2010-10-30

M.C.Escher: a procura do infinito na simetria central

Os leitores desculparão o título aparentemente pomposo mas é uma forma simples e exacta de descrever a procura por Escher de formas de representação do infinito em desenhos organizados à volta de um ponto central.

As figuras com simetria central adequam-se naturalmente à forma circular como o prato do post anterior


e como neste exemplo de pássaros estilizados em que o infinito se situa na periferia do círculo.

Além da complexidade do preenchimento da superfície, colocar o infinito na periferia do círculo parece-me bastante estranho, existindo um ponto central parece mais natural escolhê-lo para esse papel, como acontece no prato iraniano do post anterior.

Foi o que Escher fez nesta imagem circular com borboletas, dispostas em círculos que se entrelaçam



mas uma vez que já tinha conseguido num desenho colocar o infinito na periferia e noutro no centro, porque não fazer um desenho em que o infinito aparecesse em ambos os locais? Foi o que fez neste desenho com serpentes, que me deixa sem palavras, que acabou poucos dias antes de morrer:




Todos estes desenhos vieram deste site, que em conjunto com este têm das melhores reproduções das obras de M.C.Escher disponíveis na net. Nas duas primeiras imagens mudei a cor do quadrado, onde se inscreve o círculo, de branco para preto, devido ao fundo preto deste blog. Na imagem das serpentes isso não ficaria bem.

Entre as inúmeras referências a Escher na net seleccionei esta que se refere às serpentes e a Poincaré e Coxeter, como matemáticos cujos trabalhos influenciaram alguns dos desenhos de Escher, nomeadamente estes que acabo de mostrar.

2010-10-29

Confusão e prato de Isfahão

A situação política em Portugal, com a floresta de enganos das contas públicas e desta coreografia elaborada das negociações entre o PS e o PSD, que parece ir desaguar no deixar passar um orçamento, fez-me pensar neste prato com desenhos de grande complexidade que trouxe da cidade de Isfahan do Irão.



Trata-se de um pequeno prato metálico de 14 cm de diâmetro, provavelmente de cobre, esmaltado com fundo azul ultramarino e desenhos de linhas brancas e de pinceladas douradas. É um caso de ouro sobre azul, embora certamente sem a presença de metal precioso. Tenho sempre alguma dificuldade em fotografar dourados e prateados e neste prato essa dificuldade também esteve presente. Um dia ainda vou frequentar um curso de fotografia.

Ao olhar para o prato de alguma distância noto a existência de uma espécie de estrela de 8 pontas, que será mais aparente nesta imagem mais pequena do mesmo prato aqui ao lado. Não sei se este prato específico foi pintado à mão, suponho que sim porque vi numa loja estarem a fazer este tipo de desenhos, e embora a regularidade das formas esteja presente, as figuras não se repetem de forma exacta, existem pequenas variações. Poderia ser uma cópia mecânica de um desenho originalmente feito à mão.

Mas o que realmente me surpreende é a existência de um conjunto de movimentos que possibilitam um desenho estável desta complexidade. Existem provavelmente formas de desenhar estas curvas que evitam que degenerem em padrões abatatados e que as formas respeitem esta divisão em 8 sectores. Acho que terei que revisitar Isfahan para ver como é que se faz pois sinto-me completamente incapaz de fazer um desenho destes.

Outra coisa que me surpreende é este meu interesse por pratos. Já fiz um post sobre um prato turco, outro sobre um prato indiano e agora este sobre um persa. Os outros pratos tinham composições agradáveis e de execução cuidada, ao alcance apenas de artesãos com um bom treino, mas percebia-se como eram feitos os desenhos, coisa que neste ainda não atingi.


Nas costas do prato tem esta referência (passe a publicidade).

Embora as imagens anteriores sejam mais realistas, tirei outra foto sub-exposta de que também gostei:

2010-10-24

Geometria em Alqueva

A quantidade de opiniões sobre a aflição económica de Portugal é de molde a monopolizar as atenções, eu próprio sucumbi a comentar alegadas vantagens da saída do Euro e, já agora, refiro a propósito que o Reino Unido, que não renunciou à soberania que lhe proporciona a libra, está também em grandes apuros.

Mas este blogue faz-se a propósito de imagens e de pensamentos que elas suscitam, pelo que vou mostrar algumas que tirei numa visita recente à central do Alqueva. Começo pelo lago visto da barragem



numa atmosfera que não se costuma associar ao Alentejo.

