2008-07-31

Arroz

Há 3 posts atrás estava a mostrar uma imagem dum mercado tailandês de vegetais e depois divaguei para outros temas mas gostava de não deixar a Tailândia já.

Estou incluído numas listas de e-mails de amigos que me enviam um número talvez excessivo de power-points com fotografias de sítios, obras de arte, fotos insólitas, etc. No meio dessas imagens todas esta destacou-se :



Tratam-se de arrozais provavelmente na China, embora pudessem ser das Filipinas, da Indonésia ou do Sudeste asiático. À primeira vista parece um quadro não figurativo ou um vitral...

A China e a Índia são os maiores produtores mundiais de arroz mas a Tailândia é o maior exportador.

Na Europa produz-se pouco arroz, na União Europeia apenas a Itália, a Espanha, a Grécia, Portugal e a França tinham produções significativas em 2002.

Portugal tem, de longe, o maior consumo per capita de arroz da Europa, em 1999 era de 16 kg enquanto os outros países europeus com consumo significativo (Espanha, Itália e Grécia) se ficavam por ligeiramente menos do que a metade desse valor.

Engraçado como os hábitos alimentares podem variar tanto de país para país, mesmo quando são vizinhos e quando a globalização tornou tudo aparentemente tão parecido. Quando vou ao estrangeiro gosto de visitar um ou outro supermercado para ver o perfil de consumo do país e o tipo de produtos mais frequente. Em Inglaterra, por exemplo, não existe uma “zona” para o arroz, como existe sempre nos supermercados portugueses. Ao pé da massa, essa com muitas variedades, estão uns 4 ou 5 pacotes de arroz, normalmente de variedades exóticas de arroz perfumado.

2008-07-28

Narcisismo



Para obter uma imagem deste quadro do pintor inglês pré-rafaelita John William Waterhouse, com o título Echo and Narcissus (Eco e Narciso), bastou-me ir ao Google Images e escrever pre-raphaelite e Narcissus.

Fiquei também a saber o nome do autor e dei uma vista de olhos pelos entrada “Pré-Rafaelitas” na Wikipédia para refrescar as ideias sobre este movimento artístico que se desenvolveu na Inglaterra na 2ª metade do século XIX. Sou um grande fã do Google e da Wikipédia e acho que a maior parte dos ataques que ocasionalmente lhes fazem têm pouco fundamento.

O mito de Eco e Narciso também é facilmente acessível na Internet mas a parte que aqui me interessa é a relativa ao Narciso, pessoa intratável que se apaixonou por ele próprio e que é aqui representado olhando para a sua imagem reflectida no lago e ignorando tudo o resto à sua volta.

Depois deste elogio que o Lutz fez a este blogue, fiquei com receio de ter um ataque de narcisismo e coloquei aqui esta imagem para me lembrar do perigo.

Aproveito para agradecer as referências simpáticas que outros blogues têm feito a este, nomeadamente o Blogo Existo, o 2 dedos de conversa e o Womenage à Trois.

2008-07-24

Preconceito - 2

A tailandesa sentada do post "Preconceito" fez-me lembrar esta imagem de um polícia, também sentado mas em meditação, alegadamente para combater o stress que lhe provoca tanta ameaça terrorista.



Então uma pessoa pensa: porque será que me surpreende tanto ver um polícia a fazer meditação?

Na realidade trata-se de uma "performance" idealizada pelo artista suíço Gianni Motti e que foi executada na 2007 Frieze Art Fair em Londres onde a concentração para o interior, de um profissional que está normalmente todo focado no exterior que o rodeia, cria uma situação verdadeiramente insólita.

Há uma desadequação efectiva em fazer meditação durante as horas de serviço de uma profissão que requer grande atenção ao que se passa à volta do profissional, mas quando uma pessoa pensa que mesmo fora das horas de serviço acharia estranho que um polícia fizesse meditação, aí está a entrar no preconceito.

Evolução do analfabetismo em Portugal


Na sequência do post anterior e da comparação entre a taxas de alfabetização de Portugal e da Tailândia fui à procura da evolução da taxa de analfabetismo em Portugal e encontrei um post no blogue theca libraria com as duas primeiras colunas da tabela aqui ao lado, contendo na 1ª coluna o ano do censo de Portugal e na 2ª a taxa de analfabetismo medida nesse senso. Calculei a 3ª coluna que mostra a variação em cada década da taxa de analfabetismo em Portugal.

