2012-01-27

As maravilhosas paisagens inglesas

Ao passar por este artigo na BBC World, promoção turística feita com bom gosto, mostrando aos visitantes estrangeiros as riquezas paisagísticas que terão a oportunidade de ver em Inglaterra, se lá se deslocarem por ocasião dos Jogos Olímpicos de 2012, não resisti a trazer para aqui esta paisagem inglesa maravilhosa:


O artigo faz parte de uma série escrita por estrangeiros sobre as maravilhas de Inglaterra, intitulado neste caso como um hino às árvores e aos pássaros, temas também caros a este blogue que tem falado mais de árvores mas onde têm aparecido pássaros, designadamente nas versões estilizadas por Charley Harper nos dois últimos posts e ainda em mais três posts a que cheguei colocando a palavra pássaro na caixa de busca do blogue no canto superior esquerdo, ou então indo para aquiaqui, ou aqui.

Mas o meu embasbacamento com a descoberta que os jardins ingleses resultam duma intervenção humana leva-me sempre a suspeitar de alguma intervenção sempre que vejo alguma paisagem de grande beleza, como a deste campo na propriedade de Stourhead, onde foram filmadas cenas do Barry Lyndon, no Wiltshire, a uns 40 minutos de Bath.

No artigo refere que o “English Countryside” é mais “genuinamente inglês” do que a cidade de Londres. Discordo sempre da pretensa genuinidade do campo em relação à cidade, ainda mais neste caso em que não estamos a ver “campo” nenhum mas um jardim de enormes proporções, construído no início do século XVIII, em que o lago foi obtido através da construção de uma pequena barragem (enfim é um pequeno pecado de perturbação da natureza em vez de ser um grande pecado) e retirando alguma terra de fins agrícolas.

Tudo isto foi tornado possível com a riqueza  obtida na mais antiga casa bancária inglesa, a C. Hoare & Co, única que não foi absorvida pelos grandes bancos actuais. Sem a actividade bancária londrina esta bela paisagem não teria sido construída. Pelo menos neste caso a actividade bancária deixou-nos alguma coisa que vale a pena.

2012-01-24

Charley Harper (1922-2007)

Depois do último post andei à procura de mais alguma informação sobre Charley Harper. No começo encontrei a simpática imagem aqui à direita neste sítio em que presumo que colocaram o artista numa das suas obras.

Depois fui ver a tradução de “Warbler”, o nome do pássaro que aparece na imagem e o Google dizia que era “Rouxinol”. Achei estranho porque sabia que em inglês o rouxinol se chama nightingale. Fui ver a tradução de warbler para francês e deu-me Fauvette, quando rouxinol em francês se diz rossignol. Entretanto aprendi que o rouxinol só existia no velho mundo, os existentes na América foram para lá levados da Europa, Ásia ou África.

Depois fui-me apercebendo que, à semelhança das plantas, também nas designações vernáculas dos animais existem imensas ambiguidades, uma das justificações para as designações em latim, onde há esforços sistemáticos (enfim, tanto quanto possível) para uma taxinomia consistente.

Fiquei sem saber como se traduz Warbler em português, não me parece que faça sentido ser Rouxinol, mas há uma data de pequenos pássaros na América cobertos por esta designação.

Mostro a seguir a imagem original do Warbler


Do texto da Wikipédia sobre Charley Harper destaco esta frase dele: “…and herein lies the lure of painting: In a world of chaos, the picture is one small rectangle in which the artist can create an ordered universe.”










Nesta lindíssima “Octoberama (wood duck)” que mostro aqui à direita podemos ver uma floresta em tons outonais que se reflecte nas águas calmas de um lago, onde desliza o “Wood Duck” que em Português se parece traduzir por Pato-carolino, um pato com uma plumagem vistosa originário da América e que existe no Velho Mundo através de importações.










Dada a pequena dimensão da figura do pato nesta imagem fui buscar, mais uma vez à Wikipédia, uma fotografia do pato em questão, que dizem partilhar genes com o pato mandarim da Ásia


Depois vi ainda este desenho de Charley Harper, de outro pato ao Luar, que considero extraordinário como representação estilizada de reflexos


e também gostei muito do que me parece ser um bordado (ou uma matriz para bordado) baseado na imagem anterior



Para finalizar deixo uma cotovia, (Meadowlark), que se integra bem sobre o fundo negro deste blogue.