Dentro da central fiquei mais uma vez fascinado pela elegância das linhas geométricas simples e não resisti a fazer várias alterações na fotografia dos topos dos dois geradores reversíveis, de forma a sublinhar essa simplicidade:



Chamou-me a atenção o desenho geométrico “ligando” os dois geradores, que apresento um pouco mais detalhado,



onde sobressaem os quadrados entrelaçados que já referi neste post.

Gostei muito deste arco dando para a nave principal da central



e deste contraponto entre o poliedro no topo do gerador e um arco em forma de ferradura que faz lembrar influências da arquitectura islâmica.



O recurso ao tijolo parece decorativo, tudo aquilo deve estar suportado em cimento armado, mas as linhas brancas delimitando os tijolos lembraram-me este tecto magnífico da entrada num caravanserai em Meybod no Irão:

2010-10-18

A soberania que “perdemos” com o Euro

Fiquei algo surpreendido com a crónica do Nicolau Santos no jornal Expresso de 16/Out/2010 em que sugeria que se iniciasse o debate sobre a nossa eventual saída do euro.

O meu pai dizia-me que o escudo era uma moeda muito forte mas na minha primeira deslocação ao estrangeiro em 1970, quando me dirigi a um balcão dum banco em Paris para trocar algumas notas de escudos em francos franceses disseram-me secamente: changeons pas, trop mauvais! No Verão de 1970 ocorreu um incidente de curta duração com o escudo que talvez justifique este episódio, talvez tenha tido azar com o francês que me atendeu ao balcão pois mais tarde aprendi que a variação entre um francês afável e um hostil é bastante maior do que noutras sociedades. Acho que passado um ou dois dias consegui trocar dinheiro noutro banco em Paris mas fiquei traumatizado para o resto da vida com esta falta de aceitação do escudo.

Em viagens posteriores, sobretudo a Inglaterra, costumava ver o valor percentual da diferença entre a compra e a venda das várias moedas nas casas de câmbio e lembro-me que enquanto no dólar americano ou no marco alemão essa diferença era inferior a 5% do valor da moeda, no caso do escudo essa diferença andaria à volta dos 10%, traduzindo o maior risco que os cambistas lhe atribuíam.

Ainda me lembro também do regime do “crawling peg” em que o governo português através de uma desvalorização constante tirava alegremente do nosso bolso o dinheiro que lhe fazia falta.

Tenho muito más memórias desse tempo em que havia ajustes anuais devidos à inflação. Quando esta estava a subir os salários eram ajustados à inflação que se tinha verificado no ano anterior, quando se esperava que descesse os salários eram ajustados à inflação esperada para o ano seguinte, criando-se mais um mecanismo de enganar o pessoal pois as estimativas raramente acertavam, não passando de figuras de retórica.

Foi assim com grande satisfação que vi a nossa entrada no euro (cuja imagem fui buscar aqui). Uma saída agora seria o início do fim do projecto europeu e não acredito nem nos amanhãs que cantam nem na eficiência de um ainda maior sofrimento agora para passarmos esta crise a grande velocidade.

Se saíssemos do euro e com a facilidade actual dos fluxos financeiros presumo que boa parte dos capitais nacionais se refugiaria no euro, moeda que continuaria a ser usada pela maioria dos nossos parceiros comerciais. A principal diferença seria que os salários poderiam ser desvalorizados discreta e constantemente, de forma a que todos os trabalhadores pudessem ser cada vez mais competitivos, ganhando cada vez menos.

Não muito obrigado, fiquei cansado de quando os governantes de Portugal tinham essa soberania de poderem tirar-me dinheiro com grande à vontade e discrição, eu nunca senti essa soberania como minha. Não sinto que “nós” os cidadãos comuns tenhamos perdido essa soberania, foram “eles” os governantes que a perderam. E pelo andar das contas públicas parece-me que não a mereciam nem a merecem.

2010-10-15

The National Gallery, London

Estava a ler este post da Vida Breve, referindo a exposição intitulada “Venice, Canaletto and his Rivals” que decorre na National Gallery em Londres, de 13 de Outubro de 2010 a 16 de Janeiro de 2011 e acabei a fazer uma visita breve ao site da Galeria.

Tenho reticências a variados aspectos da cultura anglo-saxónica mas aprecio a clareza com que identificam os bens públicos. Nem sempre o conseguem, quando passaram pela época Thatcher os museus que eram gratuitos passaram a ser pagos, mas regressaram agora a alguma forma de gratuitidade.

