2010-09-28

Báltico

A praia do mar Báltico do penúltimo post lembrou-me outra praia do Báltico que visitei em Junho de 1994, ao pé de Riga, chamada Jürmala.

Daí me ficou a memória de uma barreira de árvores, a separar a praia das casas que se integravam discretamente na floresta. Da praia quase não se viam construções, como é patente nesta imagem:



Por trás da barreira de árvores desenvolvia-se um passeio frondoso onde havia esplanadas mas, dada a barreira de árvores, não se conseguia ver o mar:



Os estados Bálticos tinham recuperado a independência há muito poucos anos, na sequência da Perestroika, era curioso observar o conteúdo (ou a sua ausência...) das poucas lojas existentes.

Fiquei surpreendido também com a frequente venda de livros na rua, em vez das revistas dos quiosques mais habituais no Ocidente, em que me recordo duma imagem do Terminator, com o Schwarzenegger na capa e outros livros com actores ocidentais famosos também na capa. Em vez de verem as cassetes de vídeo os letões aparentemente liam os argumentos dos filmes! Tirei esta foto para documentar a situação, na própria cidade de Riga




O ano passado devo ter visto um ou dois episódios da série da BBC “The story of India” do Michael Wood, gostei e, não sei se influenciado por esta banca de livros vista há muitos anos, em vez dos DVDs comprei o livro associado, cuja capa está aqui ao lado.

Embora tenha conseguido ler o livro todo parece-me que teria sido melhor comprar o conjunto de DVDs.

De qualquer forma gostei de revisitar a civilização indiana de que falarei no próximo post.

2010-09-22

Ligação eléctrica da Turquia à Europa

No continente europeu existe o sistema eléctrico síncrono interligado com a maior potência instalada de todo o mundo. O Grupo Regional da Europa Continental, como é designado na entso-e, é constituído pelos países da zona azul, como mostrado neste mapa,



que também pode ser visto aqui.

Dentro desta imensa área, parecida mas não coincidente com a União Europeia, a falha de qualquer gerador é instantaneamente apoiada por numerosos geradores instalados nos diferentes países, reduzindo muito a reserva de geração necessária em cada país.

Na realidade a zona síncrona estende-se além da zona azul até ao Magrebe, através de duas ligações submarinas em corrente alterna que atravessam o estreito de Gibraltar, ligando a rede eléctrica de Espanha à de Marrocos e sucessivamente às da Argélia e da Tunísia.

Este sistema internacional imenso começou em 1958, com a interligação de parte dos sistemas da Suíça da França e da Alemanha. Nalguns casos as ligações internacionais entre redes vizinhas ocorreram mesmo antes da interligação completa das redes isoladas que existiam entre cada país. Desde essa altura tem vindo sempre a crescer.

Neste mapa é possível ver de forma detalhada as redes eléctricas existentes embora as grandes cidades só sejam visíveis através da concentração de linhas que a elas afluem, uma vez que as instalações eléctricas que as abastecem têm nomes de subúrbios como, por exemplo, Sacavém ou Carriche.

No Google Earth fui buscar esta zona que contém ao norte um bocadinho do Mar Negro, o estreito do Bósforo, em cujas margens está Istambul, o Mar de Mármara e o início do estreito de Dardanelos, a oeste, dando acesso ao Mar Mediterrâneo



No mapa da entso-e que referi acima essa zona está aqui representada:



e um pouco mais para leste fica esta outra



onde se vêem duas linhas (a vermelho) que unem a Turquia à Bulgária e uma linha que une a Turquia à Grécia. Este conjunto de três linhas construídas em datas relativamente recentes foram ligadas às 08:25 do passado Sábado, dia 18 de Setembro de 2010, conforme referido aqui. Os sistemas interligados ficarão sob observação pelo período de um ano após o que a ligação poderá passar a definitiva.

Deu-se assim mais um passo na aproximação da Turquia aos outros países da Europa.