2012-01-20

Charley Harper

Em Maio/2011 vi esta imagem no blog "duas ou três coisas"



mas a pergunta que fiz na caixa dos comentários sobre o respectivo autor ficou sem resposta.

Hoje, a propósito de desenhos estilizados de pássaros, fiquei a conhecer o nome do autor que é o título deste post. Depois, por curiosidade, coloquei o ficheiro da imagem no Google Images que me mostrou logo muitos sítios da internet em que aparecia o nome do autor.

Não tenho tido grande sucesso na identificação de flores com o Google images, mas para este tipo de imagens parece dar muito bons resultados.

São diferentes mas a estilização faz-me pensar na Maluda.

Deixo a seguir outra imagem, "Red and Fed" ou "Cardinal on Corn", que fui buscar aqui à indispensável Wikipédia!

2012-01-18

Economia, Moral e Política



É o título dum pequeno livro com 106 páginas, escrito por Vítor Bento, da colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se torna simpática pela dimensão pequena das obras publicadas.

Será difícil tratar alguns temas em obras desta dimensão mas o seu tamanho reduzido poderá ajudar os autores a manter o texto conciso.

Ouvi Vítor Bento pela primeira vez como comentador do jornal das 22:00 da RTP2, em que se destacava pela palavra sensata, pela explicação clara e pela análise fria do que ia acontecendo.

Este pequeno livro mantém essas qualidades que me fizeram apreciar os seus comentários, constitui uma introdução às relações existentes entre a Economia, a Moral e a Política e dá algumas explicações sobre as causas da crise que atravessamos.

É bom ler na página 52 que uma boa parte da crise se deve à falta de ligação entre a Macro e a Microeconomia, em que a tomada de milhares de decisões inteiramente racionais pelos agentes individuais, por exemplo na compra de habitação própria, pelo seu volume criou uma situação que altera o contexto em que a decisão foi tomada. Os mercados não deram sinais económicos a tempo e horas que levassem a uma moderação na contratação desses empréstimos. Quando os sinais (aumento da taxa de juro, dificuldade na obtenção de empréstimo) apareceram, já era demasiado tarde.

Na página 55 surge uma crítica à auto-regulação do sector financeiro que mostrou ser ineficaz quando se tentou substituir ao Estado na ligação entre a micro e a macroeconomia. É evidente que o Estado tem problemas e que existem interesses que o tentam controlar e/ou influenciar. Mas é, na melhor das hipóteses, de uma grande ingenuidade pensar que os mercados se podem auto-regular e que essa auto-regulação conseguirá escapar às pressões dos interesses que tentavam controlar o Estado.

Na página 95 existe ainda uma crítica ao comportamento de horda dos licenciados das Universidades americanas de maior renome que, ao seguirem um pensamento único, criam grande instabilidade ao acabarem com a diversidade que é precisamente a força do mercado.

Eu tinha feito umas considerações com afinidades às da página 95 aqui.

2012-01-15

Energia e Política

No meio de tanto disparate publicado é consolador ler a entrevista de uma pessoa sensata que conhece bem os temas de que está a falar. É o caso deste artigo do jornal Público que em boa hora entrevistou António Costa Silva.

Entre outras afirmações diz estar “extremamente preocupado com os sinais que vêm, relativamente ao cluster das energias renováveis”, referindo-se a Portugal.

Refere a situação das centrais nucleares japonesas que, após o terramoto e tsunami de Março de 2011, em que das 54 existentes, mais de 40 estão fora de serviço. Esta  situação tem perturbado o mercado de gás natural liquefeito ao aumentar bruscamente a procura desta fonte de energia.

Na entrevista são focados os desenvolvimentos políticos no Médio Oriente, a Primavera no mundo árabe, a rivalidade ancestral entre Arábia e Irão, entre sunitas e xiitas, e os conflitos na Síria e no Bahrain também como expressão desta rivalidade

Transcrevo ainda mais uma frase:
«
Quem conhece a história da energia sabe perfeitamente que nenhuma se impôs sem um período inicial de tarifas de apoio para que adquira dimensão e depois siga para o mercado. Para mim, é um erro trágico se o país agora destruir o cluster das energias renováveis. Porque as energias renováveis baseiam-se em recursos endógenos que o país tem, mais uma vez é parte desta luta de olhar para os nossos recursos e criar condições para os produzir.
»

A propósito desta frase aponto este post de Maio/2011 de Gary Becker, prémio nobel da Economia de 1992 e professor da Universidade de Chicago, onde ele discute a supressão das isenções fiscais que continuam a existir como suporte da indústria petrolífera norte-americana!