O argumento do utilizador-pagador costuma ser uma figura de retórica dos governos que não conseguem controlar os gastos do Estado. Se não existem bens comuns disponíveis “gratuitamente” a todos os cidadãos, para que servem os nossos impostos? Um dos casos mais gritantes dessa falácia foi a atribuição da cobrança das portagens da Ponte 25 de Abril à Lusoponte, para pagar uma parte da ponte Vasco da Gama. É completamente contra o princípio do utilizador-pagador fazer os utilizadores da ponte 25 de Abril pagarem a outra ponte. Quem os pôs a pagá-la foi o ministro Ferreira do Amaral do PSD mas tenho a certeza que o PS seria capaz de fazer o mesmo. Trata-se simplesmente de ir buscar dinheiro aonde se consegue, neste caso aos clientes cativos da ponte 25 de Abril, obrigando-os a pagar algo que não usam. È um caso de “não-utilizador”-pagador.

Na Inglaterra actual existem muitos museus de entrada livre, à semelhança do que acontece em muitos museus de Washington. E a National Gallery de Londres, tem além disso um site magnífico em que se acede com grande rapidez a uma grande quantidade de quadros e surpreendeu-me o grau de detalhe que se consegue com ampliações sucessivas.

Por exemplo neste quadro naïf de Henri Rousseau (dit le Douanier) intitulado “Surpris” em que vemos um tigre surpreendido por um relâmpago numa selva debaixo duma tempestade com muita chuva e vento, que fui buscar ao site da National Gallery, aqui.



Julgo já ter referido que continua a ser difícil avaliar qual das várias reproduções disponíveis na internet sobre um dado quadro é mais fiel ao original. A própria variação da restituição das cores de monitor para monitor torna este tema muito complicado. Mas as reproduções da National Gallery pareceram-me de grande qualidade. À partida os responsáveis por museus devem-se interessar mais do que a média dos utilizadores pela qualidade das imagens. Até agora costumava preferir as imagens da Wikipédia mas vou investigar melhor no futuro as disponibilidades dos museus.

Entretanto mostro a ampliação máxima que se consegue do quadro acima, mostrando a cabeça do tigre em grande detalhe



É quase como se fôssemos lá.

2010-10-12

Barragem do Maranhão e Rabuzin

Ahhhh, a Natureza..., dirá um citadino mais naïf ao contemplar esta paisagem tranquila ao pé da vila de Avis.



Na realidade nada disto é "natural" no sentido mais usual do termo em que se considera algo como "natural" quando não houve intervenção de seres humanos, como se eles não fossem também parte da "Natureza".

O lago está ali porque os seres humanos fizeram uma barragem, criando uma albufeira, os sobreiros estão num terreno aparentemente limpo de ervas daninhas, o milho não estaria aqui se não tivesse sido plantado e se não existisse aquele braço articulado de rega que se alimenta provavelmente de água da barragem e o arranjo geométrico das oliveiras não foi fruto espontâneo da reprodução selvagem das árvores. É uma paisagem altamente humanizada que como tal poderia figurar num livro escolar.

A disposição das oliveiras recordou-me este quadro naïf de Rabuzin, que vi num pequeno museu em Zagreb dedicado a este tipo de arte, de que trouxe na altura um poster.



Ainda não consegui tirar uma foto do poster em que não aparecessem reflexos, pelo que a imagem que mostro é do site que referi. Mas como a achei um bocado forçada usei a opção "blur" e tirei um pouco do contraste.

Antigamente falava-se dos naïfs jugoslavos. Não sei se eram sobretudo croatas.

Acabo de me aperceber que seria politicamente incorrecto chamar naïf a este tipo de arte de que tanto gosto. Acho naïf considerar incorrecto usar o termo naïf.

2010-10-08

Canavial à beira-Tejo

O Outono é o tempo das plumas nos canaviais e do tempo a tender para o instável. Passou um minuto entre a primeira e a segunda foto. Ambas tiradas com o telemóvel que era o que havia à mão.




2010-10-06

Repúblicas na Europa

Li aqui que quando a república foi implantada em Portugal na Europa apenas existiam duas: a Suíça e a Francesa.

Fiquei a pensar o que teria acontecido para haver tantas repúblicas na Europa nos tempos que correm e além deste mapa, com as repúblicas a azul e as monarquias a vermelho alaranjado,fiz este pequeno resumo que espero que não tenha grandes incorrecções.