Para terminar deixo aqui uma foto de uma linha de muito alta tensão que atravessa o canal do Bósforo, com um poste muito alto na sua margem de leste, sendo uma das linhas representadas no mapa acima.

2010-09-19

O Equinócio de Setembro


Lá mais para o norte o mês de Setembro é já Outono. Em 9/Setembro tive uma reunião em Gdansk e no fim do dia fui a Sopot, uma estância balnear a 12 km do centro histórico de Gdansk.

Na véspera tinha estado um dia de sol mas nesse dia tinha nublado e a temperatura máxima andaria pelos 16ºC.

Quando me aproximei da praia vi esta alameda com árvores do lado direito que presumi correctamente serem a última barreira vegetal entre a terra e o mar, provavelmente para proteger os veraneantes do vento agreste



Achei graça a estas protecções contra o sol inspiradas nas praias tropicais e que nesta cena, de tropical, já só mesmo a arquitectura



depois pensei que terão provavelmente utilidade, pelo menos em Junho e Julho, e que as que estão nas praias portuguesas são quase só usadas em Agosto. Entretanto os locais protegiam-se da frescura com kispos ligeiros



Às vezes penso que nessas terras mais frescas há muito mais edifícios de grandes dimensões do que em Portugal porque as pessoas fazem mais vida dentro de casa, como neste imponente hotel



Mas embora o tempo estivesse fresco, ainda estava agradável para dar passeios (vestidos) na praia:



No tempo em que as férias grandes eram grandes, nos 1º, 3º, 4º e 5º ano dos liceus as aulas terminavam no dia 11 de Junho e só recomeçavam no dia 1 de Outubro. Havia muito tempo para conversar e para ler. Lá para os finais de Setembro aconteceu-me pensar que ia ser bom recomeçar as aulas embora esse pensamento costumasse desaparecer ao fim de poucas semanas.

Agora dei um saltinho ao Algarve neste fim-de-semana e lembrei-me desses dias de Setembro, quando o equinócio se aproximava, das marés-vivas, do ar mais transparente, da brisa mais leve e mais fresca, do sol menos violento do que em Agosto e tirei esta foto na praia de Alvor, enfim, depois dum mergulho numa água que devia estar acima dos 20º:


Gosto muito do nosso clima.

2010-09-12

Ainda o verde

No post anterior carreguei um pouco no verde da foto porque me pareceu que a imagem tinha ficado menos verde do que a realidade.

Nesta imagem dum jardim do Hotel Altis Belém, em frente da doca do Bom Sucesso, os montinhos cobertos de relva terão uns 10 a 20 cm de altura.

2010-08-31

Pena de morte

Há já alguns anos que abandonei uma regra que seguia de evitar visitar países onde existisse a pena de morte. Embora o risco de erro judicial fosse muito pequeno, a perda (da minha vida) associada tinha para mim uma enorme importância, pelo que o produto dos dois factores poderia ser desagradavelmente elevado.

Abandonei essa regra pela primeira vez numa viagem a Macau em que fiz uma visita breve à República Popular da China num fim-de-semana e à Tailândia no regresso, esta com alguma apreensão depois de ver uma série de TV em que colocavam droga numa mala sem o turista dar por isso. Foi a primeira vez que reabri a mala no aeroporto, para verificar a ausência de qualquer corpo estranho suspeito, antes de responder à pergunta no check-in se tinha sido eu a fazer a mala. Depois fui à Índia, a S.Petersburgo em 1994, quando ainda talvez houvesse pena de morte na Rússia, depois aos Estados Unidos da América, cuja prioridade de visita era baixa precisamente pela existência de pena de morte, e recentemente ao Egipto e finalmente ao Irão. Excluindo os países do Magrebe, onde a pena de morte não é aplicada há mais de 10 anos, constato que no total visitei 6 países onde existe a pena de morte.

No mapa que apresento a seguir, que não dá conta do número de execuções por ano, os países islâmicos ficam mal na fotografia.





A lista de países com mais de 10 execuções no ano de 2009 é:





Nem na Índia nem no Paquistão ocorreram execuções em 2009 embora tenham sido proferidas sentenças de morte.