Um outro professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, Eric Posner, que participa no blog acima referido escreveu sobre o mesmo assunto, neste post, o seguinte:

«
The American political system is not that democratic, or at least not that populist. The fact that tax subsidies tend to be targeted on particular activities means that a proposal to eliminate a tax subsidy catalyzes interest-group opposition, often formidable since if the interest group were weak, the tax subsidy would not have been legislated in the first place. Tax subsidies are eliminated from time to time, and it would be interesting to speculate on the conditions that make that possible, but I will not attempt that here.
»

Mesmo agora, em que se discute se o pico de produção petrolífera já passou, sendo portanto esta uma indústria completamente madura, ainda goza de isenções fiscais nos E.U.A!

Regressando à referência no início deste post à indisponibilidade de 40 das 54 centrais nucleares do Japão, 10 meses passados sobre o terramoto e tsunami de Março/2011, duvidei da plausibilidade de um número tão grande de centrais estar indisponível.

Assim ontem à noite andei a fazer umas pesquisas na net e, embora não tenha tido tempo para ler os documentos que aqui refiro, todos do IEEJ (The Institute of Energy Economics, Japan), uma informação portanto credível e que não foi submetida às distorções de jornalistas que muitas vezes não sabem do que estão a falar, constatei no documento “Analysis of Electricity Supply and Demand through FY2012 Regarding Restart of Nuclear Power Plants”de Junho/2011 que nessa altura estavam 35 centrais fora de serviço e que nas Figuras 2-1 e 2-2 da página 5 havia um cenário em que as centrais nucleares, em vez de regressarem ao serviço com o passar do tempo, iam ficando cada vez mais indisponíveis.

Não li o documento todo pelo que fiz apenas a conjectura que à medida que retiram as centrais de serviço para fazer as inspecções vão descobrindo problemas atrás de problemas que os levam a atrasar a reentrada em serviço das centrais em revisão.

No documento de Novembro de 2011 (Japan Energy Brief) confirma-se que a situação da disponibilidade do parque nuclear piorou em relação a Jun/2011 pois apenas 11 centrais estavam então em funcionamento. Dado o texto logo na primeira página que transcrevo:

«
All nuclear power plants to stop by summer 2012

Of 54 nuclear power plants installed in Japan, only 11 are operating as of late November. Without resumption of nuclear plants after regular inspection, there will be a mere 6 reactors operating in January, and most likely will be none in summer 2012. As nuclear power is used to supply a quarter of Japan’s electricity demand, a complete loss of these units will inevitably have a serious impact on electricity supply nationwide. Nevertheless, Junichi Ogasawara, Electricity Group Leader at the Institute of Energy Economics, Japan (IEEJ), advises that the prospect of restarting nuclear plants by next summer is dim.
»

considero confirmado que realmente menos de 40 das 54 centrais nucleares do Japão se encontram operacionais.

Surpreende-me que aqui na Europa, muitas pessoas no sector eléctrico, preocupadas com as crises das dívidas europeias, tenham uma percepção tão distante da grande crise energética por que está a passar o Japão.

Termino o post com imagem dum cartão de Ano Novo enviado por um colega da TEPCO, a companhia proprietária da central de Fukushima que está na iminência de falir. Falou-me das grandes dificuldades do ano de 2011 mas não me tinha apercebido de que estavam tão longe de regressar a uma situação energética parecida à anterior ao terramoto de Março de 2011.

A parte colorida com desenhos é feita com seda pintada, colocada sobre cartão azul


Na parte de trás do postal cortei na foto um bocado do cartão azul

2012-01-11

Finalmente os patins a motor!