Com a revolução bolchevique de 1917 na Rússia desaparece o império do czar. A Finlândia separa-se da Rússia e proclama república em 1919. Com o fim da 1ª grande guerra em 1918 os impérios alemão e austro-húngaro dão lugar às repúblicas da Alemanha, da Áustria, da Hungria e da Checoslováquia. A Polónia, que fora dividida entre a Prússia, a Rússia e a Áustria no século XVIII, renasce das cinzas mas também como república. A Irlanda consegue tornar-se independente do Reino Unido em 1919 e opta por um regime republicano. Forma-se o reino da Jugoslávia agregando a Sérvia a outras partes que dos Balcãs que anteriormente integravam o império austro-húngaro. A Turquia, que infelizmente não está aqui representada, quase que desaparece como estado após 1918 mas é fundada a república turca em 1923.

Após a 2ª grande guerra ocorre uma segunda revoada de extinção de monarquias: a Itália, pelas boas relações do rei com o regime fascista, a Roménia e a Bulgária por razões semelhantes e pela tomada do poder pelos comunistas. Na Jugoslávia os comunistas foram também os maiores resistentes à ocupação nazi e tomaram o poder no fim da guerra. A Islândia, que tinha uma união real com a Dinamarca optou pela separação e pela república em 1944.

Subsistiu a monarquia na Grécia que desapareceu em 1974 por referendo, na sequência da queda da ditadura dos coronéis cujo governo fora legitimado pelo rei após o golpe de 1967.

A Espanha de onde a monarquia desaparecera em 1931, com a abdicação de Afonso XIII, vê-a restaurada pelo general Franco em 1975. Além da Espanha restam os reinos da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Holanda, da Bélgica (por quanto tempo..), do Reino Unido e o grão-ducado do Luxemburgo. Não são muitos países.

A regra que parece geral é que sempre que se abate uma grande desgraça sobre um país, as pessoas convencem-se que a monarquia não as consegue proteger dessas vicissitudes e prescindem dela.

É melhor uma boa monarquia do que uma má república mas melhor ainda é uma boa república.

2010-10-01

O Touro, a Lagosta e o templo Jain de Ranakpur

Há uns tempos, julgo que na sequência da proibição de touradas na Catalunha, apareceu mais uma petição para acabar com as touradas em Portugal, que desta vez assinei.

Entretanto no Janelas o JPB manifestou a intenção de lançar uma petição para acabar com a cozedura de lagostas vivas.

Na altura fazia muito calor e não senti forças para argumentar mas agora, que o tempo está mais ameno, decidi-me a abordar este tema.

Já agora manifesto que encontro qualidades nas touradas, sobretudo na sua versão Portuguesa, quer no toureio a cavalo quer na intervenção dos forcados. Acho fascinante a tensão do nervosismo do cavalo na citação do touro, a elegância e destreza dos movimentos de esquiva durante a investida e mesmo o gesto certeiro e seguro de espetar a farpa no dorso do animal. Toda aquela sequência de movimentos tem uma grande beleza, para não falar da adrenalina da presença do perigo. Parece-me que o espectáculo celebra o triunfo da destreza e da inteligência sobre a força bruta mas constato que associado a esse triunfo aparece a crueldade.

Quanto aos forcados não me parece que façam mal ao animal mas, se calhar, precisam que ele já esteja um bocado cansado pela sequência de ferros espetados durante o toureio a cavalo. Admiro a valentia dos forcados embora me pareça com pouco sentido. Às vezes penso que ainda mais do que a manifestação de valentia é a procura da solidariedade humana em situações de dificuldade, como este vídeo do Youtube tão bem ilustra:


O Michael Wood no programa “The story of India” dizia que, talvez como resultado da enorme violência que tem assolado muitas vezes o sub-continente, apareceram movimentos que pregavam a não-violência como o Jainismo, religião fundada pelo Mahavira.

Deixo aqui, para amenizar, uma imagem do interior belíssimo do templo Jain mais importante de Ranakpur,




uma floresta de colunas de mármore esculpidas todas de forma diferente, numa foto que retirei da Wikipédia sobre Ranakpur.

O Mahavira era bastante radical na sua renúncia à violência pelo que alguns discípulos mais zelosos usam uma gaze em frente da boca para evitar engolir algum insecto, varrem o chão à frente do seu caminho para evitar pisar algum pequeno animal que por aí esteja a passar e em casos mais extremos não se lavam, para não fazer mal aos parasitas. Claro que são estritamente vegetarianos.

Eu também gostaria de ser vegetariano mas acaba por ser pouco prático e limito-me a ter um consumo moderado de carne. Prefiro formas abstractas como os bifes, em que é difícil ver a relação entre o que se está a comer e o animal vivo. Ver um frango assado inteiro entristece-me vagamente, prefiro os cubos de carne de frango dos restaurantes chineses.