Os dados sobre números de execuções são da wikipédia e os da população do Geohive. Os valores relativos à população são de anos próximos de 2009 e devem ser considerados como aproximados.

Nos EUA a pena de morte foi suspensa de 1972 a 1976 pelo Supremo Tribunal Federal. Desde 1976 ocorreram 1224 execuções, 463 (38%) das quais no estado do Texas.

Excluindo a China, sobre a qual é muito difícil obter dados relativos a este tema (no artigo da wikipedia refere que em vez de 1700 execuções poderão ter sido 10000), o Irão ocupa assim uma posição muito destacada em relação a todos os outros países, quer a nível absoluto quer considerando o número de execuções per capita.

Não tinha ideia que a posição do Irão fosse tão destacada, o que é mais acentuado ao calcular o número de execuções por milhão de habitantes. Aí se constata que a posição dos E.U.A. é quantitativamente modesta.

Ao observar esta imagem de uma rua na parte central de Teerão, não me passou despercebida a presença de grades nas janelas do rés-do-chão.


Na altura confirmei com o guia que no Irão, além da pena de morte, também usam penas de mutilação, quer dizer que, por exemplo, cortam mãos a ladrões. Informou o guia que era necessário que existissem 25 ou 26 condições prévias para o corte de uma mão, designadamente que se tratasse de uma reincidência e que o alegado ladrão não tivesse ninguém doente a seu cargo, mas são pormenores de somenos importância face à crueldade e estupidez do acto.

Ainda pensei em fazer um post referindo que a presença destas grades era uma demonstração de que o método de corte das mãos dos ladrões (elogiado noutras ocasiões como muito eficaz por algumas pessoas com quem tive a infelicidade de me cruzar) não conseguia que se pudesse prescindir de grades nos primeiros pisos dos edifícios, mas achei que não valia a pena.

Agora estou a visitar estes temas dada a ameaça de morte por lapidação da iraniana Sakineh Ashtiani a que me referi em post anterior. Além da crueldade do método continuo sem perceber o que se passa na cabeça dos apedrejadores. Perturba-me também a desresponsabilização dos executantes ao usar pedras que por si só são insuficientes para matar uma pessoa. Cada um deles alegará que não foi ele que matou a pessoa condenada embora ela tenha morrido. Nos E.U.A. existe um estado em que a pena de morte é executada por fuzilamento, com vários executores a disparar em simultâneo contra o condenado, mas em que uma das espingardas foi carregada com explosivo mas sem bala, para maior tranquilidade da consciência dos executores.

É um raciocínio míope sobre relações de causa e efeito. Em Hong-Kong estabeleceram há anos que é crime atirar garrafas ou qualquer outro objecto pesado pela janela, independentemente de este ter ou não atingido alguém.

Mas o facto de existir certamente suporte por parte da população para este tipo de actividades cruéis no Irão não desresponsabiliza os seus principais responsáveis, designadamente o seu líder supremo, aiatola Khamenei bem como os poderes executivo, judicial e legislativo. Trata-se de terrorismo de Estado, em que leis iníquas são apoiadas por penas particularmente cruéis, cuja mera existência favorece o exercício arbitrário do poder.

Mas ao contrário do João Pereira Coutinho considero que qualquer melhoramento deste estado deplorável da justiça iraniana, para ser sustentável, tem que ser obtido pela forças iranianas internas, com o apoio de campanhas externas contra estas violações grosseiras da carta de direitos humanos das Nações Unidas. Qualquer intervenção militar externa teria à partida o preço de dezenas de milhar de mortes, muito mais do que as 400 execuções anuais de agora, sem qualquer garantia da instauração posterior de um poder minimamente decente. Na realidade os E.U.A. deram a sua contribuição para esta situação em 1953, ao incitarem militares a depor o Dr. Mossaddegh e apoiando o megalómano Reza Palhevi que com a sua política desastrada criou terreno fértil para os aiatolas tomarem o poder.

