2014-12-04

Sancionar e sanções


Num livro sobre o Judaísmo que li recentemente dizia a certa altura que a Bíblia sancionava qualquer coisa que, eu sabia ser uma aprovação. Pensei que seria uma tradução literal do inglês pois em português associava a palavra a reprovação.

Mas fiquei a remoer o tema e foi-se tornando cada vez mais evidente que em português "sancionar" tanto pode significar aprovação como aplicação de uma penalidade.

Revoltei-me então contra os juristas por usarem uma palavra como antónimo de si mesma.

Na internet descobri o termo "contronym" que se traduz facilmente para português como "contrónimo", referido aqui e também na wikipedia.

E tomei nota da citação do ciberdúvidas: «The word contronym (also antagonym) is used to refer to words that, by some freak of language evolution, are their own antonyms. Both contronym and antagonym are neologisms; however, there is no alternative term that is more established in the English language»

Acho graça à expressão "freak of language evolution", no entanto acho estranho que em inglês, em francês, em espanhol e em português esta ambiguidade exista.

Por exemplo em relação a "esquisito", conforme referi neste post com um lindo vestido vermelho a desanimadora evolução do significado de "esquisito" na língua portuguesa não foi acompanhada de evolução semelhante nas línguas de países próximos.

Entretanto fiz uma conjectura que me satisfez, o significado inicial de sancionar seria exclusivamente de aprovação.

O que se passou foi que a autoridade “usava mais o pau do que a cenoura”. Embora por vezes aprovasse uma lei ou uma regra que devia ser seguida pelos súbditos, a maior parte das vezes sancionava a aplicação de penalidades, castigos, etc. A coisa foi de tal ordem que embora a palavra tenha mantido o uso erudito de aprovação, o significado que agora predomina é o de aplicação de penalidades. E nesse aspecto estamos em pé de igualdade com vários países ocidentais. É interessante constatar essa evolução semântica em paralelo de vários países.

Mesmo sem internet os juristas de diferentes países lá foram comunicando. Mas é uma situação infeliz, os juristas deveriam ter lutado mais contra esta evolução semântica.


Ao pensar numa imagem para acompanhar este texto encontrei esta “La reproduction interdite”, pintada por Magritte em 1937.

Se considerarmos que um antónimo é uma espécie de reflexo num espelho da palavra original, quando o antónimo é o mesmo do original obtemos uma imagem como esta acima.

Curiosamente o livro reflecte bem, só o homem é que é problemático.

3 comentários:

Vítor Santos Lindegaard disse...

Bom texto com uma bonita imagem, como sempre. Aprendi contrónimo e antagónimo – embora tenha pensado sobre a questão e a tenha discutido algumas vezes, não conhecia as palavras.
É capaz de haver qualquer coisa na noção de emprestar que faça com que ela se preste a ser referida por contrónimos. Além de empréstimo poder ser ambíguo em todas as variantes do português, no português de Moçambique emprestar significa tanto “emprestar” como “pedir/tomar/levar emprestado”. Não sei se há neste uso alguma influência das línguas locais, mas não me surpreende nada que nalguma língua banta a palavra que traduz emprestar possa referir as duas direções possíveis do empréstimo. É o que acontece em dinamarquês, com låne, por exemplo. É curioso também que, tanto em francês como em dinamarquês, ensinar e aprender se possam dizer, e se digam na maior parte dos casos, com o mesmo termo, apprendre e lære. Alugar também é ambíguo em várias línguas. Na realidade, porém, as palavras significam pouco por si próprias e o seu significado é produzido pelas relações com os outros elementos da frase e da situação em que esta é enunciada, de maneira que só muito raramente há ambiguidade. Quando, por qualquer razão, a ambiguidade é ou pode ser frequente, a língua (não alguém que fale a língua, mas o próprio sistema) resolve o caso eliminando um termo ou um dos seus significados. Para dar um exemplo simples, a gente deixou, em muitos contextos, de poder ser entendido como “as pessoas”, significando exclusivamente “nós”. Agora, nisso dou-lhe toda a razão, como ocorre num registo muito especial da língua escrita, a ambiguidade de sanção e sancionar na linguagem jurídica deve – e pode, creio eu –, ser eliminada por vontade de quem usa esse registo.
Que esquisito se tenha tornado “estranho” em português é um pouco… esquisito. O português tem mais algumas dessas originalidades um pouco esquisitas. Por exemplo, ocorre-me ordinário, que significa, em princípio, “comum”, tal como vulgar, mas, nas outras línguas que conheço, foi vulgar e não ordinário que ganhou o sentido de “grosseiro, mal-educado”.
Para terminar: antónimo também é uma palavra relativamente ambígua, porque define relações muito diferentes entre palavras: por exemplo, o estado de morto é a única alternativa possível ao estado de vivo, mas uma coisa que não está quente não tem forçosamente de estar fria – embora estar quente implique que não está frio com toda a certeza. Afloro a questão neste texto.

jj.amarante disse...

Interessante o seu comentário. Com a sua observação sobre o contexto já concluí que os proprietários podem dizer "aluguei o meu apartamento..." enquanto os arrendatários dirão "aluguei um apartamento...". quando alguém diz "aluguei um carro" é esmagadoramente provável que seja um cliente de uma companhia de aluguer de carros, etc.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Exato. Veja o contraste entre, por exemplo, "o meu apartamento está alugado" e "o meu apartamento é alugado". Creio (sem ter a certeza absoluta) que cada uma das frases só se pode entender de uma maneira.