Mas a vida tem um princípio e um fim e tem sido natural que uma grande variedade de animais se alimente de outros pelo que o essencial desta discussão é sobre o sofrimento do animal e não propriamente sobre a sua morte.

Assim como existem gradações nos graus de vegetarianismo, também existem gradações na empatia com diversas formas de vida. Normalmente é mais fácil sentir empatia com os que nos são mais próximos do que com estranhos. Ou com os animais de estimação do que com os outros.

Atacar o argumento que quando se é contra as touradas também se deveria ser contra a cozedura de lagostas vivas é difícil por dois motivos:
- vem um bocado na tradição judaico-cristã singularizar os seres humanos face a todos os outros animais. Nós temos alma, eles não têm. Nós pensamos, eles não. Basicamente todos os animais se equivalem e estão ao nosso serviço, se queremos poupar o sofrimento aos touros porque não mostrar a mesma consideração com as lagostas?
- a outra dificuldade é a anti-elitista: ao argumentar que devemos ter mais consideração pelo touro do que pela lagosta, porque este tem um sistema nervoso mais desenvolvido poderemos ouvir que estamos a ser injustos para com a lagosta que não tem culpa de ser menos inteligente.

Sou muito alérgico a todo e qualquer método de medição de inteligência em que se atribui um número ao grau de inteligência de cada um. Se nem sequer uma coisa tão simples como a posição de um ponto num plano prescinde de dois números, como se pode tentar caracterizar uma coisa tão complexa como a inteligência com apenas um número, ainda por cima com apenas 3 algarismos?

Mas não tenho dúvidas que um touro está muito mais próximo de um ser humano do que uma lagosta e julgo que a tradição judaico-cristã exacerbou a diferença entre os homens e os outros animais, designadamente os mamíferos, bastante mais do que noutras culturas.

Neste sentido parece-me razoável que nos preocupemos primeiro com o sofrimento dos touros, deixando a preocupação com as lagostas para futuros mais longínquos.

Ao escrever posts é frequente aprender mais alguma coisa sobre o tema que estou a escrever. Este não foi excepção, aprendi que “lobster” é o que chamamos lavagante, enquanto a nossa lagosta se chama “rock lobster “ou “spiny lobster”. Também aprendi que este tema da matança das lagostas tem sido muito pensado, que se colocarmos a lagosta num ambiente gelado durante 15-20 minutos antes da fervura o animal fica anestesiado e não sofre na cozedura. Outra possibilidade é colocá-lo numa solução mais salgada, também 15 minutos antes da fervura.

Ainda outra hipótese é evitar consumir lagosta, o que poderá ajudar as finanças neste tempo de crise.

As fotos que tirei em Ranakpur ficaram fracas pelo que fecho com outra também da Wikipédia :


mostrando uma beleza deslumbrante que não é ensombrada pelo sofrimento.

2010-09-28

Báltico

A praia do mar Báltico do penúltimo post lembrou-me outra praia do Báltico que visitei em Junho de 1994, ao pé de Riga, chamada Jürmala.

Daí me ficou a memória de uma barreira de árvores, a separar a praia das casas que se integravam discretamente na floresta. Da praia quase não se viam construções, como é patente nesta imagem:



Por trás da barreira de árvores desenvolvia-se um passeio frondoso onde havia esplanadas mas, dada a barreira de árvores, não se conseguia ver o mar:



Os estados Bálticos tinham recuperado a independência há muito poucos anos, na sequência da Perestroika, era curioso observar o conteúdo (ou a sua ausência...) das poucas lojas existentes.

Fiquei surpreendido também com a frequente venda de livros na rua, em vez das revistas dos quiosques mais habituais no Ocidente, em que me recordo duma imagem do Terminator, com o Schwarzenegger na capa e outros livros com actores ocidentais famosos também na capa. Em vez de verem as cassetes de vídeo os letões aparentemente liam os argumentos dos filmes! Tirei esta foto para documentar a situação, na própria cidade de Riga




O ano passado devo ter visto um ou dois episódios da série da BBC “The story of India” do Michael Wood, gostei e, não sei se influenciado por esta banca de livros vista há muitos anos, em vez dos DVDs comprei o livro associado, cuja capa está aqui ao lado.

Embora tenha conseguido ler o livro todo parece-me que teria sido melhor comprar o conjunto de DVDs.

De qualquer forma gostei de revisitar a civilização indiana de que falarei no próximo post.