Também considero que as lapidações têm o objectivo de aterrorizar os iranianos e não os estrangeiros, pelo que me parece mais provável que os protestos exteriores, como a manifestação realizada em 28/Agosto em Lisboa e em tantas outras cidades, contribuam para beneficiar os condenados do que o contrário. Embora esta última hipótese não seja completamente de excluir, como demonstração do poder dos aiatolas.

2010-08-27

Algarve agradável

No Algarve ainda existem sítios agradáveis, como esta praia dos Três Irmãos em Alvor, que fotografei ao meio-dia do dia 24 de Agosto deste ano:



nesta segunda imagem o enquadramento é enganador quanto à ocupação, a praia estava longe de estar deserta, mas também não estava superlotada



e estes arcos são normalmente agradáveis à vista, ainda mais quando iluminados por reflexos ocres da falésia.

2010-08-19

Lapidação


Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher cuja foto aqui à direita corre mundo, está em risco de ser executada por lapidação no Irão.

Tendo a honra e o privilégio de viver em Portugal, um dos primeiros países a abolir a pena de morte em todo o mundo, deploro que ela subsista ainda em tantos outros.

Neste caso há a acrescentar ao horror da pena de morte a forma da execução, por lapidação, um método particularmente cruel, em uso apenas em poucos países islâmicos.

Não percebo o que se passa na cabeça dos iranianos favoráveis à lapidação.

Existem muitas campanhas em curso para tentar salvar esta mulher, cujo processo judicial incluiu tortura, segundo muitos observadores ocidentais. Também a Al-Jazzeera coloca entre aspas a recente "confissão" apresentada pelas autoridades iranianas, por suspeitar do uso da tortura na sua obtenção.

O Tehran Times (jornal do regime), nem refere o assunto, não se obtendo entradas significativas no Google combinando "Teheran Times" com "Ashtiani".

A Amnistia Internacional mantém campanha por este caso.

2010-08-12

A conversa

A cidade de Viena tem um recheio admirável, herdeira da sua história de capital de um grande império. Tem um lado pomposo que antigamente me irritava mais, mas no meio de tanta pompa tem obras de uma imensa qualidade, quer no mais clássico, quer no mais moderno. A repressão suscita a transgressão e a par das obras de um classicismo ortodoxo surgem os movimentos modernos de ruptura com a ordem estabelecida.

Aqui ao lado está a entrada do parlamento austríaco, edifício construído na segunda metade do século XIX, quando o monarca deixou de ser tão absoluto. Andava então o pessoal embasbacado com a arquitectura dos antigos gregos e romanos pelo que o edifício foi construído nesse estilo, enfim, também como tributo à Grécia como berço da democracia.

Na entrada do edifício construíram uma fonte entre 1893 e 1902, com a deusa Atena (da sabedoria) em cima de um pedestal, presume-se que para ajudar os políticos a não tomarem decisões excessivamente erradas.

Mas a parte da escultura da fonte que realmente me interessou foi este casal, antropomorfização (hábito tonto mas frequente) dos rios Danúbio e Inn, em que a mulher está a contar uma história que se presume extremamente interessante, conseguindo atrair a atenção do homem que tem um ar muito bonacheirão. Esta parte da escultura foi feita por Hugo Haerdtl, mas o Google não conseguiu encontrar muita coisa sobre ele, além disso a maior parte estava escrita em alemão.


2010-08-11

A Leitora

O título deste post fez-me lembrar que a língua portuguesa pode ser tão ou mais lacónica do que a inglesa. Antigamente nos aviões tinha "É favor apertar o cinto de segurança" enquando em inglês dizia apenas "Fasten seat belt". Mas entretanto ganhámos em laconismo dizendo agora apenas "Apertar cinto". Neste caso o título da escultura em inglês é "The Reading Girl".

Foi feita por Pietro Magni (1817-1877) de Milão, modelada em 1856, esculpida em 1861 e esta foto fixa um detalhe da cópia exposta na National Gallery of Art, em Washington.

Gostei do ar da leitora, a um tempo interessado e tranquilo.

Um observador menos atento pensaria que com este calor até as estátuas aligeiram um pouco as vestes.


Poseidon

No Museu Arqueológico de Atenas encontra-se este Bronze de Artemísion que fotografei sob dois pontos de vista. Em princípio isso dever-se-ia fazer com todas as estátuas, visto que não se reduzem a um plano, mas por vezes há pontos de vista mais privilegiados do que outros.

Nos museus costuma colocar-se também a questão dos enquadramentos, ou porque existem outros objectos na sala, ou porque está sempre gente a passar.

Ultimamente tenho tentado obter bons enquadramentos à partida, para evitar manipular as fotos pois é uma tarefa fácil de começar mas difícil de acabar porque os melhoramentos possíveis aparecem como as cerejas, uns atrás dos outros. Neste caso tinha alguns objectos e pessoas que achei que perturbavam a vista e fiz umas alterações simples com um programa de tratamento de imagens. Mas não tentei esconder as intervenções pois fazer passar despercebida uma alteração pode consumir imenso tempo.

Quanto à estátua propriamente dita foi datada de 460 AC, pensou-se que representava Zeus mas agora domina a opinião que se trata de Poseidon, deus dos mares, provavelmente empunhando um tridente. Parece-me perfeita.





2010-08-10

A Afrodite de Rodes

Não sei onde arranjei esta imagem duma escultura grega belíssima, duma Afrodite com os cabelos que parecem esvoaçantes, mas tem uma imagem igual neste site. A escultura está no Museu Arqueológico de Rodes.

Não me soa bem "Vénus Agachada", tão pouco "Crouching Venus". Já "Vénus Accroupie" parece soar melhor, talvez seja de alguma ignorância minha da língua francesa.

Mas com tanto calor apetece é tirar a roupa, como fez esta Afrodite.


2010-08-08

Le massage au Hamman

Não sei se por causa do calor que tem feito em Lisboa se pelo cansaço de ver as iranianas sempre tão tapadas, apeteceu-me mostrar esta fantasia orientalista do pintor francês Edouard Debat-Ponsan (1847-1913) que pintou este quadro depois (ou durante) a visita que fez a Istambul em 1883, sobre uma massagem num banho turco, sendo facilmente reconhecíveis os padrões turcos dos mosaicos.

Esta imagem é da wikipédia, onde costumo encontrar sempre as melhores reproduções de quadros. Neste caso, como tinha há muito tempo uma imagem de pior qualidade mas um pouco mais clara, não resisti a clarear um pouco esta versão que apresento a seguir.

2010-08-07

René Magritte: L'empire des lumières

Ao ver a imagem do repuxo do último post, veio-me imediatamente à mente este quadro de Magritte. Andei à procura na net de uma imagem que me parecesse boa, é impressionante o número de variantes que existe em relação ao brilho e ao contraste de cada imagem, cheguei a fotografar um livro que tenho em casa mas não fiquei satisfeito e acabei por importar esta imagem deste blog:



Mesmo assim não resisti a alterar um pouco o factor gama e o brilho da imagem do outro blog, tornando-a ligeiramente mais escura.

É uma cena irreal mas com uma verosimilhança extraordinária.

2010-08-06

A ponte dos 33 arcos em Isfahan

Aqui está então a vista do lado da sombra da famosa ponte de 33 arcos de Isfahan, com uma esplanada associada à casa de chá.



Ao visitar terras diferentes às vezes parece que existe um caminho único que as sociedades têm que percorrer. Por exemplo numa visita que fiz há uns anos a uma praia doutro país encontrei uma praia que me fez lembrar a Quarteira de há uns 50 anos, uma avenida alcatroada paralela à linha da costa com umas vivendas de veraneio aqui e ali, umas ruas transversais já de terra batida com as casas mais modestas que pareciam dos pescadores e um café onde se viam só homens.

