2008-11-03

Montras no Cairo e em Argel

Fiz um elogio da cópia para ser diferente da actual maioria que elogia a originalidade. Elogiei a cópia para ser original, para não ser uma cópia. A igualdade e a diferença criam tensão. Por um lado gostamos de ser como os outros, fazer parte de uma comunidade, por outro gostamos da diferença pois sem ela perdemos a nossa identidade.

A roupa serve os dois propósitos. Em casos extremos usamos uniformes para que pessoas diferentes pareçam todas iguais. Noutros casos introduzimos grandes variações nos vestuários para que pessoas parecidas fiquem diferentes. Num passeio pelo Cairo surpreenderam-me algumas montras que passo a mostrar.

Peço desculpa pelos reflexos nos vidros que não consegui evitar.

A primeira montra parece-me ser para a classe média. Todos os vestidos são até aos pés, na forma de túnica larga, mangas compridas ou curtas, decotes mais ou menos pronunciados. Existe uma quantidade excessiva de vestidos em exposição, o objectivo parece ser aproveitar todo o espaço de exposição disponível, dispondo aos vestidos em aproximadamente dois andares. É curiosa a supressão sistemática da cabeça em todos os manequins. Não sei se será uma ortodoxia islâmica se uma maior focagem nos vestidos. Com uma concentração tão grande de vestidos a presença de cabeças nos manequins poderia ser aqui um elemento de perturbação.





A segunda montra seria talvez para a classe média alta pois os vestidos têm bordados bastante mais elaborados que na montra anterior. Os manequins ou não têm cabeça ou então trazem todos um véu a combinar com o vestido. É patente a pressão social para usar o véu. Pressão essa bem sucedida pois são raras as mulheres que andam nas ruas do Cairo sem véu.





Nesta terceira imagem duma montra com roupa de criança constata-se que todas os manequins de crianças têm direito a ter cabeça. No entanto, como usam lado a lado muitos manequins idênticos , a cena adquire um tom estranho e não consigo prestar atenção à roupa deste exército de manequins risonhos. Curioso que os manequins das meninas tenham todos imitação de cabelo, com feixes de fibras, mas são todas loiras. Será para parecerem menos reais?





A quarta montra, também com roupa de criança, oferece uma variante da terceira, dando uma sensação, se possível, ainda mais irreal. Acho que ficaria muito bem como uma instalação num museu de arte contemporânea. Presumo que também poderia ser usado como exemplo do que não se deve fazer numa montra, num curso sobre desenho de montras no Ocidente.




Passando agora para Argel, achei interessante esta loja de vestidos para ocasiões formais. Os vestidos deixam ver uma superfície maior da pele, embora esta liberalidade seja por vezes mitigada pelo uso de blusas de algodão justas, muitas vezes de mangas compridas, por baixo dos vestidos. Essa situação era muito frequente no Cairo onde se viam vestidos ou tops de alças usados em conjunto com essas blusas. Aqui não sentiram a necessidade nem de suprimir a cabeça das mulheres nem de lhes pôr um lenço. Notar que os manequins não têm fibras a imitar cabelo e que o penteado está à vista. Como usam muitos manequins num espaço pequeno, acabam por aparecer as caras iguais lado a lado, replicando o efeito das lojas de roupa para criança do Cairo.




Na mesma loja, do outro lado, há uma concentração maior de bordados com fio dourado. Não será bem o gosto ocidental mas é interessante ver uma montra que seria difícil encontrar em Lisboa ou em qualquer cidade da Europa. Com a globalização cada sítio ficou com maior variedade mas mais parecido ao do vizinho. Aqui, ainda não é o caso.


4 comentários:

Helena disse...

Será que compraram os manequins na Europa? É a única explicação que me ocorre para essa profusão de loiras...
Ou o cabelo e a pele claras ocupam o primeiro lugar no imaginário da beleza? (quando era miúda, eu preferia bonecas loiras - precisei de vir morar para a Alemanha para me dar conta da "superioridade" da beleza trigueira dos portugueses...)

jj amarante: este deve ser o único blogue que conheço que não tem um post sobre a vitória do Obama.
Até nisso consegue ser original!
;-)

jj.amarante disse...

Pode ser que no cabelo mais escuro se notasse mais as raspadelas que vão ocorrendo com as quedas inevitáveis dos manequins. Pode ser também uma atracção pela novidade (pelo Outro), como a maioria tem o cabelo escuro o cabelo claro é valorizado.

Para não ser excessivamente original acabei por também fazer um post sobre o Obama. Depois de fazer o elogio da cópia...

Anónimo disse...

ola, gostava de saber se so se usa essa roupa la em argel, e que estou pensando ir la, mas como europeia(POrtugal), nao sei como devo estar, obrg P

jj.amarante disse...

Anónima, estas roupas são para cerimónias, as pessoas na rua andam vestidas mais ou menos como em Lisboa.