2010-09-22

Ligação eléctrica da Turquia à Europa

No continente europeu existe o sistema eléctrico síncrono interligado com a maior potência instalada de todo o mundo. O Grupo Regional da Europa Continental, como é designado na entso-e, é constituído pelos países da zona azul, como mostrado neste mapa,



que também pode ser visto aqui.

Dentro desta imensa área, parecida mas não coincidente com a União Europeia, a falha de qualquer gerador é instantaneamente apoiada por numerosos geradores instalados nos diferentes países, reduzindo muito a reserva de geração necessária em cada país.

Na realidade a zona síncrona estende-se além da zona azul até ao Magrebe, através de duas ligações submarinas em corrente alterna que atravessam o estreito de Gibraltar, ligando a rede eléctrica de Espanha à de Marrocos e sucessivamente às da Argélia e da Tunísia.

Este sistema internacional imenso começou em 1958, com a interligação de parte dos sistemas da Suíça da França e da Alemanha. Nalguns casos as ligações internacionais entre redes vizinhas ocorreram mesmo antes da interligação completa das redes isoladas que existiam entre cada país. Desde essa altura tem vindo sempre a crescer.

Neste mapa é possível ver de forma detalhada as redes eléctricas existentes embora as grandes cidades só sejam visíveis através da concentração de linhas que a elas afluem, uma vez que as instalações eléctricas que as abastecem têm nomes de subúrbios como, por exemplo, Sacavém ou Carriche.

No Google Earth fui buscar esta zona que contém ao norte um bocadinho do Mar Negro, o estreito do Bósforo, em cujas margens está Istambul, o Mar de Mármara e o início do estreito de Dardanelos, a oeste, dando acesso ao Mar Mediterrâneo



No mapa da entso-e que referi acima essa zona está aqui representada:



e um pouco mais para leste fica esta outra



onde se vêem duas linhas (a vermelho) que unem a Turquia à Bulgária e uma linha que une a Turquia à Grécia. Este conjunto de três linhas construídas em datas relativamente recentes foram ligadas às 08:25 do passado Sábado, dia 18 de Setembro de 2010, conforme referido aqui. Os sistemas interligados ficarão sob observação pelo período de um ano após o que a ligação poderá passar a definitiva.

Deu-se assim mais um passo na aproximação da Turquia aos outros países da Europa.

Para terminar deixo aqui uma foto de uma linha de muito alta tensão que atravessa o canal do Bósforo, com um poste muito alto na sua margem de leste, sendo uma das linhas representadas no mapa acima.

2010-09-19

O Equinócio de Setembro


Lá mais para o norte o mês de Setembro é já Outono. Em 9/Setembro tive uma reunião em Gdansk e no fim do dia fui a Sopot, uma estância balnear a 12 km do centro histórico de Gdansk.

Na véspera tinha estado um dia de sol mas nesse dia tinha nublado e a temperatura máxima andaria pelos 16ºC.

Quando me aproximei da praia vi esta alameda com árvores do lado direito que presumi correctamente serem a última barreira vegetal entre a terra e o mar, provavelmente para proteger os veraneantes do vento agreste



Achei graça a estas protecções contra o sol inspiradas nas praias tropicais e que nesta cena, de tropical, já só mesmo a arquitectura



depois pensei que terão provavelmente utilidade, pelo menos em Junho e Julho, e que as que estão nas praias portuguesas são quase só usadas em Agosto. Entretanto os locais protegiam-se da frescura com kispos ligeiros



Às vezes penso que nessas terras mais frescas há muito mais edifícios de grandes dimensões do que em Portugal porque as pessoas fazem mais vida dentro de casa, como neste imponente hotel



Mas embora o tempo estivesse fresco, ainda estava agradável para dar passeios (vestidos) na praia:



No tempo em que as férias grandes eram grandes, nos 1º, 3º, 4º e 5º ano dos liceus as aulas terminavam no dia 11 de Junho e só recomeçavam no dia 1 de Outubro. Havia muito tempo para conversar e para ler. Lá para os finais de Setembro aconteceu-me pensar que ia ser bom recomeçar as aulas embora esse pensamento costumasse desaparecer ao fim de poucas semanas.

Agora dei um saltinho ao Algarve neste fim-de-semana e lembrei-me desses dias de Setembro, quando o equinócio se aproximava, das marés-vivas, do ar mais transparente, da brisa mais leve e mais fresca, do sol menos violento do que em Agosto e tirei esta foto na praia de Alvor, enfim, depois dum mergulho numa água que devia estar acima dos 20º:


Gosto muito do nosso clima.

