2019-12-09

Manufactura dum Jogo Hex


Conheci este jogo na Dinamarca em 1971 quando na viagem de fim-de-curso do IST um colega o comprou em Copenhaga. Na Wikipédia refere dois autores independentes:

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O jogo foi inventado pelo matemático dinamarquês Piet Hein, que o introduziu em 1942 no Instituto Niels Bohr. Foi independentemente re-inventado em 1947 pelo matemático John Nash na Universidade de Princeton.
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A configuração mais frequente é com 11x11 casas, quem joga primeiro tem vantagem que se desvanece com o aumento do número de casas. O jogo tem uma característica interessante de não admitir empates o que torna equivalente a melhor defesa ao melhor ataque. Portanto, não é preciso um "killer instinct" pois quem se contenta em se defender dos ataques do adversário está a construir uma linha que sendo a melhor barreira ao avanço do outro é ao mesmo tempo a melhor linha de ataque.

Mandei fazer há muitos anos um tabuleiro de madeira com furos, à semelhança da versão dinamarquesa,  mas nesse tempo não existia Excel e existiam marceneiros a custos razoáveis. Na altura encomendei o tabuleiro com 13x13 casas em vez das 11x11 mais comuns, pensando dar uma vantagem mais pequena a quem inicia o jogo.

Nos tempos que correm, com Excel e com marceneiros mais justamente remunerados, fiz uma ficheiro Excel para desenhar a estrutura de favo de mel e um ficheiro .pdf para a impressão respectiva. Ambos os ficheiros têm o nome "Hexagonos" e estão disponíveis neste sítio.

Depois de imprimir o ficheiro .pdf numa folha A3 de gramagem um pouco maior do que a do papel de  fotocópia numa loja do meu bairro (Loja de Fotografias, Rua Cidade Bolama, Nº 14-C 1800-079 Lisboa) comprei uma moldura de 30x40cm no AKI onde comprei também 70 porcas com furo de 8mm e largura exterior de 13mm. Precisei de cortar duas pequenas tiras de papel nos lados do papel A3 para caber na moldura. Depois derreti cera para dentro dos furos roscados de 35 das porcas para se distinguirem em dois conjuntos e fiquei a pensar que teria sido funcionalmente equivalente e provavelmente mais fácil encher os furos com plasticina em vez de cera.. Finalmente comprei no Tiger duas caixinhas de plástico com um conteúdo para aqui irrelevante.


Seguidamente coloquei o tabuleiro com um conjunto inicial de peças a fingir um jogo numa fase inicial e fotografei:
 




Mahatma Gandhi (4)


Continuando a referência a alguns aspectos dos 5 livrinhos da autobiografia do Gandi, que iniciei com um post de 2019-06-20 e continuei com outro post de 2019-11-02 e outro de 2019-11-21

Passo a referir o livro 4.

Parte IV (Livro 4)

4.1) Discordância crescente

À medida que escrevo sobre esta autobiografia do Gandi vou notando um aumento do número de temas em que tenho uma discordância forte em relação a muitas das opiniões do Gandi.

Dada a minha formação de engenheiro e nulo activismo político, tirando a manifestação de uma ou outra opinião sobre a governação aos amigos e em poucos posts deste blogue, embora reconheça o papel muito importante do Gandi na recuperação que a Índia fez da sua soberania, tenho alguma dificuldade em entender uma eventual relação necessária entre o seu trajecto político e as suas opiniões “pré-iluministas”.

4.2) Teosofia

O livro refere que Gandi foi contactado, ainda na África do Sul, por membros da Sociedade Teosófica (Teosofia seria Sabedoria Divina, assim como Filosofia é “Amor pela” Sabedoria) e quando se apercebeu que esperavam dele contribuições para essa sociedade ter uma melhor compreensão da religião hinduísta acabou por ter um estímulo para ler melhor os clássicos indianos, designadamente o Bhagavad-Gita que referi aqui.

Achei estranha a referência de Gandi à memorização que fez de trechos do Bhagavad-Gita, parece-me semelhante a decorar o Corão, na religião cristã a memorização limita-se a meia-dúzia de orações, mesmo durante a celebração da missa o padre tem um livro a servir de ponto para dizer as palavras correctas sem ter que recorrer à memória.

Na liturgia actual, os serviços de notícias da TV, os apresentadores são ajudados por um teleponto para não se enganarem a comunicar as notícias do dia.

Bem sei que quando foi inventada a escrita os contadores de histórias, que tinham anteriormente de as decorar, lamentaram a descoberta desta nova tecnologia, não era a mesma coisa saber uma história de cor ou limitar-se a ler um livro e estes hábitos perduram por séculos, dizem-me que no Irão ainda existem contadores de histórias (https://www.utne.com/arts/irans-streetwise-storytellers-naghals ), que actuam na rua para quem quer ouvir.