Mas depressa se descobrem sinais de que os caminhos são muito mais variados. Por exemplo neste zoom da imagem anterior sobre a esplanada



constata-se que existem muitas mulheres nas mesas, existindo mesmo mesas apenas com mulheres. Quando as mulheres em Portugal tinham que andar tão cobertas como as iranianas têm que andar agora no Irão, era-lhes vedado este tipo de interacção com os homens em locais públicos.

Na imagem a seguir, que mostra a ponte do lado solar



constata-se que é possível aos casais andarem de mão dada em locais públicos. Constata-se também que a alta tecnologia é compatível com regras rígidas de vestir, neste caso o malfadado tchador com o telemóvel, no canto inferior esquerdo. A senhora de calças e casaco claros com um lenço rosa era uma turista. Não é que não se visse uma ou outra cor mais aberta mas o comum era o preto e o cor-de-burro-escuro quando foge.

Incluo agora uma imagem com a quase totalidade da ponte, num ângulo parecido ao do cromo do post anterior mas tirado da margem esquerda




e outro zoom, realçando a diferença de conceito desta ponte em relação às ocidentais



Esta é um local de passagem mas é também um local de contemplação do rio que passa. Os nichos têm gente, proporcionam sombra quando o sol vai alto, constituindo uma espécie de “camarotes”, onde pequenos grupos podem partilhar a frescura da brisa que passou sobre a água, onde colocaram este repuxo para acentuar essa frescura.



Neste caso parece que o repuxo se transforma na nuvem

2010-08-03

A ponte mais bela do mundo

Faz parte da natureza humana acreditar em muitas das tretas que vão aparecendo, caso contrário a propaganda e o marketing seriam muito mais difíceis.

Neste caso fui influenciado por este cromo das “Maravilhas do mundo”, colecção que fiz na juventude e a que já me tenho referido neste blogue.


Não acredito na possibilidade de estabelecer uma ordenação incontestável de um conjunto em relação qualidades não mensuráveis como a inteligência, a beleza, etc. Mas interpreto a afirmação de que se trata da ponte mais bela do mundo como significando que será uma das mais belas, que merecerá certamente uma visita. No texto do cromo diz que tem 35 metros de comprimento, o que parece pouco para guardar tanta beleza e muito pouco se considerarmos a figura e a relação entre a altura que dizem ser 9 metros e o comprimento que terá que ser muito mais.

Como vi duas pontes que se destacavam mais em Isfahan tentei no Google Ali-Verdi-Khan e isfahan, parece que agora se escreve “Allah-Verdi Khan” e o nome da ponte é “Si-o-se Pol” que quer dizer literalmente “ponte 33” ou menos abreviadamente “ponte dos 33 arcos”. Allah-Verdi Khan era o ministro do Xá Abbas I que a mandou construir, tendo sido concluída em 1602. Ainda na wikipédia diz que tem 297,76 m de comprimento mas não dizem qual a altura. A pessoa que escreveu o texto do cromo ouviu 33 arcos e escreveu 35 metros.

No texto tem ainda o disparate de dizer que liga duas cidades, quando liga apenas duas margens do rio Zayandeh que passa por Isfahan. Não sei se a altura será 9 m, mas o valor não parece disparatado.

Distraí-me também com os algarismos escritos à mão pelo meu pai, que manifestava interesse em que nós fizéssemos estas colecções e acho graça ao “7”, feito com uma esferográfica mas com um movimento treinado com caneta de aparo, em que se tentava evitar quer ângulos muito agudos quer levantar o bico do papel.

Confirmei no Google Earth que a ponte tem cerca de 300 m de comprido, o que é fácil de fazer como se vê na imagem a seguir.




