2012-10-10

O pior governo

Os eleitores Portugueses já deixaram de ler de forma exaustiva os programas eleitorais dos partidos, dado o seu comprimento excessivo e sobretudo a prática generalizada que os partidos têm de não os cumprir quando chegam ao poder, alegando que encontraram uma situação muito diferente da que pensavam que existia quando estavam na oposição ou que a situação internacional (que nunca condicionava a actuação do governo anterior, único responsável por todos os males que nos afligiam) tinha entretanto mudado para muito pior.

O PSD de Passos Coelho foi muito crítico dos aumentos de impostos do governo Sócrates, sendo particularmente escandaloso o contraste entre o programa eleitoral do partido, de que a Fernanda Câncio seleccionou aqui algumas partes e a sua prática quando no governo.

Não me consigo esquecer que o candidato Passos Coelho disse a uma muito jovem aluna de uma escola que podia ficar descansada que não iria tirar subsídio de férias a ninguém.

Depois foi o que se viu, a ponto de eu ter actualmente as maiores dúvidas que o governo de Portugal tenha legitimidade democrática dado o afastamento abissal, que eu não me recordo de ter visto com esta dimensão, entre o que prometeram antes das eleições e o que fizeram depois. O André Freire diz a propósito “O segundo round da subalternização da democracia e da Constituição pelo menos no sentido da Constituição material ocorreu quando o novo Governo após as legislativas de 2011 desatou a violar vários dos seus compromissos fundamentais com os eleitores” aqui.

E não me consigo esquecer das trapalhadas para justificar a manutenção dos subsídios aos consultores ou assessores contratados pelo governo, alegando por um lado que tinham ganho esse direito em 2011, como se os funcionários públicos não o tivessem ganho no mesmo ano e depois alegando que não tinham um vínculo à função pública, como se não representassem na mesma uma despesa do Estado.

Choca-me que tenham modelos econométricos que prevejam tanta coisa mas que se mostraram incapazes de prever quando poderiam voltar a pagar os subsídios.

E choca-me a atitude de “capitalismo científico”, imagem reflectida do socialismo científico de má memória. Os comunistas faziam umas previsões, tudo falhava mas era sempre porque algum inimigo do povo sabotava e nunca por problemas da teoria marxista. Agora temos os modelos económicos que falham nas suas previsões mas de cujas falhas não se tira qualquer consequência, deixando os iluminados imunes a qualquer crítica pois são os detentores da verdade. O ministro Vítor Gaspar é no mínimo um desses iluminados e as receitas que aplicou estão a falhar: o desemprego aumentou de forma que alegadamente surpreendeu os iluminados e a meta do défice não vai ser cumprida.

Depois desta diatribe direi ainda que é possível que existam algumas justificações razoáveis para algumas das medidas tomadas pelo governo. Mas as evidências a que tenho acesso como cidadão anónimo convencem-me que o governo mente deliberadamente em muitos temas, tem falta de respeito por pensionistas e funcionários públicos, favorece amigos, é temeroso dos detentores do capital e aprova medidas de flagelação dos trabalhadores (supressão dos feriados) sem impacto económico que não seja cair nas boas graças dos “mercados”.

Não me lembro de ter tido tão pouca confiança nos membros de um governo como neste que, parafraseando uma classificação usada pela direita contra o governo de Sócrates, me parece ser o pior governo que Portugal teve desde a revolução de 25/Abril/1974.


2 comentários:

DL disse...

Sem dúvida. Eu acrescentaria que este governo não só mentiu para se fazer eleger como tem um programa não escrito de desmantelamento de serviços públicos para criar "oportunidades de negócio" para as suas clientelas. Dentro de anos a saúde e a educação de qualidade serão só para uma minoria que as possa pagar, e veremos que empresas terão a fatia de leão nesses mercados tão apetecidos pelos privados.

DL disse...

Novo dado recente preocupante, membros deste governo têm um histórico de favorecimento de empresas de amigos em negócios (caso Tecnoforma, segundo notícia do Público).