Dando o benefício da dúvida, talvez seja um treino na arte da retórica pois tenho lido que o Bhagavad-Gita tem muitos bons exemplos de troca de argumentos.

Na referência à Teosofia na Wikipédia vi o nome de Annie Besant e googlei (annie besant indiana jones) pois julgo ter ouvido falar da Teosofia pela primeira vez na série da TV “Indiana Jones – Crónicas da Juventude) onde o jovem Indiana Jones visitava gente no princípio do século XX, gente essa que ficaria depois muito célebre.

Fui dar ao episódio “The Young Indiana Jones Chronicles - Journey of Radiance” de 1hora e 35 minutos disponível no Youtube e que deixo aqui


4.3) Leite e Caldo de carne

Existem plantas venenosas em que a ingestão de uma pequena quantidade pode causar grande mal-estar ou mesmo a morte. Distinguir as comestíveis das venenosas foi uma tarefa difícil e arriscada, ainda hoje ocorrem desastres quando se confundem cogumelos selvagens, foi uma das áreas de conhecimento em que foi mais útil a transmissão de informação entre os seres humanos.

Não conheço nenhuma proibição de indole religiosa em relação à ingestão de qualquer planta específica (os jejuns são indiscriminados) mas existem proibições de porco para muçulmanos e judeus, abstenção de sangue e produtos derivados para muçulmanos (através das técnicas prescritas para matar os animais) e de vaca para os hindus.

As proibições dos muçulmanos parecem sensatas para a região e época em que foram estabelecidas.

Também existiam razões para a proibição hindu do consumo de carne de vaca, uma delas era que as vacas podiam fornecer leite para consumo humano. Ora o Gandi, ao tomar conhecimento do tratamento que davam às vacas leiteiras achou por bem prescindir do leite da vaca e fez um voto de abstinência de leite de vaca e de ovelha. Entretanto adoeceu (o que é frequente na autobiografia) e embora lhe tenham lido textos sagrados que diziam que em caso de doença grave se devia abrir uma excepção à renúncia de leite, ele só muito tarde condescendeu em beber leite de cabra, que não estava no voto embora o Gandi considerasse que o estava a quebrar.

Doutra vez em que a mulher foi sujeita a uma operação e o médico considerou essencial para a recuperação a ingestão de caldo de carne o Gandi, ouvida a mulher, optou por levá-la para casa pois o médico recusou-se a tê-la no hospital sem a possibilidade de lhe dar caldo de carne. O único ponto positivo neste comportamento que me parece infantil é que faziam os testes neles próprios relatando os resultados a outras pessoas.

Mas tudo isto me parece muito disparatado. Descobrir uma alimentação saudável e descobrir quais os tratamentos mais eficazes para evitar e combater as doenças requer a cooperação de multidões de pessoas que dedicam toda a sua vida a estudar, aplicar e testar de forma sistemática uma multiplicidade de informações e de processos. E mesmo assim, dada a complexidade dos problemas, muitos dos comportamentos e processos que pareceram promissores vêm a revelar-se menos bons passados uns anos e vice-versa. Tentar descobrir processos que se possam aplicar à generalidade da população a partir de esperiências feitas no próprio corpo parece-me praticamente inútil.

E envolver a religião nestes assuntos parece-me contraproducente. Nutrição e Medicina devem ser deixados ao método científico de elaboração de hipóteses e teorias e sua verificação com possibilidade de as rever sempre que surjam factos novos que as infirmem.

4.4) Binóculo ao mar

Existe ainda a descrição de uma discussão tão continuada sobre a necessidade de levar uma vida simples que o Gandi acabou por convencer numa viagem de barco um dono de um binóculo a atirá-lo literalmente pela borda fora para não ter de o ouvir mais. Um binóculo poderá ser inútil para alguns donos, eu próprio tenho um que tem tido pouco uso, mas parece-me profundamente errado deitar fora um instrumento precioso e potencialmente muito útil. Será porque os camponeses indianos não precisam de binóculos e portanto não é razoável ou justo ter um binóculo? Parece uma rejeição de tudo o que vem do mundo industrializado o que é também completamente errado.


Até o Tintin foi uma vez salvo por causa duns binóculos!


2019-12-04

Medronheiro nos Olivais Sul


"Pelo fruto se vê a árvore", diz na Bíblia, conselho adequado para os espíritos mais práticos, focados na contribuição alimentar de cada espécie vegetal. Nestes tempos, em que os citadinos encontram os seus alimentos na maior parte das vezes nas prateleiras dos supermercados, as árvores nas cidades têm um papel mais decorativo e de fixação do carbono a partir do anidrido carbónico existente na atmosfera. Nos Olivais existem muitas árvores, como os leitores deste blogue têm tido oportunidade de conhecer.