A propósito de alguma falta de cuidado destes textos dos cromos lembro-me de uma notícia destacada num jornal de grande circulação (julgo que foi o Diário de Notícias), a propósito de um cromo da colecção “Conquista do Espaço” onde diziam que os discos voadores existiam mesmo, mostrando a imagem de um que diziam ser fabricado no Canadá. Como a Agência Portuguesa de Revistas chamava “Colecção Cultura” a estas colecções de cromos o jornal interrogava-se: quem nos protege desta cultura? Lembro-me que foi uma experiência significativa para mim, constatar que nem tudo o que estava escrito estava necessariamente correcto

Reproduzo a seguir o cromo do disco voador


e por descargo de consciência e alguma curiosidade fui ver o que era isto do efeito “Coanda”. Ao fazer o google de “Coanda” apareceu-me logo o “Coanda effect”. O engenheiro não era bem francês mas sim romeno tendo vivido em França. Como se chamava Henri Coanda a confusão parece menor. No artigo da wikipedia diz que descobriu este efeito em 1930, o que está bem próximo de 1933. Na realidade fabricaram-se dois protótipos no construtor Avro Canada, com destino aos Estados Unidos, mas foram um grande flop e não tiveram sequência. Teriam sido aviões “VTOL” (Vertical Take-Off and Landing).

Reproduzo aqui uma imagem da wikipédia mostrando o Avrocar



Quando li a crítica demolidora no jornal à falta de cultura da colecção fiquei a pensar que por vezes os textos das colecções eram umas grandes tretas. Ao fim de dezenas de anos constato que embora muitos dos textos dos cromos contenham erros e inexactidões, este cromo do disco voador tinha um fundo de verdade.

Para finalizar deixo aqui um filminho dum disco voador de brinquedo, as fotos da ponte ficam para o post seguinte.


2010-07-31

Ainda a ponte de Khaju

Era sexta-feira, dia de descanso no Irão, havendo muito mais gente na ponte do que nos dias de trabalho. Havia algum caudal, como é patente na foto, mas o leito era pouco profundo. Nota-se que havia grupos de homens e de mulheres mas também vários casais.



Certamente que havia um sistema de açudes como em Coimbra para criar este "lago" com alguma largura a jusante da ponte. As margens estão muito bem ajardinadas e todo o ambiente, água e jardins, está num estado de limpeza notável.

2010-07-30

As pontes de Isfahan

O Irão situa-se na maior parte num planalto a uma altitude de 1200m. Com uma superfície enorme de 1.600.000 km2 (mais de 17 vezes maior que Portugal) tem 70 milhões de habitantes (apenas 7 vezes mais do que os Portugueses).

Cai pouca chuva na maior parte do território, com as excepções de uma faixa no Norte e outra no Oeste. As montanhas altas existentes, que chegam a ultrapassar os 5000m de altitude, criam condições favoráveis a alguma chuva e neve que se infiltra no solo criando lençóis freáticos nos sopés da montanhas, onde se estabelecem as aldeias, as vilas e as cidades, presumo que dependendo da abundância da água.

Os rios são raros, assumindo a forma do nosso “Basófias”, o Mondego, assim chamado pelo seu enorme leito de cheia por onde muitas vezes corre apenas um fiozinho de água.

Na cidade de Isfahan passa o rio Zayandeh, cujo nome significa “fonte da vida”, o maior rio do planalto central do Irão, nascendo nos montes Zagros e desaguando no deserto Kavir.

O caudal anual médio deste rio é 38 m3/s (metros cúbicos por segundo). Em comparação, o rio Mondego tem um caudal anual médio de 108 m3/s enquanto o Douro tem 714 m3/s.

A água é portanto aqui um líquido muito mais precioso do que em muitas outras partes do mundo e as pontes de Isfahan não são apenas um local de passagem de uma margem para a outra mas também um local de lazer, de frescura e de contemplação da fonte da vida.

Esta foi a minha primeira vista da ponte Khaju, construída por volta de 1650, no seu lado ensolarado



e esta é uma vista da mesma ponte do seu lado à sombra, não deixando dúvidas sobre as preferências dos iranianos entre o sol e a sombra



enquanto por baixo dos arcos da ponte existem plataformas onde colocam os tapetes persas para fazer piqueniques,



num local de ainda maior frescura onde se ouve o ruído tranquilizador da água que corre em abundância.