sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Wannsee, Air Berlin e Maiorca

A Helena conjecturou neste post que o lago Wannsee, fotografado aqui ao fim do dia, continua rodeado por uma agradável floresta porque “os ricos da Alemanha não gostam de viver em prédios de apartamentos”.



É impossível tratar este tema no âmbito de um post mas eu diria que normalmente as casas dos ricos não perturbam muito a paisagem devido ao seu pequeno número, o problema está na construção em grande quantidade, para poder albergar a classe média.

Julgo que a Alemanha tem conseguido uma muito boa organização do território, mas em Portugal também existem exemplos de gestão razoável de recursos naturais. Retomando o comentário que fiz no post da Helena, por exemplo, a falésia entre a Caparica e o Cabo Espichel também está menos mal e está muito ao pé de Lisboa. Acho que os problemas surgem quando a terra está dividida em lotes pequenos pertencentes a uma multidão de proprietários.

No Algarve os casos mais graves são a Praia da Rocha e Armação de Pera. Ter uma Cãmara Municipal boa, como em Lagoa, ajuda muito e isso é muito visível em Armação de Pera onde o primeiro prédio muito alto aparecia logo após a placa do concelho de Silves. Ter um clube de futebol com pretensões à 1ªdivisão, como por exemplo o Portimonense, torna a gestão das Câmaras mais difícil.


No outro dia fui à ilha de Maiorca e fiquei admirado com o número de aviões da companhia “low-cost” Air Berlin estacionados no aeroporto de Palma de Maiorca. Dado que a costa alemã do Mar do Norte deve ser boa para passear na praia com um impermeável ligeiro e para descansar nos Spas dos hotéis com vista para as dunas, a pressão da classe média alemã sobre a costa exerce-se não tanto na costa alemã (isto não passa de uma conjectura minha, desconheço completamente esta costa do Mar do Norte) mas nos locais da costa mediterrânea para onde se orientou o grande fluxo de veraneantes alemães.


As fotos que tirei das praias de Camp de Mar e de Port de Sóller na ilha de Maiorca, apresentadas aqui à direita, mostram os mesmos edifícios de apartamentos que abundam na costa algarvia. Na realidade, boa parte dos apartamentos do Algarve destina-se à classe média inglesa, assim como os de Maiorca se destinam à alemã.


3 comentários:

Helena disse...

jj.amarante,
acho que os ricos têm um papel importante, porque os seus gostos condicionam os gostos da classe média.
A classe média alemã sonha com uma casa com jardim, e não com um apartamento num prédio, enquanto que em Portugal já é normal encontrar gente rica a gostar de viver num prédio (por ser central e ter vista para o mar/o rio, por ser mais seguro, etc.).

As diferenças no ordenamento do território entre a Alemanha e Portugal vêem-se bem do avião: é só levantar voo no Porto e aterrar em Frankfurt. No norte de Portugal, parece que deixaram cair as casas ao acaso na paisagem. Na Alemanha, vê-se perfeitamente do ar o que é zona industrial e o que é zona residencial, o que é estrada principal e o que é estrada para servir a zona residencial. O que é floresta e o que é área urbana.
Não deve ser só uma questão de propriedade do território, deve ser sobretudo uma vontade muito forte de planear e obrigar a respeitar os planos. Sem amiguinhos nem jogadas.

Concordo que há em Portugal bons exemplos de gestão razoável dos recursos naturais. O problema é que o que num país é a regra, no outro é a excepção.
No norte de Portugal, que conheço melhor, é surpreendente a quantidade de urbanizações que deixaram fazer em cima das dunas!

Penso que a protecção da paisagem na costa alemã (e conjecturo, também) se deve não apenas ao pouco gosto em passar as férias de galochas e cachecol, mas também a esse esforço prévio de planificação.

A Maiorca que eu conheço pelos olhos alemães é assim: tem umas praias de paisagem completamente destruída, onde só se encontram os alemães das classes mais baixas, e partes belíssimas para fazer passeios de bicicleta e caminhadas pela montanha, para onde vai a classe média. Há Maiorcas e Maiorcas, portanto.

Note-se ainda que a classe média alemã faz férias no mundo inteiro (a de mais baixos rendimentos vai para Maiorca), pelo que não precisa necessariamente de se concentrar na costa do mar do Norte.

O que entretanto aprendi sobre turismo é o seguinte: o pessoal com dinheiro exige muita qualidade, e pode comparar destinos no mundo inteiro. Se uma região ultrapassa um limite crítico de construção, ou seja, se perde qualidade de vida e paisagística, passa imediatamente para destino das classes mais baixas e ganha a fama de ser um sítio terrível onde só se encontram "proletários embriagados a partir garrafas de cerveja na praia".

Essas (algumas) câmaras algarvias que tenham cuidado, que a esperteza bem lhe pode sair pela culatra. E acaba a pagar o justo pelo pecador: Algarve é Algarve, a 2000 km de distância ninguém é capaz de distinguir entre concelho de Portimão e concelho de Lagoa.

Uma última nota: vizinhos meus, reformados e com relativamente pouco dinheiro, gostam de passar algumas semanas de inverno em Malta. Compram um pacote de uma semana com avião, hotel e pensão completa, que não sai nada caro, ao qual podem acrescentar à vontade algumas semanas por um preço que lhes sai mais barato que pagar a alimentação e o aquecimento em casa. Talvez seja esse o futuro desses equipamentos hoteleiros desnorteados na costa algarvia.

jj.amarante disse...

Helena, eu pretendia dar a ideia que neste aspecto específico do litoral os alemães têm menos tentações que nós e que, no meio do desastre urbanístico em Portugal existem zonas razoáveis, lembrando que não é impossível ter boa gestão urbanística em Portugal.

Há muito que admiro a forma clara como acabam as cidades alemãs, por vezes distando apenas uns 20 km, em contraponto com a habitação dispersa de Portugal.

Este tipo de povoamento disperso não é comum na Espanha, à excepção da Galiza, onde deverá predominar o minifúndio como no Norte litoral português. Lembro-me do Cavaco Silva (como PM) dizer umas frases de circunstância sobre a necessidade de reduzir a percentagem de população portuguesa que se dedicava à agricultura quando entrámos na CEE e que era então de 30%!!

A urbanização em Portugal é um fenómeno muito mais recente do que na Alemanha, pelo que ainda não está bem resolvido. Por exemplo, é notável a ausência de cidades com mais de 100 000 habitantes (só Lisboa e Porto), num país com mais de 10 milhões de pessoas.

Helena disse...

jj.amarante,
eu estou aqui em regime de brain storming. Nem é bem resposta, é só mais uma ideia que me ocorreu.

Não gosto das casas alemãs, e muito menos dos centros das cidades reconstruídos à pressa. Mas em termos de planeamento e ordenamento do território, são exemplares.
É verdade que o litoral alemão não atrai tanto como o dos países mais ao sul. Mas mesmo regiões mais atraentes (Alpes, lagos, etc.) souberam preservar a paisagem.

Há 30 anos, em Portugal havia praí uns 200 km de autoestrada. Nem sequer a ligação Porto-Lisboa era contínua. Pelo que não admira que o pessoal fugisse para o litoral e se criasse uma terrível assimetria na distribuição populacional.
Como será o país daqui a 20 anos, com todas as autoestradas que se têm feito?

É curioso comparar a distribuição populacional em França e na Alemanha. Uma muito concentrada em meia dúzia de cidades, e a outra extremamente repartida por todo o país.