Desta vez reparei num Medronheiro, geralmente um arbusto mas que se pode desenvolver até ficar uma árvore como foi o caso deste, localizado na Quinta do Contador-Mor, encostado à grade da rua Cidade de Lobito.




mostrando a seguir uma parte da imagem anterior em que se vêem melhor os frutos, inicialmente amarelos e vermelhos quando maduros




Dizia na Wikipédia que os frutos aparecem no Outono, estação onde se situa o dia 1/Dez/2019, data em que estas imagens foram obtidas.

Dizia ainda que coexistem na mesma época os frutos e as flores que vão dar origem aos frutos do ano seguinte. Andei à procura das flores e descobri alguns conjuntos de cor branca que parecem uns recipientes com a boca para baixo



Talvez se veja um pouco melhor na ampliação da mesma foto que mostro a seguir


mas para ver bem a forma das flores pode vê-las aqui, onde tem esta imagem do David Perez:







2019-12-02

Precipitação de água em Portugal



De vez em quando leio artigos sobre os problemas com a seca e embora reconheça que existem problemas de abastecimento da água em Portugal, sinto desconforto na forma como o tema é apresentado nos jornais.

O clima de Portugal, na parte continental, apresenta grandes diferenças entre o Norte e o Sul, em que existe muito mais precipitação no Norte do que no Sul, grandes variações na precipitação entre as estações do ano, com muito pouca precipitação durante o Verão e também variações apreciáveis na quantidade de precipitação anual.

Contudo o nosso país, com a sua frente atlântica donde vêm ventos húmidos e conjuntos montanhosos com altitude adequada e frequentemente correndo paralelamente à costa, propiciam precipitações apreciáveis para os valores típicos do continente europeu.

Por exemplo a pluviosidade de Lisboa é semelhante à de Londres e à de Bruxelas, com a diferença de que enquanto nos meses de Verão quase não chove em Lisboa, nas outras duas cidades a precipitação disrtribui-se de forma mais homogénea pelos 12 meses.

Como consequência nalgumas actividades, tais como na gestão da água das albufeiras, usa-se o conceito de “Ano hidrológico” que coincide grosso modo com o ano lectivo, começando em Outubro, quando aparecem tipicamente as primeiras chuvas e terminando em Setembro, quando será espectável que os níveis das albufeiras estejam no seu valor mais baixo do ano.

É normalmente neste fim de ano hidrológico que se fala do nível baixo das albufeiras e das desgraças que nos espreitam se não vier a chuva.

Esta característica do nosso país de, à medida que se vai para o Norte, se ver um país cada vez mais verde, leva-nos a pensar que países mais para o Norte da Europa terão maiores precipitações, mesmo sabendo que a precipitação não depende geralmente da latitude.

O facto do nosso país receber mais turistas no Verão poderá também levar esses visitantes a pensar que vivemos num país cheio de sol quando a realidade é que, além de termos muito sol, temos também muita chuva.

Para ilustrar estas afirmações fui verificar o valor da precipitação por país neste sítio a que o Google me conduziu buscando (yearly precipitation by country), tendo registado os valores de alguns países em tabela que apresento no fim deste post.

Antigamente referia-se que tinha chovido num dado dia 4mm. Isto queria dizer que se tivéssemos uma superfície plana exposta à chuva e donde não saísse a água da chuva, nem por infiltração no terreno, nem por escorrência para superfícies adjacentes mais baixas nem por evaporação e não recebesse água de zonas adjacentes, a altura da água no fim do dia seria 4mm. Numa superficie com a área de 1 m2 o volume de água sobre essa área dessa superfície seria 4 litros, donde a referência actualmente mais frequente a 4 l/ m2.

A água que cai numa área de 1 km2 é 1 milhão de vezes maior do que a que cai num m2 pelo que me pareceu melhor usar o m3 como medida da água que cai em cada km2 do país em questão.

Para avaliar a situação de cada país pareceu-me razoável dividir os m3 de água pelos km2 de superfície de cada país pelo número de habitantes por km2 desse país (valor da densidade populacional obtido na Wikipédia) obtendo assim o valor anual da precipitação de água por habitante expresso em m3.



Dos países seleccionados constata-se que o valor mais elevado com 7625 m3 por habitante é o de Portugal.  Claro que existem todos os factores que referi acima que condicionam o número obtido mas é neste sentido que eu costumo dizer que os portugueses não têm motivo para se queixarem da falta de água do nosso país, se ela falta é porque não está a ser bem gerida pois cai do céu com fartura.

Abordei a falta de água no Algarve neste post.


Fui buscar à Wikipédia esta animação interessantíssima sobre a chuva nos vários meses do ano (https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/MeanMonthlyP.gif ) onde por exemplo se vê a secura do Verão na península ibérica