O post refere como fonte da tabela:

[António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, p.40; e Recenseamento da População e Habitação (Portugal) - Censos 2001 (quadro 1.03, População residente segundo o nível de ensino atingido e taxa de analfabetismo), Instituto Nacional de Estatística)]

Embora fosse interessante tecer algumas considerações sobre o significado destes números prefiro limitar-me a achar que a evolução foi muito lenta.

Usando "history of literacy" no Google, fui parar a este sítio, onde compilam de forma automática informação relevante de várias fontes, parecendo o resultado bastante interessante. Diz por exemplo que em 1710 na Nova Inglaterra a taxa de alfabetização era de 70%, valor que conseguimos atingir em Portugal em 1960, 250 anos depois!

2008-07-21

Preconceito

Da única vez que visitei a Tailândia, num “stop-over” de um fim-de-semana, no regresso de Macau, fiquei impressionado com a actividade febril de Bangkok. A Tailândia tem problemas enormes mas tem-se desenvolvido muito e pode-se orgulhar de ser o único país do Sudoeste Asiático que nunca foi colonizado pelas potências ocidentais, embora tenha tido as suas guerras e invasões com os vizinhos.

Numa visita a um mercado de frutas e legumes fiquei surpreendido quando vi esta mulher a ler um jornal, confortavelmente sentada no chão, no meio dos despojos de uma manhã de actividade.



Continuo a gostar muito desta imagem pela sensação que transmite de concentração na leitura e de alheamento do que rodeia a leitora mas continuo a achar que há também aqui um preconceito meu.

Continuo na dúvida se o que me levou a fazer a fotografia foi o preconceito que as tailandesas não liam jornais, se tinha esse preconceito em relação às vendedoras dos mercados portuguesas ou se era uma mistura dos dois.

Acho natural ter o preconceito em 1990 que as vendedoras do mercado fossem analfabetas. Em 1970 a taxa de analfabetismo em Portugal atingia uns vergonhosos 26% e em 1991 ainda era 11%, tendo naturalmente maior incidência em profissões requerendo menos habilitações.

Segundo o “United Nations Development Program Report 2007/2008” citado aqui na Wikipedia, a nossa taxa de alfabetização está agora nos 93,8% (70º em 177 países) enquanto a da Tailândia (77º) vai em 92,6%. Estamos atrás de todos os países europeus e de muitos não europeus.

Essa foi a mais pesada herança do Estado Novo, um povo com uma taxa enorme de analfabetos e a convicção da classe dominante que se se ensinasse toda a gente a ler deixaria de haver gente para trabalhar no campo e mulheres para servir!

Continuando o passeio pelos alfabetos asiáticos deixo aqui agora uma imagem do da Tailândia, uma frase do rei Rama V que aparece numa nota:

(Education in our nation is of the first importance/therefore I shall diligently improve it. /Thus remarked Rama V)

(Thai: การเล่าเรียนในบ้านเมืองเรานี้จะเป็นข้อสำคันที่หนึ่ง ซึ่งฉันจะอุตส่าห์จัดขึ้นให้เจริญจงไค้ พระราชดำรัสในรัชกาลที่ ๕).

Gosto muito destas letras tailandesas que acabam frequentemente em bolinhas. Notar a ausência de espaços em branco que dizem não ser dramático por as palavras serem a maior parte das vezes monossilábicas.

Quando eu comecei a trabalhar com computadores havia sobretudo o código EBCDIC da IBM, tendo-se depois generalizado o código ASCII (American Standard Code for Information Interchange) mas nessa altura os acentos, ou sinais diacríticos para usar uma palavra fina, eram de muito difícil acesso. Agora, com o UNICODE, até o alfabeto Tai é inserido facilmente neste texto!


2008-07-20

Caligrafia

Os últimos posts têm sido sobre a Ásia e gostava de lá continuar mas faço aqui um pequeno parêntesis porque, depois de ver vários alfabetos, me apeteceu relembrar a forma das letras que aprendi na Escola Primária e que mostro nesta imagem



Com o passar do tempo as letras manuscritas foram-se aproximando do tipo de letra que no MSOffice se chama Arial, que me parece uma variante do Helvetica e há uns anos reparei que quase me tinha esquecido da forma de algumas das letras que tinha aprendido na Primária.

Mesmo com estes exercícios de memória já não estou seguro em relação à forma do X maiúsculo.

A tecnologia que se usa para desenhar as letras influencia muito a sua forma e as letras maiúsculas com traços rectos parecem muito apropriadas para serem gravadas em mármore, como fizeram em tantos sítios os Romanos.

Já as letras que eu aprendi parecem-me mais apropriadas para canetas de tinta com aparo, em que cada letra se pode fazer sem levantar o aparo do papel, sempre no caso das minúsculas, com as excepções dos pontos nos ii e nos jj e do traço no “t”, a maior parte das vezes no caso das maiúsculas:

1 único traço: C, D, E, G, H, I, J, L, M, N, O, Q, S, U, V (15 letras)
2 traços: A, B, P, R, T, Z (6 Letras)
3 traços: F, X (2 letras)

Com a introdução das esferográficas estas letras perderam em parte a sua razão de existir, além das formas serem um pouco "românticas", mas tenho lido pouco sobre este tema que me parece interessante e o Google não foi aqui de grande ajuda.

As letras minúsculas foram desenhadas no século VIII por Alcuíno, um monge erudito que colaborou com o imperador Carlos Magno, sendo portanto muito mais recentes do que as maiúsculas. Acho que estas letras são um caso de grande sucesso pois têm sobrevivido durante centenas de anos.

Apercebo-me que as formas que aprendi não eram as únicas mas nem sei o nome do estilo caligráfico que me foi ensinado. Será que ainda ensinam estas formas nas escolas? Se algum leitor me puder indicar um link sobre este tema fico desde já agradecido.

2008-07-17

Ainda a China

Quando se vai a Macau, a Hong-Kong e depois a Cantão é difícil não pensar nas crises sucessivas pelas quais a China passou no século XX. Ao passar por estas planícies de campos de arroz verdejantes com um aspecto super fértil entre Macau e Cantão mostrados nesta imagem



recordei que enquanto a presença portuguesa em Macau foi na maior parte do tempo baseada numa autorização chinesa, a presença inglesa em Hong-Kong resultou da Guerra do Ópio (1839-1842). Os comerciantes ingleses tinham-se iniciado no narcotráfico, cultivando papoilas na colónia indiana e exportando depois o ópio para a China, onde criaram uma vasta clientela de toxicodependentes. Um mandarim de Cantão queimou uma grande quantidade de ópio existente num armazém inglês e os ingleses exigiram uma indemnização. Como esta lhes foi negada iniciaram a guerra que terminou com o primeiro do que os chineses chamam “Os Tratados Desiguais”, em que a soberania sobre a ilha de Hong-Kong foi cedida pela China à Inglaterra a título perpétuo.

Existe uma carta pungente da imperatriz chinesa para a rainha Vitória, citada no livro “A Arrogância do Poder” do senador norte-americano William Fulbright, onde a imperatriz diz que a China só exporta coisas boas e roga à soberana inglesa que faça o mesmo.

Costumo pensar nesta guerra do ópio quando me falam na solidez dos valores das gerações que nos precederam e na ausência de valores das novas gerações.

Depois da concessão territorial de Hong-Kong várias potências ocidentais, incluindo a América do Norte, obtiveram também para si concessões em vários portos da China.

O regime imperial colapsou em Outubro de 1911, tendo sido proclamada a República com Sun Yat-Sen (1866-1925) como primeiro presidente. Como nasceu em Cantão (Guangzhou) fizeram-lhe este “Memorial Hall”, entre 1929 e 1931.




A república chinesa teve um início atribulado, tendo o regime dificuldade em exercer autoridade na totalidade do território. O Japão ocupou boa parte do território chinês entre 1937 e 1945, e houve uma guerra civil entre o partido Kuomintang e o Partido Comunista de 1928 a 1949, data em que foi proclamada a República Popular da China e os partidários do Kuomintang se refugiaram em Taiwan.

Depois do estabelecimento do regime comunista em 1949 e após terem ficado algo dependentes da ajuda soviética, esta foi retirada de forma abrupta, na sequência de desentendimentos políticos, tendo ficado boa parte da indústria pesada chinesa quase paralisada por falta de peças e de know-how. Tiveram depois o “Grande Salto em Frente” instigado por Mao uma reforma que provocou alguns milhões de mortos e para rematar a Revolução Cultural de 1966-1976.

As consequências de todos estes tumultos na vida quotidiana das pessoas é contado de forma magistral por Jung Chang no livro famoso “Cisnes Selvagens”, onde descreve a vida da avó, da mãe e dela própria. Quando li o livro, de que gostei imenso, pensei que mostrava boa parte das consequências das grandes tiradas ideológicas na vida quotidiana do cidadão comum.

Entretanto, com o fim da Revolução Cultural, voltou a ser possível usar os templos budistas como mostro nesta foto de um templo de Cantão.




È curioso constatar que a religião católica tem dificuldade em ser tolerada na RPC, nomeadamente devido à nomeação dos bispos ser feita pelo papa, uma autoridade exterior à China. Julgo que o Cristianismo é considerado como uma ameaça de uma cultura diferente, como foi considerado no Japão no século XVII.

Para finalizar deixo esta imagem duma povoação, no regresso a Macau, em que me impressionou o número de chaminés no meio das casas, como já não se vê na Europa há uns tempos.


2008-07-12

A Revolução Cultural na China (1966-1976)



Quando passei pelo IST entre 1966 e 1971 aumentava em Portugal a luta entre os comunistas fiéis à União Soviética e os que alinhavam pelo comunismo chinês, reflexo da luta que se travava a nível mundial.

Embora já soubesse que não gostava da sociedade portuguesa de então, já nessa altura tinha dúvidas sobre qual a alternativa mais adequada.

É curioso constatar como as sociais-democracias nórdicas, que parecem agora tão adequadas a muita gente, eram na altura ferozmente atacadas quer pela direita salazarista, que diziam que as pessoas lá não eram felizes e que se suicidavam muito, quer pela esquerda pró-soviética ou pró-chinesa, que as classificavam como variantes sem grandes diferenças do capitalismo imperialista.

As violentas críticas do George Orwell ao regime soviético e a invasão da Checoslováquia em 1969, entre outras razões, tinham-me convencido que do país dos sovietes viriam mais problemas do que soluções.

As propostas chinesas, embora à primeira vista muito radicais, pareciam merecer um exame mais profundo pela sua própria radicalidade, pois só uma organização muito diferente do regime salazarista parecia oferecer alguma esperança de mudança.





A apreensão da realidade é uma tarefa sempre difícil, como qualquer pessoa atenta sabe em relação à sua área profissional. Muito mais difícil é saber o que verdadeiramente se passa em países com os quais existe uma guerra fria, como entre o Ocidente e quer a União Soviética quer a República Popular da China.

O facto de existir censura em Portugal dava uma credibilidade excessiva aos autores vítimas de censura pois, embora se saiba que eleger como amigos os inimigos dos nossos inimigos nos coloca muitas vezes em companhias pouco recomendáveis, existe uma espécie de crédito automático que é difícil evitar.



Após várias décadas, ao visitar a Wikipédia sobre autores que li nos anos 70 acerca da Revolução Cultural, constato que se conjectura que a economista Joan Robinson nunca ganhou o prémio nobel de economia por causa dos elogios que fez a essa revolução e que o jornalista australiano Wilfred Burchett, além dos ódios que suscitou, não ficou com a reputação de ser um observador minimamente objectivo, fazendo parte das pessoas que consideram que como é difícil fazer relatos objectivos, nem vale a pena tentar.



No entanto, ainda hoje me lembro da sentença de um tribunal chinês, durante esses períodos da revolução, que condenara um jovem que tinha atropelado um velho a ficar a viver com ele e a cuidar dele até ao seu restabelecimento completo, sentença que me pareceu muito justa, proporcionada e pragmática.

Achei interessante mostrar a capa e a contra-capa dum livro da Joan Robinson que li nessa altura.



Foram entretanto crescendo os sinais de que a Revolução, em que tantos tinham depositado esperanças, não corria muito bem.

O culto da personalidade de Mao, através daqueles bustos e retratos omnipresentes e do livrinho vermelho para substituir todos os outros foram vários aspectos de um movimento para estabelecer um pensamento único.

A recusa em reconhecer os crimes de Estaline tão pouco era tranquilizador e fui ganhando a noção cada vez mais intensa que a revolução cultural tinha sido uma tragédia.





Quando visitei Macau em 1990 já tinha um grande distanciamento em relação à Revolução Cultural. Mas por qualquer motivo, ainda me lembro do ar “as a matter-of-fact” de dois engenheiros chineses que trabalhavam na sucursal duma multinacional de produtos eléctricos em Hong-Kong, que me disseram que existia uma geração perdida na China, uma geração de analfabetos que durante o período em que deveria ter andado na escola a aprender coisas tinha andado nas manifs a celebrar o ditador Mao, a perseguir os seus opositores e/ou os vizinhos de quem tinha inveja.

Enquanto a China tentava recuperar da década de destruição, o território de Hong-Kong saiu da perturbação com grande rapidez. Nele se construiu o edifício do Hong-Kong and Shanghai Bank (entre 1979 e 1986), desenhado pelo arquitecto inglês Sir Norman Foster, um marco da arquitectura moderna, cuja imagem está no início deste post.

O segundo edifício mostrado é o do Banco da China (da República Popular da China), desenhado pelo arquitecto sino-americano I.M.Pei em 1982 e construído entre 1982 e 1990. I.M.Pei desenhou também a pirâmide do Louvre.

Tomando o barco de carreira normal entre a ilha de Hong-Kong e a península de Kowloon podem-se tirar fotografias como esta ao Skyline de Hong-Kong. Acabo de reparar na tendência para usar "skyline" em vez de "casario"...



Foi num destes belos edifícios de escritórios de Hong-Kong, representações exuberantes de um capitalismo algo selvagem, que desapareceram as minhas últimas dúvidas sobre a bondade da Revolução Cultural Chinesa.

2008-07-09

Reconhecimento de padrões


Este tema é tão vasto que quase me embaraço de o tratar aqui de forma tão ligeira. A nossa capacidade para reconhecer padrões é uma das qualidades que nos distingue com facilidade dos computadores e respectivo software actual.

Não sei por quanto tempo esta dificuldade vai continuar mas é um bocado surpreendente que a “Verificação de palavras” (mostrada na imagem aqui ao lado) usada, por exemplo, pelo Blogger e pelo Haloscan para evitar “spam” nas caixas de comentários, isto é, comentários colocados por programas em vez de ser humanos, seja tão difícil para programas e tão fácil para os seres humanos.

Já o reconhecimento da invariância da forma nas múltiplas variantes do ideograma chinês para “preto” mostradas nesta outra imagem do livro Metamagical Themas de Douglas R. Hofstadter me parece verdadeiramente maravilhosa, tanto mais que diz respeito a uma forma que não é familiar a um ocidental.



Para os leitores não ficarem a pensar que não tirei nenhuma foto ao casario de Macau deixo aqui esta, tirada num hotel no centro da cidade. Com a velocidade com que tudo se transforma em Macau duvido que subsista alguma parte significativa do que fotografei no algo longínquo ano de 1990.


O principal padrão que reconheço aqui é uma certa anarquia, gosto em que por vezes há alguma convergência entre portugueses e chineses.

Já nesta outra foto do pequeno jardim de Lou Lim Ioc reconhecem-se os caminhos tortuosos pelo meio dos nenúfares.

2008-07-08

Alfabetos na Ásia

Numa primeira aproximação aos ideogramas chineses, fica-se com a noção que há séculos que os ideogramas foram normalizados, existindo exames a nível nacional em todo o império, que serviam para seleccionar uma burocracia baseada no mérito. Dada a dimensão da China e a inexistência, na época da normalização dos ideogramas, quer de rádio quer de televisão, os esforços de uniformização da língua falada não foram tão bem sucedidos como os da escrita.

A língua falada mais comum é o mandarim mas o cantonês é também importante, nomeadamente fora da China pelo papel que há muito tempo a cidade de Cantão assumiu nos contactos com o exterior, devido sobretudo à proximidade de Macau e de Hong-Kong. Uma pessoa de Cantão e outra de Pequim podem não se entender a falar mas compreendem-se quando escrevem, o que é uma situação que não existe na Europa.

A evolução mais comum da escrita das linguagens vai da utilização de símbolos relacionados com ideias (donde o termo de ideograma) para a representação de fonemas da língua falada. No caso chinês, o grande sucesso na definição e normalização dos ideogramas acabou por tornar muito difícil a evolução subsequente para uma representação fonética. Tem havido tentativas (a fixação em caracteres latinos do mandarim chama-se pinyin) de fixar em caracteres latinos a língua chinesa mas com um sucesso moderado.

Suponho que a utilização dos ideogramas acaba por influenciar a forma chinesa de pensar e deve ser muito custoso realizar o afastamento dum pilar fundamental da cultura chinesa.

Na primeira viagem a Macau fiz uma visita a Cantão, na República Popular da China, de onde trouxe esta nota de 1 Yuan, da qual mostro a parte frontal.



O ideograma para o conceito de "um" é inesperadamente complexo, nas línguas ocidentais o nome da unidade costuma ser muito breve. È consolador verificar a adopção universal dos algarismos, mesmo em culturas tão diferentes.

Os algarismos são ideogramas pois traduzem ideias e não fonemas. Outro género de ideogramas que se têm propagado pelo mundo são os pequenos ícones das aplicações informáticas. Vivemos num mundo em que os ideogramas não são só os dos chineses.

A imagem do reverso da nota foi para mim uma surpresa e talvez tenha sido o motivo para a guardar: constata-se que enquanto na face principal apenas constam ideogramas chineses e algarismos árabes, no reverso aparecem, além de caracteres do alfabeto latino, conjuntos de símbolos em mais três alfabetos e um conjunto de letras latinas de outra língua!



Na altura fiquei com a ideia que, sob este ponto de vista, a República Popular da China tinha uma complexidade muito maior do que a que aparecia a um ocidental mais distraído. Na Europa existem o alfabeto latino, o cirílico e o grego mas existem grandes parecenças entre eles e tomamos contacto com as letras gregas no estudo da Matemática pelo que não nos são completamente desconhecidas.

Da complexidade do desenho dos 3 conjuntos de símbolos pode-se deduzir que se tratam de representações de fonemas pois, pela menor dimensão do conjunto a representar, não é necessária uma elaboração tão complexa como quando se representam ideias. Uma delas parecia-me árabe, as outras não me eram familiares.

Na visita que agora fiz à Wikipédia, antes de escrever este post, completei o que em 1990 tinha abandonado pois na época não era fácil apurar as linguagens a que correspondiam os diferentes alfabetos. Na entrada “Renminbi” da Wikipédia constata-se com relativa facilidade que a escrita mais à esquerda nesta ampliação do reverso da nota de 1 yuan




se trata do “Clear script” do Mongol enquanto a da direita deve ser Tibetano, na imagem seguinte



a escrita do lado esquerdo será Uyghurche, uma língua da família das línguas turcas, falada no leste da China, e do lado direito trata-se de Zhuang, referida aqui como uma língua Tai falada no sul da China que foi possível escrever apenas com caracteres latinos.

Todas estas linguagens vivem na periferia do território chinês, no Sul, no Oeste e no Norte.

A variedade de alfabetos na Ásia surpreendeu-me, apercebi-me nessa altura que além destes, por exemplo na Índia, as notas têm impressos 10 alfabetos e agora, nesta pequena investigação na Wikipédia, voltei a surpreender-me com tanta variedade de linguagens e de símbolos.

2008-07-02

Ideogramas chineses




Fui a Macau em 1990 e 1993 e o primeiro contacto com os ideogramas chineses, num sítio onde eram normalmente usados, fez-me sentir analfabeto e com vontade de aprender o respectivo significado. É uma tarefa árdua, um investimento enorme, que só se justifica para quem tenciona ter um interacção importante com a cultura chinesa. Fiquei mesmo assim um pouco surpreendido por não ter encontrado nenhum português residente em Macau que tivesse aprendido os ideogramas. Havia contudo muitos portugueses que sabiam algumas frases em cantonês. Fez-me impressão que pessoas alfabetizadas numa língua se resignassem a ser analfabetos noutra mas a minha visita foi breve e esta foi apenas uma primeira impressão.

Fiquei-me por estes apontamentos modestos manuscritos, que apresento à esquerda deste texto, onde estão 17 símbolos, com o respectivo significado. Escrevi-os numa follha de papel branco, coloquei aqui o negativo, mais consistente com o fundo preto deste blogue.

Os que me pareciam mais importantes eram os de "Saída" e os símbolos Masculino e Feminino para distinguir a casa de banho apropriada.





É curioso o símbolo de "China" ser o mesmo de "centro", o país intitulava-se o "reino do meio" por se considerarem o centro do mundo, no que tiveram razão durante muitos séculos.

Como a forma mais tradicional de escrever os caracteres era com um pincel, em vez dos aparos duros mais comuns no Ocidente, é frequente nas formas caligráficas mais clássicas que os traços terminem em bicos. A minha caligrafia é incipiente e realizada com uma esferográfica pelo que deixo aqui alguns exemplos caligráficos que presumo de boa execução.



Para fechar este post sobre os ideogramas chineses deixo aqui a imagem de um nenúfar do jardim Lou Lim Ioc, um jardim chinês formal que era um pequeno oásis no meio da península superlotada de Macau.