2010-09-12

Ainda o verde

No post anterior carreguei um pouco no verde da foto porque me pareceu que a imagem tinha ficado menos verde do que a realidade.

Nesta imagem dum jardim do Hotel Altis Belém, em frente da doca do Bom Sucesso, os montinhos cobertos de relva terão uns 10 a 20 cm de altura.

2010-08-31

Pena de morte

Há já alguns anos que abandonei uma regra que seguia de evitar visitar países onde existisse a pena de morte. Embora o risco de erro judicial fosse muito pequeno, a perda (da minha vida) associada tinha para mim uma enorme importância, pelo que o produto dos dois factores poderia ser desagradavelmente elevado.

Abandonei essa regra pela primeira vez numa viagem a Macau em que fiz uma visita breve à República Popular da China num fim-de-semana e à Tailândia no regresso, esta com alguma apreensão depois de ver uma série de TV em que colocavam droga numa mala sem o turista dar por isso. Foi a primeira vez que reabri a mala no aeroporto, para verificar a ausência de qualquer corpo estranho suspeito, antes de responder à pergunta no check-in se tinha sido eu a fazer a mala. Depois fui à Índia, a S.Petersburgo em 1994, quando ainda talvez houvesse pena de morte na Rússia, depois aos Estados Unidos da América, cuja prioridade de visita era baixa precisamente pela existência de pena de morte, e recentemente ao Egipto e finalmente ao Irão. Excluindo os países do Magrebe, onde a pena de morte não é aplicada há mais de 10 anos, constato que no total visitei 6 países onde existe a pena de morte.

No mapa que apresento a seguir, que não dá conta do número de execuções por ano, os países islâmicos ficam mal na fotografia.





A lista de países com mais de 10 execuções no ano de 2009 é:





Nem na Índia nem no Paquistão ocorreram execuções em 2009 embora tenham sido proferidas sentenças de morte.

Os dados sobre números de execuções são da wikipédia e os da população do Geohive. Os valores relativos à população são de anos próximos de 2009 e devem ser considerados como aproximados.

Nos EUA a pena de morte foi suspensa de 1972 a 1976 pelo Supremo Tribunal Federal. Desde 1976 ocorreram 1224 execuções, 463 (38%) das quais no estado do Texas.

Excluindo a China, sobre a qual é muito difícil obter dados relativos a este tema (no artigo da wikipedia refere que em vez de 1700 execuções poderão ter sido 10000), o Irão ocupa assim uma posição muito destacada em relação a todos os outros países, quer a nível absoluto quer considerando o número de execuções per capita.

Não tinha ideia que a posição do Irão fosse tão destacada, o que é mais acentuado ao calcular o número de execuções por milhão de habitantes. Aí se constata que a posição dos E.U.A. é quantitativamente modesta.

Ao observar esta imagem de uma rua na parte central de Teerão, não me passou despercebida a presença de grades nas janelas do rés-do-chão.


Na altura confirmei com o guia que no Irão, além da pena de morte, também usam penas de mutilação, quer dizer que, por exemplo, cortam mãos a ladrões. Informou o guia que era necessário que existissem 25 ou 26 condições prévias para o corte de uma mão, designadamente que se tratasse de uma reincidência e que o alegado ladrão não tivesse ninguém doente a seu cargo, mas são pormenores de somenos importância face à crueldade e estupidez do acto.

Ainda pensei em fazer um post referindo que a presença destas grades era uma demonstração de que o método de corte das mãos dos ladrões (elogiado noutras ocasiões como muito eficaz por algumas pessoas com quem tive a infelicidade de me cruzar) não conseguia que se pudesse prescindir de grades nos primeiros pisos dos edifícios, mas achei que não valia a pena.

Agora estou a visitar estes temas dada a ameaça de morte por lapidação da iraniana Sakineh Ashtiani a que me referi em post anterior. Além da crueldade do método continuo sem perceber o que se passa na cabeça dos apedrejadores. Perturba-me também a desresponsabilização dos executantes ao usar pedras que por si só são insuficientes para matar uma pessoa. Cada um deles alegará que não foi ele que matou a pessoa condenada embora ela tenha morrido. Nos E.U.A. existe um estado em que a pena de morte é executada por fuzilamento, com vários executores a disparar em simultâneo contra o condenado, mas em que uma das espingardas foi carregada com explosivo mas sem bala, para maior tranquilidade da consciência dos executores.

É um raciocínio míope sobre relações de causa e efeito. Em Hong-Kong estabeleceram há anos que é crime atirar garrafas ou qualquer outro objecto pesado pela janela, independentemente de este ter ou não atingido alguém.