No álbum "Coke en Stock", começado a publicar em episódios em Outubro de 1956 e em álbum em 1958, álbum esse criticado pela revista "Jeune Afrique" em Janeiro de 1962, por ter os negros a falar em "petit nègre", o que levou o autor Hergé a, por exemplo, substitutir "Missié" na edição de 1958 por "M'sieur" na de 1967, melhorando também a gramática (estes detalhes vêm em "Tintin, Le rêve et la réalité de Michael Farr, éditions moulinsart, 2001), no álbum "Coke en Stock" dizia eu antes de me ter perdido em divagações, o autor do Tintin mostra a componente "visionária" na sua obra com esta magnífica invenção do professor Tournesol, de patins a motor:


Acabo de ver na site da BBC que esta previsão foi finalmente realizada, infelizmente demorou bastante mais tempo do que a viagem até à Lua, uma missão aparentemente mais difícil. Os patins são movidos a electricidade, o que resolve à partida os problemas de poluição que seriam graves em espaços fechados.

Mas o melhor é verem o filme que está aqui.

Para mais invenções do professor Tournesol poderá ver uma lista aqui.

2012-01-09

Martha Nussbaum: você é contra as Nannies?


Neste fim-de-semana visitei uma pessoa de idade que está a perder a memória, precisando de cada vez maior apoio.

Lembrou-me este interessante vídeo que recebi num e-mail, em que a Martha Nussbaum fala sobre as limitações do “Contrato Social” quando o tentamos aplicar a pessoas com limitações físicas ou mentais.

Ela diz que o problema das pessoas dependentes foi por assim dizer varrido para debaixo do tapete, pensando-se que estes seriam casos especiais, constituindo um pequeno problema que poderia ser tratado à parte...

Ela pensa que este não é um problema pequeno, há muita gente com limitações físicas e mentais importantes mas não é só isso, todos nós temos essas limitações na infância e na velhice.

Nenhuma sociedade pode ignorar a existência de membros não totalmente autónomos, eles não são uma excepção, são parte integrante da sociedade.

2012-01-05

Quase-cristais e os mosaicos persas Girih

Nesta altura em que se adensam as nuvens sobre o Irão e vai aumentando a probabilidade de uma intervenção militar americana ou israelita, ao passar pelo site da BBC World deparei com esta notícia que dava conta de terem descoberto quase-cristais numa zona da Rússia, pensando-se que eram materiais vindos do espaço em meteoritos.

Gostei muito da imagem do artigo e fui tentar localizar um sítio onde tivesse uma versão maior da imagem do quase-cristal no Google Images. Acabei por achar esta


num sítio que me parece ser da Indonésia, com uma referência à Eric J. Heller Gallery, em cujo site não consegui entrar, talvez estivesse fora-de-serviço.

Desse sítio guardei ainda estas lindas difracções de quase-cristais decagonais


e outra imagem maravilhosa de mosaicos islâmicos do Irão,


que fora retirada daqui, com a legenda dizendo que se trata dum pórtico do santuário de Darb-i Iman (que já tinha referido neste post) com dois padrões sobrepostos de mosaicos Girih (Archway from the Darb-i Imam shrine with two overlapping girih patterns. (Courtesy: Science)). Este santuário está na cidade de Isfahan mas infelizmente não o visitei quando passei por lá.

Em Abril de 1982 Daniel Shechtman produziu quase-cristais num laboratório em Washington mas foi ridicularizado e incompreendido durante bastante tempo. Em 2011 ganhou o prémio Nobel da Química por essa descoberta. Os cientistas são seres humanos e nem sempre têm a mente tão aberta às novidades como pareceria desejável.

Os arranjos geométricos dos quase-cristais e a forma de preencher o plano com estruturas quase-periódicas tinham sido estudadas pelo matemático e físico inglês Roger Penrose nos anos 70 do século XX, para uma introdução pode ler este artigo da Wikipédia. Confesso que quando tomei conhecimento destas possibilidades de preencher o plano, através dum artigo na revista do Scientific American, pensei em decorar uma das paredes da minha casa com um padrão destes mas nunca cheguei a concretizar.

Quando começou a ser evidente que a matéria se podia organizar em quase-cristais deu-se uma daquelas situações em que um conjunto de técnicas matemáticas que pareciam quase apenas passatempos ociosos encontrou uma aplicação prática ao explicar a estrutura dos quase-cristais

Entretanto agora, ao ver a referência aos mosaicos Girih, constatei que os matemáticos do Irão preencheram o plano com estruturas quase-cristalinas cerca de 500 anos antes de Roger Penrose as ter “redescoberto” no Ocidente. Fui ver também o artigo da Wikipédia sobre mosaicos Girih onde encontrei referência ao tecto do túmulo do poeta Hafez em Shiraz que eu tinha referido num post recente e que volto a mostrar a seguir: