sobre as calçadas de Lisboa, de onde retirei esta imagem, do pavimento da praça dos Restauradores.



Através das referências no prospecto ao trabalho dos matemáticos Bill Thurston (1946-) e John H. Conway (1937-) cheguei a este sítio da Wikipedia (que acaba de fazer 10 anos!), apresentando os conceitos matemáticos relacionados com a simetria e um enorme conjunto de padrões ilustrando esses conceitos. Depois ainda visitei a Wikipédia aqui, aqui, aqui e aqui, mas foi uma leitura muito em diagonal.

Confesso que achei o tema difícil, muito mais complicado do que as noções simples que tinha da simetria, que ou se definia em relação a um eixo ou em relação a um ponto. Resta-me a consolação que o assunto está a ser tratado por alguns matemáticos ainda vivos, às vezes uma pessoa pensa que estes problemas de aparência simples já foram resolvidos todos no século XIX mas bem se diz que as aparências iludem.

A extensão do conceito de simetria inclui operações de reflexão como num espelho, rotações de 180º, 120º, 90º e 60º, correspondendo à divisão de 360º por respectivamente 2, 3, 4 e 6, cruzamentos (que são reflexões seguidas de translações) e translações simples. Os conceitos foram muito influenciados pelas estruturas que aparecem nos cristais mas, como habitualmente, ganham uma certa autonomia abstracta quando abordados pelos matemáticos.

Voltando a olhar para o pavimento dos Restauradores fico com um bocado de pena de não me ter apercebido antes que existiam padrões tão complexos nos pavimentos de Lisboa.

Para finalizar deixo uma das sequências de construção do padrão existente no chão entre o Mosteiro dos Jerónimos e o Museu da Marinha, e que também é mostrado nas fotos do João Ferrand.

2011-01-15

Tunisinos

Simpatizo com a Tunísia, como tive ocasião de referir. Subsistia um défice democrático, com o presidente Ben Ali ocupando o lugar há 23 anos, à custa de muita repressão.


Há semanas que existem distúrbios no país, com dezenas de mortos, mas só há poucos dias me apercebi do que se passava. Hoje ouvi a notícia que o presidente Ben Ali saiu do país. Existem motivos para acreditar que a internet e a novas tecnologias contribuíram para a queda do presidente, ao possibilitar a circulação de informação sobre as manifestações que, na ausência da tecnologia moderna, teria sido bloqueada pela censura instituída pelo regime. Há motivos para ter esperança que os tunisinos consigam aceder a um regime mais democrático e que possam contaminar os seus vizinhos.


Tirei as fotos deste post em Tunis, em Junho de 2009. Na que segue, tirada no bazar, por coincidênia (ou talvez não) aparece uma t-shirt "Le temps des cerises", uma canção que aqui dizem muito associada à Comuna de Paris.

2011-01-12

Revisitando Fibonacci

Encontrei este filme deslumbrante (que deve ser visto em "full screen"), com banda sonora do Wim Mertens, sobre os números de Fibonacci neste post do blogue "Jugular", num momento de compreensível cansaço sobre a campanha presidencial em curso:


Considerações sobre a matemática de que fala o filme estão aqui, referindo que a forma do Nautilus afinal não segue tanto a espiral de Fibonacci como é costume ver referido.

Neste blogue tínhamos abordado brevemente as espirais de Fibonacci, neste post e neste. Não são tão belos como o filme, nem são acompanhados pela música linda do Wim Mertens.

Por coincidência com posts recentes deste blogue, no mesmo site do Cristóbal Vila tem um filme (outra animação 3D) inspirado numa madrassa de Isfahan:


estando o "making of" aqui.

O sitemeter deste blogue acaba de ultrapassar as 200.000 visitas, contadas desde o início, em Março de 2008.

2011-01-10

Mesquita do Xá em Isfahan - 3

Talvez este seja o último post que faço sobre esta magnífica mesquita. No Irão é mais frequente que noutros sítios forrar de cerâmica quer o interior quer o exterior das cúpulas das mesquitas.

Neste caso começo por mostrar o exterior da cúpula principal



seguida de uma vista das paredes de suporte da cúpula



e da sua decoração interior:



A acústica debaixo da cúpula oferece a reverberação esperada.



Num dos jardins de Isfahan encontra-se a estátua do arquitecto Ostad Ali Akbar Isfahani que, segundo diz aqui,  projectou e orientou a construção da mesquita do Xá, de 1612 a 1631.

No Irão a interdição islâmica da representação do corpo humano ou de animais, é respeitada mas não de forma absoluta. As estátuas são muito raras, não vi estátuas de reis do período islâmico e acho significativo que uma das raras estátuas que vi seja precisamente para homenagear um arquitecto, que pela obra que deixou bem a mereceu.


A estátua foi feita por em 2001, conforme consta na placa existente no pedestal:

2011-01-04

Disse-me um adivinho

Acabei de ler o livro “Disse-me um adivinho”, de Tiziano Terzani, que foi referido aqui. O autor, um jornalista italiano que viveu muitos anos na Ásia aproveitou uma advertência, que um adivinho de Hong-Kong lhe fizera em 1976 para não andar de avião em 1993, para neste ano se abster totalmente de usar o avião, aproveitando a oportunidade para conhecer de outra forma as terras por onde passava.

A situação recordou-me umas crónicas publicadas no jornal Expresso pelo Gonçalo Cadilhe , em que deu a volta ao mundo sem recorrer a aviões, com uma pequena excepção julgo que na América do Sul, para evitar perder um barco, recurso cada vez mais raro para o transporte de passageiros e cuja perda introduziria um atraso inaceitável no plano da viagem.

Interessei-me pelo tema porque continuo a surpreender-me com a viabilidade da profissão de adivinho na quase totalidade dos países, incluindo aqueles onde existe um ensino universal, obrigatório e efectivamente frequentado pela totalidade da população jovem.

Acho sempre intrigante esta convivência num dado momento numa dada sociedade de conjuntos de práticas e de crenças de épocas muito diferentes, estaria à espera de um pouco mais de homogeneidade, já não digo dos valores, mas pelo menos da credibilidade de métodos de previsão do futuro.

O livro lê-se muito bem, a escrita é fluida, o uso dos transportes terrestres e marítimos foi bem aproveitado, possibilitando observações das zonas dos países afastadas das grandes cidades.

O autor faz um número apreciável de visitas a adivinhos, adoptando uma posição ambígua que me parece a mais adequada à escrita do livro, pois não faria sentido visitar tanto adivinho partindo duma posição de negação absoluta da capacidade destes profissionais preverem o futuro, mas mantendo um cepticismo moderado que lhe permite, em caso de necessidade, defender-se de eventuais acusações de credulidade.

Retive o conceito de “granjear méritos” na Tailândia que me pareceu muito interessante. As desgraças previstas pelo adivinho podem ser evitadas ou atenuadas caso se façam boas acções.

Achei um tom excessivamente nostálgico sobre a perda de costumes antigos com o advento da sociedade de consumo. Fez-me lembrar a conversa do meu tio latifundiário de que os camponeses de Monchique (no Algarve a gente do litoral estava mais exposta aos turistas estrangeiros pelo que teriam perdido aquela “autenticidade” tão cara aos conservadores) eram pobres mas muito felizes, enquanto os operários suecos eram ricos mas suicidavam-se muito. Fez-me lembrar também o livro “A Riqueza e a Pobreza das Nações” do David S.Landes, quando refere que em muitos sítios na Índia as mulheres e crianças gastam 4 horas por dia a acumular gravetos para poderem cozinhar, tarefa que nos países desenvolvidos pouco mais custa do que dar ao botão do fogão a gás, uma vez que o custo do gás para cozinhar é realmente muito pequeno.

Todos esses costumes ancestrais poderão ser muito pitorescos mas não vejo motivo para lamentar que sejam abandonados, existem na maioria dos casos bons motivos para o fazer, como fizeram um milhão de Portugueses nos anos 60 do século XX, que emigraram para a França e a Alemanha fartos da vida rural miserável que cá levavam.

Ainda no mesmo tema achei que o autor se deveria ter indignado mais com a situação das “mulheres-girafa”, uma tribo na Birmânia onde colocam anéis sucessivos à volta do pescoço das meninas, que as faz ficar com um pescoço deformado e incapaz de se manter por si sem o auxílio dos torturantes anéis.

Em cima mostrei uma casa com um pequeno altar na Tailândia e para terminar deixo uma imagem do mesmo altar mostrado em cima, altares muito comuns pelo menos na cidade de Bangkok, onde passei um fim-de-semana há muito tempo, num stop-over vindo de Macau.

Os altares ou pequenos templos estavam ao pé das casas mas fora delas, envoltos em faixas coloridas e cheios de pequenas estátuas e outros adornos, revelando grande complexidade do conjunto de regras necessário para afastar os maus espíritos e eventualmente convocar os bons.

Ambas as imagens são digitalizações de slides antigos, tentei controlar a cor partindo do princípio que o pequeno templo era branco, fico sempre com muitas dúvidas sobre o tom mais apropriado nestes slides antigos.