Mas o facto de existir certamente suporte por parte da população para este tipo de actividades cruéis no Irão não desresponsabiliza os seus principais responsáveis, designadamente o seu líder supremo, aiatola Khamenei bem como os poderes executivo, judicial e legislativo. Trata-se de terrorismo de Estado, em que leis iníquas são apoiadas por penas particularmente cruéis, cuja mera existência favorece o exercício arbitrário do poder.

Mas ao contrário do João Pereira Coutinho considero que qualquer melhoramento deste estado deplorável da justiça iraniana, para ser sustentável, tem que ser obtido pela forças iranianas internas, com o apoio de campanhas externas contra estas violações grosseiras da carta de direitos humanos das Nações Unidas. Qualquer intervenção militar externa teria à partida o preço de dezenas de milhar de mortes, muito mais do que as 400 execuções anuais de agora, sem qualquer garantia da instauração posterior de um poder minimamente decente. Na realidade os E.U.A. deram a sua contribuição para esta situação em 1953, ao incitarem militares a depor o Dr. Mossaddegh e apoiando o megalómano Reza Palhevi que com a sua política desastrada criou terreno fértil para os aiatolas tomarem o poder.

Também considero que as lapidações têm o objectivo de aterrorizar os iranianos e não os estrangeiros, pelo que me parece mais provável que os protestos exteriores, como a manifestação realizada em 28/Agosto em Lisboa e em tantas outras cidades, contribuam para beneficiar os condenados do que o contrário. Embora esta última hipótese não seja completamente de excluir, como demonstração do poder dos aiatolas.

2010-08-27

Algarve agradável

No Algarve ainda existem sítios agradáveis, como esta praia dos Três Irmãos em Alvor, que fotografei ao meio-dia do dia 24 de Agosto deste ano:



nesta segunda imagem o enquadramento é enganador quanto à ocupação, a praia estava longe de estar deserta, mas também não estava superlotada



e estes arcos são normalmente agradáveis à vista, ainda mais quando iluminados por reflexos ocres da falésia.

2010-08-19

Lapidação


Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher cuja foto aqui à direita corre mundo, está em risco de ser executada por lapidação no Irão.

Tendo a honra e o privilégio de viver em Portugal, um dos primeiros países a abolir a pena de morte em todo o mundo, deploro que ela subsista ainda em tantos outros.

Neste caso há a acrescentar ao horror da pena de morte a forma da execução, por lapidação, um método particularmente cruel, em uso apenas em poucos países islâmicos.

Não percebo o que se passa na cabeça dos iranianos favoráveis à lapidação.

Existem muitas campanhas em curso para tentar salvar esta mulher, cujo processo judicial incluiu tortura, segundo muitos observadores ocidentais. Também a Al-Jazzeera coloca entre aspas a recente "confissão" apresentada pelas autoridades iranianas, por suspeitar do uso da tortura na sua obtenção.

O Tehran Times (jornal do regime), nem refere o assunto, não se obtendo entradas significativas no Google combinando "Teheran Times" com "Ashtiani".

A Amnistia Internacional mantém campanha por este caso.

2010-08-12

A conversa

A cidade de Viena tem um recheio admirável, herdeira da sua história de capital de um grande império. Tem um lado pomposo que antigamente me irritava mais, mas no meio de tanta pompa tem obras de uma imensa qualidade, quer no mais clássico, quer no mais moderno. A repressão suscita a transgressão e a par das obras de um classicismo ortodoxo surgem os movimentos modernos de ruptura com a ordem estabelecida.

Aqui ao lado está a entrada do parlamento austríaco, edifício construído na segunda metade do século XIX, quando o monarca deixou de ser tão absoluto. Andava então o pessoal embasbacado com a arquitectura dos antigos gregos e romanos pelo que o edifício foi construído nesse estilo, enfim, também como tributo à Grécia como berço da democracia.

Na entrada do edifício construíram uma fonte entre 1893 e 1902, com a deusa Atena (da sabedoria) em cima de um pedestal, presume-se que para ajudar os políticos a não tomarem decisões excessivamente erradas.

Mas a parte da escultura da fonte que realmente me interessou foi este casal, antropomorfização (hábito tonto mas frequente) dos rios Danúbio e Inn, em que a mulher está a contar uma história que se presume extremamente interessante, conseguindo atrair a atenção do homem que tem um ar muito bonacheirão. Esta parte da escultura foi feita por Hugo Haerdtl, mas o Google não conseguiu encontrar muita coisa sobre ele, além disso a maior parte estava escrita em alemão.